Introdução
Em Como Deus age no mundo?, o filósofo argentino Ignacio Silva oferece uma explicação tomista para a ação de Deus na natureza, fazendo uma análise da providência divina e sua relação com a causalidade natural. Tendo isso em vista, o presente estudo pretende contextualizar o debate, explicar as teses tomistas centrais de Silva e, por fim, fazer uma avaliação de seu trabalho, demonstrando que o filósofo faz um louvor tomista ao mistério da ação divina no mundo.
O tema da ação divina no mundo está presente nos debates medievais desde aqueles que defendiam a inexistência de causas naturais reais aos que defendiam a existência de tais causas.¹ Essas discussões também estão presentes na Modernidade, quando vários autores atribuíam um determinismo causal ao Universo, de modo que a ação de Deus no mundo fosse rejeitada.
Com o surgimento da mecânica quântica, contudo, teólogos como Robert John Russell e John Polkinghorne passaram a defender que, dado o indeterminismo quântico em nível ontológico, existe um espaço para a ação de Deus no mundo por meio das probabilidades quânticas. O problema é que tanto os deterministas modernos quanto os indeterministas quânticos partem de pressupostos filosóficos questionáveis: 1) a identificação entre causalidade e determinismo; e 2) a causalidade divina é vista como oposta à causalidade natural, de modo que ou Deus age ou a natureza age. Questionar esses pressupostos é parte do trabalho de Silva, e, para isso, ele retorna a Tomás de Aquino.
Contexto do debate
Silva começa seu trabalho mapeando historicamente quais desideratos os modelos de ação divina visam satisfazer. Os critérios elencados a partir da história do debate são: a onipotência de Deus, a ação providencial de Deus na criação, a autonomia da natureza e o sucesso da razão natural e da ciência.² O que Silva nota é que, de uma forma ou de outra, os vários modelos da ação divina visavam assegurar um ou mais desses desideratos, mas dificilmente esses modelos conseguiam dar espaço aos quatro.
No século 20, contudo, ocorreu uma revolução na física: o advento da física quântica. Enquanto a mecânica clássica é tomada por alguns autores de maneira determinista, a mecânica quântica não prevê uma configuração única associada à ocorrência de certos eventos, mas apenas uma distribuição de probabilidades. Dessa maneira, a teoria quântica, “por meio do estudo das menores partículas subatômicas das quais as coisas são feitas, parece fornecer uma descrição indeterminista da natureza”.³
Enquanto a mecânica clássica é tomada por alguns autores de maneira determinista, a mecânica quântica não prevê uma configuração única associada à ocorrência de certos eventos, mas apenas uma distribuição de probabilidades.
Tal caráter indeterminista se dá porque, na medição realizada, o sistema pode saltar para quaisquer estados possíveis prováveis, mesmo não havendo uma causa aparente para tal comportamento. Na Interpretação de Copenhague, isso ocorre porque a “imprevisibilidade do resultado da medição reflete um indeterminismo causal fundamental, que, em última análise, aponta para um indeterminismo ontológico também fundamental, em nível quântico”.⁴
Assim, teólogos como Russell defendem que há, em nível quântico, um espaço para a ação de Deus no mundo sem que ele “intervenha” nas leis da natureza. Essa tese ganhou o acrônimo NIODA (non-interventionist objective divine action). Para Silva, no entanto, o problema central de tais teorias é que elas empurram a ação de Deus a um espaço restrito onde não há causa natural. Dessa forma, os defensores do projeto NIODA tratam Deus como apenas uma causa entre outras.⁵
Modelo tomista da ação divina no mundo
O conceito de causalidade tomista é pautado na noção de dependência, o que é aplicado tanto à causalidade natural quanto à causalidade divina providencial.⁶ Aliás, tal noção dá espaço ao indeterminismo causal. Como diz Silva, essa visão “colabora com a ideia de que essa noção não implica a necessidade do efeito a partir de sua causa”.⁷ Assim, Silva questiona a identificação entre causalidade e determinismo, de modo a dar espaço ao indeterminismo na teoria causal tomista.
Outro ponto importante é a investigação acerca das quatro causas aristotélicas: final, eficiente, formal e material. A causa material é justamente aquilo a partir do qual algo vem a ser. A causa formal é aquilo que dá existência a uma coisa. A causa eficiente é o que produz a mudança ou o surgimento das coisas. E a causa final é o que move a causa eficiente a produzir determinado efeito.
Dadas essas explicações, Silva expõe como pode surgir uma contingência na teoria causal de Aquino e algumas formas de como isso pode ocorrer: a conjunção de duas causas ou mais, um defeito na causa eficiente ou uma indisposição da causa material. Dessa maneira, embora haja necessidade e determinismo na natureza, há também lugar para o indeterminismo. E isso é algo que aproxima a abordagem tomista da mecânica quântica, a qual também reúne espaço para o determinismo e para o indeterminismo.
O importante, no entanto, é abordar como esses conceitos estão presentes em uma metafísica tomista da providência divina. Para Tomás, Deus age de três maneiras na natureza: 1) criando a natureza ex nihilo, 2) comunicando – ou participando, na linguagem neoplatônica adotada por Tomás – seu poder às criaturas no mundo natural, e 3) agindo por meio dos milagres.⁸ É fundamental notar a visão tomista de que as operações regulares da natureza se dão por meio de um concursus, no qual existe uma causa primária divina e uma (ou mais) causa secundária natural operando ao mesmo tempo. Isso se dá justamente porque a criação é a doação de ser e poder de Deus às coisas naturais.⁹ Dessa maneira, “pela fé e pela razão, as criaturas são conservadas na existência por Deus”.¹⁰ Por conseguinte, Silva questiona o pressuposto de oposição entre causalidade divina e causalidade natural.
Assim, Deus age na natureza por meio das causas secundárias. Basicamente, Deus é a causa primária, mas as coisas naturais às quais Deus participa o seu ser e poder são causas secundárias. Dessa maneira, Tomás quer assegurar duas coisas: a autonomia da natureza, de maneira que as coisas naturais têm seus poderes próprios, e a ação soberana de Deus nas operações naturais. Por conseguinte, “cada causa eficiente criada realiza sua operação consoante a própria natureza e poderes, movida por Deus para agir e alcançar seu devido efeito”.¹¹
Há, porém, um debate sobre quando Deus age além ou fora das causas naturais criadas; ou seja, quando Deus executa um milagre. Para Tomás, um milagre é aquilo que por si mesmo é capaz de causar admiração a todos.¹² Silva enfatiza que esse tipo de ação divina não coloca de lado toda a ordem do universo, mas apenas a ordem de alguma coisa particular, além de que Deus só executa o milagre se essa ação tiver relação com a salvação de alguns seres humanos em particular.¹³
Sendo Deus a causa da ordem de todas as coisas, não há impedimento à ação de Deus indo além das causas naturais. Na realidade, se a metafísica da causalidade tomista dá espaço ao indeterminismo, milagres podem ser perfeitamente esperados quando Deus tem um objetivo soteriológico específico. Se isso está correto, não há uma dificuldade com a ocorrência de milagres. Não apenas isso, o modelo tomista de Ignacio Silva satisfaz os desideratos elencados no início da obra.
Mistérios da ação divina
Uma das críticas de Silva a Russell e Polkinghorne é que eles acabam considerando a ação de Deus como mais uma causa entre outras causas naturais. Isso se dá porque, na teologia do projeto NIODA, a ação de Deus está no mesmo nível ontológico que a causalidade natural. Desse modo, os proponentes do NIODA reduzem a causalidade divina à causalidade natural. Entretanto, Silva percebe rapidamente que é possível que alguém faça a mesma objeção a ele, pois tanto Deus como as causas naturais são causas eficientes em um concursus causal;¹⁴ assim, por que a tese tomista seria melhor que o projeto NIODA?
Nesse ponto, surge uma questão essencial da teologia tomista: “Tomás de Aquino afirma que Deus está além de qualquer afirmação possível da mente humana e, portanto, realmente nada do que alguém poderia predicar de Deus seria inteiramente adequado”.¹⁵ Além de demonstrar a centralidade do mistério na reflexão cristã, isso também mostra que a explicação tomista da ação divina no mundo ainda tem algo de misterioso e não é uma explicação completa de como Deus age no mundo.
Além de demonstrar a centralidade do mistério na reflexão cristã, isso também mostra que a explicação tomista da ação divina no mundo ainda tem algo de misterioso e não é uma explicação completa de como Deus age no mundo.
Isso fica claro quando se nota que, para Aquino, só podemos falar de Deus a partir da negação e da analogia.¹⁶ Ou seja, como não podemos conhecer o que Deus é, primeiro dizemos o que ele não é e, depois, predicamos Deus analogicamente a partir dos seus efeitos. Por exemplo, na criação, vemos o efeito de um ser sábio e bondoso. Portanto, predicamos esses atributos analogicamente a Deus. Assim, Deus é bom ou sábio de um jeito radicalmente diferente de como os seres naturais são bons ou sábios. Como diz Tomás, “é impossível atribuir alguma coisa univocamente a Deus e às criaturas”.¹⁷
É justamente por meio dessa diferença entre Deus e as causas naturais que Silva pretende escapar da objeção de que a ação de Deus estaria no mesmo nível ontológico que a causalidade natural. Elas não podem estar no mesmo nível ontológico porque a atribuição de causalidade eficiente a Deus é analógica, de modo que o “efeito de Deus está em um nível diferente, que as causas naturais não podem alcançar”.¹⁸ Assim, Silva consegue falar de uma ação divina no mundo que está em um nível ontológico radicalmente distinto da causalidade natural.
Porém, isso coloca a ação divina na categoria do mistério, o que não é necessariamente um problema. O próprio Silva admite isso. Em comunicação pessoal, ele afirma que de fato há um mistério acerca da ação divina no mundo, dado o fato de que a causalidade divina é analógica. Mas ele requalifica o mistério em um sentido neoplatônico: “o mistério divino é mais parecido com o Sol na caverna de Platão. A luz que ele emite é tão intensa que a nossa mente finita não consegue absorvê-la”.¹⁹
Silva continua dizendo que o mistério da natureza divina é tão intenso que apenas após muito estudo, meditação e oração, podemos começar a entendê-la analogicamente, sabendo que não a explicaremos plenamente. Isso significa que a explicação tomista da causalidade divina, sendo analógica, é “sempre incompleta”.²⁰ Por isso, ainda que Ignacio Silva ofereça uma explicação tomista sofisticada da ação divina no mundo, esse conceito permanece recheado de mistérios.
Considerações finais
Como dito, a permanência de mistérios na explicação tomista de Silva não é um problema. Por mais que isso seja insatisfatório para alguns, é uma explicação que consegue manter os quatro desideratos mencionados anteriormente.
Além disso, chegar à conclusão de que existe um mistério que não conseguimos explicar completamente não deveria ser considerado um problema. Afinal de contas, o esforço cognitivo para chegar a essa conclusão é a demonstração de virtude intelectual diante de um Deus que ultrapassa as capacidades cognitivas do ser humano. Ademais, mesmo que a explicação se depare com um mistério, ela não é inteiramente um mistério. Pelo contrário, é uma explicação incompleta, mas ainda assim plausível.
o esforço cognitivo para chegar a essa conclusão é a demonstração de virtude intelectual diante de um Deus que ultrapassa as capacidades cognitivas do ser humano.
Assim, se Ignacio Silva aponta para uma providência divina que se dirige para a glória de Deus, podemos também encontrar sabedoria em seu louvor tomista ao mistério da ação divina no mundo.
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* Estudo selecionado na 4ª chamada de Estudos de Livro do Radar ABC².
1. Ignacio Silva, Como Deus age no mundo? O debate sobre a providência divina e as leis naturais, 2023, p. 34-36.
2. Ibidem, p. 56.
3. Ibidem, p. 66.
4. Ibidem, p. 69.
5. Ibidem, p. 92-93.
6. Ibidem, p. 98.
7. Ibidem, p. 101.
8. Ibidem, p. 134-135.
9. Ibidem, p. 158.
10. Tomás de Aquino, Suma Teológica, v. II,, 2005, I, q. 104, a. 1, respondeo.
11. Silva, 2023, p. 163.
12. Tomás de Aquino, Suma Contra os Gentios, v. II, 1996, III, c. 101.
13. Silva, 2023, p. 168.
14. Ibidem, p. 199.
15. Ibidem, p. 141.
16. Ibidem, p. 142.
17. Tomás de Aquino, Suma Teológica, v. I, 2009, I, q. 13, a. 5, respondeo.
18. Silva, 2023, p. 199.
19. Ignacio Silva em comunicação pessoal no dia 14/03/2024. Citado com permissão.
20. Ibidem.
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