SIMPÓSIO

Conectando Fé e Ciência

Navegando no debate criação-evolução com Denis Alexander

Roberto Covolan|

27/07/2024

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Roberto Covolan

Roberto é doutor em física, ex-professor da UNICAMP, fez estágio de pós-doutorado na Universidade de Turim (Itália) e foi pesquisador visitante na Universidade Rockefeller (Nova York, EUA) e na Universidade Harvard (Boston, EUA). Criou o Grupo de Neurofísica da UNICAMP. Atuou na criação e gestão do BRAINN: Brazilian Institute of Neuroscience and Neurotechnology. Foi presidente fundador da ABC². Atualmente, é presidente da Academia ABC² e editor da revista UNUS MUNDUS.

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Como citar

Covolan, Roberto. Conectando Fé e Ciência: navegando no debate criação-evolução com Denis Alexander. Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 4, jul-dez, 2024.

Denis Alexander, diretor emérito do Faraday Institute for Science and Religion da Faculdade Saint Edmund, Universidade de Cambridge, é uma figura de expressão internacional na discussão de temas que relacionam fé e ciência. Em seu livro “Criação ou Evolução: Temos que Escolher?”, ele apresenta uma análise extremamente convincente da complexa relação entre criação e evolução. Como cristão comprometido e cientista experiente, Alexander busca transpor a distância entre esses dois conceitos aparentemente contraditórios, oferecendo uma perspectiva diferenciada que reconcilia fé e razão.

Um aspecto central da argumentação de Alexander é a afirmação de que considerar o conceito de evolução como inerentemente ateísta é um equívoco. Ele enfatiza que a teoria da evolução é uma explicação científica para a diversidade da vida na Terra, não uma declaração filosófica ou teológica. Outro ponto-chave de sua abordagem é o entendimento de que a evolução foi cooptada para dar suporte a várias ideologias, incluindo racismo, comunismo e capitalismo, implicando interpretações mutuamente incompatíveis. Esse sequestro ideológico, ele afirma, não tem nada a ver com a validade científica da teoria da evolução em si, mas reflete a tendência humana de usar teorias científicas para justificar visões de mundo preexistentes. Alexander argumenta que os cristãos não devem rejeitar a evolução por medo de sua apropriação indevida para finalidades ocultas, mas devem se envolver com ela como uma ferramenta valiosa para entender o mundo natural.

Um aspecto central da argumentação de Alexander é a afirmação de que considerar o conceito de evolução como inerentemente ateísta é um equívoco.

Com base em sua experiência em biologia molecular, ele fornece uma descrição detalhada e confiável da evolução, apoiando-se particularmente na genética. Embora seu objetivo principal não seja produzir um trabalho de divulgação científica, ele acaba oferecendo uma explicação clara e acessível das evidências científicas que apoiam a evolução. No entanto, o foco principal de Alexander é abordar as preocupações dos cristãos que adotam uma interpretação literal do relato bíblico da criação. Ele examina cuidadosamente a narrativa de Gênesis, concluindo que este texto não se destina a ser um documento científico ou histórico, mas sim um texto teológico e espiritual.

No recente simpósio dedicado à obra de Alexander promovido pela Academia ABC2, os ensaios de Matheus, Samara e Daniel ofereceram uma síntese perspicaz dos argumentos centrais que fundamentam a proposta conciliatória do autor.

O conceito de compatibilidade entre fé e ciência emerge como um pilar fundamental na argumentação de Alexander. Tanto Matheus quanto Samara destacam que o autor rejeita a ideia de que a teoria da evolução seja incompatível com a fé cristã. Para Alexander, a evolução não representa uma ameaça à crença em um Deus criador, mas é, ao contrário, a explicação científica mais consistente para a diversidade biológica observada. Nesse sentido, a teoria da evolução e a fé cristã são apresentadas como perspectivas complementares que, ao invés de se excluírem, podem enriquecer-se mutuamente. Daniel reforça essa visão ao salientar a proposta de Alexander de um modelo integrativo que se reflete no conceito de criacionismo evolutivo — uma abordagem que permite aos cristãos reconhecerem Deus como o criador do universo, ao mesmo tempo em que aceitam a evolução como o mecanismo pelo qual a criação divina se manifesta.

No que tange à interpretação contextual do Gênesis, tanto Matheus quanto Samara enfatizam a necessidade de uma leitura não literal dos primeiros capítulos do texto bíblico. De fato, Alexander argumenta que o Gênesis não foi concebido como um relato científico ou histórico literal, mas como um tratado teológico destinado a transmitir verdades espirituais e filosóficas sobre a criação e o propósito divino. Essa leitura contextualizada, como observa Samara, está em consonância com a tradição exegética de muitos comentaristas bíblicos ao longo da história e permite uma conciliação entre a narrativa bíblica e as descobertas científicas contemporâneas. Daniel acrescenta que a fundamentação teológica e científica de Alexander é essencial para distinguir entre a evolução como teoria científica e sua interpretação ideológica ateísta, promovendo uma compreensão mais profunda e integrada da criação.

De fato, Alexander argumenta que o Gênesis não foi concebido como um relato científico ou histórico literal, mas como um tratado teológico destinado a transmitir verdades espirituais e filosóficas sobre a criação e o propósito divino.

Finalmente, o ensaio de Daniel traz uma reflexão crítica sobre a necessidade de desenvolvimento da perspectiva proposta por Alexander. Embora o criacionismo evolutivo apresente uma solução promissora para a reconciliação entre ciência e fé, Daniel argumenta que ainda há espaço para aprimoramento, particularmente na formulação de categorias teológicas que sejam mais acessíveis ao público cristão em geral. Ele sugere que o pensamento patrístico, especialmente o de Agostinho, poderia oferecer contribuições valiosas para o refinamento desse modelo, ampliando a sua aplicabilidade e aceitação no contexto teológico contemporâneo.

Em suma, a obra de Denis Alexander e as análises apresentadas no simpósio evidenciam que é não apenas possível, mas imperativo transcender a aparente incompatibilidade entre fé e ciência. Ao propor uma leitura teologicamente fundamentada das origens que acomoda harmoniosamente as evidências científicas da evolução, Alexander pavimenta um caminho promissor para o enriquecimento mútuo entre essas duas expressões da busca humana por sentido e compreensão da realidade. Convidamos os leitores a apreciarem os instigantes ensaios que compõem este simpósio, os quais certamente estimularão reflexões fecundas sobre as complexas e fascinantes interações entre fé e ciência.

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

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