SIMPÓSIO

A terapia está alinhada com sua fé?*

Camila Sant'Ana de Oliveira|

28/02/2025

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Camila Sant'Ana de Oliveira

Estudante de Psicologia da Universidade de São Paulo e estagiária da DPESP. Seus interesses e experiências acadêmicas estão no campo da assistência social, família e intersecção com Direito.

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Como citar

Oliveira, Camila Sant'Ana. A terapia está alinhada com sua fé? Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 5, jan-jun, 2025.

Em 2024, a psicologia completou 60 anos desde sua regulamentação como profissão no Brasil, e podemos arriscar a dizer que nunca se falou tanto nela. Basta acessar a internet para ver temas como medicalização, personalidade, transtornos mentais ou mesmo expressões populares como “Freud explica” ou “a terapia está em dia”. Sem adentrar a discussão sobre a qualidade desses conteúdos, o fato é que a psicologia tem ganhado visibilidade e status de ciência diante da população, dando a ela credibilidade e autoridade para falar sobre diversos temas.

Por outro lado, comumente a ciência é usada como argumento de autoridade, porém, sem embasamento ou preocupação do que se quer dizer com frases como “de acordo com a ciência”. Muitos têm ganho dinheiro com a suposta neutralidade da ciência, colocando-a como única ou melhor maneira de chegar à verdade acerca da realidade e, em muitos casos, determinar estilos de vida, mas sem considerar sua diversidade ou o contexto em que ela foi construída.

Como produção humana, a ciência tem limitações e mostra-se uma dentre muitas maneiras de explicar a realidade, podendo conviver bem ou não com as demais formas. Partindo do pressuposto de que psicologia é uma ciência, psicologia e fé podem coexistir? E como isso ocorre? Separadas, relacionadas ou fundidas como uma mesma disciplina? Em cada caso, quais as consequências para cada um desses campos? No livro Integrando psicologia e fé: modelos para um engajamento cristão, Paul Moes e Blake Riek apresentam perspectivas importantes sobre esses questionamentos e outros assuntos no campo dessa intersecção. A obra  apresenta os modelos de integração mais proeminentes, porém sem se aprofundar em detalhes, deixando a leitura mais simples e fluida, ao mesmo tempo em que lança uma preocupação em abrir debates e questionar os leitores sobre seus posicionamentos prévios ou assuntos sobre os quais podem nunca ter pensado durante sua prática profissional ou jornada de fé.

Para isso, parte-se do pressuposto de que o que pensamos, defendemos e somos carrega a influência de nossa história de vida, de lugares e, também, de pessoas com as quais nos relacionamos. Assim, a forma como articulamos a relação entre psicologia e fé também é carregada do “lugar de onde partimos”. Por isso, mais do que conhecer as abordagens ou estabelecer um posicionamento, é importante conhecer as razões que levam a essas posições, possibilitando maior consciência sobre as próprias crenças e mais entendimento a respeito daquelas das quais diverge. Assim, mesmo diante de uma sociedade na qual os extremos são mais atraentes que os meios, a própria composição literária da obra contribui para a construção de um movimento de integração.

Assim, a forma como articulamos a relação entre psicologia e fé também é carregada do “lugar de onde partimos”.

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Cada um tem lentes através das quais enxerga as questões basilares a respeito da existência (a natureza do ser humano, existência da verdade e como chegar nela etc.), ainda que não tenha consciência delas ou não se comporte de acordo com o que defende. Tais lentes (cosmovisões) influenciam a vida pessoal, mas também a produção do conhecimento científico e até mesmo as perspectivas que são escolhidas dentro da psicologia.

Ainda que exista o método científico, toda abordagem parte de pressupostos extracientíficos (isto é, que não podem ser testados ou falsificados) que vão guiar a teoria, a investigação, a interpretação de resultados e a prática. Isso não significa que a ciência seja subjetiva, mas que está sujeita a uma aproximação humana dos fenômenos. Assim, as abordagens carregam em si sua própria cosmovisão, mostrando, de modo implícito ou explícito, sua concepção de ser humano, agência, propósito e outros aspectos para os quais não damos atenção como alunos ou profissionais de psicologia, cuja formação inclui os argumentos de que ao psicólogo basta ser científico, atender às demandas dos pacientes ou simplesmente se ater àquilo que faz sentido para o profissional. No entanto, para os cristãos, é essencial refletir sobre como os princípios da fé podem se relacionar com esses pressupostos e de que maneira é possível dar um bom testemunho por meio da vocação pessoal. Além disso, como sugere o título deste estudo, é fundamental considerar de que maneira é possível alinhar a prática terapêutica à fé.

Para embasar essas reflexões, a obra apresenta as concepções acerca da ciência e as principais perspectivas da psicologia, bem como os pressupostos que embasam suas teorias. As teorias se atualizam, e a visão do cristão precisa acompanhar tal movimento. Por muito tempo, a fé se afastou da psicologia devido ao determinismo da disciplina, que é exemplificado na obra em questão principalmente pelo behaviorismo, abordagem que defende a influência do ambiente e nega o livre-arbítrio do indivíduo. Embora isso esteja nas raízes da teoria, novas abordagens têm atualizado algumas posições, como a Terapia de Aceitação e Compromisso, cujos fundamentos estão no behaviorismo radical, mas entende que as ações são comprometidas com valores. Para essa teoria, valor não está relacionado à moralidade, mas sim a uma qualidade de comportamento que é cultivada ao longo do tempo e está vinculada a quem a pessoa quer ser, trabalhando, desse modo, a ideia de escolha pessoal, propósito e significado psicológico.¹ Tomando esse exemplo, é possível pensar em aproximações do behaviorismo com a fé, o que demanda que nossos posicionamentos levem em consideração as diversidades e atualizações do próprio campo.

Por outro lado, a teologia também é marcada por sua diversidade, e a exposição de algumas de suas perspectivas evidencia como as influências religiosas impactam a compreensão e a relação com a ciência psicológica. Essas visões podem gerar aproximações ou afastamentos, bem como reservar peculiaridades em cada um desses movimentos, propondo, por exemplo, uma aproximação “neutra”, ou, em outro caso, uma transformação das esferas da sociedade por intermédio do povo redimido.

Na segunda parte do livro, são explorados os diferentes modos como os cristãos têm relacionado a psicologia e a fé, além de serem apresentados os modelos de integração a partir de dimensões comuns (utilidade da psicologia e utilidade da teologia), colocando-os em um continuum, e não em categorias separadas. Os reducionistas científicos têm extrema confiança na utilidade da ciência para explicação do comportamento humano, rejeitando totalmente a cosmovisão cristã ou minimizando seu papel; consequentemente, vendo a integração entre as duas como desnecessária e prejudicial, e acreditando que a religião pode ser explicada pela psicologia. Em um outro extremo está o reducionismo bíblico, cuja defesa está no aconselhamento bíblico como prática legítima de resolução dos problemas humanos, deixando para a ciência apenas o estudo do mundo natural. Aqui, a Bíblia é vista como suficiente para capacitar o conselheiro, e o pecado é colocado como a raiz de todos os problemas humanos, inclusive os psicológicos. Há um forte posicionamento de “Cristo contra a cultura” e uma  crença no dualismo corpo-alma (assunto a que, dada a sua importância, os autores dedicam um apêndice), no qual a alma é imaterial, está doente e só pode ser “curada” com uma mudança espiritual. Apesar de carregar uma imagem bíblica e muitos princípios da fé, essa postura traz sérias consequências negativas para a Igreja, como o fato de muitos cristãos esconderem seus sofrimentos psicológicos por medo de julgamento ou de serem desencorajados a procurar ajuda médica. Em contrapartida, outros cristãos, como o evangelista João Paulo (movimento Céu na Terra), têm demonstrado seu sofrimento publicamente, dando testemunho de sua fé em meio a dores, sem minimizar o papel da ciência como graça de Deus para ajudar a suportar esse período. 

Para além das posições mais extremas, existem aquelas que colocam a psicologia e a teologia como explicações legítimas do comportamento humano, as quais não podem ser reduzidas uma à outra, mas, juntas, podem ampliar o conhecimento de tal assunto. Nesse campo, existem três posições que prevalecem. A primeira defende psicologia e fé como disciplinas cujos objetos de estudo são diferentes; a segunda posição argumenta que elas podem se debruçar sobre os mesmos assuntos, porém, em níveis de explicação diferentes; por fim, a terceira propõe uma postura dialógica entre os campos, na qual um impacta o outro, mas, quando há situações de conflito, a teologia tem primazia. Um aspecto interessante da última abordagem é a defesa de que, levando em conta que a objetividade total é impossível e que as cosmovisões influenciam a ciência, os cristãos devem explicitar o impacto de sua religiosidade em seu trabalho científico para que a sociedade possa estar a par disso. Em tempos de expansão da divulgação científica, é importante popularizar a ideia de que a ciência não é neutra, entendendo que a honestidade científica é importante para o aperfeiçoamento do próprio método e para a construção de conhecimento mais robusto.

[...] a honestidade científica é importante para o aperfeiçoamento do próprio método e para a construção de conhecimento mais robusto.

Nessa perspectiva, existem ainda aqueles que defendem uma reforma completa da psicologia como ciência. Nesse caso, parte-se do princípio de que a ciência não é neutra e nem pode querer sê-lo, já que depende de pressupostos que não podem ser testados. Assim, dentro dessa linha de pensamento, o questionamento é sobre qual perspectiva de mundo tem influenciado a construção do conhecimento, defendendo-se que os valores cristão devem assumir esse lugar. Além disso, a proposta de uma reforma é sustentada pelo argumento de que a psicologia lida com a agência humana que não pode ser compreendida pelos métodos positivistas, pois não é passível de leis gerais.

Dentro desse movimento, os autores citam a psicologia cristã, que busca expandir a psicologia para além de suas metodologias tradicionais, englobando outras disciplinas, como filosofia, antropologia e história. Sua prática fundamenta-se em pressupostos cristãos a respeito do ser humano, como sua criação por Deus, sua agência e seu pecado. Em seu livro Matrizes do pensamento psicológico,² Luís Claudio Figueiredo defende a diversidade da psicologia, apresentando suas diferentes perspectivas a partir de seus pontos de convergência. Ele argumenta que há mais em comum do que é frequentemente expresso nos debates, embora não saiba exatamente o que as conecta. Com isso, há uma tendência de abertura para novas formas de se fazer psicologia, o que, por sua vez, acende o alerta para o perigo de que o campo se expanda tanto a ponto de perder sua identidade essencial. Levando em consideração a reflexão de Figueiredo, a tentativa de criação de uma psicologia cristã, apesar de sua boa intenção, pode não alcançar sua finalidade, pois, entendendo a proposta não como uma nova abordagem, mas como uma reforma do campo, o que pode acabar sendo criado é algo separado da psicologia secular e que, portanto, pode não ser de fato psicologia. Além disso, uma reforma radical pode gerar dificuldades de diálogo com a ciência psicológica vigente, fazendo com que o objetivo de possível redenção do campo não seja atingido.

Ao longo de todo o livro, Paul Moes e Blake Riek têm o cuidado de apresentar diversas perspectivas sobre as abordagens, trazendo diferentes teóricos e levantando mais perguntas do que respostas. Por fim, eles concluem que, independentemente da cosmovisão ou da abordagem de cada um, o chamado cristão é servir ao outro. Assim, mais do que integrar um conhecimento e uma postura intelectual, abre-se espaço para discutir a respeito de nosso estilo de vida e questionar se temos deixado que os debates ofusquem a importância de nosso comprometimento com o próximo e nossa vocação, exercendo-a em ética e respeito, e deixando que a luz de Cristo brilhe em nós e através de nós.

A obra não aborda assuntos inovadores, mas apresenta reflexões pertinentes para os cristãos, principalmente diante do cenário e das discussões recentes na psicologia brasileira. Por outro lado, ela é escrita dentro do contexto americano da ciência psicológica, que é diferente do cenário brasileiro. No livro, há grande ênfase nas abordagens psicológicas mais cognitivas, deixando pouco espaço para a psicanálise na discussão, ao passo que, no Brasil, a teoria freudiana ainda é muito presente no cenário popular e acadêmico.

A ascensão, no Brasil, de movimentos como a psicologia cristã levanta discussões importantes sobre a relação entre psicologia e fé, tornando essencial que os cristãos disponham de boas informações sobre os aspectos envolvidos no debate e tenham clareza sobre as bases que sustentam suas posições. Por fim, vale dizer que estar no campo científico pode ser difícil, mas, a cada questionamento levantado, temos uma oportunidade de revisitar os princípios da nossa fé e fundamentar melhor nossas crenças. Nesse sentido, ter uma comunidade eclesial e profissional é essencial para desenvolver possibilidades de como abordar essa questão. Inclusive, perto de você pode ter um colega de profissão que concilia psicologia e fé de um jeito diferente das perspectivas apresentadas, o que lhe dá uma oportunidade de trocar ideias sobre incômodos e desafios, além de desfrutar do incentivo mútuo.

[...] estar no campo científico pode ser difícil, mas, a cada questionamento levantado, temos uma oportunidade de revisitar os princípios da nossa fé e fundamentar melhor nossas crenças.

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

* Estudo selecionado na 7ª chamada de Estudos de Livro do Radar ABC².

1. Steven C. Hayes, Kirk D. Strosahl e Kelly G. Wilson, Terapia de Aceitação e Compromisso ACT: o processo e a prática da mudança consciente, 2021.

2. Luís Claudio Figueiredo, Matrizes do pensamento psicológico, 2008.

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