A religião é uma atividade humana multifacetada e tem sido estudada por várias áreas do conhecimento. Para os nossos propósitos, é importante distinguir a filosofia da religião não apenas de outras abordagens de estudo (as ciências da religião e a Teologia), mas também da própria atividade religiosa.
Filosofia da Religião e Outras Abordagens do Tema
Filosofia da religião e religião
Religião é um fenômeno humano notoriamente complexo e diverso. Em vista disso, existem inúmeras tentativas de defini-la conceitualmente. Uma excelente contribuição nesse sentido, bem como uma classificação dos tipos básicos de religião, foi proposta pelo filósofo estadunidense William Alston em um texto recentemente traduzido para o português por Andrei Venturini Martins (ver Venturini Martins, 2025). Seguindo, em parte, a mesma linha de Alston e de autores como William James, Rudolf Otto, Mircea Eliade e John Hick, proponho entender a religião como uma atividade humana que se dá em resposta a uma experiência.
Proponho entender a religião como uma atividade humana que se dá em resposta a uma experiência.
A experiência à qual a religião se apresenta como resposta possui duas dimensões. A primeira e mais fundamental é a experiência da realidade de um modo especialmente impactante, profundo e significativo. Essa experiência do ser que se manifesta de um modo singular – isto é, como algo não comum, sagrado – constitui a revelação primeva que dá origem a uma tradição religiosa da qual fazem parte elementos como preces, ritos, cânticos, narrativas orais ou escritas (da ação dos deuses, de Deus, de profetas, de espíritos ou ancestrais míticos), eventos festivos, comunidade de culto (frequentemente com distinção de tarefas), regras morais, além de espaços e tempos considerados especiais. A segunda dimensão da experiência religiosa é a experiência do mal, entendido como tudo aquilo que nos causa medo, tristeza, aversão ou raiva (emoções humanas básicas e universais). Nessa categoria, incluem-se o sofrimento, a doença e a morte. A religião responde a essa experiência recorrendo aos mesmos elementos que compõem sua tradição. Proponho, então, compreender a religião como resposta humana às experiências do ser (manifestado de modo especial) e do mal por meio dos elementos apresentados anteriormente, os quais estão presentes em maior ou menor grau nas diferentes religiões, assumindo conteúdos variados conforme os contextos históricos e culturais nos quais se desenvolvem.
O participante de uma religião aprende esse conteúdo de maneiras distintas, seja de um modo formal (uma escola dominical, por exemplo) seja informal (participando do culto, das orações e das demais práticas de fé de sua comunidade, por exemplo). A filosofia da religião, por sua vez, reflete sobre esse conteúdo segundo o modo próprio da Filosofia, ou seja, ela não consiste no ensinamento de uma doutrina nem no aprendizado de uma tradição, mas no estudo crítico (isto é, orientado pela busca da compreensão racional profunda) daquilo que se faz e em que se acredita em uma religião. Esse tipo de investigação pode ser útil ao adepto de uma religião, pois tende a ajudá-lo a compreender melhor sua prática e suas crenças. Ao mesmo tempo, o filósofo da religião aperfeiçoa suas teorias sobre a religião em geral e sobre seus aspectos particulares por meio do diálogo com os próprios praticantes religiosos.
O filósofo da religião aperfeiçoa suas teorias sobre a religião em geral e sobre seus aspectos particulares por meio do diálogo com os próprios praticantes religiosos.
Filosofia da religião, teologia e ciências da religião
Para entender ainda melhor o que é filosofia da religião, vamos estabelecer um breve contraste entre ela e a teologia e as ciências da religião.
Em um texto que publiquei há alguns anos (Portugal, 2014: 13), afirmei que a Teologia é uma área do conhecimento que procura reconstruir de modo racional a experiência do divino (de Deus e de deuses) de determinada tradição religiosa. O ponto de partida e a avaliação da adequação das teorias teológicas são os elementos constitutivos dessa religião (suas escrituras, sua tradição etc.). Ora, a filosofia da religião e a teologia sistemática podem tratar de um mesmo assunto. Nesse sentido, argumentos a favor ou contra a existência de Deus, bem como a reflexão sobre os atributos divinos – onipotência, onisciência, eternidade, bondade infinita, entre outros – constituem exemplos clássicos dos assuntos abordados pela filosofia da religião. Do mesmo modo, a teologia sistemática também pode investigar razões para a crença em Deus, ao passo que a filosofia da religião pode precisar de informações sobre a compreensão de Deus presentes nas tradições religiosas monoteístas que sustentam essa crença (o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, por exemplo). A diferença fundamental está no tipo de justificativa empregado, pois, enquanto a abordagem filosófica permanece nos limites do que pode ser sustentado pela razão argumentativa, a teologia pode recorrer, como fundamentos de sua argumentação, às autoridades reconhecidas por determinada religião, como a Bíblia, o Concílio de Niceia ou os ensinamentos e as práticas do profeta Maomé.
Assim, enquanto o teólogo está comprometido com o conteúdo revelado e com as autoridades reconhecidas por sua tradição religiosa, bem como com os escritos que a fundamentam, o filósofo da religião não está obrigado a esse compromisso. Por essa razão, posições como o ateísmo ou mesmo a rejeição da religião como atividade legítima podem constituir formas de filosofia da religião. Contudo, não fazem sentido enquanto formas de teologia, uma vez que esta última pressupõe algum grau de vínculo com uma tradição religiosa.
As ciências da religião, por sua vez, estudam a religião enquanto fenômeno empírico, tomando-a como objeto particular da abordagem própria de cada uma das ciências humanas ou naturais. Psicologia, História, Geografia, Sociologia, Antropologia, Economia, Neurociências e Biologia Evolutiva estão entre as principais áreas que, atualmente, incluem o fenômeno religioso entre seus objetos de investigação, cada uma nos limites de seus próprios métodos, com seus problemas característicos e tipos próprios de resposta. Como vimos anteriormente, as ciências aprofundam a compreensão de um assunto pela delimitação de suas abordagens e por não se dedicarem, em suas atividades, aos conceitos mais fundamentais. Assim, a Psicologia da Religião, por exemplo, adota uma determinada concepção de religiosidade para avaliar o quanto esse elemento da vida de uma pessoa tem influência em sua saúde mental. Assumir um conceito desse tipo é condição necessária para realizar uma pesquisa empírica que permita avançar no conhecimento sobre a relação entre psicopatologia e religião. A discussão sobre o próprio conceito de religião, porém, é objeto da filosofia da religião, que, por sua vez, pode enriquecer sua compreensão do fenômeno religioso ao dialogar com os resultados das pesquisas realizadas pela Psicologia.
A discussão sobre o próprio conceito de religião, porém, é objeto da filosofia da religião, que, por sua vez, pode enriquecer sua compreensão do fenômeno religioso ao dialogar com os resultados das pesquisas realizadas pela Psicologia.
Por outro lado, não cabe às ciências avaliar a legitimidade da atividade religiosa, pois, de modo geral, as ciências modernas têm como modelo a objetividade na abordagem de seus objetos de estudo, o que implica evitar qualquer juízo de valor sobre eles. Em outras palavras, enquanto a filosofia da religião pode defender a justificação racional da crença em Deus ou criticar a religião como algo que diminui a liberdade das pessoas, as ciências da religião ocupam-se da descrição do fenômeno, da compreensão de sua função e das relações causais envolvidas nele; ou seja, seu propósito não é atacar ou defender a prática religiosa, mas sim procurar compreendê-la e explicá-la segundo seus métodos próprios.
