ARTIGO

Sobre o problema lógico do mal e a incompatibilidade entre a onibenevolência divina e o determinismo religioso

Fábio Maia Bertato|

08/11/2024

Fábio Maia Bertato

Doutor em Filosofia, Pesquisador e atual Diretor do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), da UNICAMP, e Professor de Filosofia da Academia Atlântico.

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Como citar

Bertato, Fábio Maia. Sobre o problema lógico do mal e a incompatibilidade entre a onibenevolência divina e o determinismo religioso. Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 4, jul-dez, 2024.

Neste artigo, procuramos mostrar que a onibenevolência divina e o determinismo religioso são logicamente incompatíveis. O determinismo religioso sustenta que tudo o que ocorre é diretamente querido por Deus, enquanto a noção de onibenevolência implica que Deus só quer o bem. O argumento será construído com base em pressupostos simples e plausíveis sobre o mal, aqui denominados E0 e E1. O ponto central é que, assumindo definições precisas de onibenevolência divina (OB) e de determinismo religioso (DET), pode-se mostrar que a sua aceitação conjunta conduz a uma contradição formal. Essa discussão está diretamente relacionada ao chamado problema lógico do mal, que é formulado como um argumento contra a existência do Deus do teísmo clássico.

Uma parte essencial do pensamento cristão,¹ particularmente em Agostinho e Tomás de Aquino, é a compreensão de que o mal não tem existência autônoma.² Para ambos, tudo o que existe, na medida em que existe, é bom. O mal, portanto, é uma privação, uma falta de bem onde deveria haver plenitude. Desse modo, o mal absoluto, entendido como a completa ausência de ser, seria logicamente impossível, pois o ser, por definição, é participado em diferentes graus, e onde há ser, há bem, mesmo que em uma forma limitada ou incompleta.³ Essa compreensão tem implicações diretas para a interpretação do axioma E0, que será enunciado a seguir e que expressa a ideia de que algo pode ser mau sob um aspecto e bom sob outro,⁴ mas nunca pode ser simultaneamente um mal e um bem sob o mesmo aspecto. Além disso, tal compreensão é fundamental, pois, ao afirmar que Deus é a fonte de todo o ser, defende-se que, sendo absolutamente bom, Ele só pode querer o bem (OB). Um fato que parece inegável é que existem situações más em nosso mundo, e isso será expresso pelo axioma E1.

Nossos pressupostos básicos sobre o mal podem ser resumidos da seguinte maneira:⁵

E0. Para toda situação possível x, se x é uma situação má, então x não é uma situação boa [ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto].

E1. Uma situação má, m é o caso.

Além disso, a onibenevolência de Deus pode ser estabelecida da seguinte maneira:

OB. Deus é onibenevolente, ou seja, para toda situação possível x, se Deus quer que x seja o caso, então x é uma situação boa.

DET. Para toda situação possível x, Deus quer que x seja o caso se, e somente se, x é o caso.

Com relação ao mal, o que assumimos aqui é simplesmente que uma situação má não pode ser boa ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, e que há pelo menos uma situação má no mundo. A partir disso, podemos verificar que a onibenevolência divina é incompatível com uma visão determinista. Assim, a partir dos quatro axiomas assumidos, podemos deduzir uma contradição da seguinte maneira:

  1. m é uma situação má. (por E1)
  2. A situação m é o caso. (por E1)
  3. Se a situação m é o caso, então Deus quer que m seja o caso. (por DET)
  4. Logo, Deus quer que m seja o caso. (por Modus Ponens,⁶ de 2 e 3)
  5. Se Deus quer que m seja o caso, então m é uma situação boa. (por OB)
  6. Logo, m é uma situação boa. (por Modus Ponens, de 4 e 5)
  7. Se m é uma situação má, então m não é uma situação boa [ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto]. (por E0)
  8. Logo, m não é uma situação boa. (por Modus Ponens, de 1 e 7)
  9. Portanto, m é uma situação boa e m não é uma situação boa [ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto], o que é uma contradição. (por 6 e 8)

 

Esse argumento por reductio ad absurdum (redução ao absurdo) expõe de maneira clara a contradição resultante da tentativa de se combinar a onibenevolência divina com o determinismo religioso. Se Deus quer que toda situação que ocorre seja o caso, e se algumas dessas situações são más, então somos forçados a concluir que Deus quer o mal, o que entra em conflito com a noção de que Deus é onibenevolente. Concluir, diante de nossos pressupostos elementares sobre o mal, que a onibenevolência e o determinismo religioso levam a uma contradição, significa que devemos descartar um dos dois. Mas, se Deus existe e é onibenevolente, então claramente o determinismo religioso deve ser falso.

Concluir, diante de nossos pressupostos elementares sobre o mal, que a onibenevolência e o determinismo religioso levam a uma contradição, significa que devemos descartar um dos dois. Mas, se Deus existe e é onibenevolente, então claramente o determinismo religioso deve ser falso.

Entender que o determinismo religioso versa sobre a onipotência divina é essencial para captar sua força e refletir sobre suas implicações e limitações. O determinismo sugere que tudo o que ocorre no mundo é querido por Deus, o que pressupõe uma ideia muito forte de onipotência. Isso porque o determinismo elimina a possibilidade do livre-arbítrio. Se tudo o que acontece é determinado por Deus, nenhum agente possui liberdade para verdadeiramente fazer escolhas entre ações alternativas. Na visão cristã, o ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus, que é livre. Assim, o homem, como ser racional, também é dotado de livre-arbítrio e tem a capacidade de deliberar entre diferentes opções e agir de acordo com suas escolhas, o que implica responsabilidade moral. Assim, o determinismo compromete tanto a noção de liberdade quanto a responsabilidade do ser humano por suas ações.

Isso nos leva a definir a onipotência (OP) como: “tudo o que Deus quer é o caso”, descartando a sua recíproca – ou seja, a noção de que toda situação que ocorre é querida por Deus –, uma vez que isso não se alinha com a onibenevolência.⁷ Assim, assumiremos que:

OP. Deus é onipotente, ou seja, para toda situação possível x, se Deus quer que x seja o caso, então x é o caso.

Combinando OP e OB, obtemos a asserção de que, dado o domínio de situações possíveis (não contraditórias), se Deus quer que uma situação ocorra, então tal situação ocorre e é boa, o que parece estar em consonância com a perspectiva cristã. Tal perspectiva não entra em contradição com a existência de situações más.

O que foi considerado em nossa discussão implica que as situações más que ocorrem no mundo são, de certa forma, independentes de Deus e de sua vontade? De modo algum. O querer de Deus considerado nas definições de onibenevolência e onipotência é de um tipo muito particular.

Existem pelo menos dois tipos de “quereres” de Deus. O primeiro é o querer deliberativo, empregado em OP, pelo qual Deus delibera sobre um estado de coisas e, em virtude de sua onipotência, esse estado de coisas necessariamente ocorre ou se torna o caso, sem possibilidade de não se realizar. Por exemplo, no livro do Gênesis, ao querer (deliberadamente) que houvesse luz, Deus fez com que houvesse luz: Ele decide e, assim, é o caso (e isso é bom).⁸ O segundo tipo de querer é o querer convidativo e se refere ao livre-arbítrio dos seres racionais, de modo que dizer que Deus “quer” nesse sentido é dizer que Ele deseja ou convida que um certo estado de coisas se realize. Nesse caso, uma situação ser querida/desejada por Deus não implica necessariamente a sua ocorrência. Por exemplo, Deus pode querer/desejar que uma pessoa realize uma ação específica, mas ela, exercendo sua liberdade, pode escolher não o fazer.

Embora o primeiro tipo de querer se relacione mais diretamente com a onipotência divina, a onibenevolência divina implica que tudo o que é querido por Deus, seja pelo querer deliberativo ou convidativo, é bom. O querer deliberativo implica necessidade, enquanto o querer convidativo implica permissão. Assim, podemos falar de um terceiro tipo de querer, o querer permissivo. A permissão de Deus abre a possibilidade para a escolha entre vários bens, mas também para a sua ausência, o mal. Assim, se uma situação má ocorre, não é porque Deus a queira diretamente, mas porque Ele a permite. A razão última para essa permissão permanece um mistério, além do alcance da análise lógica. No entanto, a resposta clássica de Agostinho e Tomás de Aquino sobre o assunto pode ajudar a esclarecer um pouco: Deus permite o mal para evitar um mal maior ou para dele extrair um bem maior. Nessa perspectiva, se tudo o que ocorre é ou querido ou permitido por Deus, então podemos afirmar que tudo está em conformidade com os desígnios divinos.

Nessa perspectiva, se tudo o que ocorre é ou querido ou permitido por Deus, então podemos afirmar que tudo está em conformidade com os desígnios divinos.

Para que possamos entender e responder ao problema lógico do mal, falta introduzir o terceiro atributo divino do teísmo clássico, a saber, a onisciência divina (OC). É o que fazemos a seguir:

OC. Deus é onisciente se, e somente se, para toda situação possível x, se x é o caso, então Deus sabe que x é o caso.

Afirmar que Deus é onisciente é reconhecer que Ele conhece todas as coisas e sabe todas as verdades. Esse atributo decorre da perfeição divina, pois, sendo Deus perfeito, seu conhecimento também deve ser pleno.

Vejamos agora uma versão típica do problema lógico do mal:

  1. Se Deus existe, então Deus é onipotente, onisciente e moralmente perfeito.
  2. Se Deus é onipotente, então Deus tem o poder de eliminar todo o mal.
  3. Se Deus é onisciente, então Deus sabe quando o mal existe.
  4. Se Deus é moralmente perfeito, então Deus deseja eliminar todo o mal.
  5. O mal existe.
  6. Se o mal existe e Deus existe, então ou Deus não tem o poder de eliminar todo o mal, ou não sabe quando o mal existe, ou não tem o desejo de eliminar todo o mal.
  7. Portanto, Deus não existe.
 

O argumento apresentado também configura um tipo de reductio ad absurdum. Partindo da hipótese de que Deus existe, e assumindo as premissas de 1 a 4, concluímos que Deus teria o poder de eliminar todo mal, saberia quando o mal existe e desejaria eliminá-lo. Daí se segue que o mal não existiria. Porém, pela premissa 5, o mal existe, o que leva a uma contradição com a hipótese de que “Deus existe”.

Nossas discussões sobre os atributos da onibenevolência e da onipotência nos ajudam a identificar um problema no verbo “desejar” usado nesse argumento, pois Deus pode desejar eliminar todo o mal sem que necessariamente isso se concretize – algo que não ocorreria no caso do querer deliberativo. Poderíamos, então, substituir no argumento anterior o termo “desejar” por “querer”, no sentido de “querer deliberativo”. Ainda assim, permaneceria a questão sobre se podemos realmente admitir que Deus quer eliminar todo o mal. Se admitirmos que sim, a onipotência implicaria que todo o mal seria eliminado, o que, evidentemente, não ocorre (ao menos no presente momento). Se, por outro lado, admitimos que Deus não quer eliminar todo o mal, apesar de desejá-lo, abre-se espaço para o livre-arbítrio, como vimos, uma vez que, assim, nem tudo estaria determinado.

Além disso, uma resposta a essa formulação do problema lógico do mal é destacar a diferença entre (1) Deus querer que o mal não exista e (2) Deus não querer que o mal exista. A primeira proposição implica a inexistência do mal, enquanto a segunda permite sua existência, já que o “não querer” de Deus não é deliberativo ou efetivo como o seu “querer”. Confundir essas duas proposições equivale a admitir o determinismo religioso (DET), que, como vimos, é incompatível com a onibenevolência divina e incompatível com a concepção cristã tradicional.

Certamente, tratar da questão do mal, especialmente dos sofrimentos pessoais e particulares, demanda uma postura que vá além da frieza da análise lógica. É um tema que exige uma abordagem de humildade e compaixão, no qual se entra “de joelhos”. Nossa análise lógica, embora proponha um “como” para uma solução ao problema do mal, não oferece um “porquê”. No horizonte cristão, a resposta plena ao problema do mal e do sofrimento reside na cruz e na ressurreição, onde se apresenta um Deus-homem compassivo e libertador. Mesmo que alguém não creia nessa perspectiva, não se pode dizer que ela apresenta um Deus alheio às misérias humanas.

 

Agradecimentos

Agradeço a Gesiel, Suzana e Pietro pela leitura e sugestões que ajudaram a melhorar este texto.

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

1. Embora o texto contenha referências pontuais à perspectiva cristã, a argumentação aqui apresentada não depende de pressupostos exclusivamente cristãos. Assim, essas menções poderiam ser adaptadas para se referir apenas ao teísmo clássico, com base em pontos de intersecção entre várias tradições religiosas. Nossa discussão se insere essencialmente no contexto da teologia natural.

2. Para ilustrar, considere que a cárie – que é o mal do dente – só tem uma existência dependente da existência do próprio dente, que é um bem. A existência do mal é sempre “parasitária”.

3. Nessa perspectiva que considera que o mal é ausência de ser, admitir que o mal absoluto existe equivale a dizer que existe a total ausência de existência, o que é contraditório. Todavia, considerar que existe um mal máximo não leva necessariamente a uma contradição, especialmente se por “máximo” não se entende “absoluto”.

4. Por exemplo, tomar um remédio amargo pode ser considerado mau devido ao sabor desagradável e à dificuldade de ingeri-lo, mas, ao mesmo tempo, pode ser visto como bom, pois é essencial para tratar uma doença e promover a recuperação da saúde.

5. Assumiremos que uma situação (ou estado de coisas) é possível se, e somente se, não for contraditória(o).

6. Recorde-se que a forma da regra Modus Ponens é

Se A, então B.

A.

Logo, B.

7. Note-se que tal recíproca é empregada na linha 3 do argumento que mostra que a aceitação mútua da onibenevolência e do determinismo leva a uma contradição. Sem ela, a contradição não é derivável. Vide Fábio M. Bertato, “Sketch for a Formal Natural Theology: Existence and Uniqueness of God”, Manuscrito 44(4), 2021; e nosso artigo em co-autoria com Gesiel B. da Silva, “Uma Abordagem  Axiomática ao Problema Lógico do Mal”, In: Fábio M. Bertato et alTemas em Filosofia da Religião, Coleção CLE, 2023. 

8. “Disse Deus: Haja luz; e houve luz. E viu Deus que a luz era boa;[…]” (Genesis 1, 3-4a).

9. Michael Tooley, “The Problem of Evil”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2021 Edition. Clique aqui para acessar. Tradução nossa.

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