Cinco olhares sobre Teologia Natural
Por teologia natural (doravante TN) entende-se o empreendimento de avaliar a existência e os atributos de Deus por meio da racionalidade, sem recorrer à revelação divina especial. Ou essa parece ser uma das várias definições possíveis. Essa é uma das discussões abordadas no livro Teologia natural: cinco visões cristãs,¹ organizado por James K. Dew e Ronnie Campbell, que busca debater três importantes tópicos: o que é teologia natural, se devemos praticá-la e, caso a resposta seja afirmativa, como devemos proceder.
Tópicos que envolvem a existência de Deus estão entre as chamadas Grandes Questões da humanidade. Por isso, a TN desperta o interesse de muitas pessoas e, atualmente, integra debates intensos e significativos. Dentro da chamada filosofia analítica, a paisagem filosófica tornou-se, desde a década de 1960, mais receptiva ao debate sobre a existência de Deus. As últimas décadas testemunharam também um renascimento público desse debate; alguns livros, escritos por um grupo de pensadores conhecidos como neoateus, com uma abordagem mais crítica ao teísmo, permaneceram por várias semanas, no início do século 21, entre os mais vendidos. Tal debate deu origem a discussões que continuam a ecoar em plataformas digitais, como YouTube e podcasts, mantendo viva a reflexão sobre a existência de um ser todo-poderoso, perfeitamente bom e criador do mundo.
Dado esse contexto, um leitor mais desavisado pode considerar os desacordos presentes no livro intrigantes. Afinal, quem poderia ter algum tipo de censura contra a tentativa de provar a existência de Deus (a não ser, talvez, algum secularista mais intransigente)? Cinco autores foram convidados a escrever um ensaio em defesa de suas posições, seguido de uma réplica aos outros quatro ensaios e uma tréplica aos argumentos recebidos: Charles Taliaferro (visão contemporânea), Andrew Pinsent (visão católica), Alister McGrath (visão clássica), Paul Moser (visão deflacionária) e John McDowell (visão barthiana).
Dado esse contexto, um leitor mais desavisado pode considerar os desacordos presentes no livro intrigantes. Afinal, quem poderia ter algum tipo de censura contra a tentativa de provar a existência de Deus?
Charles Taliaferro defende que a TN seria “a reflexão filosófica sobre Deus baseada no raciocínio que não se fundamenta na revelação” (p. 31). Para ele, a TN deve ser praticada, pois pode fornecer boas razões para os descrentes abraçarem o cristianismo (p. 135). Além disso, o método mais promissor de ingressar nesse empreendimento é o abdutivo, conhecido também como inferência da melhor explicação, em que apontamos cosmovisões que nos parecem epistemicamente mais viáveis a fim de comparar “sua coerência interna e seu poder explicativo” (p. 31). Taliaferro expõe brevemente três argumentos teístas (cosmológico, teleológico e da consciência), comparando o naturalismo e o teísmo a fim de ver qual deles fornece a melhor explicação para a existência e estrutura do cosmo e para nossa consciência (este último argumento é uma especialidade do autor).
A defesa de Taliaferro é rigorosa e bem-argumentada. E, apesar de ter uma simpatia maior por essa posição, há dois problemas em sua contribuição: primeiro, Taliaferro explora pouco as oportunidades de réplicas; suas avaliações e respostas aos outros autores são breves e muitas vezes superficiais. Segundo, como nota McDowell (p. 58-59), Taliaferro parece pouco caridoso com a posição naturalista, de modo que ele escolhe como parceiro de confronto Alex Rosenberg, conhecido por sua visão extremada. Claro que as coisas podem ser atenuadas: estamos falando de um breve ensaio, e optar por uma posição mais extrema pode tornar o debate mais didático para o leitor. Ainda assim, uma prática filosoficamente importante ao analisar criticamente uma cosmovisão distinta da nossa é optar pela versão mais sofisticada (e pelas interpretações mais caridosas) de tal cosmovisão.
Uma prática filosoficamente importante ao analisar criticamente uma cosmovisão distinta da nossa é optar pela versão mais sofisticada (e pelas interpretações mais caridosas) de tal cosmovisão.
O segundo autor, o padre Andrew Pinsent, defende a posição católica – ou, mais precisamente, apresenta uma perspectiva informada por São Tomás de Aquino (p. 78). Ele parte da distinção feita por Tomás entre teologia natural (conhecimento de Deus através da razão e da natureza) e teologia sobrenatural (conhecimento através da revelação e da graça). Pinsent argumenta que é possível conhecer algo sobre a existência e os atributos de Deus através das “coisas que foram feitas, pela luz natural da razão humana” (p. 72). O autor explora as formas sutis e ricas de como São Tomás concebe a relação entre o natural e o sobrenatural, defendendo também que o estudo da TN, mesmo que limitado, pode ser importante para “facilitar a descoberta de pontos de consonância e de dissonância” entre o cristianismo e outras culturas não cristãs (p. 88). Assim, apesar de apontar suas limitações, Pinsent afirma que a TN “não é simplesmente uma adição rica e opcional à teologia revelada, mas é essencial para a compreensão da revelação” (p. 114).
Muito do que Pinsent diz é conciliador e razoável. Há, contudo, aquelas divergências protestantes. Por exemplo, embora Pinsent não negue o impacto do pecado original sobre nosso conhecimento natural de Deus, ele defende o chamado estado de natureza pura (p. 112) entre o pecado e a graça, que seria uma condição humana natural hipotética, desprovida da graça santificante, mas não marcada pelo pecado. Esse estado seria crucial para estabelecer um terreno comum de diálogo intercultural entre cristãos e não cristãos. O problema, como coloca McGrath, é “por que dar prioridade ou precedência a esta compreensão da teologia natural quando outras podem ser levadas em consideração?” (p. 95). Há aqui uma preocupação fundamental acerca de como os efeitos cognitivos do pecado afetaram a possibilidade da TN – preocupação que Pinsent trabalha a partir de uma explicação da teologia católica (p. 112-113), mas apresenta poucos argumentos para convencer aqueles de fora dessa tradição sobre sua solidez.
Alister McGrath defende a posição clássica. Um ponto destacado em seu informativo ensaio é que a definição mais comum de TN (fornecida no livro por Taliaferro) “é apenas uma das várias formas que ela assumiu durante sua trajetória” (p. 120). Ou seja, o conceito de TN é historicamente situado; sua definição depende da localização cultural na qual tal debate emerge, não existindo uma abordagem única e normativa. Por isso, sua própria abordagem defende que a TN deve ser não um empreendimento à parte da revelação divina, mas orientada pelo conceito trinitário de Deus (p. 125). A teologia natural é bidirecional (p. 126), tanto no sentido de ser uma forma especificamente cristã de ver o mundo natural (de Deus para a natureza), quanto no sentido de começar na exploração cognitiva da natureza para chegar à crença em Deus (da natureza para Deus).
A visão de McGrath é cuidadosamente pesquisada, historicamente articulada e, acima de tudo, irênica. McGrath mostra importantes pontos de intersecção que sua abordagem pode ter no diálogo entre ciência e religião (p. 130-133), na apologética (p. 127-130) e na dimensão mais afetiva e imaginativa do pensamento humano (p. 117-119, 127). Mas há uma questão fundamental aqui: como, exatamente, sua abordagem se diferencia? McGrath afirma que devemos começar nossa exploração da TN de dentro da fé cristã, e não a partir de possíveis premissas “neutras” sobre a natureza (p. 119). McGrath também mostra-se simpático à ideia de que sua noção de TN “pretende mostrar que uma estrutura imaginativa ou semiótica cristã consegue interpretar as complexidades de forma mais satisfatória do que suas alternativas seculares” (p. 126). Mas essa possibilidade da capacidade interpretativa superior da fé cristã parece, em última análise, depender de uma comparação entre cosmovisões, uma estratégia que remete à abordagem de Taliaferro. Mesmo partindo da tradição cristã, parte importante da justificativa epistêmica da proposta de McGrath consiste em considerações investigativas feitas à luz de valores cognitivos que compartilhamos com outras pessoas em virtude de nossa humanidade em comum (valores epistêmicos tais como consistência, simplicidade, poder explanatório), de modo que, se estamos dentro de um terreno onde razão e comparação desempenham um papel crucial, pode-se questionar se tal avaliação não transcende as fronteiras de qualquer fé já pressuposta.
Taliaferro, Pinsent e McGrath se mostram muito simpáticos à TN. Mas há cristãos que são menos do que totalmente impressionados. Paul Moser é um exemplo. De acordo com ele, o Deus revelado pela TN não é o Deus digno de adoração do teísmo cristão (o Deus de Abraão, Isaque e Jacó), mas uma divindade menor: “a teologia natural não conduz nem fundamenta a existência de um Deus digno de adoração” (p. 163). Ela tem, no máximo, um valor interrogativo ao levantar a questão da existência de Deus (p. 183), mas tem o ônus de gerar argumentos problemáticos, desnecessários e distrativos (p. 56).
Há um problema fatal na posição de Moser: seu ceticismo exacerbado acaba voltando-se contra si. Para qualquer argumento apresentado em favor do teísmo, Moser diz que tal argumento é compatível com uma visão de uma divindade menor, moralmente imperfeita. Contudo, se fôssemos tão exigentes (e imaginativos) quanto Moser, poderíamos interpretar de forma pouco caridosa seu próprio argumento da agência intencional (p. 180), a fim de afirmar que seria compatível com uma divindade menor, enganadora, que se compraz em iludir humanos fingindo ser o Deus cristão.
Moser não leva muito em consideração o fato de que os vários argumentos da TN podem fazer parte de um caso cumulativo capaz de apontar para a existência de um ser criador, extremamente poderoso (argumento cosmológico kalam), locus da bondade moral e do amor (argumento moral), pessoal, imaterial e racional (argumento da consciência). Tal descrição se harmoniza com a descrição bíblica divina, de modo que, para usar uma expressão de São Tomás de Aquino, chegamos a um ser que todos entendem como Deus. Moser sugere que tais atributos são compatíveis com a existência de outros tipos de divindades. Mas esse argumento é enganador: diferentes descrições podem perfeitamente ser compatíveis como referência ao mesmo ser. O ponto é saber se a TN favorece a existência de um ser sob este conjunto de descrições (criador, poderoso, amoroso, moral, pessoal, imaterial, racional) e compatível com o Deus encontrado nas escrituras cristãs. Se a TN favorece a hipótese de que há tal ser divino, ela claramente é compatível com o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, favorecendo o teísmo em comparação com o naturalismo.
Se a TN favorece a hipótese de que há tal ser divino, ela claramente é compatível com o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, favorecendo o teísmo em comparação com o naturalismo.
Por fim, John McDowell descreve a posição sombria de Karl Barth em relação ao empreendimento da TN; Barth via com desconfiança a tentativa de raciocinar acerca de Deus a partir da ordem natural do mundo, pois isso pareceria indicar certa autonomia e independência humana. Uma vez que Deus se revelou de modo irredutível em Cristo (p. 224), qualquer teologia fora desse espectro é um “erro teogramatical” (p. 232-237), de modo que não estamos mais fazendo teologia, mas antropologia cultural (p. 233). Assim, aqueles que tentam fazer teologia de modo autônomo, à parte dessa autorrevelação em Cristo, não estão fazendo teologia cristã (p. 234-235).
O capítulo de McDowell é o de mais difícil entendimento, com explicações intrincadas sobre a posição de Barth. Um problema grave da posição barthiana é que ela parece contradizer a própria revelação cristã. Pense em São Paulo compartilhando o evangelho com um grupo de filósofos estoicos e epicuristas no Areópago em Atenas (Atos 17.22-31): longe de simplesmente descartar o pensamento não cristão de seus ouvintes por ser independente do revelado em Jesus Cristo, São Paulo demonstra uma notável abertura ao raciocínio natural e ao conhecimento de Deus presente na cultura pagã; ele reconhece a devoção dos atenienses e utiliza até mesmo a inscrição em um altar dedicado a um certo Deus desconhecido como ponto de partida para sua mensagem. Além disso, ele cita os poetas pagãos Epimênides (Pois nele vivemos, nos movemos e existimos) e Arato (Somos descendência dele), mostrando que via em tais pensadores uma apreensão parcial da verdade sobre a realidade divina. Isso aponta para uma disposição paulina de reconhecer que esses elementos da cultura grega continham alguma verdade sobre Deus (ainda que incompleta), fora da revelação divina especial.
Ao apresentar um leque de respostas distintas, Teologia natural: cinco visões cristãs convida o leitor a refletir criticamente sobre as bases e os limites da TN. As diferentes posições apresentadas refletem importantes tensões teológicas e filosóficas com implicações significativas para a compreensão da fé cristã e sua comunicação com o mundo. O debate certamente estimula uma investigação pessoal e mais aprofundada sobre como o conhecimento de Deus pode ser buscado e articulado, considerando tanto a ordem criada quanto a revelação especial.
As diferentes posições apresentadas refletem importantes tensões teológicas e filosóficas com implicações significativas para a compreensão da fé cristã e sua comunicação com o mundo.
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* Estudo selecionado na 10ª chamada de Estudos de Livro do Radar ABC².
1. James K. Dew Jr., Ronnie P. Campbell Jr. (Eds.), Teologia natural: cinco visões cristãs, 2025.
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