Tornou-se recorrente nos dias de hoje ouvirmos falar sobre ansiedade, depressão, da importância de se cuidar da saúde mental e sobre o que podemos fazer para alcançá-la. O tema também tem sido discutido no ambiente religioso, e, com isso, vem a pergunta: qual o papel dessa tal psicologia na comunidade religiosa? É uma aliada confiável ou uma tentativa de usar ferramentas seculares para resolver problemas que somente as Escrituras são capazes de resolver? O livro Integrando psicologia e fé: modelos para um engajamento cristão, de Paul Moes e Blake Riek, publicado pela Thomas Nelson Brasil, surge em um momento extremamente propício e necessário, trazendo-nos as possíveis respostas para o questionamento de como a intercessão entre a fé cristã e a psicologia, tão falada atualmente, é possível.
O livro é dividido em duas partes: a primeira parte aborda as bases filosóficas que norteiam as diferentes formas dessa integração, ao passo que a segunda parte trata dos modelos de integração propriamente ditos. A estratégia adotada por Moes e Riek de explicar a filosofia por trás das abordagens de integração é extremamente importante, pois situa o leitor dentro de uma determinada cosmovisão sem que ele sinta falta de algum ponto importante para o entendimento do que lhe está sendo apresentado, permitindo, assim, que essa abordagem, mesmo que recém apresentada, seja mais facilmente compreendida.
Logo no início, os autores ressaltam a importância da cosmovisão para o debate sobre a integração, a qual pode ser definida como a lente através da qual alguém enxerga o mundo, bem como sua filosofia pessoal sobre questões como a existência de Deus ou sobre o seu sistema básico de valores.¹ Isso é importante porque esse sistema filosófico pessoal vai influenciar a forma pela qual uma pessoa interpreta as situações vividas ao longo de sua vida e até mesmo como o indivíduo se comportará nessas situações.
Há um ponto que surge nos debates sobre cristãos na psicologia ou o uso da psicologia na comunidade cristã: como a religião afetará a prática psicológica e vice-versa. Em outras palavras, a questão é se um cristão não vai levar os seus pressupostos para a clínica e, assim, tirar a “pureza” da terapia, ou se, ao trazer essas ferramentas da psicologia para dentro do ambiente religioso, ele não estará “esvaziando” o poder da palavra de Deus.
No que diz respeito à primeira questão, sobre tirar a “pureza” da psicologia, ela é tratada na primeira parte como a cosmovisão que guia todo indivíduo. Até mesmo dentro da psicologia há diferentes cosmovisões que vão moldar a prática de determinado psicólogo, pois não há uma única e definitiva forma de enxergar as questões psicológicas do indivíduo. Como exemplo disso, os autores nos apresentam, ao longo do capítulo três, diversas perspectivas dentro da psicologia e, também, quais os pressupostos que as norteiam. Algumas, como as abordagens psicanalíticas, veem o ser humano como essencialmente egoísta, quebrado e como alguém que não pode mudar o seu caráter fundamental, sendo o controle de seus impulsos aquilo que o homem pode controlar.² Outras abordagens, como a behaviorista, creem que o ser humano é neutro, não é inerentemente bom nem inerentemente mau, tendo suas características formadas exclusivamente pelas questões ambientais.³ Certamente cada abordagem mostra um pouco da cosmovisão do psicólogo, porém, em virtude da ética, o profissional não impõe sua crença pessoal sobre o paciente, o que permite que ele exerça seu ofício mesmo quando não há uma concordância de cosmovisão. Além disso, a gama de perspectivas sobre a natureza humana é ampla, “de modo que ninguém pode criticar toda a psicologia com base em uma única questão”.⁴
Ainda no âmbito dessa discussão, surge então outra dúvida: se ter uma cosmovisão religiosa não é um problema, o que fazer quando aquilo que poderia ajudar o paciente entra em conflito com a cosmovisão cristã?
No capítulo sete, os autores tratam dos modelos em que teologia e psicologia podem ser usadas para compreender o homem e seu comportamento, e então apresentam três modelos para isso: territorialismo, perspectivismo e integracionismo.
O territorialismo vê a psicologia e a teologia como territórios, onde cada uma possui sua área de estudo e pouco impacta uma à outra. Nesse sentido, a psicologia fica encarregada, por exemplo, de questões como depressão e processos cerebrais, ao passo que a teologia fica responsável pela santificação e moralidade.⁵ Os autores citam, para ilustrar esse caso, o exemplo de um jovem que procura um psicólogo cristão por ter dificuldade de estabelecer relações românticas. Durante a terapia, o paciente relata que se sentiu muito mais confiante e disposto a buscar novos relacionamentos após ter tido uma relação sexual com uma pessoa que havia acabado de conhecer. Segundo a perspectiva territorialista, o psicólogo cristão, nessa situação, não julga o comportamento do paciente mesmo não aprovando a sua conduta, por estar justamente no território da psicologia, que visa utilizar o que ajuda emocionalmente o seu paciente.
Já na abordagem perspectivista, é possível que a teologia e a psicologia estudem um mesmo fenômeno, embora se mantenham em aspectos distintos do fenômeno.⁶ Por exemplo, a psicologia pode estudar os impactos do perdão nas emoções do indivíduo, estudar o que torna esse ato mais ou menos provável e, também, quais benefícios ele traz. Já do lado da teologia, ela pode contribuir estudando por que precisamos perdoar e como o perdão dado por Deus a nós coopera para isso. Nessa abordagem, ambas são vistas como conhecimentos que se complementam e nos ajudam a ter uma visão ainda mais ampla de determinado fenômeno. Na visão perspectivista, se negligenciarmos determinado aspecto de um fenômeno, estaremos vendo uma imagem parcial, o que significa que, quando há uma continuidade entre as explicações da teologia e da psicologia, podemos ter um quadro muito mais completo.⁷
O terceiro modelo, conhecido como integracionismo, expande o papel da teologia, posicionando-a como a principal referência para previsões e interpretações. Nesse contexto, a teologia não apenas orienta a compreensão, mas também influencia e modela tanto a teoria quanto a prática da psicologia. Para os integracionistas, é inevitável que a cosmovisão influencie a percepção de qualquer objeto de estudo. Por isso, o psicólogo cristão deve reconhecer e aceitar os valores inerentes à sua perspectiva, em vez de tentar ignorar ou disfarçar essa influência. Segundo Moes e Riek, questões como personalidade e sexualidade seriam áreas nas quais o integracionista permitiria que sua cosmovisão influenciasse de maneira mais direta em como elas seriam conduzidas.⁸ Nessa abordagem, quando houver qualquer tipo de conflito, a teologia terá primazia em relação à ciência, sendo as Escrituras a autoridade final. Entretanto, mesmo que a teologia tenha primazia, não se pode negar que ela também é influenciada pelas descobertas científicas, podendo até mesmo ter algumas posturas teológicas revisitadas e alteradas pelos integracionistas, mas certamente com muita cautela.
Mesmo com exemplos que demonstram a possibilidade de integrar a psicologia à fé cristã, existe uma abordagem conhecida como reducionismo bíblico. Essa perspectiva sustenta que o pecado é a causa fundamental dos problemas psicológicos e, por isso, considera que as Escrituras fornecem todas as ferramentas necessárias para compreender o comportamento humano. Além disso, muitos defensores dessa abordagem temem que as perspectivas seculares sobre os problemas psicológicos acabem por justificar ou relativizar comportamentos considerados pecaminosos. Para eles, o uso de termos como “doença mental” e “problemas mentais” pode suavizar aquilo que, segundo as Escrituras, deveria ser entendido como pecado.⁹ O reducionismo tem pontos positivos e negativos. O ponto positivo é o valor que essa visão dá às Escrituras, e o ponto negativo é o modo como os que defendem essa visão simplificam questões psicológicas complexas ao colocá-las como decorrências únicas do pecado, ignorando, assim, nuances que ajudariam a ter uma compreensão mais profunda das causas dos problemas psicológicos.
Moes e Riek, com maestria, ressaltam a importância de estabelecer uma distinção entre psicologia e espiritualidade, ainda que reconheçam a existência de certa sobreposição entre as duas áreas. Entretanto, diante da bondade de Deus, podemos reconhecer que ele nos dá ferramentas que, ainda que não nos levem à salvação, nos ajudam a viver de maneira digna nesta era em que vivemos. Eles citam o exemplo do médico que cuida de uma perna quebrada. Nesse caso, mesmo que o tratamento da perna não tenha como objetivo levar o seu paciente à salvação ou a se arrepender de algum pecado, ele ainda é usado e, por meio de suas ações, apresenta um Deus gracioso que cuida da sua criação. Mesmo que a psicologia não seja uma ferramenta de salvação, ela pode servir como uma ferramenta de amor ao auxiliar no cuidado dos problemas emocionais que afligem as pessoas, trazendo formas de aliviar suas angústias, mesmo que de maneira não definitiva.
diante da bondade de Deus, podemos reconhecer que ele nos dá ferramentas que, ainda que não nos levem à salvação, nos ajudam a viver de maneira digna nesta era em que vivemos.
Há muito a ganhar com a integração entre a psicologia e a fé cristã, e, sempre que isso é feito de maneira humilde e ética, como diz o psicólogo cristão Joshua Hook, mencionado na conclusão do livro, essa integração é a demonstração de uma postura de respeito com aqueles que podem ser diferentes de nós.¹⁰ Assim, agimos como seres humanos que reconhecem suas limitações de conhecimento e que estão abertos a ouvir e tentar compreender o contexto e a cosmovisão apresentada pelo paciente. Mesmo que não se defina qual é a melhor abordagem para a integração entre psicologia e fé, os autores afirmam que a empatia é uma das práticas mais essenciais que um cristão pode cultivar, e é justamente essa prática que nos fará tomar uma atitude prática de servir e amar os que sofrem e que são diferentes de mim.
“Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de toda a sua mente”. Este é o primeiro e o maior mandamento. O segundo é igualmente importante: “Ame o seu próximo como a si mesmo”. (Mateus 22.37-39, NVT)
Nessa passagem, Jesus nos mostra a importância de se amar a Deus de forma integral, com tudo o que temos. Mas como amamos a Deus? A resposta é: em nossa devoção religiosa e pela obediência aos mandamentos, mas também ao dar o nosso melhor em nosso trabalho e em nossos estudos. Amamos a Deus cuidando do nosso próximo por meio do discipulado e do aconselhamento, mas também por meio das ferramentas da medicina e da psicologia. Ao fazer isso, demonstramos que queremos servir ao Senhor da melhor maneira possível, não negligenciando nenhuma área da vida humana, pois, quando deixamos de lado alguma parte — por exemplo, a parte emociona —, até nossa espiritualidade é afetada. Como diz Ismael Sobrinho: “se estivermos com as emoções doentes, teremos um grande obstáculo para viver uma espiritualidade emocionalmente saudável e facilidade para julgar com superficialidade a vida emocional e espiritual dos outros”.¹¹
demonstramos que queremos servir ao Senhor da melhor maneira possível, não negligenciando nenhuma área da vida humana [...].
Dessa forma, amamos o nosso próximo ao cuidar de sua saúde mental, demonstrando interesse genuíno em ajudá-lo dentro de nossas possibilidades. Utilizamos, assim, as diversas ferramentas que Deus nos concedeu para promover o bem-estar e o acolhimento daqueles que necessitam. Essa é uma forma de demonstrar o amor de Cristo, e quanto mais aprendermos a refletir a compaixão do nosso mestre, mais “seremos capazes de desempenhar nosso papel bíblico de acolher, nutrir, desenvolver e trabalhar ao lado daqueles que sofrem”.¹²
Para concluir, é fundamental reconhecer que, em uma comunidade acolhedora e sensível às questões emocionais — que não trata o tema como um tabu nem o reduz a um mero pecado encoberto —, a disposição para buscar ajuda se torna significativamente maior. A questão que não podemos ignorar é que muitos membros de igrejas, incluindo lideranças e pastores, enfrentam sofrimento emocional, mas hesitam em buscar ajuda psicológica por medo de estarem duvidando do poder de Deus para curá-los. No entanto, é preciso ter clareza de que, ao integrar ferramentas da psicologia, não estamos negando o poder do Senhor, mas sim reconhecendo que Deus pode agir de diversas formas para cuidar e aliviar o sofrimento da alma humana.
é preciso ter clareza de que, ao integrar ferramentas da psicologia, não estamos negando o poder do Senhor, mas sim reconhecendo que Deus pode agir de diversas formas para cuidar e aliviar o sofrimento da alma humana.
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* Estudo selecionado na 7ª chamada de Estudos de Livro do Radar ABC².
1. Paul Moes e Blake Riek, Integrando psicologia e fé: modelos para um engajamento cristão, 2024.
2. Ibidem, p. 57.
3. Ibidem, p. 60.
4. Ibidem, p. 53.
5. Ibidem.
6. Ibidem, p. 133.
7. Ibidem.
8. Ibidem, p. 140.
9. Ibidem, p. 118.
10. Hook, 2014 apud Paul Moes e Blake Riek, 2024.
11. Ismael Sobrinho, Psiquiatria e fé saudável, 2024.
12. Helen Thorne e Steve Migdley, Saúde mental e a sua igreja: um manual para o cuidado bíblico, 2024.
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