Unus Mundus: revista digital
Eu acredito muito apaixonadamente na unidade do conhecimento. Existe um mundo uno que constitui a realidade — o mundo uno que tentamos descrever a partir da nossa experiência. Claro, há os diferentes aspectos e níveis dessa realidade; nosso encontro com o mesmo evento pode se dar de diferentes maneiras. Poderíamos descrevê-lo em termos estritamente físicos, ou como portador de beleza, ou um momento de escolha moral; pode ser até o momento em que encontramos Deus. Existem essas diferentes camadas, mas de algum modo todas elas precisam se encaixar. Quero conectá-las de uma forma que respeite as diferentes características de cada nível que experiencio, bem como o fato de ser a experiência de uma realidade única (John Polkinghorne, Cross Currents, 1998).
Citar este pensamento de John Polkinghorne na abertura do editorial de lançamento da Unus Mundus tem motivação especialmente significativa, a começar pelo fato de que a inspiração para o título da revista vem daí. Mais do que isso, ele expressa de forma muito apropriada um dos conceitos fundantes da revista que estamos lançando: a origem una de todas as coisas.
Conquanto a matriz do título seja essa referida anteriormente, a expressão latina unus mundus é de origem longínqua e emprego diverso ao longo tempo. Não vamos, porém, historiar sobre isso. A acepção que nos interessa é esta alinhada à visão de Polkinghorne, mas acrescida de certa afinidade à sua concepção original. Segundo Marie-Louise von Franz, a expressão unus mundus “originou-se na filosofia natural medieval, onde denotava o plano cósmico preexistente atemporal ou modelo de mundo antecedente, potencial na mente de Deus, segundo o qual ele executou a criação real” (Number and Time, 1974). Sem nos associarmos a todas as peculiaridades dessa concepção, partilhamos da ideia de que os abundantes indícios de unidade que vislumbramos no mundo — e a ciência nos ajuda muito nisso — são reveladores de que o único-realmente-existente é a fonte una de todo ser.
Além de se referir a uma unidade velada subjacente à esplêndida multiplicidade de formas e aspectos pelos quais a realidade se apresenta, na frase inicial Polkinghorne faz alusão a uma suposta “unidade do conhecimento”, que nem todos considerarão viável — a propósito, veja aqui o excelente artigo de Marcelo Cabral sobre este tema. Contudo, sempre poderemos recorrer à metáfora da montanha que, sendo uma só, pode ser apreciada de diferentes perspectivas. Mais do que isso, dois observadores situados em posições distintas, ao se aproximarem em diálogo, permitirão que suas perspectivas se juntem estabelecendo uma visão mais ampla.
Contudo, sempre poderemos recorrer à metáfora da montanha que, sendo uma só, pode ser apreciada de diferentes perspectivas. Mais do que isso, dois observadores situados em posições distintas, ao se aproximarem em diálogo, permitirão que suas perspectivas se juntem estabelecendo uma visão mais ampla.
Dessa maneira, a Unus Mundus foi pensada para ser uma revista digital multidisciplinar visando explorar temas situados nas áreas de interação entre os mundos da ciência, da filosofia e da teologia cristã.
A esta altura, os leitores poderão notar que a logomarca da revista incorpora, de maneira muito própria, este conceito de unidade oculta na diversidade do mundo: o unus do título se apresenta como que fragmentado e incógnito na constituição do mundus. Contudo, é discernível; e o será mais ainda, se tomarmos as partes certas e as colocarmos juntas. Mais uma vez, cabe lembrar aqui o pensamento do rabino Jonathan Sacks, para quem: “A ciência separa as coisas em partes para ver como elas funcionam. A religião coloca as coisas juntas para entender o que elas significam”.
O nome da revista não é à toa: a crença de que a diversidade aspectual da criação é tecida em uma única realidade nos impulsiona a buscar e entender a conexão entre seus diversos fios. Entretanto, sustentamos que tal busca não deve resultar em fórmulas simplistas nem em reduções, sejam metodológicas, ontológicas ou epistemológicas. O mundo é sempre maior e mais amplo do que nossas capacidades cognitivas tendem a enxergar.
Embora seja uma iniciativa da Academia ABC², a revista será de caráter e estilo não acadêmicos, mas direcionada a pessoas interessadas em abordagens academicamente informadas. Cada uma de suas seções — artigos, ensaios, colunas, excertos e simpósios de livros, podcasts e entrevistas — será um importante veículo de conhecimentos para os leitores. Esperamos que, ao ler a revista, os leitores entrem em contato com diversos temas e aprendam coisas novas sobre fé, ciência, filosofia e cultura. As publicações da revista tanto informarão (isto é, trarão e explicarão fatos) como oferecerão caminhos exploratórios, indagando, questionando e elucubrando sobre os temas pertinentes.
Assim, caros leitores, usufruam, apreciem, discutam e divulguem a Unus Mundus!
Que o Senhor, em sua multiforme sabedoria e rica misericórdia, conceda luz e graça a todos que frequentarem estas páginas, seja como autores, seja leitores. E que isso se faça para a sua glória, “pois nele vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17:28).
Os editores
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