SIMPÓSIO

Teologia natural para quê?*

Guilherme de Carvalho|

21/11/2025

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Guilherme de Carvalho

Guilherme de Carvalho é mineiro de Belo Horizonte. Teólogo e pastor evangélico reformado, fundou a Associação Kuyper para Estudos Transdisciplinares e, com um grupo de amigos cientistas, a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência.

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Como citar

Carvalho, Guilherme de. Teologia natural para quê? Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 6, jul-dez, 2025.

De meus anos iniciais de formação teológica, anos atrás, não consigo me lembrar de nenhuma discussão significativa sobre o tema da teologia natural, exceto quanto à sua alegada superação pela teologia moderna ou sua inviabilidade confessional. Eu já era professor de teologia quando o assunto finalmente se acendeu, faiscante e incontornável. E descobri que, na verdade, ele nunca envelhecera; seu esquecimento temporário foi menos um problema de mérito e mais de entorpecimento cultural.

Mas agora, de certo modo despertos do sono da epistemologia moderna, teólogos de muitas tradições cristãs tem dado seu melhor para retomar aquela conversa extraordinária que o apóstolo Paulo inaugurou no areópago de Atenas, sobre a relação entre a proclamação do Cristo ressurreto e a experiência humana da racionalidade e da bondade divinas na criação. Uma das expressões mais interessantes desse movimento teve seu epicentro no Reino Unido, a partir dos esforços de Thomas Torrance, tradutor das obras de Karl Barth e influência decisiva no pensamento de Alister McGrath. Essa corrente teve influência decisiva sobre a ABC2, mas as contribuições relevantes vieram de muitos lugares, e o debate prossegue animadamente.

Mas agora, de certo modo despertos do sono da epistemologia moderna, teólogos de muitas tradições cristãs tem dado seu melhor para retomar aquela conversa extraordinária que o apóstolo Paulo inaugurou no areópago de Atenas.

O que o leitor tem em mãos é uma excelente introdução ao tema, contornando discussões históricas e focalizando aos problemas e possibilidades da teologia natural. O livro apresenta as visões “contemporânea”, “católica”, “clássica”, “deflacionária” e “barthiana” sobre a teologia natural — cinco no total. Vamos discutir brevemente cada uma delas, à guisa de introdução.

O filósofo Charles Taliaferro, defende o que chama de “visão contemporânea” da teologia natural. Em suas palavras, “a reflexão filosófica sobre Deus baseada em raciocínio que não depende da revelação”. O filósofo vê os teólogos naturais atuando como embaixadores da fé cristã diante de seus críticos, e convidando os descrentes a considerar o poder explanatório do cristianismo em comparação com outras cosmovisões.

Para estruturar sua linha de argumentação, o Dr. Taliaferro adota explicitamente uma abordagem epistemológica abdutiva. Distinguindo-se da dedução e da indução, a abordagem abdutiva esclarece a natureza holística de nossa experiência cognitiva normal, envolvendo a percepção de formas e totalidades integradas, muitas vezes em antecipação à justificação rigorosa. Por essa via Taliaferro sustenta que, considerada globalmente, a cosmovisão Cristã apresenta mais plausibilidade e verossimilhança do que seu principal concorrente atual, o naturalismo metafísico.

Embora atraente, não é uma posição invulnerável a críticas. Chama a minha atenção, como teólogo, a objeção de Alister McGrath, que pergunta se o objetivo declarado de Taliaferro de defender a fé cristã não vai contra seu compromisso de não depender da revelação. Oculta-se, aí, o potencial de construir uma versão minimalista da crença em Deus, capaz de existir, então, independente da religião revelada.

E o risco é de certo modo confirmado na própria obra, em uma menção curiosa e aparentemente gratuita do Dr. Taliaferro à possibilidade de rejeitarmos o ensino bíblico sobre a prática homossexual com base em uma visão filosófica elevada sobre Deus, segundo a qual um Deus maximamente excelente e bom não teria inspirado tais preceitos. Ou seja: constrói-se uma concepção de Deus independentemente de sua revelação, visando construir uma base comum, mas o resultado é uma descida à mente secular, que acaba excluindo inadvertidamente a autoridade da revelação especial. Não dizia Francis Schaeffer, que “deixada autônoma, a natureza devora a graça”?

Passando à visão católica, temos o Padre Andrew Pinsent, profundamente devedor de Tomás de Aquino e do teólogo e cardeal Irlandês John Henry Newman. Nessa visão a teologia natural seria uma reflexão sobre Deus independente de “fontes especiais” como as Escrituras e a tradição da igreja e, portanto, diferente da teologia revelada. A teologia natural envolveria a “razão não auxiliada” ao invés da “razão iluminada pela fé”, e colocaria todo o seu foco na criação e em seu Criador, ignorando a obra salvadora de Deus, a revelação trinitária e os temas que exigem revelação especial. Em resumo, seria um estudo sobre o natural ao invés do sobrenatural.

Segundo Pinsent, o sobrenatural é uma forma de vida que objetivamente compartilha da natureza divina através de um trabalho especial de Deus e, subjetivamente, encontra suas raízes no Amor divino. O natural, por outro lado, carece tanto dos aspectos objetivos quanto subjetivos desse trabalho especial. No entanto, os sujeitos naturais não podem deixar de declarar a glória do Deus que os criou, e os objetos naturais proclamam igualmente sua obra. A teologia natural, portanto, poderia ser dividida em três categorias: uma compreensão natural subjetiva de coisas objetivamente naturais, uma compreensão natural subjetiva de coisas objetivamente sobrenaturais, e uma compreensão sobrenatural subjetiva de coisas objetivamente naturais.

Aqui a crítica protestante verá uma incômoda proximidade entre as visões “contemporânea” e “católica”, no risco de deixar a natureza e a razão operando autônomas. Que compreensão do natural e do sobrenatural pode ser alcançada pela mente natural, tendo em mente os efeitos cognitivos do pecado? Será mesmo que a graça é essencial apenas para a compreensão de coisas sobrenaturais? O questionamento, articulado mais claramente por McGrath e Paul K. Moser, diz respeito à implausibilidade de um “estado de pura natureza”, de alguma forma aninhado “entre pecado e graça”. Será que o esquema católico funciona?

Que compreensão do natural e do sobrenatural pode ser alcançada pela mente natural, tendo em mente os efeitos cognitivos do pecado? Será mesmo que a graça é essencial apenas para a compreensão de coisas sobrenaturais?

O cientista e teólogo anglicano Alister McGrath se encarregou da “visão clássica” sobre a teologia natural. Essa abordagem tanto nega a viabilidade de uma teologia natural autônoma em relação à revelação, quanto afirma a possibilidade de uma teologia natural orientada pela revelação. Na sua visão a teologia natural, adequadamente compreendida e praticada, não emergirá de premissas neutras, mas sim de uma base teológica informada pela fé cristã; ela começará na fé, ao invés de fora dela. Mas nos impediria de incorporar, a partir dessa base, as melhores contribuições da visão “contemporânea” e da visão “católica”.

Tal abordagem clássica seria bidirecional, envolvendo dois movimentos: por um lado, uma exposição racional da teologia, em pleno diálogo com a ciência e, por outro, “uma reimaginação teológica da natureza”. Deveríamos, antes de tudo, pensar teologicamente sobre a natureza como criação, a partir de Cristo e da revelação especial. Mas com isso, poderíamos nos engajar sem relutância em discussões contemporâneas sobre ciência e religião, honrando a necessidade de evidência probatória ao falar sobre a realidade e afirmando a legitimidade da ciência e de suas contribuições para a própria discussão teológica.

E nosso teólogo vai além: para ele, a teologia natural é um empreendimento que combina tanto o racional quanto o imaginativo. Ele sugere que a teologia natural deve ser vista como um complemento à ciência, abordando “metaquestões” que vão além do que normalmente se considera teologia natural. Ela não seria útil apenas para a igreja, portanto, tendo uma contribuição mais ampla para o campo acadêmico. Finalmente, McGrath observa que a teologia natural pode evocar o sobrenatural de forma concreta, através de elementos como música e arquitetura inspiradoras. Essa abordagem ampliaria a compreensão do campo da teologia natural, com potencial extraordinário.

Em contraste com as abordagens mais positivas da teologia natural, o respeitado filósofo Paul Moser busca “desinflar as pretensões” da disciplina, especialmente quando ela pretende alcançar o Deus do cristianismo. Moser examina de modo impiedoso diversos argumentos para a existência de Deus, incluindo os argumentos ontológico, teleológico e cosmológico, expondo cada falha que pôde encontrar. Mas seu objetivo final vai além disso, para uma questão central: “Qual deus está em jogo quando se oferece um argumento de teologia natural?”

Qual deus está em jogo quando se oferece um argumento de teologia natural?

A questão, para Paul Moser, é que o Deus bíblico é muito diferente do deus da teologia natural. Os argumentos teístas oferecem um conhecimento de “saber-que” sobre a “realidade de Deus”, em vez do “saber-quem” de “Deus como um agente pessoal de contato direto”. Em contraste, Moser argumenta que uma discussão Bíblica sobre a realidade de Deus deveria se concentrar na relação Eu-Tu entre a humanidade e Deus, e nas evidências do divino na experiência interpessoal.

Ou seja: além de um problema de competência, Moser enxerga um problema de relevância na teologia natural. O que é relevante é um conhecimento relacional e existencial de Deus, ao invés de um conhecimento meramente intelectual ou racional. Moser critica a teologia natural por não conseguir apontar para o verdadeiro Deus do cristianismo, que é um Deus bom e digno de adoração. Para ele a ênfase deveria estar na transformação da relação com Deus, que vai além do mero assentimento intelectual à sua existência. Para ele esse tipo de abordagem seria muito mais eficiente na comunicação com um mundo descrente.

Como se vê nas respostas, no entanto, uma coisa é levantar objeções contra os argumentos teístas clássicos (nada de novo aqui); outra coisa é provar em definitivo que eles não funcionam. E quanto à oposição entre argumentos teístas e argumentos relacionais e existenciais, é preciso observar que eles são perfeitamente complementares. Parece-me haver mais lógica nas críticas de Paul Moser aos argumentos teístas do que no contraste que ele procura traçar.

E quanto à oposição entre argumentos teístas e argumentos relacionais e existenciais, é preciso observar que eles são perfeitamente complementares.

A quinta perspectiva sobre a teologia natural é apresentada por John McDowell, baseada na visão de Karl Barth, para muitos, o maior teólogo protestante do século vinte. Para Barth, a teologia natural não é má teologia; na verdade, ela nem mesmo é teologia. Uma teologia digna do nome precisa se fundamentar na autorrevelação de Deus em Cristo, que é seu compromisso de “ser Deus para a criatura”. A visão barthiana da teologia natural rejeita qualquer tentativa de raciocinar sobre Deus a partir da ordem natural. Essa abordagem nada mais seria que uma tentativa pecaminosa de afirmar autonomia e independência em relação a Deus. Trata-se, claro, de uma linha de crítica fundamentalmente teológica e moral, que pode ser abstraída da questão mais filosófica da eficiência dos argumentos teístas. O problema não é se funcionam ou não, mas se tem direito de existência.

O livro apresenta uma visão ampla e um debate animado, desafiador e de alta qualidade intelectual. Sua publicação é a ocasião adequada para um convite ousado: é chegado o tempo de abrir as tendas da teologia brasileira e dar à teologia natural a dedicação que ela merece.

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

* Prefácio à edição brasileira.

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