ARTIGO

A pedagogia moral de Steven Garber

Ednardo Duarte|

13/12/2024

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Ednardo Duarte

Doutorando em Teologia Pública pelo Fuller Theological Seminary. Mestre (EST) e bacharel em Teologia (SBPV e FABAPAR). Especialista em Gestão de Pessoas (FGV). Coordena o Seminário Teológico de Gramado e o TeachBeyond Global Transformational Education Centre.

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Como citar

Silva, Ednardo Luís Duarte da. A pedagogia moral de Steven Garber. Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 4, jul-dez, 2024.

A vida acadêmica oferece aos estudantes cristãos um conjunto de experiências antagônicas que oscilam entre enriquecedoras e animadoras, por um lado, e prejudiciais e dolorosas, por outro, dependendo de suas localidades e personalidades. De modo geral, eles navegam por uma realidade extremamente complexa, cheia de desafios, como diferenças culturais, raciais, ideológicas e religiosas, bem como dilemas relacionados à identidade, amizade, saúde mental e solidão. Isso sem mencionar os rápidos avanços tecnológicos que enfrentam em virtude do advento da realidade virtual e da inteligência artificial. Tudo isso pode gerar muita ansiedade, exigindo uma sólida estrutura moral e teológica para que tais estudantes possam obter certo sucesso nesta fase da vida.¹

Conhecedores de tal contexto, e na tentativa por vezes frustrada de oferecer melhores abordagens e práticas formativas ao seu público, professores cristãos geralmente têm se questionado: que tipo de pedagogia é necessária para fornecer tal solidez moral e teológica? Longe de pretender reduzir o assunto oferecendo respostas rápidas ou sistematizações engessadas, mas no intuito de refletir sobre propostas que busquem dar conta de uma visão integral do ser humano e da complexidade da sua existência, imagino que a pedagogia moral de Steven Garber possa nos fornecer um excelente ponto de partida para o dilema apresentado, ao enfatizar três dimensões e hábitos do coração como centrais para uma vida cristã coerente.

Os conceitos “visão de integridade”, “formação de significado moral” e “hábitos do coração” são centrais no pensamento de Garber. Para ele, os estudantes devem ser incentivados a cultivar uma vida coerente (visão de integridade) durante a vida universitária, que conecte crença e comportamento tanto no âmbito pessoal quanto público. Esse modo de vida centrado em profundas convicções sobre o que é real, verdadeiro e correto é alcançado por meio de um longo processo formativo (formação de significado moral) e desenvolvido a partir de padrões de intencionalidade (hábitos do coração), os quais vamos esmiuçar a partir de agora.

Para Garber, o primeiro hábito do coração que caracteriza o sucesso do estudante em experimentar uma vida cristã coerente ao longo da sua jornada é “desenvolver convicções sobre significado moral”.² O que os jovens acreditam sobre o mundo e como vivem nele — ou seja, suas convicções sobre significado e moralidade, suas noções de significado moral — é formado à medida em que eles se afastam das perspectivas e crenças de seus pais, adotando suas próprias convicções como base para a sua existência. Ao lidar com questões existenciais, os jovens consideram quais compromissos darão forma às suas vidas.

Para Garber, o primeiro hábito do coração que caracteriza o sucesso do estudante em experimentar uma vida cristã coerente ao longo da sua jornada é “desenvolver convicções sobre significado moral”.

O objetivo da educação cristã é equipar os estudantes para um certo modo de ser no mundo, e não apenas para um modo de pensar. Professores cristãos deveriam se concentrar em ensinar os estudantes a examinar práticas (sociais, econômicas e religiosas) e ideologias (liberalismo, conservadorismo, nacionalismo, democratismo e socialismo) sob o escrutínio das Escrituras Sagradas, desenvolver formas alternativas de pensar e viver que enfrentem o esquecimento moral e cultivar um senso de justiça que proteja e dê voz aos mais vulneráveis.³

Estudantes que “desenvolvem uma cosmovisão que pode enfrentar o desafio da coerência e da verdade em uma sociedade pluralista”⁴ entre a adolescência e a idade adulta serão aqueles que continuarão a viver com integridade.⁵ As crenças cristãs, influenciadas pela cosmovisão hebraica, ligam intrinsecamente nossa fé às nossas ações, tanto explícita quanto implicitamente. A verdade não pode permanecer meramente teórica, mas deve se manifestar em práticas na vida real. Para os estudantes cujas convicções são autenticamente cristãs, a sinergia entre entendimento e ação, ouvir e obedecer, é fundamental.

Na visão de James K. A. Smith, “uma explicação robusta da educação e formação cristã requer uma filosofia adequada de ação — algo pouco pensado nas discussões contemporâneas, que estão fixadas na ideia de ‘mente cristã’”.⁶ A cosmovisão vai muito além do intelectualismo. À luz da visão hebraica já mencionada, os professores cristãos deveriam planejar suas atividades pedagógicas visando a uma formação holística de seu alunado, com o objetivo de moldar e forjar convicções de significado moral nesses anos cruciais de formação dos estudantes.

De acordo com Garber, o segundo hábito do coração que caracteriza o sucesso do estudante em experimentar a coerência ao longo da vida é desenvolver “relacionamentos formadores de caráter com mentores”.⁷ Por meio de sua sabedoria e experiência, esses mentores fornecem um modelo tangível de “vida boa”, moldando a compreensão e as aspirações dos alunos durante seus anos universitários. Por exemplo, professores, profissionais e pastores podem servir como companheiros mais experientes cujos compromissos corporificam a essência da cosmovisão que os alunos estão aprendendo a adotar nesta fase crucial da vida.

De acordo com Garber, o segundo hábito do coração que caracteriza o sucesso do estudante em experimentar a coerência ao longo da vida é desenvolver “relacionamentos formadores de caráter com mentores”.

Professores cristãos não se relacionam com os alunos “para possuir, manipular ou controlar; ao contrário, eles pertencem a Deus, e Deus os dá com a expectativa de que continuemos a boa obra de Deus neles, cuidando, respeitando e nutrindo a sua imagem neles”.⁸ O ensino é uma vocação cristã e uma forma de mordomia, por isso os professores cristãos são chamados a honrar e nutrir a vida dos alunos à semelhança do agir divino. Nesse sentido, o mentoreamento de Garber para adquirir significado moral reflete o cuidado e a honra de Deus por sua criação.

Estudantes entre a adolescência e a idade adulta desenvolvem um relacionamento com um mentor que encarna uma cosmovisão cristã integral aumentam as chances de viver com integridade nos anos seguintes. Não é à toa que, desde a antiguidade, as relações entre mentores e alunos têm sido significativas na formação do caráter, especialmente ao estimulá-los e nutri-los no sistema de significado que tais estudantes estão começando a chamar de seu. Professores cristãos deveriam abrir suas vidas, permitindo um aprendizado por meio da formação de significado moral, já que nesse estágio os jovens estão buscando compreender e dar sentido à existência.⁹

O aprendizado ocorre parcialmente por meio do ensino explícito e parcialmente através da modelagem em situações de aprendizagem prática, ou seja, por meio de práticas sociais pelas quais alguém obtém conhecimentos e habilidades não adquiridas pelo nascimento ou maturação. “Práticas têm histórias, tradições”, e, por isso, os alunos são “introduzidos em atividade e tradição contínuas que existiam antes de entrarem nela”¹⁰ por meio de sua relação com seus professores. Ser orientado em teorias e práticas envolve adotar padrões de excelência à luz do modelo do professor.

No imaginário de Garber, o terceiro hábito do coração que caracteriza o sucesso do estudante em experimentar uma vida de integridade é desenvolver o “pertencimento a uma comunidade de pessoas com ideias semelhantes”.¹¹ Para que os estudantes prosperem, eles precisam se tornar parte de uma comunidade imbuída de caráter, um coletivo dotado de uma razão de ser que confira significado e coerência às esferas pessoais e públicas. Para resistir às influências da sociedade contemporânea, essa estrutura de plausibilidade atua como a condição social primordial no cultivo de uma identidade cristã virtuosa frente às demandas culturais.

No imaginário de Garber, o terceiro hábito do coração que caracteriza o sucesso do estudante em experimentar uma vida de integridade é desenvolver o “pertencimento a uma comunidade de pessoas com ideias semelhantes”.

Popularmente, o saber é visto como o ato de um indivíduo solitário, mas os acadêmicos da educação já entenderam que saber é um ato profundamente comunitário, uma vez que a   natureza comunitária do conhecimento se estende além das relações entre os conhecedores; abrange uma comunidade de interação entre os conhecedores e o conhecido, o que ressoa com a comunidade cristã de mesma cosmovisão apresentada no discurso de Garber.¹² Os estudantes estão desesperados por comunidade, e os professores cristãos devem aproveitar essa condição para inspirá-los a se comprometerem com outros que nutrem convicções semelhantes.

Estudantes que, entre a adolescência e a idade adulta, “escolhem viver suas vidas entre outros cuja vida comum é uma encarnação dessa cosmovisão”,¹³ são aqueles que navegarão o futuro com integridade. O fato de a comunidade ser o pano de fundo para a maturação de convicções e caráter prepara o palco para que os alunos vejam o pertencimento a tal estrutura social como um imperativo moral, ancorado em uma cosmovisão fundamentada em coerência e verdade, e cultivado por meio do engajamento com indivíduos cujos próprios compromissos estão profundamente enraizados nessa perspectiva.

“A scola, ou, se preferir, o círculo de pessoas com educação acadêmica, é uma ordem proposta por Deus na sociedade em virtude de um chamado divino… A erudição não é um aprendizado abstrato separado da vida.”¹⁴ Assim como Garber, Abraham Kuyper reconhece o papel crítico das comunidades acadêmicas na formação dos valores morais dos estudantes. Ele afirma que os alunos devem emular mentes brilhantes que incorporam a verdade moral, evitando o orgulho e a libertinagem. Nesse sentido, os professores cristãos farão um excelente trabalho se nutrirem a imaginação dos alunos com os benefícios de pertencer a comunidades encarnadas.

“Que tipo de pedagogia é necessária para fornecer solidez moral e teológica?”, perguntam os docentes cristãos. A resposta e contribuição de Garber aponta para uma pedagogia que desenvolva convicções sobre significado moral, relacionamentos formadores de caráter com mentores e pertencimento a uma comunidade de pessoas com ideias semelhantes.

“Na tradição cristã, a verdade não é um conceito que ‘funciona’, mas uma encarnação que vive”; sendo assim, “uma educação moldada pela espiritualidade cristã nos atrai para a verdade encarnada e pessoal”¹⁵ em vez de lidar com fatos e teorias abstratas e impessoais, como a educação convencional costuma fazer. Portanto, quando se trata do papel do professor cristão de apontar para uma vida íntegra e integral, os alunos precisam se imaginar como parte de redes orgânicas de relacionamentos e interações pessoais, uma comunidade vibrante e em evolução de criatividade e compaixão inspirada pelas Escrituras Sagradas, que começa na academia e se estende para outras esferas da sociedade ao longo da sua vida.

 

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

1. Bethany L. Jenkins, “Engaging the Pluralist Campus: Reformed Sources”, Reformed Public Theology: A Global Vision for Life in the World, 2021.

2. Steven Garber, The Fabric of Faithfulness: Weaving Together Belief and Behavior, 2007, p. 184.

3. Nicholas Wolterstorff, Educating for Shalom: Essays on Christian Higher Education, 2004.

4. Garber, 2007, p. 104-108.

5. As afirmações de Garber acerca da relação entre o desenvolvimento de uma cosmovisão cristã e de relacionamentos com mentores e comunidades que, ao encarnar tal cosmovisão, servem como modelo de uma vida íntegra, são baseadas em impressões e histórias pessoais e de terceiros ao longo de toda a sua obra, em lugar de dados empíricos que corroborem a sua visão.

6. James K. A. Smith, Imagining the Kingdom: How Worship Works, 2013, p. 33.

7. Garber, 2007, p. 184.

8. Paul J. Wadell, “Teaching as a Ministry of Hope”, The Scope of Our Art: The Vocation of the Theological Teacher, 2002, p. 132-133.

9. Garber, 2007.

10. Nicholas Wolterstorff, Educating for Shalom: Essays on Christian Higher Education, 2004, p. 82.

11. Garber, 2007, p. 184.

12. Parker J. Palmer, To Know As We Are Known: Education As a Spiritual Journey, 1993.

13. Garber, 2007, p. 173.

14. Abraham Kuyper, Scholarship: Two Convocation Addresses on University Life, 2014, p. 20.

15. Palmer, 2007, p. 14.

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