Soberania divina na cosmologia moderna
Imagine-se sob um céu noturno, um vasto tapete de estrelas brilhando contra um fundo púrpura escuro, cada ponto de luz sussurrando sobre a imensidão do cosmos. Desperta-se, então, a curiosidade: de onde vem tudo isso? Gênesis 1:1 ressoa com uma autoridade que transcende: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (NVI). Não há matéria pré-existente, não há caos eterno – apenas o nada absoluto, e então, pela vontade soberana de Deus, o existir. A criação ex nihilo, do nada, é a proclamação de um Criador cuja asseidade – sua existência independente – não precisa de nada além de si mesmo. Enquanto isso, a ciência moderna nos diz que tudo começou por volta de 13,8 bilhões de anos, com o Big Bang – uma explosão de uma singularidade primordial que deu origem ao espaço, ao tempo e à matéria, regida por leis como a gravidade e a entropia.¹ Diante disso, surge uma pergunta que R.C. Sproul poderia levantar com um brilho nos olhos: quem, por trás da explosão do Big Bang, acendeu o pavio?²
Essa questão rompe a tensão aparente entre a cosmologia moderna e a fé reformada.³ A narrativa científica busca descrever o como – uma expansão cósmica que transformou uma densidade inimaginável em galáxias e nebulosas.⁴ Mas o quem permanece além das equações. O próprio Big Bang aponta para um início, um momento em que o universo passou do não-ser ao ser.⁵ A radiação cósmica de fundo, descoberta por Penzias e Wilson, e a entropia crescente, que mostra um cosmos caminhando para o equilíbrio térmico, derrubaram ideias como o estado estacionário de Fred Hoyle, que imaginava um universo sem começo.⁶ A ciência, então, alinha-se com a Escritura: o universo teve um princípio. Mas o que – ou quem – o iniciou? Stephen Hawking especulou que flutuações quânticas poderiam explicar o surgimento do universo, mas isso apenas empurra a questão para trás: de onde vieram as leis quânticas?⁷ Francis Collins, por outro lado, vê nas constantes finamente ajustadas do cosmos a sombra de um design.⁸ Ainda assim, a teologia cristã vai além: Romanos nos assegura que “o poder eterno de Deus e Sua divindade são vistos nas coisas criadas” (Rm. 1.20, NVI). A criação ex nihilo não é uma teoria entre muitas; é a revelação do quem por trás do pavio aceso.⁹
O próprio Big Bang aponta para um início, um momento em que o universo passou do não-ser ao ser.
A narrativa flui naturalmente para um desafio maior. Se o Big Bang explica o nosso universo, alguns cientistas, como os defensores do multiverso, sugerem que o nosso cosmos é apenas um entre infinitos, gerado por flutuações quânticas em um vácuo cósmico.¹⁰ Para o naturalista, isso elimina a necessidade de um Criador – o universo seria um acidente feliz em um mar de possibilidades. Mas pare um momento e reflita: mesmo que existam outros universos, eles também seriam contingentes, dependentes de algo que os sustente.¹¹ Tomás de Aquino, em sua Suma Teológica, argumentou que tudo que começa a existir tem uma causa, e essa cadeia não pode retroceder infinitamente – ela termina na causa primeira, que é Deus.¹² Jonathan Edwards ecoa isso ao dizer que a criação ex nihilo manifesta a teleologia divina, o propósito que permeia o ser.¹³ A Escritura reforça essa verdade: Deus “opera todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade” (Ef. 1.11, NVI). Então, quem acendeu o pavio não foi uma flutuação aleatória, mas o Deus cuja soberania ontológica transcende o tempo e o espaço.¹⁴ A cosmologia moderna, ao reconhecer a expansão contínua e a entropia inevitável, revela uma narrativa de propósito divino, na qual o caos aparente do multiverso ou do Big Bang encontra sentido na vontade soberana de Deus. A ordem natural é um espelho da providência divina, e Paulo afirma que “dele, por ele e para ele são todas as coisas”, conduzindo-nos a um louvor eterno diante da grandeza de Seu plano redentor (Rm. 11.36, NVI).
Tomás de Aquino, em sua Suma Teológica, argumentou que tudo que começa a existir tem uma causa, e essa cadeia não pode retroceder infinitamente – ela termina na causa primeira, que é Deus.
Essa soberania divina permeia a estrutura e a manutenção do cosmos, servindo como ponte natural para explorar como a criação se manifesta em detalhes específicos. Quando estamos tratando da criação ex nihilo, uma palavra que se destaca em Gênesis 1:1 é bara (בָּרָא), que difere notavelmente de outros verbos hebraicos, como asah (עָשָׂה). Enquanto asah pode significar “fazer” ou “modelar” a partir de uma matéria já existente, bara, de acordo como alguns teólogos, é empregada exclusivamente para descrever a ação criadora de Deus – a criação ex nihilo, isto é, a formação de tudo a partir do nada. Essa escolha vocabular revela a singularidade do Criador, cuja existência é autossuficiente e opera sem depender de qualquer substrato prévio. Isso enfatiza a autoridade absoluta de Deus na criação e diferencia Sua obra dos processos naturais conhecidos. Como argumenta Calvino, em Institutas da Religião Cristã, esse ato criativo revela tanto o poder quanto a natureza autônoma do Deus criador.¹⁵ R.C. Sproul também ressalta que a criação ex nihilo é o reflexo da soberania divina que desafia as concepções materialistas.¹⁶
Adicionalmente, a explicação criacionista nos obriga a reconhecer que o universo não é apenas um evento inicial, mas uma realidade sustentada continuamente pelo poder divino. Em Hebreus, lemos que o Filho é “o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do Seu ser, sustentando todas as coisas pela Sua palavra poderosa” (Hb. 1.3, NVI), implicando que a manutenção do cosmos é também um ato de providência. Essa sustentação não pode ser atribuída meramente a forças naturais ou a acasos cósmicos; ela aponta para um Criador que, desde o início, estabeleceu e continua a governar as leis que regem o universo. A ordem e a harmonia evidenciadas na natureza – desde a precisão das constantes físicas até a complexidade das estruturas celestes – atestam um design intencional que transcende explicações puramente naturalistas.
A ordem e a harmonia evidenciadas na natureza – desde a precisão das constantes físicas até a complexidade das estruturas celestes – atestam um design intencional que transcende explicações puramente naturalistas.
Em contrapartida, a aparente tensão entre Gênesis 1 e a cosmologia não é um campo de batalha, mas uma sala de aula. Agostinho advertia contra cristãos que falam bobagens sobre o universo, envergonhando a fé diante dos céticos.¹⁷ Sproul também costumava alertar contra harmonizações forçadas que diluem a Escritura.¹⁸ A ciência nos maravilha e é incentivada pelo próprio Deus como um meio para conhecê-lo. Ela é, com toda certeza, uma serva valiosa – mas nunca a senhora. Acontece que a fé nos leva mais a fundo do que apenas conhecer: ela nos leva à adoração. Calvino escreveu que “Deus, por Sua palavra, trouxe à existência o que não era”,¹⁹ enquanto Bavinck afirmou que “o cosmos é contingente; Deus é a necessidade metafísica”.²⁰ Sob esse céu estrelado, as estrelas não contam apenas uma história de, talvez, bilhões de anos; elas declaram, como diz o Salmo, “a glória de Deus” (Sl. 19.1, NVI). A criação ex nihilo enquadra a cosmologia moderna, não o contrário. O Big Bang, o multiverso, a entropia – tudo isso é um reflexo da voz que disse “Haja luz” (Gn. 1.3, NVI).
Dessa forma, com cada qual em seu devido lugar, respondendo às questões que fazem sentido aos seus respectivos propósitos e respeitando-se a hierarquia, não é errôneo concluir que a cosmologia e a criação ex nihilo podem entreter uma conversa. A ciência, no fundo, é um chamado à reverência; e seu estudo inspira-nos a confiar em Deus, cuja vontade soberana governa os céus e a terra, unindo criação e redenção em um único propósito glorioso. A entropia, embora, como alguns alegam, indício da queda, não tem a última palavra; o propósito redentor de Deus, revelado em Cristo, assegura a restauração final, assim como Apocalipse promete que “não haverá mais noite”, e a glória de Deus iluminará a nova criação (Ap. 22.5, NVI).
A ciência, no fundo, é um chamado à reverência; e seu estudo inspira-nos a confiar em Deus, cuja vontade soberana governa os céus e a terra, unindo criação e redenção em um único propósito glorioso
Imagine novamente aquele céu noturno. A pergunta ressoa: quem acendeu o pavio? A resposta não está em especulações científicas, mas na Palavra do Criador soberano. Ele é o que é, aquele que criou tudo, do nada, para sua glória eterna.²¹ A soteriologia nos lembra de que esse cosmos, criado e sustentado por Deus, é o palco da redenção, planejada desde a eternidade.²² Diante disso, o que resta senão curvar-se em adoração? As estrelas brilham, o universo se expande, mas tudo aponta para aquele que é, foi e sempre será – o Deus que acendeu o pavio e nos convida a conhecê-lo.²³
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