Filosofia da religião é o segmento da Filosofia que se dedica a entender o tema da religião nos limites dessa área do conhecimento. Para entendermos como ela acontece no Brasil, proponho que falemos primeiro sobre o que é a abordagem filosófica da religião e em que ela se distingue de outras maneiras de tratar esse assunto. Na sequência, veremos um pouco da história da filosofia da religião em terras brasileiras, de que modo ela está sendo desenvolvida hoje nesse território e quais são seus desafios e suas perspectivas para o futuro.
1. Filosofia
1.1 Filosofia como forma de vida
Vamos começar esclarecendo o que é a filosofia e quais seriam os limites e as capacidades dela, pois esse é um pressuposto central para entendermos melhor o que é filosofia da religião.
Uma resposta importante para a questão sobre o que é a filosofia foi apresentada pela influente filósofa brasileira Marilena Chauí no artigo que dá o título a um de seus livros mais recentes: Filosofia, um Modo de Vida (2025). A autora se inspira nas ideias do filósofo e historiador francês Pierre Hadot acerca de como a filosofia era praticada na antiguidade, na Grécia, onde teve início a tradição ocidental. Em O que é a Filosofia Antiga? (1999), ele defende a tese de que, para os grandes representantes do pensamento grego antigo e nas comunidades filosóficas desse período em várias partes do Mediterrâneo, a filosofia era um modo de viver.
Haveria, portanto, um modo filosófico de ser, expresso em atitudes como o questionamento do aparentemente óbvio, a reflexão racional e a busca de um saber mais profundo. Esse tipo de postura pode ser observado nos primeiros grandes representantes da tradição filosófica ocidental, como Tales de Mileto, Pitágoras de Samos e, sobretudo, em Sócrates, que viveu e foi condenado à morte em sua cidade natal, Atenas. O questionamento das ideias e práticas comumente aceitas e a reflexão em busca de uma compreensão mais profunda em vista do que foi questionado constituem os dois principais movimentos daquilo que podemos chamar de “atitude crítica”, característica da vida filosófica. Na filosofia antiga, segundo Hadot, o discurso teórico estava estreitamente ligado a um tipo especial de vivência, a um determinado modo de ser no mundo.
Outro elemento importante da filosofia antiga era o fato de que cada modo filosófico de ser no mundo era compartilhado em comunidades. Escolas filosóficas, como o estoicismo, a Academia fundada por Platão, o Liceu fundado por Aristóteles, o ceticismo, o pitagorismo, a escola cínica, o Jardim de Epicuro constituíam coletividades formadas por pessoas que seguiam diferentes teses centrais que orientavam suas vidas. Na Antiguidade, a filosofia não visava apenas conhecer a verdade, mas também a busca por uma vida melhor, vivida em uma comunidade que comungava das mesmas ideias fundamentais sobre a realidade e a ação. Essas ideias, geralmente propostas por um fundador da escola, serviam como uma espécie de “orientação espiritual”, envolvendo conhecimento teórico, valores morais e sabedoria prática.
Na Antiguidade, a filosofia não visava apenas conhecer a verdade, mas também a busca por uma vida melhor, vivida em uma comunidade que comungava das mesmas ideias fundamentais sobre a realidade e a ação.
1.2 Filosofia como área do conhecimento
Entretanto, nosso contexto é bem diferente daquele em que a filosofia era praticada na Antiguidade, conforme observa Hadot. Refiro-me ao que se convencionou chamar de “filosofia acadêmica”, ou seja, aquela desenvolvida no interior da universidade, uma instituição multidisciplinar voltada ao estudo, à formação em níveis avançados de escolarização e à produção de conhecimento. Criada na Europa ocidental no século XII, e posteriormente difundida pelo mundo inteiro, essa instituição deriva seu nome do termo latino universitas, que significava corporação, sociedade, comunidade. Já não se tratava de uma escola filosófica específica, mas de uma comunidade composta por professores e alunos dedicados ao estudo de diferentes linhas de pensamento em um mesmo espaço institucional.
Por outro lado, na universidade medieval, a orientação espiritual e seu exercício não aconteciam nos espaços destinados ao estudo e à prática da filosofia. O lugar onde se buscava um guia para a existência era a capela, que pertencia à universidade, mas funcionava em um edifício separado – alguns deles belíssimos, como podemos observar ainda hoje nos colleges de Oxford e Cambridge, no Reino Unido. Os exercícios espirituais característicos das antigas comunidades filosóficas passaram, então, a pertencer ao âmbito da religião, e não mais ao da filosofia. Com o surgimento das universidades, a atividade filosófica deixou de ser realizada principalmente em comunidades unidas por ideias específicas acerca do bem viver e do exercício da espiritualidade. Desse modo, o saber teórico da filosofia passou a se separar da vivência da sabedoria e de uma vida comunitária orientada espiritualmente.
Mais do que reunir e promover o debate entre distintas posições filosóficas, a universidade colocava lado a lado aquilo que entendemos hoje como Filosofia (com maiúscula, por ser o nome próprio de uma área do conhecimento) e outros campos do saber, como a Teologia, a Literatura, o Direito e a Medicina. A criação desse empreendimento coletivo, envolvendo diversas áreas de estudo, foi um dos motores da posterior diversificação das ciências. Na universidade medieval, a Filosofia correspondia ao saber dos conceitos universais, ao estudo das ideias fundamentais e das formas corretas de raciocínio. Possuir pelo menos algum conhecimento em Filosofia era pressuposto para avançar adequadamente em campos de estudo mais especializados do saber. Ainda no século XVI, essa concepção de filosofia como sinônimo de saber humano em geral aparece ilustrada, por exemplo, no famoso verso de Hamlet (ato I, cena 5) de Shakespeare: “Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que supõe a sua vã filosofia”.
Ao final do século XVII, essa situação ainda persistia, embora estivesse passando por mudanças consideráveis. Não devemos esquecer que o livro no qual Isaac Newton apresentou suas famosas leis da mecânica, publicado em 1687, intitulava-se Princípios Matemáticos da Filosofia Natural. Newton e os outros grandes protagonistas da chamada Revolução Científica Moderna, como Copérnico, Galileu e Kepler, não eram chamados de “físicos”, mas de “filósofos naturais”. Contudo, aquilo que no século XVII era conhecido como filosofia natural tornou-se, posteriormente, uma área do conhecimento suficientemente autônoma para adquirir uma nova denominação, ainda que continuasse seguindo o modelo newtoniano.
Nessa mesma linha de autonomia e crescente importância das ciências, o célebre filósofo Immanuel Kant propõe uma importante mudança na Filosofia, especialmente em uma de suas áreas tradicionais, a “metafísica”. Em sua Lógica, compilada e publicada (em 1800) por Gottlob Benjamin Jäsche a partir de suas aulas, Kant defende que as perguntas fundamentais da Filosofia são “O que posso saber?” (a teoria do conhecimento ou epistemologia), “O que devo fazer?” (a teoria do agir correto ou ética), “O que me é permitido esperar?” (a filosofia da religião), “O que é o ser humano?” (a antropologia filosófica). Desde o início da tradição ocidental na Grécia Antiga, a metafísica era entendida como a área da Filosofia que busca responder à pergunta “o que é, afinal, a realidade?”. Ela trata de temas como o que é o ser em geral, o que é o tempo, o que é a verdade, qual a diferença entre eventos, fatos, situações e objetos, entre outros. Kant não inclui a questão metafísica entre as perguntas fundamentais que definem a Filosofia.
Kant excluía da Filosofia a pergunta sobre o que é a realidade em geral porque entendia que a metafísica poderia ser reduzida à epistemologia — ou seja, às questões relativas ao modo como conhecemos a realidade —, ficando a realidade em si mesma fora do alcance do conhecimento, portanto incognoscível. Em Crítica da razão pura, ele criticava a metafísica por não corresponder ao modelo de confiabilidade e segurança de conhecimento já demonstrado pela Física (e não mais “filosofia natural”) no século XVIII. Além disso, para Kant, o conhecimento da realidade factual deveria incluir um conteúdo empírico. Isso significa que a pergunta “o que é a realidade?” não poderia ser respondida em geral apenas pela razão pura, mas deveria ser investigada pelas ciências particulares, cada uma a partir de seus objetos concretos de estudo.
A pergunta “o que é a realidade?” não poderia ser respondida em geral apenas pela razão pura, mas deveria ser investigada pelas ciências particulares, cada uma a partir de seus objetos concretos de estudo.
Essa aparente perda de espaço da Filosofia continuou depois de Kant. Em Curso de filosofia positiva (1830), Auguste Comte, um dos filósofos com maior influência sobre o pensamento e a história do Brasil, propôs uma filosofia da história segundo a qual o conhecimento científico era entendido como superação do conhecimento metafísico. Para Comte, a história humana podia ser compreendida como um processo progressivo de abandono de formas inferiores de conhecimento em favor de outras superiores. Segundo essa perspectiva, o conhecimento humano teria sido inicialmente mítico e religioso, tendo sido posteriormente substituído pelo conhecimento metafísico ou filosófico na Grécia Antiga. Embora considerasse a metafísica superior à religião, por se fundamentar na razão, Comte defendia que a Filosofia acabaria sendo superada pela ciência positiva, entendida como o estágio final do progresso do conhecimento e da civilização humana. A ciência, nesse contexto, conheceria o mundo por meio de um método ordenado, que avança pela comparação das teorias com os dados positivos fornecidos pela experiência. O lema da filosofia positivista de Comte expressa bem essa visão ao propor o amor como princípio, a ordem como base e o progresso como fim. A bandeira brasileira, talvez uma das mais filosóficas do mundo, incorporou parcialmente essa ideia, embora o amor, infelizmente, tenha ficado de fora.
O que restava, então, para a Filosofia acadêmica diante do progresso das ciências? Um dos caminhos trilhados pela prática filosófica desenvolvida nas universidades, especialmente a partir do século XIX, foi a pesquisa em história da Filosofia, ou seja, o estudo das ideias de grandes pensadores e das escolas de pensamento do passado. A importância da história do pensamento estava presente não apenas na filosofia de Comte, mas também de outro grande filósofo da época, o alemão Georg Hegel. Isso não significa, contudo, que o estudo histórico das ideias tenha surgido nesse período. Muito pelo contrário. Os comentários de Tomás de Aquino às obras de Aristóteles são um exemplo de pesquisa em história da Filosofia semelhante àquela amplamente praticada nas universidades até hoje. O próprio Aristóteles pode ser considerado um dos precursores desse ramo da atividade filosófica ao apresentar as ideias de filósofos que o precederam como ponto de partida para expor suas próprias teses. É o que ocorre, por exemplo, no início de sua Metafísica, quando ele trata do conhecimento das causas primeiras da realidade. Antes de defender sua concepção, Aristóteles expõe as ideias de Tales, Pitágoras, Platão, entre outros, apresentando suas dificuldades e argumentando que sua teoria não seria capaz de superar tais problemas.
Além desse uso instrumental da história da Filosofia, a filosofia acadêmica contemporânea também desenvolve um trabalho de interpretação e aprofundamento da compreensão de obras filosóficas como fim em si mesmo. Essa forma de abordagem das ideias de outros autores não busca necessariamente propor uma nova teoria, mas sim contribuir para a compreensão de um texto ou do conjunto de pensamento de determinado autor. O comentário filosófico constitui um dos principais resultados desse tipo de trabalho, e uma das principais formas de análise é o chamado “método estrutural”, descrito, por exemplo, no texto “Tempo histórico e tempo lógico na interpretação dos sistemas filosóficos” (1949), do filósofo francês Victor Goldschmidt. Esse texto exerceu grande influência na formação da comunidade filosófica do Brasil, pois seu autor foi um dos responsáveis pela consolidação do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, resultado de missões acadêmicas francesas contratadas pelo governo paulista ainda na década de 1930.
Apesar da importância que a pesquisa em história da Filosofia adquiriu desde o século XIX, essa não foi a única possibilidade que permaneceu aberta para a área. Para compreender isso, vale retomar à crítica do positivismo de Comte ao conhecimento filosófico, considerado por ele ultrapassado pelo progresso da ciência. Uma tese filosófica que defende que a filosofia foi superada pela ciência corre um sério risco de falta de coerência. Lembro-me de uma propaganda de leite em pó, de muitos anos atrás, que dizia algo assim: “Leite Glória – desmancha sozinho!”. A publicidade destacava a inovação de um produto que se dissolvia instantaneamente, sem necessidade de qualquer ação externa. Certas teses filosóficas parecem ter essa propriedade, no sentido de que negarem aquilo que elas mesmas pressupõem. Ao dizer que a Filosofia era um conhecimento obsoleto, que havia sido superado pela ciência, a Lei dos Três Estados de Comte (nome à sua teoria do progresso histórico) acabava se tornando uma espécie de Leite Glória conceitual – desmanchava sozinha.
Uma tese filosófica que defende que a filosofia foi superada pela ciência corre um sério risco de falta de coerência.
Apesar disso, até mesmo o positivismo de Comte é um exemplo do que ainda cabe à Filosofia como área do conhecimento no meio acadêmico para além do estudo das ideias do passado em si mesmas. Consideremos, por exemplo, a tese de que cada ciência particular busca conhecer, de maneira especializada, seus objetos de pesquisa. Essa noção pressupõe conceitos como “ciência”, “objeto”, “pesquisa” e “espécie”. Cabe à Filosofia investigar precisamente esse tipo de conceito, recorrendo tanto à história do pensamento quanto a instrumentos de conceituação sintética, a análise, a argumentação, a avaliação crítica e a problematização, entre outros procedimentos próprios da reflexão filosófica.
A compreensão mais profunda dessas ideias pressupostas na atividade científica continua a ser uma tarefa filosófica. Trata-se de um trabalho ao qual o cientista dificilmente consegue se dedicar sem interromper sua pesquisa científica. A investigação científica precisa pressupor uma compreensão prévia do que é ciência, do método por meio do qual se obtém esse conhecimento e daquilo que constitui o objeto específico de sua pesquisa. Em outras palavras, ele parte de certos fundamentos tomados como estabelecidos. Sendo assim, cabe justamente à investigação filosófica essa reflexão crítica sobre esses pressupostos fundamentais.
A Filosofia também é responsável pelo estudo e o aperfeiçoamento desses instrumentos de pensamento, por isso cabe a ela perguntar e investigar as formas corretas de raciocínio, tarefa desenvolvida em uma de suas áreas mais antigas, a Lógica. À Epistemologia, outra disciplina filosófica clássica, cabe o entendimento do que significa apresentar boas razões ou justificar adequadamente determinada tese. Também é função da Filosofia esclarecer o que significa analisar um pensamento complexo em termos mais simples, bem como investigar qual a melhor maneira de fazer isso. Do mesmo modo, cabe a ela refletir sobre em que consiste elaborar ou sintetizar uma ideia como resposta a um problema, além de examinar quais os limites e alcances dessa atividade. Esses são exemplos de campos de investigação filosófica voltados às ferramentas do pensar em geral, áreas que continuam a ser desenvolvidas e aprofundadas até hoje.
O cotidiano da atividade científica não exige, necessariamente, uma investigação dos seus fundamentos filosóficos. Uma reflexão esclarecedora sobre a relação entre ciência e filosofia, entendidas como atividades que desempenham funções distintas, é proposta pelo filósofo norte-americano Thomas Kuhn em A estrutura das revoluções científicas (1967). Kuhn é um exemplo de cientista que abandonou a pesquisa em Física para se dedicar a questões de filosofia da ciência. Ele percebeu que, ao ser introduzido em uma área do conhecimento científico, o estudante aprende a se tornar cientista ao se familiarizar com um modelo de formulação de problemas e de resolução de questões. Esse aprendizado metodológico tem como objetivo compreender os objetos próprios da área científica na qual o estudante está se iniciando. Enquanto aprende esse modelo, o estudante normalmente não se pergunta o que é o conhecimento, o que é a verdade ou se existe realmente uma realidade para além dos seus próprios pensamentos. Questões desse tipo podem surgir apenas em determinados momentos de sua trajetória como cientista, especialmente quando aquele modelo, que Kuhn chamou inicialmente de “paradigma” e depois de “matriz disciplinar”, entra em crise e deixa de ser suficientemente eficaz para orientar suas perguntas e respostas sobre campo investigado. Longe de considerar que a multiplicação e o fortalecimento das ciências particulares teriam deixado a Filosofia sem objeto, Kuhn mostrou que o trabalho científico pode, em certos momentos, entrar em um certo nível de crise que faz o próprio cientista interromper suas atividades para refletir sobre outras questões mais básicas e fundamentais. A ciência moderna não eliminou a Filosofia; ao contrário, conferiu a ela novos desafios.
A ciência moderna não eliminou a Filosofia; ao contrário, conferiu a ela novos desafios.
É tendo em vista essas características da Filosofia que podemos, enfim, abordar a filosofia da religião como a disciplina filosófica dedicada ao estudo da religião, conforme veremos no próximo texto desta série.
