SIMPÓSIO

Interpretação bíblica e a genealogia do universo*

Um breve estudo de A Origem e de algumas questões hermenêuticas

Daniel Silva Supimpa|

27/08/2025

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Daniel Silva Supimpa

M.A. em Antigo Testamento e Estudos Bíblicos pelo Regent College (Vancouver, Canadá). Atua como membro do Comitê de Revisão da Nova Versão Internacional (NVI). É também tradutor, professor nas áreas de Estudos Bíblicos e Espiritualidade Cristã, e pastor na Igreja Batista do Prado, em Curitiba.

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Como citar

Supimpa, Daniel Silva. Interpretação bíblica e a genealogia do universo: um breve estudo de "A Origem" e de algumas questões hermenêuticas. Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 6, jul-dez, 2025.

Não é novidade que a origem do universo fascina a humanidade há milênios. A própria Escritura trabalha com a necessidade de respostas a essa gênese em seu próprio arcabouço teológico e estilo literário historicamente localizado. Seria ingênuo, porém, declarar que a afirmação da autoridade bíblica nesse assunto “unificou” os adeptos do cristianismo sobre como interpretar tais declarações do princípio do universo.

Assim, o livro A origem: quatro visões cristãs sobre criação, evolução e design inteligente¹ reflete com honestidade intelectual as tensões entre ciência moderna e fé cristã. Em tempos de polarização, é de se admirar que os quatro proponentes tenham participado dessa empreitada de diálogo leal. Publicada originalmente como parte da série Counterpoints — da editora norte-americana Zondervan, ela própria focada em títulos de teologia cristã e que afirmam a autoridade bíblica —, esta é uma nova versão de um livro-debate semelhante publicado em 1999, que continha as mesmas posições, exceto a do Design Inteligente. Apesar de seu contexto estadunidense, a obra certamente terá relevância em terras tupiniquins, onde semelhantes preocupações também são frequentes. Assim, este ensaio trará uma breve análise crítica da obra, apresentando os argumentos dos autores, alguns aspectos positivos e algumas dificuldades hermenêuticas na sua abordagem bíblica.

Cabe aqui uma breve apresentação dos quatro posicionamentos:

  1. Ken Ham (Criacionismo da Terra Jovem, CTJ): Ham defende uma criação em seis dias literais (p. 30-50), posição enraizada no movimento do qual o autor faz parte, Answers in Genesis, surgido nos anos 1990. Esse movimento busca apresentar evidências científicas que confirmem o testemunho bíblico, em contraposição ao materialismo secular.
  2. Hugh Ross (Criacionismo da Terra Antiga, CTA): Ross busca harmonizar Gênesis com dados cosmológicos (p. 51-80), seguindo uma tradição concordista. Sua ênfase recai sobre a necessidade de confiabilidade bíblica e reflete a influência do argumento do ajuste fino.
  3. Deborah Haarsma (Criacionismo Evolucionário, CE): Haarsma representa a ala mais integrativa da Biologos, defendendo um tipo de evolução teísta (p. 81-120) em abertura às evidências da biologia evolutiva, exortando leitores a evitar “falsas dicotomias” entre fé e ciência (p. 97). Suas respostas enfatizam a compatibilidade do CE com a ciência mainstream, criticando o raciocínio “Deus-das-lacunas” nas outras posições (p. 215-220).
  4. Stephen Meyer (Design Inteligente, DI): Meyer posiciona o DI como uma crítica científica ao neodarwinismo (p. 121-160), argumentando que complexidades irredutíveis exigem uma causa inteligente. Ele rejeita a “evolução teísta” de Haarsma como uma capitulação ao materialismo metodológico, insistindo que a intervenção divina é empiricamente detectável por meio de padrões de informação biológica (p. 135).

A proposta do livro é que cada autor responda às seguintes perguntas: (1) “Qual é a sua posição sobre as origens — entendida de forma ampla, incluindo o universo físico, a vida e os seres humanos em particular?”; (2) “Quais são os argumentos mais persuasivos em defesa da sua posição? Quais são os maiores desafios para a sua visão?”; (3) “Como você delimita, correlaciona e usa evidências sobre as origens da ciência atual e da revelação divina?”; e (4) “O que depende de se ter a visão correta das origens?” (todas citadas na Introdução). A estrutura do “debate por escrito” é clara: cada seção traz uma apresentação propositiva de um autor, com réplicas de cada um dos outros três autores, e, na sequência, um espaço para uma tréplica pelo autor que iniciou a seção. Na conclusão, o organizador, J. B. Stump, faz um fechamento com tonalidades de esperança sobre o futuro respeitoso e mais criterioso desse debate.

Dois aspectos positivos merecem destaque. Primeiro, a estrutura dialógica do livro, rara em publicações sobre temas tão controversos. Os autores, todos afirmativos da fé cristã, são diretos em suas críticas, mas são respeitosos, apropriados e focados em problemas de lógica interna do argumento, não em comentários ad hominem. Vale a pena ressaltar que o organizador, Stump tem as virtudes de não favorecer qualquer um dos posicionamentos, embora se afirme adepto do terceiro, e de manter honestidade ao apresentá-los. Em tempos de extremismo, provincianismo metodológico² e “espantalhos” nas argumentações sensacionalistas, tal livro é um alívio de se encontrar. Mesmo quando na conclusão o organizador é enfático ao tratar da posição irredutível de Ham com a extensão de seu texto e com a afirmação que ele (Ham) faz de ser o único a apoiar a autoridade bíblica, estamos diante de um debate que busca trabalhar com critérios de racionalidade, equidade e não contradição.

O segundo aspecto positivo é a apresentação de lastro teórico pelos autores. Por exemplo, Ham cita Lutero, Calvino e os autores Morris e Whitcomb sobre evidências científicas com paralelo em Gênesis (p. 45); Ross recorre a William Lane Craig e Freeman Dyson para o conceito de “ajuste fino” (p. 68-70); Haarsma interage com Francis Collins e John Walton (p. 97 e 102, respectivamente) para propor uma leitura funcional de Gênesis enquanto mantém uma integração teísta de fé e evolução; Meyer cita Behe e Dembski para embasar a categoria de “complexidade irredutível” (p. 142-145).

Obviamente, isso não significa que todas as influências e fontes são igualmente densas para o argumento defendido. Ham, por exemplo, utiliza seletivamente a linguagem de João Calvino sobre “clareza das Escrituras” para afirmar que “dia” em Gênesis 1—2 deve significar um período de 24 horas (p. 49). Da mesma forma, vale ressaltar que Meyer, em claro contraste com os três primeiros eruditos, trabalha praticamente apenas com o que ele considera argumentos e evidências do campo biológico e de outras ciências “duras”, e não de natureza bíblico-teológica. Meyer e Ham, semelhantemente, dependem de obras de círculos ideológicos fechados, enquanto Ross e Haarsma dialogam com fontes mais diversificadas, embora ainda limitadas por filtros confessionais. A ausência de engajamento crítico com vozes dissidentes (por exemplo, críticas ao concordismo ou ao reducionismo do DI, como exemplificado por Miller)³ revela uma lacuna metodológica na obra como um todo, embora possa ter sido por limitação de espaço. Entretanto, os autores buscam evidenciar sua dependência de outras abordagens acadêmicas, e não de “pura evidência científica” (embora Meyer se aproxime disso) ou de “puro estudo das Escrituras” (embora Ham se aproxime disso).

Entre outros questionamentos que podem ser levantados sobre a obra, o foco deste estudo é trazer um ângulo hermenêutico, isto é, do reconhecimento da alteridade do texto bíblico e da tentativa de aproximação entre os textos bíblicos e as questões e categorias de interesse dos intérpretes modernos, reconhecendo o valor e as limitações desse exercício.⁴ O debate entre os autores revela uma certa crise: a tentativa de colapsar o potencial teológico das afirmações bíblicas e as categorias da ciência contemporânea gera certas dificuldades para os autores.

O debate entre os autores revela uma certa crise: a tentativa de colapsar o potencial teológico das afirmações bíblicas e as categorias da ciência contemporânea gera certas dificuldades para os autores.

Tomemos, por exemplo, as afirmações sobre Gênesis 1—3. Ham trata essas narrativas (Walton já nos relembraria que tratam-se de “cosmogonias”) como “história científica” (p. 42), insistindo que uma leitura condizente com a confiança na autoridade bíblica implica que os “dias” devem ser cronológicos de 24 horas, e que Adão foi criado ex nihilo há cerca de 6.000 anos. Tal argumento espelha uma hermenêutica que associa diretamente submissão à autoridade da Escritura com afirmar a precisão científica nas descrições de Gênesis 1—3 com respeito a sequências, processos, períodos, e assim por diante. Tal pressuposição de equivalência plana de categorias entre texto e intérprete pode ser descrito como um positivismo ingênuo, e acaba por distorcer elementos do horizonte do texto e do horizonte do próprio leitor, dependendo de seus compromissos.⁵

Contudo, como o próprio Walton demonstra, Gênesis 1 não busca descrever processos materiais da origem do universo, mas a inauguração de um cosmos-templo onde Deus atribui funções sagradas (por exemplo, luz, humanidade como imago Dei exercendo um sacerdócio) em contraposição literária aos mitos babilônicos, como o de Enuma Elish.⁶ Nas palavras de Walton, “Gênesis não responde a Darwin, mas a Marduk [divindade criadora nos mitos babilônicos]”.⁷ Além disso, a narrativa busca sublinhar a relação total e entre as partes da criação, em que o propósito da Criação é a plenitude e o equilíbrio descritos biblicamente como shalom.⁸ Ao ignorar o contexto do Antigo Oriente Próximo, a teleologia e a ontologia funcional de Gênesis, Ham fragiliza sua própria afirmação da historicidade e contingência do escrito bíblico, e projeta anacronicamente categorias modernas de “processo” e “tempo” sobre o texto, em uma falácia da leitura direta e “sem amarras ideológicas”. Ross, de modo semelhante, embora reconheça a antiguidade do universo, mantém um concordismo que força Gênesis 1 a caber em moldes científicos (p. 65). Tanto Ham quanto Ross falham em ver que os “dias” de Gênesis são questão de estrutura literária e apologética na antiguidade, não de cronologia moderna.

[...] a narrativa busca sublinhar a relação total e entre as partes da criação, em que o propósito da Criação é a plenitude e o equilíbrio descritos biblicamente como shalom.

Haarsma, ao tratar o mesmo texto, tem certa destreza interpretativa ao afirmar que Gênesis trata-se de “teologia, não ciência” (p. 97), inclusive embasando-se na leitura funcional de Walton (p. 102). No entanto, sua sucinta e frágil de-historicização de Adão (p. 103) não lida com os problemas decorrentes dessa afirmação, como a conexão paulina entre Adão e Cristo (Romanos 5:12-21), ou mesmo as genealogias que conectam Adão a personagens “mais históricos” como Abraão (por exemplo, Gênesis 11). O cobertor hermenêutico de Haarsma fica curto para atender a evidências genéticas sobre a origem da população humana⁹ e ao tratamento bíblico sobre a pessoa de Adão. Talvez por isso mesmo, Haarsma não consiga oferecer uma descrição teológica da imago Dei e da Queda da humanidade condizente com sua expertise nas categorias da ciência moderna — uma lacuna constante entre defensores da CE, mesmo entre tentativas posteriores como a de Craig, que defende um “Adão mitocondrial” como portador inicial da imago Dei.¹⁰

Outro exemplo é o uso de Jó 38—41 por Stephen Meyer, que pode ser descrito como uma subversão do impulso teológico e teleológico do texto em favor de uma inferência sobre um processo de origem do mundo. Meyer cita o conhecido texto, “Onde você estava quando lancei os fundamentos da terra?”, como evidência de Design Inteligente (p. 140), interpretando a passagem como descrição do processo da criação. Walton, porém, adverte: “Jó 38—41 não é um tratado cosmológico, mas uma resposta poética ao sofrimento humano, enfatizando a transcendência divina”.¹¹ O uso da afirmação isolada sobre o lançamento dos fundamentos do planeta também deixa outras perguntas sem resposta. O que significaria, na hermenêutica de Meyer e do DI, um fundamento da terra? Leis newtonianas? Um apoio sobre algo mais fundamental? Não temos essa resposta.

Mais comprometedor é notar que o impulso da constelação de perguntas de Deus a Jó nos capítulos 38—41 é exatamente reforçar que não há um design plenamente intuitivo no funcionamento do cosmos, e, portanto, os humanos (e principalmente os que estão em profundo sofrimento) encontram-se humilhados frente a obscuridade da sabedoria divina. A textura da sabedoria de Jó é exatamente esta: embora certas criaturas e a própria presença do sofrimento no mundo estejam além do que seria a índole da maestria humana, eles não estão além da maestria divina.¹² Meyer, ao reduzir seletivamente a poesia de sabedoria hebraica à linguagem e propósitos científicos, ignora o gênero literário e enfraquece o impulso teológico do texto. Isso nos deixa com outra pergunta não respondida: como poderia o uso de Jó pelo DI dar consolo a quem sofre? O argumento de Meyer faria exatamente o oposto da fala de Deus em Jó, implicando que se o sofredor estivesse atento às evidências, entenderia o design de Deus na Criação e na administração do sofrimento humano. É o corte oposto ao do texto. Assim, Meyer poderia enriquecer sua abordagem ao apoiá-la não na inferência, mas no intuito teológico do texto: Jó trata-se exatamente de um antídoto à arrogância da sapientia et scientia humanas — um insight ausente não apenas na escrita de Meyer, mas também no tom geral da obra A origem.

Jó trata-se exatamente de um antídoto à arrogância da sapientia et scientia humanas — um insight ausente no tom geral da obra A origem.

Por fim, A origem é uma obra necessária, mesmo com as limitações mencionadas. Seu diálogo entre quatro visões demonstra civilidade para explorar os diferentes posicionamentos, mesmo em um assunto tão complexo e extenso. A presente análise, porém, indica a necessidade de uma hermenêutica bíblica mais arrojada, que una rigor científico a critério interpretativo, superando as dicotomias estéreis que permeiam o debate criação-evolução dentro de círculos cristãos.

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

* Estudo selecionado na 9ª chamada de Estudos de Livro do Radar ABC².

1. Ken Ham et al.A origem: quatro visões cristãs sobre criação, evolução e design inteligente, 2019.

2. Esse conceito trata de grupos com certos métodos/abordagens que falam apenas para aqueles que pensam semelhantemente a si (“pregar pra convertidos”). Nesse sentido, existe um provincianismo entre pessoas que adotam metodologias semelhantes.

3. Kenneth Miller, The flagellum unspun: the collapse of ‘irreducible complexity’, In: William Dembski; Michael Ruse (Ed.), Debating design: From Darwin to DNA, 2004.

4. Para mais detalhes, veja Anthony Thiselton, Hermeneutics: an introduction, 2009.

5. Veja uma crítica equilibrada a essas distorções do positivismo em Thiselton, 2009, cap. 5.

6. John H. Walton, O mundo perdido de Adão e Eva, 2016, p. 45ss.

7. Ibidem, p. 28.

8. Norman Wirzba, From nature to creation: a Christian vision for understanding and loving our world, 2015.

9. Haarsma menciona estudos da área de genética de populações que indicam que uma população ‘original’ provavelmente não poderia vir de um único casal humano, mas de mais indivíduos.

10. William L. Craig, In quest of the historical Adam: a Biblical and scientific exploration, 2021, p. 153-170.

11. Walton, 2016, p. 102.

12. Veja a excelente contraposição entre a sabedoria de Jó e a construção do conhecimento científico moderno por R. W. L. Moberly, Old Testament theology: reading the Hebrew Bible as Christian Scripture, 2013, cap. 8.

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