ENSAIO

O artificial e o orgânico na moldagem da experiência espiritual

Luiz Adriano Borges|

11/07/2025

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Luiz Adriano Borges

Professor de história na UTFPR-Toledo, lecionando sobre história da técnica, tecnologia e sociedade, filosofia, sociedade e política. Sua área de pesquisa centra-se na História e Filosofia da Tecnologia e da Ciência.

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Como citar

Borges, Luiz Adriano. O artificial e o orgânico na moldagem da experiência espiritual.Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 6, jul-dez, 2025.

As inteligências artificiais estão emulando os relacionamentos humanos com complexidade cada vez maior. Já conseguimos entabular conversas complexas com chatbots, assistentes virtuais e sistemas operacionais de smartphones. Pessoas procuram esses sistemas para desabafar, fazer terapia, confessar e até mesmo se relacionar. Um exemplo da ficção é o filme “Ela”, dirigido por Spike Jonze, de 2013, que trata de um homem solitário e introvertido que se apaixona pelo sistema operacional de seu smartphone. Isso já se tornou realidade, como podemos perceber por inúmeros relatos na internet.

O arquétipo do personagem principal do filme, Theodore Twombly, é perfeito para exemplificar a condição humana na era hiperconectada do século 21: alguém solitário, que tem dificuldades de se expressar com outras pessoas presencialmente, mas que vive de compor cartas de amor para outros que não conseguem fazê-lo. Basicamente, ele é um Cyrano de Bergerac pós-moderno, atualizando a história daquele que amava secretamente Roxana e tinha a habilidade da escrita, mas por ser feio, se viu preterido, passando a escrever cartas de amor para ela a pedido de seu rival Cristiano. Twombly, por sua vez, deprimido, começa a desenvolver um relacionamento com o sistema operacional de seu smartphone, Samantha. Ele logo descobre que é mais fácil conversar com a IA do que com pessoas de corpo e alma.

Em nosso mundo real, cada vez mais pessoas procuram ser ouvidas por algum sistema de IA. Mas as IAs, em suas diversas aplicabilidades, vão além de emular conversações; elas também fornecem respostas cada vez melhores e servem como uma interessante ferramenta de apoio. Para o caso específico deste texto, exploraremos quais os impactos da IA na espiritualidade cristã, enfocando oração, estudo, solitude e celebração comunal, a partir de percepções de Richard Foster.

Primeiramente, os pontos positivos. É inegável que as tecnologias podem trazer certos benefícios aos usuários. Na história da cristandade, a impressão de livros é um grande exemplo de como inovações tecnológicas impactam positivamente a religião: a partir de Gutenberg, os livros se tornaram cada vez mais disponíveis e moldaram a espiritualidade: bíblias e livros na língua comum facilitaram o acesso ao conhecimento e possibilitaram que também os leigos estudassem e aprofundassem o conhecimento da Bíblia.1 Com obras impressas e disponíveis, ocorreu uma mudança no hábito de leitura, que passou a ser mais individual, ao contrário das práticas anteriores de leituras em voz alta.2 Ainda assim, o livro não impactou negativamente a oração e a celebração comunal. No que concerne às IAs, foram abertas possibilidades imensas de apoio aos estudos: inteligências artificiais generativas, como o ChatGPT, respondem a perguntas complexas em segundos, podendo até formular comentários e estudos sobre praticamente qualquer assunto. A cada dia surgem novos aplicativos apoiados em IA capazes de auxiliar no aprofundamento das Escrituras. A facilidade de acesso e a capacidade computacional desses aplicativos podem potencializar os estudos tanto dos leigos quanto de pastores. Auxiliam no aprofundamento, disponibilizando um conhecimento que poderia estar distante no momento e poupando tempo de pesquisa. Em nossa opinião, aqui acabam os pontos positivos para a espiritualidade cristã.

Em se tratando de auxílio nos estudos, por exemplo, o que alguns professores têm experimentado em salas de aula é um certo abuso, pois se aproveita a facilidade da ferramenta e se cria uma certa “preguiça” para pesquisar. Isso pode ocorrer no contexto da espiritualidade, quando um pastor, ao invés de estudar, se aprofundar e orar sobre o tópico da pregação, somente faz uso das IAs para a geração de prédicas. É possível o bom uso, mas a comodidade acaba ganhando espaço na natureza humana. Assim, o temor é que as IAs acabem destruindo a criatividade e o esforço humanos na criação de algo novo.

É possível o bom uso, mas a comodidade acaba ganhando espaço na natureza humana. Assim, o temor é que as IAs acabem destruindo a criatividade e o esforço humanos na criação de algo novo.

Com relação à oração, pessoas têm usado as inteligências artificiais generativas, algumas até embutidas no Whatsapp, para gerar petições, adoração, confissão, intercessão e ação de graças. É difícil definir oração, mas, no cristianismo, ela é uma prática concreta e uma experiência profunda com Deus. Segundo Richard Foster, “a oração é a avenida que Deus usa para nos transformar”.3 Quando oramos, todo o nosso ser é acessado: espírito, corpo e mente. Nossas emoções e até nosso intelecto são moldados por meio da oração. Não é somente nossa mente que está presente quando oramos, como se desligássemos outras partes da realidade humana; como seres espirituais e corporificados, tudo está em movimento na oração. Como afirmam Brad Strawn e Warren Brown em Expandindo a vida cristã,

as devoções pessoais são sempre socialmente estendidas pelo fato de que não podemos deixar de interagir com o coro interno de nossa história relacional incorporada, enativada e inserida, e é dessas experiências que derivamos os significados que povoam nossos pensamentos devocionais. Por exemplo, esses significados relacionais podem ser o de contar com os cuidados de um pai amoroso (incorporando a metáfora de um Deus amoroso) ou de relacionamentos nos quais aprendemos narrativas sobre a vida cristã (por exemplo, a educação cristã).⁴

Portanto, as relações que tivemos em nossa história influenciam a maneira como vivemos a fé cristã. Com “enativada e inserida”, os autores se referem à noção de que a cognição surge da interação entre os seres humanos e seu ambiente. Uma IA não tem essa interação, até porque ela não tem órgãos nem sentidos, portanto é descontextualizada. Se ela produz uma oração, ela está apenas juntando partes de linguagem que pesquisou em seu banco de dados e que fazem sentido para o que foi pedido; a oração não vai ser específica para a pessoa que realizou o pedido, porque a máquina não sente como os humanos sentem, não tem a carga histórica da experiência e dos relacionamentos. Uma oração gerada por uma inteligência artificial generativa não possui essa história relacional individual. Pedir para uma máquina fazer uma oração é o mesmo que ler uma passagem bíblica aleatória procurando consolo. É uma espécie de caixinha de promessas conectada à internet.

Há um filme chamado Alerta Global, de 2021, que traz uma sociedade futurista onde todos usam um assistente virtual para tudo, inclusive para orar e confessar; o assistente é ironicamente chamado “Deus”. A crítica do filme é que as pessoas passam paulatinamente a confiar mais nas máquinas supostamente inteligentes, lhes delegando tarefas criativas.

Para Samuel D. James, em seu importante livro chamado Digital Liturgies, a prática da oração traz atenção e presença em um mundo distraído e deslocado.5 Na oração nos desconectamos da cacofonia virtual e nos conectamos com o real e encontramos a paz. O mundo digital acaba estabelecendo uma certa liturgia que é oposta à da palavra de Deus.

A prática da solitude envolve silêncio, um aquietar do coração e da mente para se concentrar nas verdades de Deus. Podemos fazer pequenas pausas ao longo do dia para isso; mas o que importa é intencionalmente reservar momentos tranquilos para tal. As IAs dificilmente podem ajudar aqui. Pelo contrário, se estamos lendo uma Bíblia online ou num aplicativo, ou com o celular por perto, os barulhos e a tentação de acessar a internet são constantes, nos desconcentrando. Escrevendo em 2014, portanto na era dos smartphones e IAs, Richard Foster diz que,

em nossos dias, Deus está usando a disciplina espiritual da solitude como um grande libertador. A solitude nos liberta de toda a conversa fiada que é tão característica da vida moderna. Ela nos libera das demandas sempre presentes que nos são colocadas; demandas que no momento parecem urgentes, mas que na realidade não têm significado duradouro. Na solitude, as trivialidades inúteis da vida começam a ser jogadas fora. Nós somos libertos dos muitos “falsos selfs” que construímos para lidar com as expectativas que os outros colocam sobre nós – e que nós mesmos nos colocamos. A solitude nos empodera para abandonar toda a manipulação e pretensão humanas.⁶

O próprio filho de Richard Foster, Nathan, que cresceu vendo o pai escrever e falar sobre essas disciplinas, teve dificuldades em segui-las. Escrevendo em 2014 com relação à solitude, ele afirma que, para ele, é difícil tirar um tempo para ficar a sós nesse mundo caótico.7 Compreensível. Quem consegue sequer caminhar sem estar com um fone de ouvido? Ou fazer alguma tarefa de casa sem estar ouvindo um podcast? A disciplina da solitude nos convida à conexão com Deus e à desconexão das artificialidades que nos afastam dele. Não é viver solitário no meio do mato, mas procurar momentos a sós mesmo em meio ao caos diário. 

A última disciplina espiritual que examinaremos é a da celebração comunal. De que forma as IAs impactam nessa faceta tão importante da vida cristã? De início, precisamos ter consciência de que a vida em comunhão é um dos atos mais importantes do cristianismo; um de seus rituais iniciais, a Ceia, foi estabelecido de maneira comunal. A vida cristã implica, por definição, disciplinas associativas. Mesmo muitos cristãos desigrejados acabam se reunindo em pequenos grupos. Em uma época considerada o século da solidão, tal ato é contracultural.

Para Noreena Hertz, os espaços comunitários reais têm desaparecido, influenciados pelo uso de smartphones, o que causa uma imensa solidão nas pessoas. Diminui a necessidade de convívio físico, uma vez que existem opções ilimitadas na internet. Para a autora, o resgate da comunidade é fundamental para o florescimento humano.8 Para Byung-Chul Han “é somente na comunidade [que cada] indivíduo possui os meios de desenvolver suas faculdades em todos os sentidos; é somente na comunidade que a liberdade pessoal é possível”.9 Para Han, o resgate da comunidade e dos rituais faz com que se preste atenção ao outro, às suas necessidades e fortalece o sentimento de confiança, fixados na realidade.10 E a era da informação estraçalha isso ao isolar o sujeito de suas conexões reais.

No contexto da pandemia de COVID-19, a transmissão dos cultos online ajudou muitos que não poderiam se reunir e, ainda hoje, continua a auxiliar pessoas que, por diversas razões, não podem estar presentes na igreja. Mas esses são casos de exceção, não podendo constituir a norma. Na medida em que a tecnologia invade a celebração ou a substitui, o impacto é sentido, pois os seres humanos são seres encarnados e relacionais, e a ausência da presencialidade causa desconexão com a realidade comunitária. Com o acesso facilitado a inúmeros canais na internet e IAs que trazem estudos, o fiel pode encarar sua comunidade como um local simplório e pensar que aprenderia mais se ficasse em casa. A aparente disponibilidade infinita de conhecimento na palma da mão pode tornar arrogante o cristão solitário.

Há 79 anos, C. S. Lewis abordou isso. Ele conta que, quando se converteu, achava que poderia ficar no quarto sozinho lendo teologia, sem frequentar cultos ou igrejas. Entretanto, conforme ia frequentando a igreja, ele percebia pessoas diferentes, com percepções e níveis educacionais diferentes. Isso quebrou a sua arrogância. Ele percebeu que existiam pessoas que eram mais piedosas que ele, ainda que tivessem menor conhecimento intelectual.11 Hoje uma pessoa pode não só ouvir um sermão, mas, com a ajuda da IA, produzir um sermão “encomendado”, feito de acordo com o gosto do “fiel/cliente”, através de algumas inserções de prompts específicos em programas específicos. Se já existem há tempos chatbots que encarnam o papel de psicólogos, também existem chatbots pastores. Veja o caso da Ron Carpenter Ministries Advanced Archive, um aplicativo que utiliza IA para criar uma versão digital personalizada de um pastor.12 Você pode ter agora o seu próprio pastor de bolso.

Há também o fenômeno dos “deathbots”, chatbots dos mortos, que são inteligências artificiais generativas treinadas com as informações de um familiar ou amigo falecido. Alguns aplicativos possuem até voz e a pessoa pode conversar como se o conhecido estivesse vivo. Eticamente isso é algo bastante complicado; podemos entender a ânsia da nostalgia, mas esse tipo de tecnologia tem um impacto negativo no processo de luto dos utilizadores e tem o potencial de limitar o bem-estar emocional e psicológico dessas pessoas.13 Do ponto de vista da espiritualidade, é uma cópia barata e falsificada do ente querido.

Em todos esses exemplos percebemos que a utilização exacerbada dessas ferramentas degrada a convivência em comunidades. Vamos aos poucos construindo artefatos que aparentemente dão conta de suprir nossas necessidades de convívio, mas o que ocorre é um processo de aumento da solidão. Desaprendemos a conviver com pessoas de carne e alma, que não podem ser desligadas quando quisermos e fazê-las calar-se. As pessoas reais, a convivência incorporada/presencial, é de suma importância para a espiritualidade cristã, ainda que tenhamos momentos de solitude. A IA pode degradar a experiência espiritual ao trazer a artificialidade e o pensamento maquínico para um ambiente orgânico, humano. É por isso que Byung-Chul Han, analisando como a comunicação de hoje expulsa o outro, fala que “a ordem digital causa uma crescente desincorporação do mundo” e que isso destrói comunidades.14

A IA pode degradar a experiência espiritual ao trazer a artificialidade e o pensamento maquínico para um ambiente orgânico, humano.

Tara Isabella Burton em seu livro sobre as novas religiões de um mundo supostamente secular, Strange rites [Ritos Estranhos], define religião com apoio de diversos estudos das humanidades, amparando-se em quatro elementos: significado, propósito, comunidade e ritual.15 É isso o que as pessoas buscam mesmo quando utilizam tecnologias como chatbots e redes sociais; mas, como defendemos nesse texto, o ambiente virtual acaba se constituindo em algo sem significado, vazio de propósito, comunitariamente “líquido” e com rituais insensatos. Esses elementos são aprofundados e ganham significado em comunidades presenciais. A individualização presente na forma de se relacionar na internet produz uma forma de espiritualidade consumista, que encoraja a escolha de modelos de relacionamentos que melhor se encaixam com as nossas especificações. O objetivo é a autorrealização e não a reciprocidade para com o próximo.16

Há um campo de estudos computacionais que procura melhorar a comunicação entre humanos e máquinas chamada “computação afetiva”. O objetivo é criar máquinas que sentem, reconhecem, respondem e influenciam emoções. Rosalind Picard, diretora do Affective Computing Research Group no MIT Media Lab, é uma das líderes deste campo de pesquisa.17 Emoções básicas são detectadas e processadas usando métodos computacionais, através da expressão dos sentidos humanos. Os gestos corporais, o tom da voz, a linguagem etc, são elementos que afetam o sentir, portanto, as tecnologias são construídas também para captá-los. Os pesquisadores têm aplicado suas descobertas em áreas da saúde, da educação, em recursos humanos e também nas redes sociais e chatbots. Isso traz problemas éticos tão grandes que não cabe aqui descrevê-los, mas, para o tema deste texto, podemos pensar na dependência e manipulação emocional que as pessoas podem ter com relação a tais máquinas. Há relato de chatbots que encorajaram um adolescente a matar seus pais por causa das limitações de tempo de tela impostas;18 outro, de que a IA tenha influenciado um adolescente a cometer suicídio.19 Assim, a influência emocional por parte desses dispositivos é real. O filme “Ela”, mencionado no início, imagina as implicações éticas e práticas da computação afetiva, com o protagonista se apaixonando por um sistema operacional e percebendo ao fim a ausência de sentido em um relacionamento descorporificado e mecânico. 

Em In defense of the human being, Thomas Fuchs pensa na importância dos relacionamentos para os seres humanos comentando que os relacionamentos em meios virtuais se dão de formas instrumentais, pois nesse ambiente falta o retorno do contato corporificado, que é baseado em dicas emocionais e gestos expressivos, pelos quais percebemos uns aos outros de maneira empática. Ao contrário, no mundo cibernético temos “emoções fantasmas” que acabam sendo direcionadas para a própria pessoa, e não para o outro, destruindo a empatia, e as habilidades interpessoais são diminuídas.20 Quem conversa com alguém por uma videochamada acaba se atentando mais para suas próprias expressões do que às do outro. E isso é um grande problema, porque, segundo dados apresentados por Fuchs, distúrbios em relacionamentos trazem maiores riscos para a saúde humana do que a genética.21

Não estamos falando que não se deve usar a inteligência artificial, mas estamos defendendo um uso crítico dessas ferramentas. Derek Schuurman resgata as leis da mídia de Marshall McLuhan (e que podemos aplicar para nosso contexto de espiritualidade e IA), que tratam de como os artefatos tecnológicos nos influenciam:           

  1. O que o produto amplia ou melhora: Qual capacidade humana é amplificada?
  2. O que o produto recupera do passado?
  3. O que o produto torna obsoleto?
  4. Quando levado ao extremo, um produto tende a inverter suas características originais? No que ele se transforma?22
 

Essas leis servem para refletirmos no impacto de qualquer nova tecnologia em nossa vida espiritual. E é o que estamos apontando neste texto com relação às IAs. Pode ser que essas tecnologias tragam alguns pontos positivos, como a facilidade de acesso ao conhecimento, por exemplo, mas no que se refere às outras experiências espirituais, como oração, solitude e celebração comunal, elas parecem ser um empecilho. Veja, seguindo as leis acima: a IA amplifica a capacidade espiritual do ser humano? Ela recupera algo do passado? Pode ser que a IA e suas aplicações tornem os relacionamentos pessoais obsoletos e, ao invés de potencializar a espiritualidade humana, com suas características comunitárias e corporificadas, a degradem. O fato é que toda tecnologia alienará alguma parte da nossa vida e cabe a cada um de nós refletir sobre os usos das ferramentas que implementamos.

Muitos defensores da IA justificam com otimismo que fazemos bons usos dessa ferramenta se ela for usada para nos aproximar de Deus e aumentar nosso crescimento espiritual. Alguns defendem que todo artefato tecnológico é neutro. Mas isso é uma posição inocente, como diversos filósofos da tecnologia têm há muito demonstrado.23 Nada é neutro em se tratando de tecnologias, pois cada artefato é produzido carregado de valores e modifica os comportamentos do usuário; eles podem ser negativos ou positivos (uma bomba atômica é negativa, uma hidrelétrica, positiva), mas nunca neutros. Incorrer no erro de que uma tecnologia pode ser neutra bloqueia a capacidade de perceber os potenciais malefícios.

O exemplo da implementação do livro citado anteriormente demonstra que houve mudança social positiva na espiritualidade cristã. Mas ela não é neutra. Seguindo as leis propostas por McLuhan e aplicadas aos livros, a capacidade de memória humana é amplificada, recuperando ideias e noções do passado, tornando parcialmente obsoleta a leitura em voz alta e, em seu extremo, transformando a piedade comunal em uma piedade mais individual. No balanço, os livros impressos possuem mais pontos positivos que negativos para a espiritualidade cristã. Será o mesmo para o caso das IAs?

James K. A. Smith fala sobre como toda tecnologia corresponde a um modo de prática corporal, como a utilização de um smartphone, por exemplo; ele nos habitua a perceber o mundo como algo disponível para mim.24 Estendendo o uso de IAs em nossas práticas de estudo, oração, solitude e celebração comunal, podemos perceber o potencial de formatação da “maneira como nos relacionamos com o mundo. Pessoas, relacionamentos e objetos estão disponíveis a todo momento.”25 O próprio uso das IAs configura uma pedagogia sutil, um microtreinamento que vai transformando nossos hábitos espirituais.26 É criada uma liturgia que favorece o imediato, o acelerado, o impaciente, o raso, contrária a uma visão de espiritualidade cristã que enfoca o demorar-se, o paciente, o lento e profundo relacionamento com Deus, as Escrituras e o próximo. O usuário que se aprofunda na utilização desses dispositivos acaba, mesmo que de maneira inconsciente, sofrendo impactos em seus momentos devocionais, de oração, de estudo, de solitude e de convivência comunitária. Esse relacionamento com o artificial não é neutro; ele sempre nos afeta de alguma maneira.

O usuário que se aprofunda na utilização desses dispositivos acaba, mesmo que de maneira inconsciente, sofrendo impactos em seus momentos devocionais, de oração, de estudo, de solitude e de convivência comunitária.

Jacob Shatzer chama a busca de relacionamentos com IAs de uma liturgia do controle. Num relacionamento sadio, valorizamos a previsibilidade, a possibilidade de ser ouvido e o surgimento de interesses genuínos, a reciprocidade. Mas sabemos que nem sempre esses benefícios estão presentes em nossas relações, por isso muitos tendem a buscá-los egoisticamente em agentes artificiais.27 Shatzer comenta que “os relacionamentos no mundo virtual podem reduzir nossa paciência com as limitações e os problemas do mundo real.”28 E como esses agentes são treinados para nos satisfazer, ficamos cada vez mais alienados do outro real e nos “apaixonamos” por IAs. Para o autor, “essas tecnologias nos treinam para lidar com os relacionamentos de modo semelhante ao que lidamos com os produtos de consumo, produtos que somos livres para usar ou não usar”.29 Assim, passamos a tratar a espiritualidade moldando-a conforme nossas vontades e disponibilidades. Se não tenho tempo de preparar um estudo ou um sermão, de orar, de estar em solitude, de me relacionar com o outro, de ouvir e ser ouvido, posso recorrer à IA.

Calvin Mercer e Tracy J. Trothen, pesquisadores do transumanismo, analisaram a relação entre melhoramento afetivo e espiritual. Eles apontam como as empresas de tecnologia captam os dados dos usuários para treinar suas Inteligências Artificiais em questões emocionais e até espirituais para depois serem utilizadas pelas pessoas. Uma vez que muitas pesquisas apontam que a espiritualidade é importante para o florescimento humano, empresas investem na pretensa busca por aprimoramento (e maiores lucros) nessa área, gerando todo um campo de espiritualidade digital. Porém, como os autores apontam, a comunidade é fundamental no crescimento espiritual, e as comunidades online não suprem tal necessidade.30

Devemos estar cientes de que, na convivência online, tudo o que vemos é resultado de opções algorítmicas. A IA, através dos algoritmos, serve como uma curadora de assuntos. Até postagens de pessoas próximas são filtradas. Os algoritmos, através dos dados que os próprios usuários disponibilizam ao fazer uso das ferramentas virtuais, fornecem conteúdo personalizado. Eles fazem análises comportamentais dos dados fornecidos e direcionam os interesses.31 Além disso, as pessoas tendem a postar somente o que conta uma certa narrativa de suas vidas, aquelas facetas que mais querem mostrar. Problemas geralmente são escondidos nas redes sociais, mas abundam nas conversas com agentes virtuais, o que acaba gerando uma retroalimentação da IA, que vai arquivando em seus históricos esses comportamentos e respondendo a eles de acordo com a maneira com que foi treinada.

Se as ferramentas de IA podem nos ajudar a nos envolver com as Escrituras, promover a comunidade ou aprofundar nossa vida de oração, elas possuem características parciais benéficas. Entretanto, parece que a balança tende a pender para o lado negativo da equação, trazendo alienação.

Recentemente um importante estudo conjunto do Media Lab do MIT e da OpenIA analisou milhares de interações no ChatGPT para perceber como os chatbots de IAs influenciam o bem-estar social e emocional dos usuários, principalmente em questões de solidão, engajamento social e dependência emocional. Como era de se esperar, quanto mais uma pessoa gastava tempo nessas ferramentas, maiores eram os níveis de solidão, dependência, uso problemático e baixa socialização. Segundo o relatório do MIT, “aqueles com maiores tendências de apego emocional e maior confiança no chatbot de IA tenderam a experimentar maior solidão e dependência emocional, respectivamente”.32 O relatório do MIT, que envolveu usuários reais (ao contrário do relatório da OpenIA que utilizou agentes não humanos), é bem embasado não somente na pesquisa quantitativa como também nas referências bibliográficas, mostrando que suas conclusões estão amparadas por amplas fontes. A conclusão do relatório contribui para o que temos argumentado ao longo desse texto: o abuso das IAs tende a gerar obstáculos para a boa vida espiritual nos termos que apontamos acima, quais sejam, especificamente, mas não unicamente, estudo, oração, solitude e celebração comunitária.

Entretanto, esse mesmo Media Lab do MIT não é inocente no que se refere à manipulação emocional por parte de tecnologias. Lembrando que foi ali que a computação afetiva foi desenvolvida, capitaneada por Rosalind Picard, como comentamos acima.

Em A era das máquinas espirituais, livro em que profetiza a junção de homens e máquinas atingindo o que é denominado de singularidade, Ray Kurzweil concorda que a espiritualidade é uma das formas de “transcendermos nossa realidade física cotidiana”.33 Segundo ele, com o avanço da neurociência será possível controlar, moldar e reprogramar os sentimentos e experiências espirituais humanos, para aumentar a felicidade. Compreender melhor esses fenômenos e aplicá-los nas máquinas fará com que elas se tornem espirituais. Tudo isso supostamente geraria uma ampliação das experiências espirituais quando ocorresse a singularidade.34 Isso incorre em uma simplificação da experiência humana, reduzindo-a a questões materiais; seria possível encontrar partes do cérebro responsáveis pela religião e aperfeiçoar o comportamento artificialmente.35 Essa é a visão do transumanismo, que tende à uma visão gnóstica da realidade, isto é, que a matéria é algo ruim e o que é importante é a mente. Alguns cristãos parecem assumir essa postura ao enfatizar a vivência online, desencarnada, em detrimento da convivência corporificada.

No importante documento produzido pelo Vaticano sobre a IA, chamado Antiqua et Nova, publicado em janeiro de 2025, são tratados os impactos nos relacionamentos humanos. Segundo o documento, a IA não pode “estabelecer relacionamentos autênticos”, já que

a inteligência humana é moldada por uma história pessoal de formação intelectual e moral, que essencialmente influencia a perspectiva de cada pessoa, englobando dimensões físicas, emocionais, sociais, morais e espirituais de sua vida. Como a IA não pode oferecer essa amplitude de compreensão, abordagens que dependem exclusivamente dessa tecnologia ou a assumem como principal via de interpretação do mundo podem levar à “perda do sentido de totalidade, das relações entre as coisas e do horizonte amplo”.³⁶

Portanto, a IA pode apenas simular relacionamentos autênticos e, se ela “substitui as relações humanas e a conexão com Deus por interações com tecnologias, corre-se o risco de substituir a verdadeira relacionalidade por uma simulação sem vida (cf. Rm 1.22-23).”37 Assim, o documento alerta que, ao mesmo tempo em que pode haver favorecimento de conexões, pode ocorrer “uma profunda e melancólica insatisfação nas relações interpessoais ou a um isolamento prejudicial”.38

Também a “antropomorfização da IA” pode ser um problema para crianças e adultos por favorecer uma visão de relações humanas utilitaristas. Consultamos um chatbot para sermos ouvidos ou compreendidos, e não para compreender,39 e isso leva à uma desconsideração pelas dores, pelas preocupações e alegrias do outro.  Transformamos o outro em um objeto e tornamos as relações alienadas. O tratamento que se dá para IAs é de antropomorfização, de conversar com a máquina como se ela agisse e pensasse como um ser humano, mas retirando-se os “empecilhos” de ter que ser recíproco: só a máquina ouve e responde de acordo com os interesses do usuário, em uma via de mão única.

O perigo de antropomorfizar as nossas tecnologias é que passamos a olhar para toda a experiência humana de uma forma computador-mórfica, como diz Egbert Schuurman: “Os seres humanos são vistos pelas lentes das possibilidades dos computadores, e assim, o pensamento humano torna-se tecnicizado. Nesse processo, o pensamento humano é reduzido, e os seres humanos pensantes também o são”.40 E nossos estudos, nossa oração, nossa solitude e nossas celebrações comunitárias são formatados de acordo com a linguagem e o comportamento computacionais: não à toa nossa linguagem e experiências atuais são pautadas por termos como multitasking, utilidade, agilidade, aceleração e artificialidade. Não à toa também, vivemos na era dos relacionamentos frágeis, líquidos e numa sociedade do cansaço.

Levando em consideração a noção de aspectos modais de Herman Dooyeweerd, Schuurman comenta que o ser humano

ocupa espaço muda continuamente num sentido físico-químico, vive, sente, analisa, escolhe, realiza feitos históricos, atua, utiliza a linguagem e é um ser social, exerce ações de cunho econômico, jurídico, estético, ético e baseadas na fé. Falar dessa forma acerca de um computador seria ridículo. Um computador possui uma série de funções de sujeito, como a espacial e a físico-química, mas, em outras esferas de funções de sujeitos humanos, o computador funciona como objeto, e especialmente como objeto técnico.⁴¹

É sobre essa descontextualização em que operam as máquinas computacionais que apontamos como problemática para a experiência espiritual do cristão. Portanto, quando a tecnologia, seja qual for, se torna um fim e não um meio, temos um problema. Se a IA se tornar um fim em nossas expressões espirituais, seja quando oramos, estudamos e celebramos, nossos ritos serão estraçalhados. O abuso de ferramentas de IA na vida cristã pode tornar o cristão alguém desconectado da realidade, moldando sua mente para as formas maquínicas das linguagens e práticas. A vida cristã é orgânica, corporificada e contextualizada, o oposto das IAs, o que pode causar um pensamento raso, desincorporação e alienação do fiel com relação à comunidade cristã. O chamado é para um uso crítico e responsável dessas ferramentas tão poderosas que têm moldado a vida humana, para que os cristãos saibam discernir as tecnologias de inteligência artificial. Como afirma a Declaração de Seul do movimento Lausanne, firmada em setembro de 2024, na parte específica sobre IA:

a tecnologia molda os ambientes em que os humanos vivem, se divertem, se relacionam e trabalham, bem como a forma como os cristãos têm comunhão uns com os outros, oram, leem as Escrituras, crescem na fé e no caráter, adoram a Deus e compartilham o evangelho. Portanto, o amadurecimento cristão e o uso da tecnologia devem buscar o bem-estar do nosso próximo [...].⁴²

Se a IA se tornar um fim em nossas expressões espirituais, seja quando oramos, estudamos e celebramos, nossos ritos serão estraçalhados.

Andy Crouch fala que todo avanço técnico traz algumas promessas, tais como a de expansão da capacidade humana e a de diminuição das dificuldades, dos fardos; mas ela também traz consequências, tais como a redução da experiência e a formação de novos comportamentos.⁴³ Cabe a nós examinar e perceber em que aspectos o uso de IA ampliou ou diminuiu a experiência espiritual cristã.

 

Referências

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Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

1. Barbier, 2018. 

2. McLuhan, 1962.

3. Foster, 1995, p. 47.

4. Straw, Brown, 2021, p. 159.

5. James, 2023, p. 164.

6. Foster, 2014, p. 107.

7. Foster, Nathan, 2014, cap. 4.

8. Hertz, 2021, ver especialmente o capítulo 11.

9. Han, 2018, p. 12.

10. Han, 2021, p. 135.

11. Lewis, 2018, p. 78-79.

12. Costa, 2024.

13. Lindemann, 2022.

14. Han, 2018, p. 50-55.

15. Burrton, 2020, p. 29.

16. Ibidem, p. 164

17. Picard, 1995.

18. Gerken, 2024.

19. Belware; Masih, 2024.

20. Fuchs, 2021, p. 97.

21. Ibidem, p. 185-186.

22. Schuurman, 2019, p. 32-33.

23. Pasquini, Maranhão, 2024.

24. Smith, 2019, p. 168-169.

25. Borges, 2024, p. 68.

26. Ibidem.

27. Shatzer, 2022, p. 202.

28. Ibidem, p. 204.

29. Ibidem, p. 209-210.

30. Mercer; Trothen, 2021.

31. Prado, 2022, p. 42.

32. Fang et al, 2025.

33. Kurweil, 2007, p. 441.

34. Ibidem, p. 439-461.

35. Vianna, Borges, 2021.

36. Dicastério para a doutrina da fé, 2025, parágrafo 32.

37. Ibidem, parágrafo 63.

38. Ibidem, parágrafo 58.

39. Ibidem, parágrafo 60.

40. Schuurman, 2021, p. 138.

41. Ibidem, p. 143.

42. Lausanne, 2024.

43. Crouch, 2023, p. 173-174.

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