SIMPÓSIO

Cinco visões sobre teologia natural*

Exposição e considerações

Paulo Vitor Pinho de Siqueira|

07/11/2025

paulo vitor

Paulo Vitor Pinho de Siqueira

Mestrando em filosofia analítica da religião na UFU. Dedica-se ao estudo da relação de Deus com o tempo bem como ao estudo da Teologia Natural.

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Como citar

Siqueira, Paulo Vitor Pinho de. Cinco visões sobre teologia natural: exposição e considerações. Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 6, jul-dez, 2025.

Desde o final da década de 1960, com o colapso do positivismo e seu princípio correlato da verificação do significado, a teologia natural tem sido um campo muito frutífero e de crescente interesse. Alvin Plantinga e Richard Swinburne foram dois nomes influentes nesse processo de revitalização da teologia natural entendida no sentido mais estrito (como veremos no estudo da obra em questão), de fornecer argumentos em favor da existência de Deus com base na revelação geral.¹ Porém, como veremos, há divergências significativas sobre o papel e o status da teologia natural.   

O livro que nos propomos a analisar (Teologia natural: cinco visões cristãs)² é complexo, e é um grande desafio capturar bem seu conteúdo em um espaço restrito. Há cinco autores, e, apesar de alguns pontos em comum, cada um possui uma perspectiva diferente da teologia natural, promovendo um debate profundo sobre o tema.

Exposição das perspectivas

Charles Taliaferro, professor de filosofia no St. Olaf College, representa a perspectiva segundo a qual a teologia natural deve ser entendida tal como é tipicamente na filosofia analítica contemporânea. Sua concepção está intimamente alinhada à prática mais restrita de buscar demonstrar argumentos em favor da existência de Deus com base na revelação geral. Por outro lado, o padre Andrew Pinsent, professor de teologia e filosofia no seminário Athenaeum de Ohio, expõe uma perspectiva mais ampla, segundo a qual não devemos entender o termo sobrenatural como algo para além da natureza. Alister Mcgrath, professor emérito de ciência e religião em Oxford, por outro lado, argumenta que o conceito de teologia natural é muito amplo e possui sentidos e ênfases distintas a depender do contexto em que ocorre.

O quarto contribuinte da obra é Paul K. Moser, professor emérito de filosofia na Loyola University, em Chicago. Moser pensa que os argumentos tradicionais da teologia natural falham fundamentalmente em inferir a existência de um Deus que seja digno de adoração, e propõe uma base evidencial para a existência de Deus na experiência elusiva e autorreveladora deste aos seres humanos. Por fim, o quinto contribuinte é o pensador barthiano John C. McDowell, professor de teologia, filosofia e teologia moral no Yarra Theological College. Dos cinco autores, McDowell é o único que defende a ilegitimidade da teologia natural, seguindo Karl Barth. McDowell argumenta que a tentativa de se fazer teologia natural implica um uso indevido da autonomia humana à parte da ação divina e sua revelação. 

Podemos dividir os autores da seguinte maneira: Taliaferro defende uma concepção restrita e comum da teologia natural na contemporaneidade, ao passo que Pinsent e McGrath defendem uma perspectiva mais ampla dessa teologia, embora Pinsent entenda a teologia natural dentro de uma perspectiva mais católica e fundamentada nos textos de, entre outros, Tomás de Aquino. Moser não é exatamente um crítico da teologia natural per se, mas tem uma perspectiva negativa dela como comumente é praticada, e por isso enquadra-se em um espectro mais crítico, buscando deflacionar muito do suposto valor e função da teologia natural como tradicionalmente entendida. No espectro mais extremo da crítica à teologia natural, está McDowell, que a considera ilegítima per se.

Taliaferro defende uma concepção restrita e comum da teologia natural na contemporaneidade, ao passo que Pinsent e McGrath defendem uma perspectiva mais ampla dessa teologia.

Taliaferro defende a abordagem contemporânea da teologia natural citando grandes pensadores que teriam se envolvido na atividade de fornecer argumentos em favor da existência de Deus, apresentando ele mesmo alguns argumentos que ele julga bem-sucedidos, apelando, para isso, a um exemplo paradigmático de teologia natural que coaduna com o sentido que ele dá ao termo e fornecendo base bíblica do que ele defende. Taliaferro cita, dentre outros, nomes como os de C.S. Lewis, Descartes, Leibniz e Clarke.³ Após conceituar Deus de acordo com o teísmo cristão, o autor fornece três argumentos em favor da existência de Deus: o cosmológico da contingência, cuja raiz remonta a Leibniz, o teleológico, e, por fim, o argumento a partir da consciência. Sem entrar na exposição dos argumentos, o que Taliaferro busca é demonstrar que a teologia natural é bem-sucedida e que os argumentos que ele formula funcionam. A ideia é demonstrar a legitimidade da noção por meio de sua prática. Mais adiante, em resposta a McGrath, Taliaferro utiliza o exemplo do que ele considera uma obra paradigmática de teologia natural, o Blackwell Companion to Natural Theology [Guia Blackwell da teologia natural], que é um compilado de argumentos em favor da existência de Deus por parte de diferentes autores relevantes. Como base bíblica, Taliaferro cita Salmos 19:1-4, Atos 17:26-27 e vários versículos de Romanos 1.

Pinsent e McGrath possuem uma noção mais similar de teologia natural na medida em que ambos propõem um entendimento mais amplo. Ambos defendem que não é papel legítimo da teologia natural “provar” a existência de Deus por meio da natureza (como quer Taliaferro), porque, dentre outras coisas, essa abordagem desprezaria o papel da graça divina. McGrath não vê a natureza como um teatro a partir do qual estaríamos justificados em fazer inferências sobre a existência de Deus; antes, ele vê a relação entre Deus–natureza de modo diferente. Para o cristão, a natureza revela Deus de modo mais estético e imaginativo, conduzindo-o a contemplar a natureza de modo a enxergar Deus. McGrath, portanto, se esforça para propor uma concepção de teologia natural que não seja puramente intelectualista, mas que envolva, também, o aspecto afetivo e imaginativo do ser humano.⁴

Pinsent não discorda dessa noção, mas segue uma perspectiva tomista da relação entre estado natural e estado de graça. O autor enfatiza que o estado natural não é mau em si, mas se torna inacessível aos seres humanos por conta do pecado. A graça divina, então, atua no ser humano em seu estado natural, santificando-o e capacitando-o a contemplar a natureza, conforme observa McGrath, como revelação intelectual, afetiva e imaginativa de Deus. Pinsent afirma: “[…] a gama de possibilidades teológicas cognitivas deve levar em conta não apenas o objeto do conhecimento, mas também seu sujeito”.⁵

Embora, para ambos, não seja possível demonstrar a existência de Deus pela natureza, a teologia natural recomenda o teísmo de um ponto de vista da vicissitude e superioridade intelectual em comparação a outras perspectivas por demonstrar como a perspectiva teísta–cristã de mundo interpreta bem os dados da natureza. Então, nem McGrath nem Pinsent consideram haver algum argumento que, dedutiva e isoladamente, demonstre a existência de Deus. Para ambos, o papel apologético da teologia natural é visto de maneira mais indireta e abrangente.

Moser e McDowell podem ser agrupados porque ambos rejeitam que os dados empíricos da natureza sejam capazes de demonstrar a existência de Deus direta ou indiretamente. Moser acredita, baseado sobretudo em Romanos 5:1-5, que a evidência tem seu lugar apropriado no que diz respeito a dar suporte à crença em Deus, mas a evidência à qual ele apela não é a do mundo físico e natural, e sim a da experiência que o próprio Deus concede, segundo sua livre escolha, aos seres humanos. A ideia é que Deus se autorrevela aos seres humanos de uma maneira que as pessoas às quais ele se revela têm não apenas conhecimento pessoal e direto dele, mas também conhecimento de seu caráter moral perfeito, o qual revela um Deus digno de adoração.

Moser e McDowell podem ser agrupados porque ambos rejeitam que os dados empíricos da natureza sejam capazes de demonstrar a existência de Deus direta ou indiretamente.

McDowell, por sua vez, não admite nenhum tipo de papel evidencial no que diz respeito à crença em Deus e vê a teologia natural como uma tentativa do ser humano de se esquivar indevidamente do auxílio divino, operando de maneira autônoma. Ecoando Barth, McDowell acredita que se deve ser dogmático com relação à autorrevelação de Deus pelas escrituras, que revelam Jesus Cristo, Deus encarnado, que seria a fonte de revelação por meio da qual o ser de Deus escolhe revelar o seu ser. A natureza deve ser apreciada, e é preciso que o cristão veja o mundo de modo coerente e consistente. Todavia, a coerência interna – que é a posteriori porque já pressupõe a crença em Deus e em sua autorrevelação – não tem papel apologético, no sentido de conferir suporte epistêmico à crença em Deus, nem para o crente nem para o descrente. McDowell afirma: ela (a teologia) deve ser uma reflexão agradecida, realista e a posteriori sobre o objeto divino do falar da fé e uma explicação acerca dele”.⁶ E também: “O primeiro mandamento do Decálogo é axiomático.  […] Ele opera como ‘o pressuposto de toda teologia’, o qual é fundamentado em um conhecimento de Deus ‘com base na revelação’”.⁷

Algumas considerações

É verdade que os argumentos típicos da teologia natural em favor da existência de Deus normalmente não são capazes e nem pretendem inferir um Deus digno de adoração, mas é necessário destacar um aspecto importante. Em primeiro lugar, como Taliaferro faz em sua exposição, é crucial entendermos os argumentos de um ponto de vista cumulativo, e não como operando isoladamente. Eles se fortalecem mutuamente, e um argumento pode suprir a deficiência de outro, inferindo o que algum outro não é capaz de inferir.

A preocupação de Barth com relação à autonomia do ser humano diante de Deus é legítima e deve ser levada a sério. Não é nossa intenção sugerir que as críticas de Barth à teologia natural sejam procedentes. Nosso propósito é, antes, extrair aspectos positivos do debate, reconhecendo que Barth, mediado por meio de McDowell, deve ser levado a sério quanto à nossa dependência de Deus. O texto de McDowell tende a ser, simultaneamente, o mais pragmático e o mais complexo de acompanhar, porque parece representar uma tradição filosófica distinta da tradição analítica. Por essa razão, sua argumentação assume um tom mais estético e menos direto, ao mesmo tempo em que se mostra mais sensível ao contexto cultural dos agentes envolvidos no debate.

Também devemos levar a sério o adendo de Moser sobre o lugar importante que a relação pessoal com Deus deve ocupar em nossas vidas. Deus é, antes de mais nada, uma pessoa, não uma proposição, e conhecer os efeitos de Deus não é o mesmo que conhecer o próprio Deus. O conhecimento sobre Deus não deve substituir o conhecer a Deus,⁸ mas sim intensificá-lo. William Lane Craig, influente filósofo cristão, afirma em tom de advertência: “Eu penso que a deformação endêmica à filosofia analítica da religião é esterilidade e aridez, uma fé exageradamente intelectualizada que pode resultar em um coração frio para com Deus”.⁹

Deus é, antes de mais nada, uma pessoa, não uma proposição, e conhecer os efeitos de Deus não é o mesmo que conhecer o próprio Deus. O conhecimento sobre Deus não deve substituir o conhecer a Deus, mas sim intensificá-lo.

Pinsent e McGrath fazem bem em nos lembrar de que, independentemente do que se pense sobre o empreendimento de demonstrar a existência de Deus por meio de seus efeitos, a natureza também pode revelar Deus de outras maneiras. C.S. Lewis parece abraçar tanto a abordagem contemporânea de demonstração mais direta de Deus por meio da natureza quanto a abordagem mais indireta de McGrath e Pinsent. Lewis afirma: “Eu acredito no cristianismo como acredito que o Sol nasceu – não somente porque eu o vejo, mas porque, por ele, eu vejo tudo o mais”.¹⁰ Essas perspectivas, portanto, não precisam ser vistas como excludentes; em vez disso, elas podem ser vistas como complementares.

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

* Estudo selecionado na 10ª chamada de Estudos de Livro do Radar ABC².

1. Algumas das obras mais importantes para a restauração da teologia natural como contemporaneamente entendida são: Alvin Plantinga, God and other minds, 1967; The nature of necessity, 1974; Richard Swinburne, The existence of God, 1979.

2. James K. Dew Jr., Ronnie P. Campbell Jr. (Eds.), Teologia natural: cinco visões cristãs, 2025.

3. Ibidem, p. 38.  

4. Ibidem, p. 181.

5. Ibidem, p. 112.

6. Ibidem, p. 303.

7. Ibidem.             

8. James I. Packer, Knowing God, 1973, p. 24.  

9. William Lane Craig. Systematic Philosophical Theology, Volume 1: Prolegomena, On Scripture, On Faith, 2024, p. xiv.

10. C. S. Lewis, Is theology poetry?, in: C. S. Lewis, Essay collection and other short pieces, 2000, p. 21. (Tradução nossa)

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