ARTIGO

Criação Ex nihilo e o Big Bang

Soberania divina na cosmologia moderna

Vinícius Flôres Poli|

04/04/2025

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Vinícius Flôres Poli

Engenheiro pela UNESP, pós-graduando em Teologia e Cultura pelo IRSP. Estudioso da teologia reformada e filosofia, com ênfase em apologética cristã. Membro da Igreja Presbiteriana Aliança, em Bauru.

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Como citar

Poli, Vinícius Flôres. Criação Ex nihilo e o Big Bang: soberania divina na cosmologia moderna. Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 5, jan-jun, 2025.

Imagine-se sob um céu noturno, um vasto tapete de estrelas brilhando contra um fundo púrpura escuro, cada ponto de luz sussurrando sobre a imensidão do cosmos. Desperta-se, então, a curiosidade: de onde vem tudo isso? Gênesis 1:1 ressoa com uma autoridade que transcende: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (NVI). Não há matéria pré-existente, não há caos eterno – apenas o nada absoluto, e então, pela vontade soberana de Deus, o existir. A criação ex nihilo, do nada, é a proclamação de um Criador cuja asseidade – sua existência independente – não precisa de nada além de si mesmo. Enquanto isso, a ciência moderna nos diz que tudo começou por volta de 13,8 bilhões de anos, com o Big Bang – uma explosão de uma singularidade primordial que deu origem ao espaço, ao tempo e à matéria, regida por leis como a gravidade e a entropia.¹ Diante disso, surge uma pergunta que R.C. Sproul poderia levantar com um brilho nos olhos: quem, por trás da explosão do Big Bang, acendeu o pavio?²

Essa questão rompe a tensão aparente entre a cosmologia moderna e a fé reformada.³ A narrativa científica busca descrever o como – uma expansão cósmica que transformou uma densidade inimaginável em galáxias e nebulosas.⁴ Mas o quem permanece além das equações. O próprio Big Bang aponta para um início, um momento em que o universo passou do não-ser ao ser.⁵ A radiação cósmica de fundo, descoberta por Penzias e Wilson, e a entropia crescente, que mostra um cosmos caminhando para o equilíbrio térmico, derrubaram ideias como o estado estacionário de Fred Hoyle, que imaginava um universo sem começo.⁶ A ciência, então, alinha-se com a Escritura: o universo teve um princípio. Mas o que – ou quem – o iniciou? Stephen Hawking especulou que flutuações quânticas poderiam explicar o surgimento do universo, mas isso apenas empurra a questão para trás: de onde vieram as leis quânticas?⁷ Francis Collins, por outro lado, vê nas constantes finamente ajustadas do cosmos a sombra de um design.⁸ Ainda assim, a teologia cristã vai além: Romanos nos assegura que “o poder eterno de Deus e Sua divindade são vistos nas coisas criadas” (Rm. 1.20, NVI). A criação ex nihilo não é uma teoria entre muitas; é a revelação do quem por trás do pavio aceso.⁹

O próprio Big Bang aponta para um início, um momento em que o universo passou do não-ser ao ser.

A narrativa flui naturalmente para um desafio maior. Se o Big Bang explica o nosso universo, alguns cientistas, como os defensores do multiverso, sugerem que o nosso cosmos é apenas um entre infinitos, gerado por flutuações quânticas em um vácuo cósmico.¹⁰ Para o naturalista, isso elimina a necessidade de um Criador – o universo seria um acidente feliz em um mar de possibilidades. Mas pare um momento e reflita: mesmo que existam outros universos, eles também seriam contingentes, dependentes de algo que os sustente.¹¹ Tomás de Aquino, em sua Suma Teológica, argumentou que tudo que começa a existir tem uma causa, e essa cadeia não pode retroceder infinitamente – ela termina na causa primeira, que é Deus.¹² Jonathan Edwards ecoa isso ao dizer que a criação ex nihilo manifesta a teleologia divina, o propósito que permeia o ser.¹³ A Escritura reforça essa verdade: Deus “opera todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade” (Ef. 1.11, NVI). Então, quem acendeu o pavio não foi uma flutuação aleatória, mas o Deus cuja soberania ontológica transcende o tempo e o espaço.¹⁴ A cosmologia moderna, ao reconhecer a expansão contínua e a entropia inevitável, revela uma narrativa de propósito divino, na qual o caos aparente do multiverso ou do Big Bang encontra sentido na vontade soberana de Deus. A ordem natural é um espelho da providência divina, e Paulo afirma que “dele, por ele e para ele são todas as coisas”, conduzindo-nos a um louvor eterno diante da grandeza de Seu plano redentor (Rm. 11.36, NVI).

Tomás de Aquino, em sua Suma Teológica, argumentou que tudo que começa a existir tem uma causa, e essa cadeia não pode retroceder infinitamente – ela termina na causa primeira, que é Deus.

Essa soberania divina permeia a estrutura e a manutenção do cosmos, servindo como ponte natural para explorar como a criação se manifesta em detalhes específicos. Quando estamos tratando da criação ex nihilo, uma palavra que se destaca em Gênesis 1:1 é bara (בָּרָא), que difere notavelmente de outros verbos hebraicos, como asah (עָשָׂה). Enquanto asah pode significar “fazer” ou “modelar” a partir de uma matéria já existente, bara, de acordo como alguns teólogos, é empregada exclusivamente para descrever a ação criadora de Deus – a criação ex nihilo, isto é, a formação de tudo a partir do nada. Essa escolha vocabular revela a singularidade do Criador, cuja existência é autossuficiente e opera sem depender de qualquer substrato prévio. Isso enfatiza a autoridade absoluta de Deus na criação e diferencia Sua obra dos processos naturais conhecidos. Como argumenta Calvino, em Institutas da Religião Cristã, esse ato criativo revela tanto o poder quanto a natureza autônoma do Deus criador.¹⁵ R.C. Sproul também ressalta que a criação ex nihilo é o reflexo da soberania divina que desafia as concepções materialistas.¹⁶

Adicionalmente, a explicação criacionista nos obriga a reconhecer que o universo não é apenas um evento inicial, mas uma realidade sustentada continuamente pelo poder divino. Em Hebreus, lemos que o Filho é “o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do Seu ser, sustentando todas as coisas pela Sua palavra poderosa” (Hb. 1.3, NVI), implicando que a manutenção do cosmos é também um ato de providência. Essa sustentação não pode ser atribuída meramente a forças naturais ou a acasos cósmicos; ela aponta para um Criador que, desde o início, estabeleceu e continua a governar as leis que regem o universo. A ordem e a harmonia evidenciadas na natureza – desde a precisão das constantes físicas até a complexidade das estruturas celestes – atestam um design intencional que transcende explicações puramente naturalistas.

A ordem e a harmonia evidenciadas na natureza – desde a precisão das constantes físicas até a complexidade das estruturas celestes – atestam um design intencional que transcende explicações puramente naturalistas.

Em contrapartida, a aparente tensão entre Gênesis 1 e a cosmologia não é um campo de batalha, mas uma sala de aula. Agostinho advertia contra cristãos que falam bobagens sobre o universo, envergonhando a fé diante dos céticos.¹⁷ Sproul também costumava alertar contra harmonizações forçadas que diluem a Escritura.¹⁸ A ciência nos maravilha e é incentivada pelo próprio Deus como um meio para conhecê-lo. Ela é, com toda certeza, uma serva valiosa – mas nunca a senhora. Acontece que a fé nos leva mais a fundo do que apenas conhecer: ela nos leva à adoração. Calvino escreveu que “Deus, por Sua palavra, trouxe à existência o que não era”,¹⁹ enquanto Bavinck afirmou que “o cosmos é contingente; Deus é a necessidade metafísica”.²⁰ Sob esse céu estrelado, as estrelas não contam apenas uma história de, talvez, bilhões de anos; elas declaram, como diz o Salmo, “a glória de Deus” (Sl. 19.1, NVI). A criação ex nihilo enquadra a cosmologia moderna, não o contrário. O Big Bang, o multiverso, a entropia – tudo isso é um reflexo da voz que disse “Haja luz” (Gn. 1.3, NVI).

Dessa forma, com cada qual em seu devido lugar, respondendo às questões que fazem sentido aos seus respectivos propósitos e respeitando-se a hierarquia, não é errôneo concluir que a cosmologia e a criação ex nihilo podem entreter uma conversa. A ciência, no fundo, é um chamado à reverência; e seu estudo inspira-nos a confiar em Deus, cuja vontade soberana governa os céus e a terra, unindo criação e redenção em um único propósito glorioso. A entropia, embora, como alguns alegam, indício da queda, não tem a última palavra; o propósito redentor de Deus, revelado em Cristo, assegura a restauração final, assim como Apocalipse promete que “não haverá mais noite”, e a glória de Deus iluminará a nova criação (Ap. 22.5, NVI).

A ciência, no fundo, é um chamado à reverência; e seu estudo inspira-nos a confiar em Deus, cuja vontade soberana governa os céus e a terra, unindo criação e redenção em um único propósito glorioso

Imagine novamente aquele céu noturno. A pergunta ressoa: quem acendeu o pavio? A resposta não está em especulações científicas, mas na Palavra do Criador soberano. Ele é o que é, aquele que criou tudo, do nada, para sua glória eterna.²¹ A soteriologia nos lembra de que esse cosmos, criado e sustentado por Deus, é o palco da redenção, planejada desde a eternidade.²² Diante disso, o que resta senão curvar-se em adoração? As estrelas brilham, o universo se expande, mas tudo aponta para aquele que é, foi e sempre será – o Deus que acendeu o pavio e nos convida a conhecê-lo.²³

 

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

1. Stephen Hawking, Uma Breve História do TempoDo Big Bang aos Buracos Negros, 1988, p. 89.

2. R.C. Sproul, A Santidade de Deus: Reflexões sobre a Natureza Divina, 1985, p. 67.

3. Ibidem.

4. Hawking, 1988, p. 89.

5. William Lane Craig, Reasonable Faith: Defesa Cristã da Razão, 2008, p. 123.

6. Fred Hoyle, The Nature of the UniverseAn Introduction to Modern Cosmology, 1950, p. 45.

7. Hawking, 1988, p. 89.

8. Francis Collins, The Language of God: A Scientist Presents Evidence for Belief, 2006, p. 123.

9. Sproul, 1985, p. 67.

10. Brian Greene, The Hidden Reality: Parallel Universes and the Deep Laws of the Cosmos, 2011, p. 67.

11. Alvin Plantinga, Warranted Christian BeliefEpistemologia Reformada, 2000, p. 78.

12. Tomás de Aquino, Suma TeológicaTratado sobre Deus, 1274, p. 101.

13. Jonathan Edwards, SermõesA Soberania de Deus, 1741, p. 89.

14. Sproul, 1985, p. 67.

15. João Calvino, Institutas da Religião Cristã: Uma Exposição da Doutrina Cristã, 1536, p. 78.

16. R.C. Sproul, The Holiness of God: A Call to Holiness, 1985, p. 45.

17. Agostinho, Comentário Literal ao Livro de Gênesis, 400, p. 15.

18. R.C. Sproul, The Holiness of God: A Call to Holiness, 1985, p. 67.

19. João Calvino, Comentário sobre GênesisInterpretação Bíblica, 1559, p. 45.

20. Herman Bavinck, Doutrina de DeusTeologia Sistemática Reformada, 1906, p. 89.

21. Êxodo 3:14, NVI.

22. Efésios 1:4, NVI.

23. Ibidem.    

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