SIMPÓSIO

Os dois livros de Deus e a autonomia da teologia

Um estudo crítico da obra Ciência e religião: fundamentos para o diálogo, de Alister McGrath

Gustavo Luis Rossato|

02/06/2025

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Gustavo Luis Rossato

É graduando em Filosofia pela UNIOESTE - Toledo. Bolsista PET. Possui interesse em hermenêutica, Agostinho e Filosofia da Revelação.

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Como citar

Rossato, Gustavo Luis. Os dois livros de Deus e a autonomia da teologia: um estudo crítico da obra Ciência e religião: fundamentos para o diálogo, de Alister McGrath. Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 5, jan-jun, 2025.

Este estudo propõe uma análise crítica da obra Ciência e religião: fundamentos para o diálogo, de Alister McGrath. Embora o autor busque relacionar ciência e fé, muitas questões profundas são tratadas superficialmente, sem explorar suas implicações. Nosso objetivo é trazer à tona algumas destas questões, preparando o leitor para percebê-las quando ler o texto da obra. Não apenas expomos as ideias do livro, mas as colocamos sob uma lente crítica que revela lacunas e pressupostos não questionados. Para isso, seguimos dois caminhos: primeiro, analisar a interpretação do autor de momentos-chave na história da ciência-religião; segundo, complementar sua análise com um olhar crítico, recorrendo ao livro em questão, mas também a fontes externas.

A metáfora dos dois livros — natureza e Escritura — ilustra bem essa problemática. O autor a menciona, mas sem explorar como ela reflete a relação assimétrica entre ciência e fé. Nosso estudo amplia essa questão, evidenciando as tensões que ele apenas sugere. Não queremos impor uma leitura, mas oferecer ferramentas para que o leitor perceba, ao estudar a obra com afinco, o que McGrath deixa em segundo plano. Se o livro busca abrir um diálogo, este estudo visa aprofundá-lo, destacando desafios que permanecem sem resposta.

***

Qual o poder da realidade concreta sobre uma abstração interpretativa? Religiões que reivindicam uma revelação divina podem acabar condensando sua sabedoria em livros sagrados, livros estes que passam a constituir um fundamento para as respectivas religiões. Especificamente, no cristianismo, as afirmações contidas nestes livros sobre a realidade devem ser verdadeiras. Essa crença se sustenta enquanto a realidade não impõe desafios concretos à sua interpretação. Afinal, é fácil afirmar que o Sol gira em torno da Terra, como sugere Josué 10, quando não se conhece a estrutura do cosmos. Mas, conforme o conhecimento humano avança por meio da investigação do mundo natural, a confiança nos textos sagrados como referências infalíveis da realidade foi questionada. Isso levou teólogos a buscar conciliação entre mundo natural e revelação escrita com base no princípio de que, sendo ambos criação divina, não poderiam se contradizer. Um exemplo disso está em Galileu, que argumenta:

O movimento da Terra e a estabilidade do Sol nunca poderiam ser contrários à Fé ou à Sagrada Escritura, caso essa proposição fosse corretamente comprovada como fisicamente verdadeira por filósofos, astrônomos e matemáticos, com a ajuda das experiências sensoriais, observações precisas e demonstrações necessárias. No entanto, nesse caso, se algumas passagens das Escrituras soassem contrárias, teríamos de dizer que isso se deve à fraqueza de nossa mente, que é incapaz de captar o verdadeiro significado das Escrituras nesse caso específico. Essa é a doutrina comum, e está inteiramente correta, pois uma verdade não pode contradizer outra.¹

A questão da duplex veritas ficou famosa no período medieval, suscitando debates a respeito da conciliação entre ciência e religião. Alguns teólogos, como Agostinho, já alertavam os estudiosos da Bíblia para se debruçarem no estudo da ciência.² Todavia, o que houve na história para que saíssemos de uma relação “harmônica” para declarações conflituosas, tais como “a religião é um vírus de computador”, como diz Richard Dawkins?³

McGrath abre sua obra constatando que a relação entre ciência e religião, antes harmônica, tornou-se conflituosa não por oposição essencial, mas pela percepção de “contradições” por parte dos estudiosos. No primeiro capítulo, o autor busca fundamentar o diálogo entre ambas, apontando que cientistas, por vezes, recorrem a conceitos já usados pelos teólogos há séculos. Aqui, assumimos que essa relação é apenas uma extensão do vínculo amoroso entre fé e razão, que a modernidade tentou cindir. McGrath chama essa oposição de “modelo de conflito”. No entanto, há necessidade de conflito? Tanto a ciência quanto a religião não abrangem toda a realidade, pois seus métodos impõem limites. A ideia de um “darwinismo universal”, segundo McGrath, por conta disso, é apenas uma pretensão — nenhuma ciência pode englobar tudo.

Definir ciência e religião é um desafio que McGrath não ignora. Os termos, por vezes, são usados de forma acrítica e generalizante, simplificando suas particularidades: cada ciência tem métodos e história próprios, e a religião, para ele, é uma construção social.⁴ Além do modelo de conflito, McGrath apresenta independência (sem sobreposição), diálogo (interação sem fusão) e integração (unidade metodológica de Raven), baseando-se na categorização de Ian Barbour. Segundo McGrath, “Barbour tende a apresentar essas quatro opções como estágios em uma jornada intelectual de descoberta, talvez análoga ao clássico de Bunyan, The Pilgrim’s Progress” [O Peregrino].⁵ Ele considera essa categorização simplista, embora a utilize:

Tensões e conflitos presumidos entre ciência e religião, como a controvérsia de Galileu, costumam ter mais a ver com políticas papais, lutas pelo poder eclesiástico e questões de personalidade do que com tensões fundamentais entre fé e ciência. Os historiadores da ciência deixaram claro que a interação entre ciência e religião é determinada principalmente pelas especificidades de suas circunstâncias históricas e apenas secundariamente pelas respectivas temáticas. Não existe paradigma universal para a relação entre ciência e religião, seja teórica ou historicamente.⁶

Para esclarecer os modelos de Barbour, McGrath propõe quatro analogias, incluindo a dos dois livros: “A metáfora dos ‘Dois Livros de Deus’ foi amplamente usada para manter a distinção entre as ciências naturais e teologia cristã, por um lado, e para afirmar sua capacidade de interação positiva, por outro”.⁷ Todas partem da ideia de que ciência e religião não conseguem exaurir a realidade, mas oferecem perspectivas sobre o todo. A questão é: até que ponto esse diálogo pode ser sustentado?

Voltando ao “affair” de Galileu, este caso permite visualizar com clareza a relação entre ciência e fé. Segundo McGrath, o cerne do debate não residia nos méritos científicos do heliocentrismo, mas em sua relação com a interpretação bíblica, foi uma disputa hermenêutica.⁸ A forma como seus oponentes concebiam a relação entre a Escritura (primeiro livro) e o mundo criado (segundo livro) determinou tanto o apoio quanto a resistência às suas teses. McGrath distingue três abordagens hermenêuticas: literalismo bíblico, alegorização e acomodação divina à linguagem humana, cada uma delas moldando uma visão distinta sobre a relação entre os dois livros de Deus.

Segundo McGrath, o cerne do debate não residia nos méritos científicos do heliocentrismo, mas em sua relação com a interpretação bíblica, foi uma disputa hermenêutica.

Vamos analisá-las mais de perto, complementando McGrath com a metaforologia de Hans Blumenberg. O literalista vê o mundo como um texto transparente, sem necessidade de interpretação: cada palavra da Bíblia descreve a realidade de forma exata. Nesse modelo, leitura teológica e visão do mundo natural se sobrepõem. O alegorista, por outro lado, reconhece uma estrutura oculta no mundo, a qual precisa ser interpretada. Para ele, os signos do mundo apontam para algo além de si mesmos, e leituras unívocas ignoram essa profundidade. Os que defendem a acomodação pensam que Deus se adaptou à linguagem-cultural dos homens de um tempo ao se revelar a eles.

Todavia, o conceito de acomodação já carrega o desgaste da metáfora dos dois livros. Admitir que Deus se revelou de maneira limitada, historicamente, implica que os textos sagrados não esgotam a verdade sobre o mundo natural, mas apenas apresentam-na dentro dos limites cognitivos de uma época. Isso abre caminho para uma distinção crescente entre as duas esferas: a Escritura passa a ser vista como guia moral e espiritual, enquanto a natureza se torna o domínio do conhecimento objetivo. Com o tempo, essa distinção se tornou uma separação. O mundo natural, antes interpretado sob a ótica da revelação, passou a ser lido por seus próprios métodos, sem necessidade de recorrer à Bíblia. Como Blumenberg observou, com a perda das Escrituras como centro unificador do conhecimento no Renascimento, o mundo natural tornou-se a nova fonte de verdade. A revelação restringiu-se à moralidade, enquanto a ciência expandia indefinidamente o livro da natureza: “As novas descobertas forçaram a admitir algo que era completamente excluído em um dos livros, mas permitido no outro: o direito de expandir indefinidamente o texto diante dos olhos humanos, para seu benefício.”⁹ 

[...] com a perda das Escrituras como centro unificador do conhecimento no Renascimento, o mundo natural tornou-se a nova fonte de verdade.

O cosmos, ilimitado e inesgotável, contrastava com o texto das Escrituras, fixo e histórico. 1500 anos de leitura já teriam esgotado o texto bíblico. McGrath expressa o espírito da época deste modo:

A mecânica celeste parecia sugerir que o mundo era um mecanismo autossustentável, que não precisava de governança divina ou apoio para sua operação cotidiana. A imagem de Deus como um “relojoeiro” passou a ser vista como conducente a uma compreensão puramente naturalista do universo, na qual Deus não tinha nenhum papel contínuo a desempenhar. O cenário estava, então, montado para a ascensão do importante movimento religioso geralmente conhecido como “deísmo”.¹⁰

A teoria da acomodação pode ser vista como um último esforço para preservar a relação entre dois livros que, na prática, competiam pela supremacia. Se a Bíblia já não era suficiente como ponto unificador do conhecimento, a ordem racional da natureza assumiria esse papel, dando origem ao deísmo. Agora, a ciência se tornava o verdadeiro domínio da leitura do mundo. McGrath acompanha essa transformação, mostrando como o livro da natureza se expandiu enquanto a Escritura perdeu seu status epistemológico. Esse processo culmina nas teorias da expansão do universo, que, ao sugerirem um começo para o cosmos, reacenderam o interesse por narrativas de criação. Seria essa uma vingança das limitadas Escrituras contra a revolução da natureza? Se olharmos a história, vemos que, à medida que a ciência ampliou seu domínio sobre a compreensão do mundo, a teologia gradualmente cedeu terreno, reinterpretando-se para se adequar aos novos paradigmas. A metáfora dos dois livros, antes um elo entre fé e razão, perdeu o sentido original, refletindo a assimetria que se consolidou entre eles.

A teoria da acomodação pode ser vista como um último esforço para preservar a relação entre dois livros que, na prática, competiam pela supremacia.

O capítulo 4 aborda as relações entre ciência e filosofia da religião, focando em debates sobre a existência de Deus e suas ações no mundo. Defensores do “modelo de conflito” frequentemente comparam a exatidão científica — como afirmar que “água é H2O” — com a incerteza da existência de Deus, tentando, assim, deslegitimar o teísmo: “Ciência e religião são colocadas em extremos opostos da escala”.¹¹ Essa visão ignora que a ciência também parte de uma crença não justificada: “Para Planck, o cientista acredita em uma ordem invisível das coisas e acha isso justificado e refletido no sucesso das ciências”.¹² Se a ciência se apoia em uma fé epistêmica na ordem do universo, poderia a crença em Deus reivindicar um estatuto semelhante? Ou a diferença reside não na fé, mas na forma como ambas são justificadas? McGrath busca responder a essa questão, explorando as escolas filosóficas que tentam determinar se a crença em Deus pode ser demonstrada como verdadeira, assim como uma teoria científica pode ser confirmada.

Não queremos parecer generalistas, então, precisamos considerar as provas da existência de Deus como tentativas de demonstrar que a crença em sua existência é justificada. Existem diversos impulsos que levam alguém a elaborar um argumento desses. Em um mundo onde se tornou difícil sustentar certezas, repleto de guerras religiosas carregadas de afirmações de posse da verdade, era natural que Descartes buscasse algum tipo de segurança epistêmica que lhe permitisse fundamentar o conhecimento: Deus é a figura evocada pelo francês para garantir que nossas percepções não sejam ilusões.

Crises de fé levam estudiosos a buscar fundamentos para suas crenças, mas também há o desejo de harmonizá-las com novas descobertas filosófico-científicas. O reavivamento teológico provocado pelo darwinismo no século 19 e o uso da teoria quântica para compreender a ação de Deus, conforme McGrath relata, ilustram esse impulso. Ambas as abordagens assumem que o livro da natureza interfere na revelação escrita. Podemos recorrer ao modelo de Barbour para exemplificar essas relações: algumas provas partem da natureza em direção à fé; outras, da fé, interpretando a natureza sob essa ótica (como afirmar que o Sol gira em torno da Terra). Há quem defenda que fé e razão devem ter quadros interpretativos próprios. Qual caminho seguir? Se tomarmos a natureza como referência para a fé, não tornamos a teologia refém de reformulações contínuas a cada descoberta científica? Seria isso inevitável? Ou há um modo de manter um diálogo autêntico entre fé e razão sem comprometer a autonomia da teologia? Esse é o risco de colocá-las em diálogo.

 

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

* Estudo selecionado na 9ª chamada de Estudos de Livro do Radar ABC².

1. Galileo Galilei, The Galileo affair, 1989, p. 80-81. Tradução nossa.

2. Agostinho, On Genesis, 2002, p. 186-187.

3. André Jorge de Oliveira, “‘Religião é como um vírus de computador’, afirma Dawkins no Fronteiras do Pensamento”, Revista Galileu, 28 maio 2015. Clique aqui para acessar.

4. Alister McGrath, Ciência e religião: fundamentos para o diálogo, 2020, p. 22.

5. McGrath, 2020, p. 30.

6. Ibidem, p. 31.

7. Ibidemp. 36.  

8. Ibidem, p. 63.

9. Hans Blumenberg, The readability of the world, 2022, p. 65.

10. McGrath, 2020, p. 71.

11. Ibidemp. 155.

12. Ibidem.      

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