Uma proposta de intersecção entre estética e epistemologia reformada
A obra de Francisco de Goya, Saturno devorando a um filho, destaca-se tanto pelo talento quanto por seu significado sombrio. A partir da história de Saturno (equivalente ao deus grego Cronos) e do contexto vivido por Goya, nos propomos a analisá-la brevemente por um viés epistemológico triperspectivista, segundo John Frame, apresentando pontos que se aproximam da narrativa cristã da queda e suas implicações para a vida humana. A intenção é que possa haver um diálogo entre a estética e o projeto de epistemologia reformada de John Frame. Consideramos Saturno devorando a um filho particularmente relevante, em virtude de sua representação do desespero humano diante do tempo, desesperança ideológica e sofrimento, conforme ficará claro ao analisar o contexto do pintor e da obra.
O mito de Cronos e um esboço biográfico de Goya
O mito de Cronos, o deus do tempo, encontra-se na Teogonia de Hesíodo.¹ Seu pai, Céu, temia ter o trono usurpado pelos filhos e, dessa forma, forçava sua mãe, Terra, a manter os filhos presos em seu útero, impedindo-os de nascerem, o que causava à Terra intensa dor e sufocamento. Assim, Cronos, instigado por sua mãe, vingou-se de seu pai castrando-o, e então, vencendo-o, tornou-se o soberano.² Após isso, Cronos recebe de seus pais a profecia de que também seria vencido por um filho. Desse modo, assim que lhes nasciam os filhos com a deusa Reia, o titã os devorava, engolindo-os de uma só vez. Reia, porém, dando-lhe uma pedra embrulhada em vez da criança, salva o filho Zeus, que posteriormente usurpa seu poder.³
Francisco José de Goya y Lucientes nasceu em 1754 e é considerado um dos pintores mais brilhantes da história espanhola, “adotando uma maneira de ver as artes como ninguém tinha antes dele foi capaz e de modo que ninguém será capaz de imitar mais tarde”.⁴ A Espanha em que cresceu foi marcada pela Revolução Francesa e por ideais iluministas do louvor à racionalidade. Quanto mais longe da racionalidade, mais longe da beleza estariam os homens. A gravura O sono da razão produz monstros demonstra esse valor para Goya ao retratar um homem adormecido rodeado por criaturas noturnas, como morcegos e corujas, com aspecto onírico e medonho, que se aproximam daquele que está em estado de inconsciência, simbolizando o sono da razão.⁵ Sobre ela, Jensen comenta que “a fantasia, abandonada pela razão, produz monstros impossíveis. A fantasia, unida à razão, é mãe das artes e origem de suas maravilhas”.⁶
Até então, muitas obras de Goya apresentavam cores vivas e temas alegres.⁷ Entretanto, após um período de estabilidade política na Espanha, vieram os conturbados reinados de Carlos IV e de seu filho, Fernando VII. Este último teve de enfrentar Napoleão Bonaparte, dando início à Guerra da Independência. Os ideais franceses de liberdade, igualdade e fraternidade tornaram-se apenas utopias. Goya ficou abalado pela guerra, pelo falecimento de sua esposa e por uma doença que o deixou debilitado e surdo. No final de sua vida, abandonou a corte e mudou-se para um local nos arredores de Madri, cujo nome, proveniente do ex-morador, era Quinta del Sordo (Quinta do Surdo).⁸
Ali, pintou catorze angustiantes murais de cores escuras e faces deformadas, espalhados pelos cômodos. Não os fez para divulgação, mas para si. As obras foram denominadas, posteriormente, de Pinturas negras, passadas em tela apenas após sua morte.⁹ Saturno devorando a um filho, parte dessa coleção, espantosamente ficava na sala de jantar. A desilusão com o tempo e a desesperança com a vida de Goya nos ensinam algo a respeito da narrativa cristã do mundo.
A desilusão com o tempo e a desesperança com a vida de Goya nos ensinam algo a respeito da narrativa cristã do mundo.
Uma breve análise triperspectivista e implicações
Partindo do princípio de que nosso relacionamento com Deus deve transformar a maneira como nos relacionamos com o conhecimento, John Frame, teólogo reformado contemporâneo, discípulo de Cornelius Van Til, propõe uma epistemologia reformada em que o conhecimento é validado e justificado pela adequação à revelação divina.
O autor, em primeira instância, lembra que uma proposta epistemológica condizente com a revelação divina considera que Deus, como um ser soberano e onisciente, conhece todos os fatos sobre si mesmo e o mundo, e, portanto, conhece todas as perspectivas possíveis a respeito de toda a realidade, sendo, assim, um ser “oniperspectivo”. Por outro lado, nós, os homens, “[…] por que somos finitos e não infinitos, nós não podemos conhecer tudo de uma vez, e, portanto, nosso conhecimento é limitado a uma perspectiva ou outra”.¹⁰
Assim, reconhecendo o lugar das múltiplas perspectivas para a teoria do conhecimento, Frame, juntamente com seu amigo Vern Poythress, propõe o triperspectivismo (ou triperspectivalismo) que, com base em aspectos triplos do ser divino que aparecem nas Escrituras (como a Trindade e três atributos do senhorio de Cristo – controle, autoridade e presença), afirma a possibilidade de analisar a realidade criada a partir de três perspectivas: normativa, situacional e existencial. Para Frame, absolutizar, ou seja, tomar uma dessas perspectivas como mais importante do que as outras, incorre em erro e idolatria, pois, para nos aproximarmos da verdade a respeito de um objeto, é necessário analisá-lo por meio dessas três perspectivas. Estas, porém, não são três partes separadas, mas três modos de olhar a mesma realidade que são mutuamente implicadas, refletindo o Deus triúno, em quem coexiste perfeitamente unidade e diversidade.¹¹
Nossa proposta é, então, aplicar o triperspectivismo, de maneira inicial, a uma análise estética da obra de Goya, considerando a perspectiva normativa (segundo as leis da estética), a situacional (aplicando o contexto de Goya e do mito de Cronos) e a subjetiva (emoções e impressões pessoais).¹²
Pensando na perspectiva normativa, Goya pinta Cronos com pinceladas fortes e linhas disformes. As cores escuras destacam o vermelho do sangue escorrendo pelos braços e ombros do filho que está sendo devorado. Cronos está em meio às trevas, o que destaca a cena principal. A face de desespero é retratada por seu olhar assustado, e seu corpo está estranhamente agachado, com pernas finas e deformadas. Seu órgão genital está pintado de maneira sombria e confusa.
O grande horror da tela, porém, é percebido em suas mãos, cravadas nas costas do filho. Essa figura, bem menor, tem um corpo aparentemente adulto, com sua cabeça dilacerada e já engolida pelo pai. Segundo Morgan, ao cobrir o lado direito do rosto do titã, temos “o olho esquerdo esbugalhado olhando furiosamente para alguma testemunha invisível de sua selvageria, sua grosseria aumentada pelas linhas verticais afiadas da sobrancelha”. Se cobrirmos o olho esquerdo, vemos alguém com dor, “olhando horrorizado para seu próprio assassinato […] como se ele estivesse perguntando: ‘Por que sou obrigado a fazer isso?’”¹³
Conforme o mito grego, Cronos engolia seus filhos bebês de uma só vez. Na obra, um filho adulto é assassinado de maneira brutal, o que aprofunda seu horror. A virtude da obra consiste em retratar o feio como feio, proporcionando reflexões sobre o mal presente na vida humana.
A virtude da obra consiste em retratar o feio como feio, proporcionando reflexões sobre o mal presente na vida humana.
Já na perspectiva situacional, vimos que as circunstâncias vividas por Goya tornaram-no de um homem vivaz e cheio de esperanças a um homem introspectivo e desiludido, o que acabou representado em sua arte. As guerras civis fizeram-no presenciar injustiças e mortes. A continuidade da Inquisição Espanhola demonstrava a ignorância e maldade do coração humano. Com a velhice, doenças e perdas, veio a desesperança terrena. Podemos deduzir que Goya poderia ter enxergado em Cronos uma sedição gananciosa e sem limites, assim como a dos homens de seu tempo. Além disso, avançado em idade, surdo e abatido, o autor talvez se sentisse dilacerado pelo Tempo, assim como filho de Cronos.
Analisar pela perspectiva subjetiva nos coloca diante de um conflito atual: toda arte comunica algo pessoal, mas, como afirma Frame, absolutizar essa dimensão é um pecado epistemológico.¹⁴ Na arte pós-moderna, por exemplo, isso eventualmente ocorre.¹⁵ Buscando ter congruência com pressupostos religiosos da não existência de Deus e, portanto, da ausência de um padrão de verdade e moral, há projetos de arte pós-moderna que superenfatizam o aspecto subjetivo. Baseando-se na crença de que uma obra de arte não possui um único significado verdadeiro – considerando que quem cria o significado não é o autor, e sim o indivíduo que a interpreta –,¹⁶ então toda e qualquer interpretação subjetiva deveria ser válida.
Herman Dooyeweerd tem muito a contribuir com o tema ao defender que nossa teorização da experiência se dá por meio de uma pluralidade de aspectos, que são modos diferentes de se experimentar o mundo. O autor afirma que o aspecto estético tem um significado em si mesmo,¹⁷ logo, a arte não precisa de justificativas.¹⁸ Porém, ao mesmo tempo, ela possui também um momento analógico, que a relaciona com seu significado referente aos outros aspectos modais na ordem temporal e, assim, relaciona-se com o aspecto emocional ou psíquico, mesmo não sendo justificada por ele.¹⁹
A relação da arte com o Belo envolve emoção e sentimento. Diante de Saturno devorando a um filho, a primeira sensação é de estranhamento, seguida pelo horror e desespero. A obra nos remete ao mal e à sedição, e podemos até nos identificar com ambos os personagens: Saturno, pela sede de poder; ou o filho, devorado pelo tempo.
A obra nos remete ao mal e à sedição, e podemos até nos identificar com ambos os personagens: Saturno, pela sede de poder; ou o filho, devorado pelo tempo.
Debruçando-nos mais sobre a perspectiva subjetiva, pensemos sobre como Goya possivelmente se sentia cruelmente devorado pelo tempo e, também, em como, em nossa sociedade, esse parece ser o sentimento de muitos. O ser humano, insatisfeito diante de sua finitude, anseia por controlar o tempo de diversas formas, seja por meio da busca por medi-lo e organizá-lo ao longo da criação de calendários, relógios, agendas e rotinas, seja pelo uso da ciência e tecnologia atual para retardar os seus efeitos. Em 2023, o Brasil foi o país com a maior quantidade de cirurgias plásticas do mundo, com cerca de 3,3 milhões,²⁰ evidenciando o medo do envelhecimento e a busca pela juventude. Além disso, síndromes como burnout, ansiedade e pensamento acelerado tornam-se cada vez mais comuns. Assuntos como transumanismo são tratados com vistas a evidenciar a crença de que o desenvolvimento científico-tecnológico poderia inclusive nos tornar imortais. Natasha Vita-More, uma transumanista, afirma que “depois de sermos frutos da evolução, agora podemos realizar nossa própria evolução.”²¹
Somente a crença em Deus pode transformar a maneira como enfrentamos o tempo. Sendo assim, ao crer na soberania de Deus, o cristão passa a remir o tempo e aproveitar as oportunidades para glorificá-lo (Efésios 5:16) e compreende que há tempo para todas as coisas (Eclesiastes 3), bem como que deve desfrutar do tempo com sabedoria, mesmo sob os efeitos da Queda.
Assim como a Queda nos aproximou do filho de Saturno, também não estamos distantes do próprio Saturno. De maneira egoísta, o titã prefere a si mesmo à vida de seus filhos. A prerrogativa de Satanás para Adão e Eva era que, se comessem do fruto, seriam como deuses. Orgulho e soberba são definições da transgressão do homem pós-queda. Assim, egoístas que somos, pensamos somente em nós mesmos e em nossas satisfações.
Como diz o Salmo 42:7, um abismo chama outro abismo, ensinando-nos que o pecado que habita em nós nunca será saciado. E quanto mais damos lugar a ele, mais nos tornamos devoradores e, consequentemente, vemos o outro como rival, assim como Saturno via os filhos. Seus olhos sedentos e temerosos são também nossos, uma vez que nos assustamos conosco e carregamos culpas pelo mal, ao mesmo tempo que nos deleitamos na maldade.
Como diz o Salmo 42:7, um abismo chama outro abismo, ensinando-nos que o pecado que habita em nós nunca será saciado. E quanto mais damos lugar a ele, mais nos tornamos devoradores e, consequentemente, vemos o outro como rival, assim como Saturno via os filhos.
Conclusão
Concluímos, portanto, que a tentativa de uma análise estética por meio da proposta triperspectivista de epistemologia reformada de Frame, além de possível, abre diálogos entre a cosmovisão secular e cristã. Nesse sentido, este artigo busca contribuir de forma inicial com um tema que pode ser aprofundado e aplicado a outras áreas da arte e da estética.
Mesmo pós-Queda, é possível desfrutar da arte enquanto manifestação da imagem de Deus no ser humano, a qual nos remete a verdades que estão além da própria arte. E Goya, como o grande artista que foi, demonstrou-nos, por meio de sua arte, seu anseio pela Beleza e pela eternidade utilizando, para isso, o feio e o deformado.
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4. Francisco Goya. Los Desastres de la guerra: colección de ochenta láminas inventadas y grabadas al agua fuerte, 1863. (tradução nossa) Clique aqui para acessar.
10. John Frame, What is tri-perspectivalism, 2011. Clique aqui para acessar.
20. ISAPS International survey on aesthetic/cosmetic procedures performed in 2023. Clique aqui para acessar.
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