SIMPÓSIO

Um Deus interventor ou uma natureza autônoma?*

Amanda Andrade|

14/06/2024

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Amanda Andrade

Graduanda em História, Letras Português-Inglês pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP) e atua como professora de língua portuguesa e literatura.

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Como citar

Santos, Amanda C. A. Um Deus interventor ou uma natureza autônoma? Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 3, jan-jun, 2024.

Na ficção cristã, As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis, há uma relação clara entre a chegada de Aslam e o fim do inverno – este simboliza o reinado da Feiticeira Branca. Com sua chegada, portanto, a neve, o gelo e o inverno se transformam em uma floresta esverdeada, cheia de cor e luz, ao passo que tudo, desde os seres daquela terra até a própria natureza, dependem do Grande Leão. Da mesma forma, Deus é aquele que, em nosso mundo, tem o controle sobre a natureza e suas ações, pois por meio de sua onipotência faz todas as coisas existirem e agirem conforme a sua boa e perfeita vontade.

Mas, afinal, a criação de Deus é uma mera comunicação das coisas à existência ou é a doação de poder para que essas coisas ajam autonomamente no mundo? Um debate frutífero que remonta à era medieval perpassa o pensamento moderno e chega até a contemporaneidade. A questão da intervenção de Deus em sua criação e como Ele age no mundo: eis o grande debate da obra de Ignacio Silva. Ora, se é Deus quem tudo conduz e mantém, a natureza teria autonomia para agir e existir por si mesma sem a providência divina? Nesse embate, onde ficam as leis naturais, previstas pela ciência? Para Tomás de Aquino, importante filósofo cristão medieval, a intervenção de Deus não exclui a autonomia da natureza, uma vez que esta age e produz tudo aquilo que conhecemos justamente graças ao poder divino.

Partindo desse pressuposto, “Deus está presente em cada evento natural e em cada processo natural”,¹ e essa é a importante metafísica da providência de Aquino, teoria que guiará todo o debate estabelecido no livro de Silva. Para Aquino, portanto, Deus é a causa primária de todas as coisas e sua criação é dotada de causas secundárias, motivo pelo qual compreendemos as leis da natureza e seus efeitos na realidade. Assim, “as criaturas são o que são precisamente porque Deus está constantemente presente para elas como a causa de seu ser e de suas ações”² e, nesse caso, se Deus se retirasse da natureza, nada mais haveria. Logo, é possível compreender que a autonomia da natureza só é garantida pela causalidade de Deus.

Nessa perspectiva, tal debate pode parecer um tanto dispensável em um primeiro momento, pois, se compreendemos Deus como criador, uma consequência lógica seria a sua própria criação ser, em todo tempo, dependente de sua providência. Contudo, é válido ressaltar a relevância deste debate, uma vez que Tomás de Aquino – que legou uma gigantesca influência no pensamento cristão – defende que a crença em Deus como o único que age na natureza é uma crença que “vai contra os sentidos, a razão e a bondade do próprio Deus”,³ ou seja, uma crença tão óbvia parece ser radicalmente desacreditada por um dos maiores filósofos cristãos de todos os tempos. Para Aquino, por conseguinte, se Deus agisse por meio de todas as coisas naturais criadas, estas seriam inúteis por si próprias.

Pensemos, por exemplo, no fogo, que, enquanto elemento natural, produz um calor passível de ser sentido precisamente por sua autonomia de ser fogo, de modo que, se fosse Deus quem agisse por meio dele, o calor que sentiríamos não seria o da coisa natural em si, mas o de Deus. À vista disso, a própria natureza não teria utilidade, pois não passaria de uma extensão do próprio Deus. Ademais, o poder de agir que Deus dá à natureza é, para Tomás, uma indicação da bondade de Deus e de generosidade à sua própria criação – e só é possível reconhecer essa bondade por meio da crença na causalidade (secundária, pois a causa primeira é Deus) da natureza. Portanto, da forma mais bela e generosa possível, a criação de Deus se apresenta à sua semelhança até mesmo na capacidade de ação, pois, “ao criar, Deus não comunica apenas a existência às coisas, mas também o poder de agir”.⁴

Portanto, da forma mais bela e generosa possível, a criação de Deus se apresenta à sua semelhança até mesmo na capacidade de ação, pois, “ao criar, Deus não comunica apenas a existência às coisas, mas também o poder de agir”.

É importante refletir, no entanto, que essa certa autonomia da natureza não tira de Deus sua onipotência ou o próprio domínio que Ele tem sobre sua criação. As leis da natureza, assim chamadas por Descartes por serem matematicamente precisas, não excluem Deus da criação; pelo contrário, colocam um agente inteligente como essencial nesse processo, pois são “leis impostas à natureza pelo mais perfeito dos legisladores: Deus”,⁵ ou seja, as leis indicam, racionalmente, um legislador, e a ordem indica um criador da ordem. Assim, para Aquino, é possível manter a união entre a onipotência de Deus, sua ação providencial, a autonomia da natureza e o sucesso da razão e da ciência.

Para o filósofo, há três formas pelas quais Deus age na natureza: 1) pela criação, 2) em e por meio de causas secundárias e 3) por milagres (quando Deus age além ou fora do que seria possível pelas causas naturais). Nesse sentido, é interessante analisar essa forma particular pela qual Deus pode agir no mundo, pois demonstra seu poder sobre a natureza, de modo que é capaz de fazer coisas que parecem contrárias à própria ordem estabelecida por Ele para “alcançar a salvação de alguns seres humanos em particular”.⁶

Sobre essa questão, C. S. Lewis, em sua obra Milagres, também discute sobre a ação de Deus nos eventos naturais e, mais especificamente, por meio dos milagres, enfatizando que esse é um fato fundamental para a compreensão de que Deus se envolve de maneira pessoal e íntima na criação. Para Lewis, “ao chamá-los milagres, não queremos dizer que sejam contradições ou abusos, mas sim que, deixada aos seus próprios recursos, ela [a natureza] jamais poderia produzi-los”,⁷ o que demonstra, mais uma vez, a dependência completa que a natureza possui de seu Criador. Portanto, assim como Deus cria e age continuamente na natureza por meio das causas secundárias, Deus também intervém individualmente na vida do ser humano de acordo com seus próprios propósitos.

Dessa forma, Silva destaca que “tudo o que é criado é providencialmente dirigido por Deus”,⁸ e essa providência significa o ordenamento das coisas para um determinado fim (objetivo), o qual é estabelecido de antemão pelo próprio Deus. A natureza, portanto, não age pura e simplesmente por si mesma, pois as ações de Deus por meio das causas naturais vêm sempre guiadas por sua própria vontade e inteligência e, assim, tornam-se ações providenciais —, não somente de forma universal, mas também individualmente. É por isso que, ao concluir sua obra, o autor aponta para uma questão imprescindível nesse debate: a atuação de Deus não é uma mera intervenção na natureza, pois há uma presença divina que é íntima, compassiva e misericordiosa, a qual é estendida a todos os seres vivos.

a atuação de Deus não é uma mera intervenção na natureza, pois há uma presença divina que é íntima, compassiva e misericordiosa, a qual é estendida a todos os seres vivos.

É preciso compreender, por fim, que Deus não está em uma competição; não é a autonomia da natureza versus a ação providencial divina. Pelo contrário, o Criador é a fonte de ação constante para suas criaturas, e não há outro modo de compreendê-lo senão que Ele é, ao mesmo tempo, criador do mundo e doador contínuo de poder. Nesse sentido, Deus tem um caráter que é transcendente – pois Ele é diferente de sua criação – e imanente, uma vez que continuamente age e se encontra presente na natureza criada. Portanto, nesse debate, a conclusão incontestável é que Deus, em sua onipotência, é a causa de toda a realidade que existe e continua a existir, pois sem Ele “nada do que foi feito se fez” (João 1.3) e, nessa mesma perspectiva, nada do que foi feito poderia continuar a agir – e nem mesmo a existir – sem a sua constante doação de vida e poder.

Da mesma forma como a natureza não poderia mudar sozinha o seu curso no mundo fictício de Nárnia – saindo do gelo e do inverno para uma terra verde e amena – sem a intervenção direta de Aslam, sem o poder de Deus “seria impossível encontrar qualquer poder na natureza”,⁹ porque diferentemente de seu Criador, a natureza precisa de uma causa criativa para agir. Assim, para Santo Tomás de Aquino, Deus comunica seu próprio poder à natureza, ou seja, as coisas naturais agem conforme o poder fornecido por Deus. Mais do que isso, a compreensão de Deus por meio da natureza é tão profunda que, para o filósofo, “[…] as coisas naturais são efeitos de Deus”,¹⁰ ou seja, é possível conhecer algo sobre Deus a partir dos seus efeitos (e as causas naturais seriam um deles) e, embora não seja um conhecimento completo e perfeito, “[…] todas as perfeições encontradas nas causas naturais estão em Deus, pois ele é a causa delas”¹¹ e, se alguma beleza ou perfeição pode ser encontrada em um efeito, também é encontrada, naturalmente, em sua causa.

Tal como manifestado por Davi, em seu Salmo 19.1: “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos”. Logo, de maneira sublime, as coisas naturais recebem o seu próprio ser de Deus, pois Deus é a própria existência e, portanto, é Ele quem também dá existência às coisas e, consequentemente, também dá a essas coisas a capacidade de agir. No fim das contas, não há dualidade: a intervenção de Deus no mundo criado não exclui a autonomia da natureza; pelo contrário, a onipotência, bondade e providência divinas são propriamente o seu fundamento. Portanto, Deus seria a fonte e a origem de toda ação natural, tal como se encontra representado no universo de Nárnia, no qual o Grande Leão é esse agente benevolente que fornece vida, cor, alegria, e faz até mesmo do inverno um agradável verão, uma vez que todas coisas dependem dele, assim como todas as coisas, em nosso mundo, dependem do Criador.

Logo, de maneira sublime, as coisas naturais recebem o seu próprio ser de Deus, pois Deus é a própria existência e, portanto, é Ele quem também dá existência às coisas e, consequentemente, também dá a essas coisas a capacidade de agir.

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

* Estudo selecionado na 4ª chamada de Estudos de Livro do Radar ABC².

1. Ignacio Silva, Como Deus age no mundo? O debate sobre a providência divina e as leis naturais, 2024, p. 24.

2. Ibidem, p. 25.

3. Ibidem, p. 38.  

4. Ibidem.          

5. Ibidem, p. 46.  

6. Ibidem, p. 168.  

7. C.S. Lewis, Milagres: um estudo preliminar, 1984, p. 52.

8. Silva, 2024, p. 192.

9. Ibidem, p. 185.

10. Ibidem, p. 143.

11. Ibidem.      

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