Grande parte das pessoas no mundo subscreve ou aceita a crença de que Deus existe. Elas veneram e adoram um ser onisciente, perfeitamente bom e todo-poderoso, criador dos céus e da terra. Essa crença é o coração e a alma das três principais religiões monoteístas do mundo (cristianismo, islamismo e judaísmo), e é comumente chamada de teísmo. É a crença no Deus de Abraão, Isaque e Jacó.
Mas qual o status epistêmico do teísmo? Será que é aceitável, do ponto de vista racional, acreditar que um ser desse tipo existe? De fato, será que tal crença é intelectualmente aceitável para nós hoje, pessoas que vivem numa era secular e desfrutam dos resultados da ciência moderna? É possível conciliar a inteligência artificial, a ida do ser humano à Lua, a física subatômica e, ao mesmo tempo, acreditar que existe uma pessoa eterna, onipotente, moralmente perfeita e totalmente amorosa?
Em nossos dias, muitos intelectuais acreditam que a resposta a essa coleção de perguntas é um sonoro não. Creem que há um tipo de defeito intelectual com a crença em Deus: é uma crença irracional, injustificada, infantil, não mais razoável do que a crença no super-homem,1 nas fadas, na astrologia ou no Monstro de Espaguete Voador.2 É até possível que a crença em Deus tenha sido intelectualmente aceitável para nossos antepassados; contudo, já não é mais intelectualmente admissível hoje.
Será que tais pessoas têm razão em pensar dessa maneira – em descartar a crença teísta como mera relíquia de um passado pouco iluminado? O que pretendo discutir é justamente essa questão, tal como formulada no título. Ou seja, gostaria de discutir a questão: “a crença em Deus é racional?”. Quero discutir a questão, não respondê-la. Meu objetivo não é argumentar que a crença religiosa é racional (embora eu pense que seja), mas tentar entender tal questão.
A fim de explorar essa questão, este texto se divide em três artigos. No primeiro (esse que o leitor tem em tela), examino brevemente o próprio conceito de racionalidade aplicado à crença religiosa: o que significa, afinal, dizer que uma crença (por exemplo, a crença em Deus) é racional? Que gênero de coisa é a racionalidade? Como veremos, esclarecer essa questão não é tarefa das mais fáceis. No segundo artigo, analiso a posição mais influente sobre o tema, o Evidencialismo. De acordo com os evidencialistas, a crença em Deus só seria racional se amparada por boas evidências ou argumentos. Apresento rapidamente o campo dos argumentos sobre a existência de Deus (chamado de teologia natural), bem como algumas dificuldades que o evidencialista enfrenta. Por fim, no terceiro e último artigo discuto uma resposta alternativa ao evidencialismo: a Epistemologia Reformada. Essa tese sustenta que a crença em Deus pode ser racional mesmo na ausência de provas ou argumentos formais.
Esse é o nosso mapa. Convém agora falar um pouco do campo acadêmico em que essa discussão se insere.
O debate filosófico contemporâneo sobre a crença em Deus
Durante grande parte da história humana, a crença em Deus foi considerada não apenas aceitável, mas a forma mais natural de compreender a realidade. Os filósofos discutiam se a fé pode ser razoável ou de que modo a razão pode conduzir ao conhecimento de Deus, e essa questão era tradicionalmente conduzida sob a rubrica das relações entre fé e razão. Esse debate, contudo, não ficou no passado. Nos últimos anos (mais precisamente, desde a década de 1960) diversos filósofos gastaram uma quantidade monumental de tempo e tinta para tentar esclarecer e responder essa questão. Em decorrência de tais esforços surgiu uma área acadêmica conhecida como filosofia analítica da religião – ramo da filosofia contemporânea que valoriza a lógica, o debate criterioso, a clareza e a análise precisa de argumentos no estudo das questões religiosas.
A filosofia analítica da religião é uma disciplina acadêmica, praticada em muitos dos principais departamentos de filosofia do mundo. Nela, como afirma o filósofo William Rowe, os filósofos buscam “avaliar os tipos de motivos que pessoas competentes têm proposto a favor ou contra certas crenças religiosas”,3 ou seja, os filósofos estão interessados não em refutar ou justificar intelectualmente algum pacote particular de crenças religiosas, mas em examinar criticamente tais crenças a fim de saber se há (ou não) boas razões a favor ou contra elas.
Dentro da filosofia analítica da religião, há um subcampo conhecido como epistemologia da religião. A epistemologia é o ramo da filosofia que estuda questões como: o que é conhecimento? Como sabemos o que sabemos? Quais são as fontes seguras de conhecimento (razão, percepção, memória etc.)? O que torna uma crença racional? Como distinguir conhecimento do que é apenas mera opinião verdadeira ou infundada? A epistemologia da religião aplica esse pacote de perguntas a questões religiosas. Assim, o tópico do nosso texto (se a crença em Deus é racional) é uma questão de epistemologia da religião.
A crença em Deus está no centro da epistemologia da religião porque o teísmo é tradicionalmente tido como o coração e a alma da crença religiosa. Outras doutrinas religiosas (criação, revelação, redenção etc.) dependem da existência de Deus, de modo que, se tal crença for irracional, grande parte do edifício das crenças religiosas perderia seu fundamento.4
Em tese, haveria uma maneira aparentemente simples e promissora de responder à questão. Primeiro, poderíamos começar definindo o que é racionalidade e, em seguida, verificar se a crença em Deus se conforma com ou se encaixa nessa definição. A ideia seria, grosso modo, a seguinte: se soubéssemos exatamente o que torna uma crença racional, poderíamos avaliar diretamente se a crença em Deus satisfaz esse critério. Se a resposta fosse sim, então a crença em Deus seria racional; se a resposta fosse não, então ela seria irracional, injustificada ou merecedora de algum tipo de desaprovação intelectual.
O que significa uma crença ser racional?
Bem, as coisas parecem ser simples e promissoras; mas é sabido que as aparências enganam. Logo de início, nos deparamos com um sério problema: não existe uma definição clara, única e amplamente aceita do que significa uma crença ser racional. Se houvesse uma definição desse tipo, ela provavelmente apresentaria algumas condições que tornariam uma crença racionalmente aceitável. No entanto, os filósofos descobriram que encontrar tais condições é algo extremamente difícil; filósofos diferentes apresentaram diferentes definições.
Assim, há uma dificuldade e um enigma inicial aqui: muitas pessoas afirmam que a crença em Deus é racional ou irracional, mas não esclarecem ou não questionam o que se quer dizer por racionalidade, quais seriam as condições ou qualidades que permitiriam uma crença ser racional e em que sentido a crença em Deus (não) seria racional.
Há uma outra questão nas redondezas. A investigação filosófica dos últimos anos descobriu que, quando avaliamos uma crença, podemos perguntar se ela é boa do ponto de vista intelectual. Isso significa perguntar se ela tem boas credenciais intelectuais. Essas credenciais são o que os filósofos chamam de méritos ou credenciais epistêmicas.5 De modo muitíssimo simples, méritos epistêmicos são as qualidades que tornam uma crença digna de ser aceita; são aquelas características que tornam uma crença intelectualmente respeitável ou adequada para ser acolhida como verdadeira.
Mas, como afirma o filósofo William Alston, existem diferentes qualidades intelectuais desejáveis, que ele chama de desiderata epistêmico.6 Ou seja, existem maneiras diferentes de uma crença ser intelectualmente boa. Por exemplo, uma crença pode ser intelectualmente desejável porque ela é coerente com outras crenças que possuo; ou ela pode ser produzida de maneira responsável; ou ela é meritória porque surgiu de faculdades cognitivas que estavam funcionando apropriadamente (uma boa memória, um bom raciocínio ou uma boa visão); ou porque ela foi formada por algum processo que é confiável (por exemplo, com base no testemunho confiável de cientistas e especialistas); ou ainda porque existem evidências em favor de tal crença.
Dizemos que uma crença desse tipo é racional. Mas como afirma Nicholas Wolterstorff,7 tal termo não captura todos os aspectos que podem tornar uma crença intelectualmente meritória. A palavra “racional” é ambígua e pode significar coisas diferentes em contextos diferentes; ela não consegue englobar toda a variedade de maneiras citadas no parágrafo anterior pelas quais uma crença pode ser intelectualmente elogiável.
Por exemplo, alguns pensam que, quando perguntamos se a crença em Deus é racional, o que estamos querendo saber é se há boas evidências ou bons argumentos em favor da existência de Deus. Esse é, aliás, o modo clássico de abordar tal questão. O filósofo Bertrand Russell argumentou que uma das principais objeções à crença em Deus é de natureza evidencial, pois “não há razão para supor que qualquer religião seja verdadeira”.8 Por razão, Russell sugere “o hábito de embasar convicções em provas, de dar a elas apenas aquele grau de certeza que a prova admite”.9 É conhecida, nesse contexto, a sua afirmação de que, caso após a morte fosse perguntado por Deus por que não acreditou nEle, responderia: “Não havia evidências suficientes!”
Mas será que essa é a única maneira de entender a racionalidade da crença em Deus? Será que uma crença só pode ser considerada razoável se for sustentada por argumentos a favor da existência de Deus? Por quê? Por que deveríamos aceitar que toda crença racional precisa ser inferida a partir de evidências? Será que todas as crenças que consideramos racionais são assim? Essas perguntas formaram o coração da epistemologia da religião, e os filósofos produziram, nos últimos 60 anos, uma quantidade monumental de literatura altamente técnica e sofisticada tentando respondê-las. Vamos explorar algumas dessas respostas nos próximos dois artigos dessa série.
Acreditar em Deus e conhecer a Deus
Antes de finalizar, convém fazer dois esclarecimentos. Primeiro, é possível que a crença em Deus tenha outros tipos de méritos que não os méritos intelectuais. Por exemplo, alguém poderia pensar que há méritos morais em acreditar que Deus existe; talvez a crença em Deus estimule virtudes como esperança, fé, humildade, atenção. Assim, acreditar em Deus traria benefícios significativos, e alguns desses benefícios talvez não estejam disponíveis para aqueles que não creem. Se isso for verdade, seria racional acreditar em Deus não por razões intelectuais, mas por causa de seus efeitos práticos na vida humana. Esse tipo de justificativa é conhecido como razão pragmática para acreditar em Deus.10
Segundo, estamos perguntando se é racional acreditar que Deus existe. Esse tipo de questão é geralmente entendido como conhecimento proposicional, isto é, o tipo de conhecimento que pode ser expresso por meio de uma proposição (por proposição entende-se uma afirmação sobre como as coisas são e que podem ser avaliadas como verdadeiras ou falsas). O conhecimento proposicional envolve investigar se é intelectualmente aceitável sustentar essa afirmação (Deus existe) como verdadeira.
Mas os filósofos também descobriram que existem outros tipos de conhecimento importantes na investigação sobre a racionalidade da crença em Deus. Por exemplo, a filósofa Eleonore Stump fala do tipo de conhecimento que envolve conhecer Deus como pessoa.11 Esse tipo de conhecimento envolve conhecer pessoas, experiências ou realidades de maneira direta e pessoal, e não meramente conhecer fatos e informações.
O conhecimento que tenho da minha filha Ana Sofia é um conhecimento desse tipo. No caso da crença em Deus, se Deus é uma pessoa, como acreditam os teístas, e se tenho conhecimento de Deus, então tal conhecimento significaria relacionar-se pessoalmente com Deus, semelhante ao modo como me relaciono pessoalmente com Ana Sofia. Esse tipo de conhecimento não pode ser reduzido a dados e envolve dimensões relacionais e experienciais que tenho com Deus.
Um ponto importante desse tipo de conhecimento é que ele permite compreender melhor a natureza das relações entre fé e razão, pois conhecer a Deus envolve desenvolver uma compreensão mais profunda da realidade por meio dessa relação pessoal.12 Pois é bem sabido dentro da tradição cristã que não basta simplesmente saber que determinada proposição sobre Deus é verdadeira. “Até mesmo os demônios creem – e tremem!”, disse certa vez a carta de Tiago (2:19).
5. Veja minha tese Credenciais epistêmicas da crença em Deus: uma comparação entre Alvin Plantinga e Richard Swinburne. Clique aqui para acessar.
11. Veja Eleonore Stump, “Francis and Dominic: Persons, Patterns, and the Trinity”, Modern Theology, v. 16, n. 4, p. 369-387, 2000. Stump desenvolve extensivamente esse tópico em Wandering in Darkness: Narrative and the Problem of Suffering (Oxford: Oxford University Press, 2010). Outra obra relevante é Expiação (Viçosa: Ultimato, 2023), que, embora trate do tema apenas de maneira indireta, possui a vantagem de estar disponível em português.
