Viver de acordo com a cosmovisão cristã é viver em conformidade com uma história escrita por Deus, da qual toda a humanidade participa. O problema surge quando o homem passa a usurpar o protagonismo da narrativa – lugar que pertence somente a Cristo. Nesse sentido, a expressão “síndrome do protagonista” descreve o equívoco de imaginar que, como representante de Deus no mundo, o ser humano regenerado teria capacidade de, por si mesmo, realizar a obra da salvação e redenção do mundo, do próximo e de si mesmo. Tal pretensão revela uma arrogância sem fundamento bíblico e denuncia a entronização do orgulho no coração do homem.
O orgulho pode assumir inúmeras formas. Para os fins deste trabalho, destacam-se duas manifestações principais: a primeira diz respeito à doutrina da autossuficiência humana, sustentando a ideia de que o homem pode tudo, sem jamais encarar sua real condição de queda e dependência da graça. A segunda admite a doutrina da graça e reconhece que a salvação procede do Senhor, mas induz os homens a acreditar que podem conquistar o céu por suas próprias obras, como se pudessem acrescentar algo à própria salvação. É nesse engodo que se revela o perigo da “síndrome do protagonista”: ela se manifesta quando o homem perde a noção da proporção de seu papel na narrativa salvífica.
Assim, quando o ser humano se arroga a condição de protagonista da própria história, torna-se necessário retornar ao princípio e compreender a qual história ele realmente pertence, a fim de ser conduzido de volta ao seu lugar. Esse processo de contextualização, tanto teológica quanto relacional, encontra base sólida na cosmovisão cristã, alicerçada na Palavra de Deus, como veremos na primeira parte deste texto. Em seguida, buscaremos traçar um paralelo entre a jornada dos heróis das obras literárias e a caminhada de fé do cristão, que também se apresenta como personagem de um drama cujo autor e protagonista é o próprio Deus.
Ao criar o homem, Deus lhe deu uma ordem, um mandamento e um lugar no mundo: um papel específico na narrativa. No entanto, essa não é a história do homem, e sim a história do Criador. Como filhos amados, os cristãos são chamados a imitá-lo, fazendo, agindo e pensando como Cristo, e cultivando, assim, as virtudes eternizadas nas Escrituras para a edificação dos santos. Contudo, a leitura correta das Escrituras requer humildade – em outras palavras, apenas os humildes podem ocupar seu lugar próprio na narrativa. O papel do homem na história requer esvaziamento, obediência e submissão.
Ao longo da leitura das Escrituras, entendemos que o papel da humanidade é ordenado, orientado e sustentado por Deus. O verdadeiro protagonista é Cristo, que estava presente no início da história e estará presente até o fim. É pelo nome de Jesus que os homens são salvos. E é somente pela graça do Senhor que o ser humano é chamado e capacitado a participar da narrativa que Deus escreve e realiza na história do mundo.
Há uma grande diferença entre imaginar a vida como uma página em branco, sujeita à vontade humana, e concebê-la como uma história na qual o homem é convidado a desempenhar um papel sob a direção do Autor. Conforme ensina James K. A. Smith, “essas duas posturas são a diferença entre arrogância e graça”,1 ou, nesse caso, entre orgulho e humildade. A síndrome do protagonista, portanto, manifesta-se quando o homem, movido por orgulho, busca assumir o papel de senhor da própria história. Apenas a submissão ao senhorio de Cristo, manso e humilde de coração, pode restaurar no homem a visão correta do seu lugar e do seu valor na narrativa escrita e protagonizada por Deus.
Há uma grande diferença entre imaginar a vida como uma página em branco, sujeita à vontade humana, e concebê-la como uma história na qual o homem é convidado a desempenhar um papel sob a direção do Autor.
O papel da humildade
O tratamento da humildade não se limita à reflexão bíblico-teológica, mas ganha contornos aprofundados no campo filosófico da ética das virtudes. O filósofo Alasdair MacIntyre sustenta que o cultivo da virtude permite ao indivíduo responder à história de maneira apropriada,2 buscando um senso adequado de proporção sobre o seu lugar e o seu papel na narrativa. Assim, a humildade se revela como uma virtude capaz de firmar o homem na história em que está inserido, evitando que seus pés tropecem na escorregadia estrada do orgulho.
Na esfera acadêmica, por exemplo, essa virtude assume a forma de humildade epistêmica, a qual é descrita por Igor Miguel como “um importante critério epistemológico” que coloca o sujeito em uma posição de “maravilhamento e modéstia diante do insondável e inesgotável”.3 O mistério da narrativa bíblica e a vastidão do conhecimento de Deus exigem que o ser humano reconheça os limites do seu próprio entendimento e capacidade, submetendo-se à sabedoria revelada pelo Criador. A humildade, portanto, figura enquanto elemento fundamental à correta interpretação da realidade e ao abandono da pretensão arrogante do homem de conhecer e fazer tudo por si mesmo. Em outras palavras, a humildade se mostra como o principal ingrediente do antídoto para enfrentar a síndrome do protagonista.
Nesse ponto, é preciso explicitar alguns importantes aspectos da humildade. Primeiramente, trata-se de uma virtude de Cristo (Mateus 11.29) e, portanto, somente ele pode ensiná-la. Em segundo lugar, sendo a raiz de todas as virtudes, a humildade não pode ser definida em relação a outra virtude, mas sempre em relação a alguém.4 Humilde, mas em relação a quem? Para quem sofre da síndrome do protagonista, essa resposta é difícil. Para o cristão, no entanto, ela é clara: Jesus é o único referencial, aquele que, “subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Filipenses 2.6-8).
Em vista disso, o cristão entende que a humildade consiste em reconhecer sua pequenez diante do Deus santo, Salvador dos homens e Autor da história. Ser humilde é compreender seu lugar e seu papel: participante da narrativa de Deus, sim, mas jamais o protagonista. Participar da história de Cristo e colaborar em seu plano redentivo é um privilégio da graça, e essa só pode ser recebida por meio da humildade. Afinal, “bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra” (Mateus 5.5). Nas palavras de Wilson Porte Jr., “quando há muito de nós, haverá pouco de Deus”;5 e João Batista também declara que “é necessário que Ele cresça e que eu diminua” (João 3.30).
A humildade também possui um aspecto social e relacional com Deus. Jesus é o padrão, e é em referência a ele que o homem se humilha, de modo que, “quanto mais baixo e mais vazio um homem se coloca diante de Deus, mais rápido e mais cheio será o influxo da glória divina”.6 Assim como a água busca os lugares mais baixos, do mesmo modo o Espírito preenche os que primeiro se esvaziam. Nesse estado, a alma se enche tanto da presença de Deus que não resta espaço para a exaltação própria. A verdadeira humildade é, portanto, o reflexo da presença daquele que é Santo em nós.
A humildade coloca o homem em seu devido lugar e o desperta para o seu papel próprio em meio à revelação e ao mistério da trama: todo aquele que segue a Cristo é convidado a acompanhar os seus passos e, à semelhança de Jesus, todo homem é chamado a ser servo. O humilde, portanto, é o servo. É aquele que renuncia a si mesmo para buscar os interesses do Mestre: amar o que Deus ama, odiar o que o Senhor odeia e cumprir toda boa obra na força e no poder do Espírito Santo.
A humildade coloca o homem em seu devido lugar e o desperta para o seu papel próprio em meio à revelação e ao mistério da trama.
Em vista disso, a humildade se apresenta não somente como o antídoto contra o orgulho e, consequentemente, a melhor forma de combater a síndrome do protagonista, mas também se revela como a virtude responsável por mediar a relação entre criatura e Criador, conformar o homem ao caráter de Cristo e, portanto, capacitá-lo a exercer seu papel de maneira efetiva, adequada e ordenada por Deus no mistério das Escrituras.
A literatura fantástica enquanto afiadora da virtude
Servir é reconhecer a narrativa da qual fazemos parte e desempenhar o papel designado pelo Autor. Esse processo pode ser descrito como uma subsunção imaginativa, pois, se toda a humanidade é convidada a participar ativamente da história bíblica, a imaginação ajuda o homem a perceber essa narrativa com mais clareza, de modo que, ao compreender sua trajetória particular à luz da grande história de Deus, possa assumir sua vocação com fidelidade, moldar sua vida segundo o enredo divino e participar conscientemente da missão de Deus no mundo.
Além disso, ao adentrar no campo literário, a imaginação permite ao leitor envolver-se na narrativa e experimentar as vivências dos personagens. O recurso revela-se de grande relevância para a teologia, pois desenvolve o senso narrativo e facilita a aprendizagem de virtudes pelo exemplo. Esse aspecto manifesta-se de forma especial na literatura fantástica, rica em figuras de linguagem que cativam a imaginação e oferecem pontos de conexão entre razão e emoção, teoria e prática. Em resumo, a imaginação, mediada pela literatura fantástica, pode orientar a prática e inculcar valores, sempre apontando para a narrativa suprema de Deus. Ela contribui tanto para que o indivíduo compreenda seu papel pessoal quanto para que reconheça o enredo e o verdadeiro Protagonista.
Uma vez que a cosmovisão cristã pode ser mais bem compreendida por meio de uma narrativa – isto é, o drama bíblico, a grande e suprema história da qual toda a humanidade é convidada a participar de forma ativa –, os laços entre teologia e literatura se tornam mais estreitos. É interessante pontuar, por exemplo, que a literatura – por meio das Escrituras – foi um dos métodos escolhidos pelo Senhor para se revelar ao mundo. Outro ponto digno de nota é o fato de que o próprio Cristo é, muitas vezes, mencionado nas Escrituras como a Palavra por intermédio da qual todas as coisas foram criadas e ainda subsistem; ou seja, o Verbo encarnado. E esse mesmo Cristo, conforme relatado na Bíblia, optou por comunicar o Evangelho ao povo de sua época – de todas as épocas, na verdade – por meio de histórias carregadas de metáforas, parábolas e das mais variadas figuras de linguagem. Nesse contexto, não é de se espantar que a literatura, em seus diversos recursos estilísticos, tenha muito a contribuir para a comunicação simbólica de lições e virtudes cristãs.
De início, porém, faz-se necessário esclarecer alguns pontos. O primeiro e mais óbvio, considerando o tema do presente trabalho: como a literatura fantástica pode ajudar no desenvolvimento da humildade? O segundo e consequente: poderiam os contos de fadas auxiliar também no cultivo das demais virtudes? E, por último: qual seria o público-alvo de uma iniciativa como esta?
Primeiramente, a qualidade da literatura fantástica no que concerne à esfera prática da vida humana consiste justamente em suas operações. Na teologia, a imaginação, a fantasia e os contos de fadas servem como ferramentas para introduzir e esclarecer valores e virtudes de forma prática, utilizando modelos, metáforas e exemplos que podem esclarecer conceitos para o leitor – em especial as crianças. Seguindo essa linha de raciocínio, Northrop Frye define a imaginação como “o poder de construir modelos possíveis de experiência humana”,7 particularmente modelos virtuosos que ajudam a refletir e ressignificar as experiências através da imaginação e da fé.
Na teologia, a imaginação, a fantasia e os contos de fadas servem como ferramentas para introduzir e esclarecer valores e virtudes de forma prática, utilizando modelos, metáforas e exemplos que podem esclarecer conceitos para o leitor.
Segundo J. R. R. Tolkien, o criador de uma história “constrói um mundo secundário no qual nossa mente pode entrar. Dentro dele, o que ele relata é ‘verdadeiro’, em conformidade com as leis daquele mundo”.8 Dessa forma, a imaginação permite ao leitor se envolver na narrativa e viver as experiências dos personagens, o que é relevante para a teologia ao promover o desenvolvimento do senso narrativo e facilitar a aprendizagem de virtudes por meio do exemplo. Nisso depreende-se que o diálogo da teologia com a literatura fantástica é fundamental para combater a síndrome do protagonista, pois o gênero funciona como uma escola para a imaginação moral: os contos oferecem exemplos dignos de serem seguidos, estimulando a consciência moral no leitor.9
Ao mostrar um mundo em que existem regras morais claras e inalteráveis, a literatura fantástica faz uma crítica à ideia de que o ser humano pode resolver tudo sozinho. Ela demonstra que o herói, por mais corajoso e capaz que seja, não consegue vencer por si mesmo ou com base nos próprios méritos; antes, precisa de ajuda de alguém maior e externo, como o personagem Aslam nos livros de C. S. Lewis,10 que representa esse Salvador transcendente. Além disso, a fantasia apresenta exemplos de personagens, como Samwise Gamgi, nas obras de Tolkien,11 que incutem o senso de dever e proporção para com a história, o Herói e o Autor. A imersão imaginativa permite que o leitor saia da posição de protagonista e se coloque no papel de participante fiel, reconhecendo a sua vocação como coadjuvante da Grande História de Deus. Desse modo, a literatura fantástica é uma ferramenta ideal para reajustar o papel do ser humano: não o autor nem o protagonista, mas o fiel e amado participante de uma narrativa que já tem um desfecho garantido pela obra de Cristo.
Os contos de fadas e livros de fantasia “capturam o sentido da moralidade por meio de representações vívidas da luta entre o bem e o mal, em que os personagens precisam fazer escolhas difíceis entre o certo e o errado”,12 estimulando, desse modo, o leitor a também desenvolver uma consciência moral. Além disso, a literatura fantástica auxilia no enfrentamento dos conflitos internos e externos, oferecendo recursos para que se compreenda a complexidade da natureza humana. Nesse processo, reconhecer o pecado, tanto no mundo quanto em si mesmo, é essencial para superar as influências da natureza caída.
Na clássica história de Pinóquio,13 por exemplo, o personagem precisa enfrentar desafios e provações para realizar seu desejo de se tornar um menino de verdade. Para tanto, Pinóquio deve demonstrar obediência, coragem e lealdade. Porém, suas tentativas são frustradas pelas constantes tentações que o assediam, reflexo de sua natureza caída.
Um dilema similar se revela na trilogia O Senhor dos Anéis,14 de J. R. R. Tolkien, na qual os personagens necessitam de humildade para encarar seus desejos e suas limitações. Até mesmo Frodo, incumbido de carregar o Anel, está fadado a falhar, colocado em uma situação que exige força física e mental que ele não possui. As circunstâncias, por si só, configuram um paradoxo e uma armadilha: alguém de grande poder dificilmente resistiria à sedução do Anel, ao passo que uma pessoa com menor poder jamais poderia perseverar sozinha até o fim. Parte do sacrifício de Frodo consiste em abraçar a missão à luz de sua própria pequenez; e é justamente aí que reside sua grandeza: não na força, mas na humildade. Ainda assim, Frodo falha: como todo ser humano, ele não é o herói perfeito. Sua batalha era também interior e estava ligada à virtude da humildade. Nesse cenário, destaca-se Samwise Gamgi, o simples jardineiro que, ao longo da jornada rumo à destruição do Anel, se apresenta como fiel ajudador. Ele não é o protagonista da história, tampouco o portador do fardo, mas a sua fidelidade e humildade revelam o profundo reconhecimento do papel que lhe cabe na narrativa.
Não obstante, tanto na fantasia quanto na realidade, a resolução definitiva exige a intervenção de um salvador, um herói capaz de vencer o mal quando toda a esperança parece perdida. Esse herói aponta, de modo simbólico, para o Salvador divino, apresentado nas Escrituras como o caminho, a verdade e a vida (João 14.6), o Verbo encarnado (João 1.14), que entregou a si mesmo como sacrifício na Cruz.
Tanto na fantasia quanto na realidade, a resolução definitiva exige a intervenção de um salvador, um herói capaz de vencer o mal quando toda a esperança parece perdida.
À luz disso, leitores familiarizados com a tradição cristã podem observar tais elementos nas Crônicas de Nárnia,15 de C. S. Lewis. Em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, por exemplo, ainda que as crianças Pevensie demonstrem coragem, bondade e senso de justiça, nenhuma delas é capaz de derrotar o mal de maneira definitiva. A vitória repousa unicamente na intervenção e no sacrifício salvífico de Aslam, que ressoa, para além da fantasia literária, o próprio sacrifício de Cristo. De modo semelhante, em A cadeira de prata, o êxito da missão não está no protagonismo de Jill e Eustáquio, mas na humildade com que se submetem às orientações de Aslam, reconhecendo-o como o verdadeiro herói e salvador da narrativa.
Considerações finais
A necessidade do herói, tanto na fantasia quanto na realidade, reflete a verdade de que nenhum ser humano é capaz de resolver sozinho todos os dilemas da existência, e essa insuficiência desperta o anseio por um salvador que compreenda as limitações humanas e ofereça auxílio eficaz. Esse herói é buscado não apenas na imaginação, mas também por meio da fé, sendo o único capaz de proporcionar um desfecho feliz, ainda que imerecido, à história da qual toda a humanidade faz parte.
Dessa maneira, toda e qualquer leitura da literatura fantástica deve ser realizada à luz do Evangelho, destacando os pontos de conexão entre a narrativa criada e a grande história da qual toda a humanidade participa. Sendo assim, uma leitura responsável é, por natureza, uma leitura cristocêntrica da realidade. Em termos práticos, ela deve orientar a interpretação por questões que ministrem a Verdade, cultivem a humildade e despertem no leitor um senso de dever e proporção diante da história, do seu Herói e do seu Autor. Afinal, ainda que o ser humano não conheça o que lhe reserva o próximo capítulo da sua vida, o cristão guarda a firme certeza de que o desfecho já foi escrito – não por suas próprias mãos, mas pela obra suficiente e definitiva de Cristo.
