Quando se trata de religião e ciência, é comum focar em episódios conflituosos, como o de Galileu Galilei, ou em temas candentes, como criação e evolução. Contudo, apesar da concepção tão difundida de que religião e ciência estão em oposição desde sempre, muitos scholars defendem que a teologia cristã fez contribuições fundamentais para o advento da ciência moderna. Para a cultura contemporânea, pode parecer um detalhe menor, mas a distinção absoluta entre criador e criatura presente na doutrina cristã da criação foi essencial. Isso porque as religiões pagãs em geral entendiam que a natureza e as forças naturais são governadas pelos caprichos e flutuações de humor de deuses míticos, deidades astrais ou entidades anímicas que controlavam o mundo natural e se manifestavam de modo hostil por meio de eventos cataclísmicos. O ensinamento bíblico-teológico, no entanto, exerceu um contraponto decisivo ao afirmar categoricamente o Deus criador como fundamento único e absoluto de todo ser e existência, embora totalmente distinto de sua criação.
Essa perspectiva teve o efeito emancipatório de gerar o surgimento de uma filosofia natural a partir da qual foi possível discernir padrões e regularidades na natureza mais tarde descritos como leis naturais. Vale frisar que, em sua origem, o conceito de lei natural foi associado à atividade de Deus: ele havia criado um mundo ordenado, regular, estável e, além de tudo, inteligível, ou seja, passível de ser explorado com o uso da razão.
em sua origem, o conceito de lei natural foi associado à atividade de Deus: ele havia criado um mundo ordenado, regular, estável e, além de tudo, inteligível [...].
Assim, vemos nascer com a ciência moderna uma concepção do mundo que o considerava ordenado pelo criador e legislador divino. Este estabelecera no início dos tempos as leis naturais que determinavam como a natureza devia se comportar. Temos também a visão de que o ser humano foi criado à imagem de Deus e dotado de uma racionalidade coerente com a que o próprio criador empregou na criação, o que lhe permitia investigar e entender essa ordem. Em contraposição, no imaginário das culturas pagãs as forças naturais, personificadas em entidades míticas ou anímicas, eram tidas como instáveis e imprevisíveis e, assim, inacessíveis à investigação intelectual. Portanto, o surgimento da ciência na transição do Renascimento para a Idade Moderna deve-se, em grande medida, ao fato de ter ocorrido em uma Europa totalmente embebida na cosmovisão cristã, fundada na ideia de que o universo fora criado por um Deus racional.
Com o desenvolvimento das várias modalidades científicas entre os séculos 16 e 19, foi-se consolidando gradualmente um enorme corpo de conhecimentos sobre a natureza e uma crescente confiança na visão determinista de que tudo o que ocorre no mundo natural se dá sob o controle de férreas leis naturais às quais nada escapa. A questão é que um mundo inteiramente determinista parece excluir qualquer possibilidade de ação divina. Como então Deus age no mundo se todos os fenômenos naturais estão sujeitos a relações de causalidade estabelecidas por rígidas leis universais?
Essa questão atravessou os séculos. Para responder, preservando a aparente autonomia do mundo natural, foram desenvolvidos nas últimas décadas alguns modelos teóricos que exploram o indeterminismo presente em algumas áreas da ciência contemporânea para formular modos de ação divina objetivos, mas não intervencionistas. Se, por um lado, não se pode afirmar categoricamente que o resultado dessa empreitada tenha sido um sucesso completo, por outro é necessário admitir que esses modelos conseguiram seduzir algumas mentes brilhantes, como a de Alvin Plantinga. Veja, por exemplo, seu Ciência, religião e naturalismo.¹
Mas será que Deus precisa mesmo de uma brecha científica para agir no mundo? O filósofo e teólogo argentino Ignacio Silva mergulha nos textos originais de Tomás de Aquino sobre a metafísica da providência e da contingência natural para nos guiar numa análise profunda dessa questão. Em particular, questiona os modelos atuais que se valem de recursos da mecânica quântica e da teoria do caos para estabelecer uma “articulação causal” por meio da qual a ação divina entraria no mundo. Eis o debate.
O filósofo e teólogo argentino Ignacio Silva mergulha nos textos originais de Tomás de Aquino sobre a metafísica da providência e da contingência natural para nos guiar numa análise profunda dessa questão.
Para fazer face a essas questões, Como Deus age no mundo? nos conduz para os meandros desse debate, apresentando uma descrição pormenorizada e elucidativa da metafísica de Tomás de Aquino sobre causação natural, contingência e sua relação com a providência divina. Ao fazê-lo, oferece ao leitor oportunidade de acesso em profundidade a um dos nós górdios da relação entre religião e ciência: o problema da ação divina.
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Este texto se oferece apenas como uma breve introdução ao simpósio que reúne três estudos mais detalhados sobre a obra Como Deus age no mundo? O debate sobre a providência divina e as leis naturais, de Ignacio Silva. Cada autor apresenta suas perspectivas sobre a interpretação de Silva quanto à metafísica de Tomás de Aquino, focando na interação entre providência divina e a contingência do mundo natural. Esses estudos abordam ainda a visão de Silva sobre como a ação divina se harmoniza com as leis naturais, a relevância de Tomás de Aquino para os debates contemporâneos entre ciência e teologia, e as implicações filosóficas e teológicas de sua abordagem. Aproveite!
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* Texto publicado originalmente como prefácio da obra discutida neste simpósio.
1. Alvin Plantinga, Ciência, religião e naturalismo: onde está o conflito?, Editora Vida Nova, 2018.
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