A Filosofia da Religião no Brasil (3/3)

Agnaldo Cuoco Portugal|

22/06/2026

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Agnaldo Cuoco Portugal

Professor Associado do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília. Tem graduação em Filosofia e Antropologia pela Universidade de Brasília, especialização em Filosofia da Religião pela PUC Minas, mestrado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutorado em Filosofia da Religião pelo King’s College da Universidade de Londres. Foi professor visitante na Universidade de Notre Dame (USA) e presidente da Associação Brasileira de Filosofia da Religião (ABFR).

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Como citar

Portugal, Agnaldo Cuoco. A Filosofia da Religião no Brasil (3/3). Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 7, jan-jun, 2026.

Em vista de tudo o que foi exposto nos artigos anteriores, podemos agora nos voltar ao tema central deste texto, conforme anunciado em seu título. Não seria possível abordá-lo adequadamente sem antes conceituar a filosofia da religião, e, para isso, foi necessário enfrentar a tarefa ainda mais fundamental de compreender o que é a filosofia. Com todo esse percurso já realizado, a descrição que se segue torna-se não apenas mais compreensível, mas também mais simples.

Em certo sentido, podemos dizer que a filosofia da religião esteve presente desde os primeiros passos da Filosofia no Brasil. Em outro sentido, porém, é possível considerá-la um campo de investigação ainda bastante recente, cujo desenvolvimento atual aponta para um futuro promissor.

Podemos dizer que a filosofia da religião esteve presente desde os primeiros passos da Filosofia no Brasil.

Um passado de forte presença

Vimos que Filosofia é a área do conhecimento dedicada à reflexão sobre conceitos mais gerais e fundamentais da experiência humana. Vimos também que a filosofia da religião é a disciplina que se ocupa das ideias envolvidas na vida religiosa, tais como Deus (sua existência e sua natureza à luz da razão humana), a racionalidade da fé, a relação entre ética e religião, entre outros temas.

Segundo Ivan Domingues, em Filosofia no Brasil – legados e perspectivas: ensaios metafilosóficos (2017), diferentemente da colonização espanhola, Portugal decidiu não fundar universidades no Brasil no período colonial. Em consequência disso, o estudo de Filosofia nesse período ficou restrito a poucos seminários católicos e escolas de artes, especialmente aqueles fundados e administrados pelos jesuítas. A formação sacerdotal católica incluía o estudo da Filosofia como etapa preparatória para a Teologia. Entre os conteúdos filosóficos estudados estavam certamente temas que hoje classificamos como pertencentes à filosofia da religião, como argumentos da razão natural (ou seja, sem recorrer à revelação) sobre a existência de Deus, os atributos de Deus, a religião como relação entre o ser humano e a divindade (Domingues, 2017: 159). Domingues observa que, além da enorme carência e do caráter ainda incipiente dos estudos filosóficos no Brasil naquele período, não havia incentivo ao desenvolvimento de um pensamento filosófico propriamente brasileiro. Isso se dava em parte porque os jesuítas adotavam currículo e método de estudos padronizados para suas instituições acadêmicas em diferentes partes do mundo, conhecidos como Ratio Studiorum (Domingues, 2017: 143).

Uma presença intelectual singular no período colonial brasileiro foi, sem dúvida, a do Padre Antônio Vieira (1608-1697). Nascido em Portugal, ele escreveu boa parte de seus textos – principalmente seus sermões – em terras brasileiras, particularmente em Salvador, na Bahia, e em São Luís do Maranhão. Embora seus escritos tivessem como finalidade principal a catequese e a pregação, é possível identificar neles diversos temas que hoje associamos à filosofia da religião. Entre esses temas, destacam-se a busca por fundamentos religiosos para uma ética em defesa dos mais fracos, a crítica à corrupção política em princípios religiosos, a relação entre fé e ciência e questões de antropologia filosófica (especialmente a reflexão sobre a condição humana diante da infinitude e da absoluta transcendência de Deus).

A expulsão dos jesuítas do Brasil pelo Marquês de Pombal, em 1759, representou um marco inicial da diversificação dos estudos de Filosofia no Brasil e, consequentemente, da filosofia da religião entre nós. Outros acontecimentos históricos igualmente relevantes foram a transferência da família real portuguesa para o Rio de Janeiro e a posterior declaração de independência do Brasil do domínio português, eventos que também produziram impactos significativos na vida intelectual brasileira. Nesse período, foram fundadas as faculdades de Direito do Recife e de São Paulo, além do Colégio Pedro II, instituições nas quais a Filosofia passou a ser desenvolvida fora dos círculos seminarísticos. Intelectuais como Tobias Barreto e Raimundo Farias Brito dedicaram-se à reflexão sobre correntes filosóficas vindas da Europa, especialmente as ideias de Kant, Hegel e Darwin. Domingues (2017: 281) identifica três grandes correntes filosóficas que exerceram influência significativa no Brasil no início do século 20: a corrente espiritualista, de matriz francesa e italiana; a corrente positivista francesa (alguns dos primeiros alunos de Comte eram brasileiros e posteriormente fizeram parte do movimento republicano); e a corrente materialista e evolucionista, de matriz britânica e alemã. A filosofia da religião no sentido que a temos tratado, continua presente nesse cenário, contudo, ela agora deixa de estar vinculada exclusivamente à tradição escolástica tardia dos jesuítas e passa a dialogar também com as críticas à religião formuladas por correntes como o kantismo, o positivismo e o materialismo.

A expulsão dos jesuítas do Brasil pelo Marquês de Pombal, em 1759, representou um marco inicial da diversificação dos estudos de Filosofia no Brasil e, consequentemente, da filosofia da religião entre nós.

Uma consequência importante da Proclamação da República – inspirada no Brasil pelo positivismo de Comte, como convém recordar – foi o estabelecimento de uma separação mais nítida entre Estado e religião, mudança esta que contribuiu para um aumento da diversidade religiosa. Um dos sinais desse processo foi a criação do primeiro seminário de formação de pastores protestantes no Brasil, o Seminário Positivo, da Igreja Presbiteriana, fundado em 1867, no Rio de Janeiro. Embora a tradição oriunda da Reforma Protestante, especialmente a partir de Martinho Lutero e João Calvino, atribuísse à Filosofia um papel menos central na formação presbiteral, ela continuou presente por meio de algumas disciplinas introdutórias no curso de Teologia.

A participação protestante na filosofia da religião do Brasil foi fortalecida na segunda metade do século 20. Um dos exemplos mais significativos dessa participação é Rubem Alves, de formação presbiteriana, que se dedicou depois também à filosofia da educação e à literatura. Alves foi o autor de O enigma da religião (1975), cujas ideias foram sintetizadas em O que é Religião? (1981), volume da influente Coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense. Ele também se destacou como um dos representantes protestantes da Teologia da Libertação. Outro marco importante do pensamento protestante na filosofia da religião do Brasil foi o artigo “Calvinistas também pensam: uma introdução à filosofia reformada” (1996), de Ricardo Quadros Gouvêa. Em uma perspectiva distinta de Alves, Gouvêa apresentou ao público brasileiro ideias e autores da filosofia reformada, muito pouco conhecidos no país até então, como Abraham Kuyper e Herman Dooyeweerd.

Não poderíamos encerrar esta breve apresentação dos antecedentes da filosofia da religião no Brasil sem mencionar Henrique Vaz, também conhecido como Pe. Vaz (1921-2002). Reconhecido como um dos maiores nomes da filosofia no Brasil, foi autor de várias obras, em que sintetiza, de forma original, o pensamento de autores como Platão, Tomás de Aquino e Hegel, sempre com espaço significativo para a elaboração de suas próprias contribuições filosóficas. Vaz destacou-se principalmente nas áreas de Antropologia Filosófica, Ética e Metafísica, e em todas elas o fenômeno religioso e as questões relacionadas à religião ocupam um lugar relevante em suas reflexões. Por essa razão, ele pode ser considerado um dos mais importantes filósofos da religião do Brasil.

A essa altura, já estamos nos aproximando do presente da filosofia da religião no Brasil. Contudo, o sentido em que utilizo aqui a noção de “presente” ficará mais claro na seção seguinte.

Um presente bastante recente

Domingues (2017: 377) observa que a criação da Universidade de São Paulo, em 1934, e a atuação da missão francesa responsável pela formação de seu Departamento de Filosofia tiveram impacto “de máxima importância” nos rumos da filosofia acadêmica no Brasil. A partir desse momento, consolidou-se um impulso decisivo no modo como a filosofia passaria a ser praticada no meio acadêmico do país. A missão francesa introduziu um “modo profissional” de fazer Filosofia, voltado sobretudo para a pesquisa em História da Filosofia. Diferentemente dos seminários de formação presbiteral (católicos ou protestantes), nos quais o estudo filosófico era realizado sobretudo por meio de manuais, a filosofia acadêmica implantada na USP, e que acabou influenciando todo o país, enfatizava o estudo direto dos textos originais dos grandes autores. Nesse contexto, o estudo dos originais utilizando o método estrutural, descrito por Goldschmidt, passou a ser considerado o modo privilegiado de fazer filosofia acadêmica no Brasil. A pesquisa em História da Filosofia tornou-se, assim, a principal referência metodológica para a formação e a produção filosófica universitária no país (Domingues, 2017: 410). Mesmo questionando a influência nacional do método estrutural francês, Evaldo Sampaio (2023) não nega a predominância da pesquisa historiográfica em Filosofia no Brasil ao longo desse período.

Diferentemente dos seminários de formação presbiteral, nos quais o estudo filosófico era realizado sobretudo por meio de manuais, a filosofia acadêmica implantada na USP enfatizava o estudo direto dos textos originais dos grandes autores.

É nesse contexto que prossegue a institucionalização da filosofia acadêmica no Brasil, com a criação, em 1983, da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF). Inicialmente concebida como uma entidade voltada à articulação dos programas de pós-graduação da área, a ANPOF acabou se consolidando como a principal organização representativa da Filosofia enquanto campo de conhecimento no país. Desde 1984, a associação promove encontros nacionais bienais, sempre realizados nos anos pares. Esses eventos estão entre os maiores congressos de Filosofia no mundo em número de participantes. Em sua edição de 2024, por exemplo, o encontro reuniu mais de dois mil trabalhos apresentados, evidenciando a vitalidade e o crescimento da pesquisa filosófica brasileira.

É nesse contexto que emprego a expressão “presente” da filosofia da religião no Brasil. Como afirmei em outra publicação:

O marco temporal que vai nos servir de referência é o início dos anos 2000. Em 2004, um grupo de professores da PUC São Paulo, da Universidade Federal de Juiz de Fora e da Universidade de Brasília, entre outros, propuseram à ANPOF (Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia) a criação do Grupo de Trabalho de Filosofia da Religião. Em 2005, foi realizado na UnB o 1º Congresso Brasileiro de Filosofia da Religião e, em 2006, no X Encontro Nacional da ANPOF, em Salvador-BA, aconteceu a primeira reunião do GT de Filosofia da Religião da ANPOF. Em 2010 foi fundada a Associação Brasileira de Filosofia da Religião – ABFR e, em 2014, foi criada a Revista Brasileira de Filosofia da Religião (Portugal e Portugal, 2023: 28).

É curioso notar que, embora a ANPOF tenha sido criada em 1983 e a filosofia da religião possua uma longa trajetória na história intelectual do Brasil, foi somente em 2006 que ocorreu a primeira reunião de um grupo de trabalho dedicado especificamente a essa disciplina no âmbito da principal entidade acadêmica de Filosofia do país.

Outro aspecto digno de nota é a opção assumida pelo trabalho coletivo. A criação da ABFR, que realizou, em 2025, o seu décimo primeiro congresso, foi orientada pela compreensão de que Filosofia se constrói de forma comunitária, por meio do diálogo entre diferentes abordagens acerca de um mesmo tema – no caso, o fenômeno religioso – em um ambiente de colaboração voltado à busca pelo conhecimento. Esse pluralismo de perspectivas, unido pelo objetivo comum de aprofundar a compreensão filosófica da religião, pode ser ilustrado por uma das mesas de apresentação no I Congresso Brasileiro de Filosofia da Religião, realizado em Brasília, em 2005, descrita em Portugal e Portugal (2023: 29). Na ocasião, o Professor Ricardo Quadros Gouvêa (mencionado anteriormente como um dos introdutores da filosofia reformada no Brasil) mediou um debate entre o professor Mauro Castelo Branco (que apresentava um trabalho sobre Marx) e o professor Jair Barboza, especialista em Schopenhauer. Poucas áreas da Filosofia conseguem reunir, em um mesmo evento, estudiosos de autores tão diversos e de campos tão distintos do saber filosófico, que vão da Lógica à Estética, da Epistemologia à Filosofia Política, todos voltados à reflexão sobre um mesmo tema geral. Isso evidencia não apenas a amplitude da filosofia da religião, mas também a centralidade do fenômeno religioso na experiência humana.

Poucas áreas da Filosofia conseguem reunir, em um mesmo evento, estudiosos de autores tão diversos e de campos tão distintos do saber filosófico, que vão da Lógica à Estética, da Epistemologia à Filosofia Política, todos voltados à reflexão sobre um mesmo tema geral.

Um futuro promissor e desafiador

Parafraseando um conhecido verso de uma canção de fim de ano, pode-se dizer que o futuro da filosofia da religião no Brasil já começou. A pluralidade de perspectivas e abordagens continua sendo uma das características mais marcantes da área no país, e tudo indica que essa diversidade tem se ampliado ao longo dos últimos anos.

Recentemente, temos assistido a um crescimento de iniciativas que oferecem alternativas à prevalência das abordagens historiográficas da filosofia acadêmica brasileira. Diversos jovens filósofos da religião brasileiros (e alguns outros não tão jovens) têm buscado participar mais ativamente dos debates internacionais sobre questões temáticas, conforme expus em Portugal e Portugal (2023). Não se trata de desvalorizar a abordagem histórica, cuja importância permanece inegável, mas de ampliar e diversificar o modo como se faz Filosofia no país por meio de trabalhos com menos comentários e mais reflexões autorais.

Nesse sentido, a criação, em 2016, da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC2), embora não seja uma instituição dedicada exclusivamente à Filosofia e adote uma perspectiva vinculada à fé cristã, contribuiu significativamente para a ampliação de publicações de filosofia da religião no Brasil. Além de promover a tradução cuidadosa de excelentes obras contemporâneas da área, a ABC2 tem incentivado a produção acadêmica nacional por meio de editais de financiamento à publicação. Essa iniciativa tem possibilitado a divulgação de trabalhos de filósofos brasileiros, especialmente da nova geração, entre os quais se destacam Bruno Ribeiro, Arthur Santos, Davi Bastos e Gesiel da Silva.

Outro aspecto relevante desse futuro promissor da filosofia da religião no Brasil é a ampliação das tradições religiosas como referência para a reflexão filosófica. Nesse contexto, iniciativas como as de José Eduardo Porcher (2025), que propõe uma filosofia da religião afro-brasileira (especialmente o candomblé), e de Ricardo Silvestre (2024), que considera as tradições religiosas indianas, ilustram uma tendência que vem se consolidando nos últimos anos. Esses são exemplos de esforços que ampliam o horizonte da filosofia da religião no Brasil, favorecendo o diálogo com diferentes experiências religiosas e contribuindo para uma compreensão mais plural e abrangente do fenômeno religioso.

Outro aspecto relevante desse futuro promissor da filosofia da religião no Brasil é a ampliação das tradições religiosas como referência para a reflexão filosófica.
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