ENSAIO

Desafios da fé no ofício historiográfico

Quem é cristão e quem não é?

Luca Lima Iacomini|

13/06/2025

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Luca Lima Iacomini

Doutorando em História pela Universidade Federal do Paraná. Graduado e mestre pela mesma instituição, com pós-graduação em Arquivística Histórica pela Universidade Nova de Lisboa.

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Como citar

Iacomini, Luca Lima. Desafios da fé no ofício historiográfico: quem é cristão e quem não é? Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 5, jan-jun, 2025.

Era uma segunda-feira, dia 20 de janeiro de 2025. Nos Estados Unidos, dois eventos importantes: o feriado em homenagem a Martin Luther King Jr., pastor batista e ativista político em defesa dos direitos civis da população negra; e posse do 47º presidente, Donald Trump. A inauguração do novo governo contou com uma oração do reverendo Franklin Graham, filho de Billy Graham, um dos maiores evangelistas do século 20. Para muitos, a admiração de tantos evangélicos a Trump causa estranhamento. Não havia ele dito tantas maledicências sobre a população imigrante e refugiada?¹ Não havia ele sido condenado por abuso sexual?² Trump já nem mesmo mantinha sua antiga posição pró-vida, opondo-se a uma proibição nacional do aborto, para a decepção de aliados.³

No dia seguinte, já empossado, Trump participou de um culto na catedral anglicana de Washington, celebrado pela bispa Mariann Edgar Budde. Em seu sermão, Budde pediu ao presidente que tivesse misericórdia das populações imigrantes e LGBTs, que encontravam-se temerosas das políticas do republicano. Trump reagiu, chamando-a de “suposta bispa” e “radical de esquerda que odeia Trump”.⁴

O que há em comum nos casos de Franklin Graham e Mariann Budde? Apesar das posições políticas discordantes, ambos agiam a partir da fé em um mesmo Deus. Nenhum deles, contudo, é filho do acaso; construções históricas, hermenêuticas e teológicas levaram a conclusões diversas em relação ao posicionamento mais “biblicamente correto” que eles assumiam que deveriam tomar. Como demonstrado pela historiadora Kristin Kobes Du Mez, a adesão de evangélicos brancos a uma cultura patriarcal, branca e nacionalista era feita em virtude da fé, e não apesar dela.⁵ O mesmo pode ser dito sobre os cristãos progressistas, que frequentemente entram em embates contra cristãos mais conservadores a partir de uma determinada hermenêutica das Escrituras, contextualizando-as para suas inquietações contemporâneas.⁶

Sabemos que Jesus declarou, no Sermão do Monte, que “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt. 7.21, ARA). Logo, fica evidente que nem todos os que se declaram como cristãos estão, de fato, vivendo o Evangelho de Cristo. Isso fica claro ao analisar os dados estatísticos sobre religião realizados no Brasil, que levam em conta o critério de autoidentificação: o censo não leva em conta se o sujeito que se diz evangélico frequenta a igreja, ou quanto do tempo de seu dia investe em leitura da Bíblia e oração; os números levam em conta apenas a resposta que foi dada aos pesquisadores.

A escrita deste ensaio partiu de uma conversa de um encontro interno do Grupo de Trabalho “História e Fé Cristã” da ABC². Em uma reunião, que trabalhava com a temática de religião e mídia na História Contemporânea, um dos integrantes do grupo mostrou-se confuso com relação a como ele, sendo um historiador cristão, pode considerar determinados sujeitos da História como cristãos.

A escrita deste ensaio partiu de uma conversa de um encontro interno do Grupo de Trabalho “História e Fé Cristã” da ABC².

Podemos tomar essa questão como um problema epistemológico, se partirmos da ideia de que a epistemologia da História “define o objeto histórico como o fenômeno […], o método histórico como a equação do problema […] e o produto como sendo o conceito”.⁷ Conforme bem colocado pelo historiador Aldo Nelson Bona,

Simpatia e interesse profundo movem a atenção do historiador em direção a um determinado objeto de estudo no passado. Como os homens do passado fazem parte da mesma humanidade a que pertence o historiador, entende-se que o historiador é parte da história e que ela promove, portanto, uma espécie de intersubjetividade, uma espécie de comunicação entre consciências afastadas no tempo.⁸

Se a História pode ser definida como a “ciência dos homens no tempo” (e esse tempo inclui também contextos do presente e do imediato),⁹ como observado pelo historiador francês Marc Bloch,¹⁰ é necessário compreender que o sujeito humano é central na pesquisa. Se há uma troca que envolve o conhecimento do pesquisador e aqueles a quem investiga, é justificável que tenhamos dúvidas sobre a legitimidade da fé do nosso objeto de pesquisa – não apenas por nossa natureza humana julgadora, mas também pela bagagem que adquirimos em nossas jornadas pessoais de fé.

[...] é justificável que tenhamos dúvidas sobre a legitimidade da fé do nosso objeto de pesquisa – não apenas por nossa natureza humana julgadora, mas também pela bagagem que adquirimos em nossas jornadas pessoais de fé.

Claro que há cristãos com várias formações, doutrinas, e muitas delas são divergentes das crenças de cada investigador em particular. Mas será que podemos tachar como cristãos aqueles que apoiaram a ascensão de Hitler na Alemanha?¹¹ Ou quiçá os que cooperaram com a ditadura militar no Brasil?¹² E aqueles que pulam Carnaval – afinal, podemos ou não participar desta festividade?¹³ Todos esses casos levantam inúmeras discussões, que podem ser bem resolvidas na academia, mas que ainda assim pululam na mente dos investigadores que são, acima de tudo, cristãos.

Segundo a historiadora Karina Kosicki Bellotti, é importante que o historiador leve em conta dois aspectos acerca da religião:

[…] as crenças religiosas são mantidas tanto pelas instituições religiosas, que assumem papel de autoridade e de guardiãs de dogmas, doutrinas, teologias; quanto pelos sujeitos que se apropriam de tais crenças em seu cotidiano, podendo tanto reforçar o sentido recebido por meio da tradição familiar ou institucional como retrabalhá-lo e questioná-lo, especialmente em momentos de crise e de decisão pessoal.¹⁴

Dessa forma, podem ser considerados cristãos aqueles que participam do culto semanalmente e se envolvem nas mais diversas atividades, assim como os chamados “desigrejados”, sujeitos que assumem a identidade cristã, mas desprendida de instituições, seja por não encontrarem igrejas que acolham suas visões teológicas ou simplesmente por perderem o interesse na vida em igreja.¹⁵ Conforme destaca Bellotti, “não cabe (…) a(o) historiador(a) julgar o caráter legítimo ou não de determinada crença religiosa e sua consequente prática, pois isso significaria assumir a  postura da  autoridade  religiosa  eclesiástica”.¹⁶ É fácil assumir essa postura na academia em um meio secular, mas aqui retorno ao questionamento de meu colega: isso não nos levaria a ter uma abordagem leviana da nossa fé como historiadores e como cristãos?

O filósofo James K. A. Smith, no livro Você é aquilo que ama, descreve que, mais que um sentimento, o amor é um hábito. O ser humano é também um ser teleológico, ou seja, é orientado a uma finalidade, um telos. Nas palavras de Smith,

[…] toda criação humana é designada para encontrar seu telos […] no próprio Criador, no Rei que veio até nós em Jesus. Todavia, essa estrutura da existência humana não garante que estejamos voltados na direção correta. Embora ser humano signifique que não somos capazes de não amar algo acima de tudo […] isso não significa que necessariamente amemos as coisas certas ou o Rei verdadeiro.¹⁷

Se Smith deixa claro que existe uma finalidade de vida disponível para todos que aponta para Cristo, Bloch, que não era crente, define que “o cristianismo é uma religião de historiador”.¹⁸ Em suas palavras,

Histórico, o cristianismo o é ainda de outra maneira, talvez mais profunda: colocado entre a Queda e o Juízo, o destino da humanidade afigura-se, a seus olhos, uma longa aventura, da qual cada vida individual, cada “peregrinação” particular, apresenta, por sua vez, um reflexo; é nessa duração, portando dentro da história, que se desenrola, eixo central de toda meditação cristã, o grande drama do Pecado e da Redenção.¹⁹

O cristianismo é, assim, também apresentado como uma crença que determina um telos: no fim dos tempos, todo ser humano será julgado por Deus e receberá um destino no qual viverá por toda a eternidade. Porém, quando nos debruçamos em estudos sobre determinadas figuras históricas em um passado já encerrado, o distanciamento histórico nos autoriza a enxergar a finalidade terrena das ações que determinadas figuras teriam em um prazo determinado. Um observador que tenha lido a respeito do célebre discurso “Eu tenho um sonho”, de Martin Luther King Jr., na Marcha Sobre Washington em 1963, precisa saber que a vida pública e eclesiástica de King caminhava para esse telos desde seus anos iniciais no cargo pastoral, quando recusava a teologia conformista de que negros deveriam aceitar a opressão terrena e apenas receber sua recompensa nos céus.²⁰

Apesar do riquíssimo legado de Luther King para os cristãos do mundo inteiro, há ainda quem queira afastar-se dele. Foi o caso do pregador John MacArthur,²¹ que em 2024 acusou o líder de não ter sido um cristão verdadeiro, que sua vida era imoral e que celebrar sua luta por justiça era woke.²²

Levando em consideração que Donald Trump desacatou a bispa Budde, reduzindo seu apelo por misericórdia a uma estratégia de oposição, e que John MacArthur fez questão de dizer que Luther King não era um dos seus, qual atitude o historiador cristão deve tomar ao trabalhar com a história do cristianismo? Podemos seguir os exemplos aqui citados e julgar a fé dos indivíduos que estamos analisando?

A história nos mostra que determinadas leituras e tradições cristãs justificaram, sim, a segregação, mas figuras como Luther King – e tantos outros, entre antecessores, contemporâneos e sucessores – também se ancoraram na fé para lutar contra esse sistema. Partidos de esquerda e de direita no mundo inteiro foram fundados a partir de uma perspectiva pretensamente cristã. Aliás, a principal tese do livro Domínio, de Tom Holland, é que ideias antagônicas moldaram a mentalidade Ocidental, com todas as suas contradições, por influência do cristianismo.²³ Nesse emaranhado de figuras que foram descritas aqui como cristãs, quais delas podemos considerar como verdadeiramente cristãs?

Um conceito que merece atenção aqui é o de “afinidades eletivas”. O precursor do uso do termo foi o escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, que o usava “para descrever a tendência de uma substância ser atraída e combinar com outra de forma inexorável, porém, [quando] aplicado às relações humanas, insinua uma tendência, escolha, liberdade e eleição”.²⁴ Mais tarde, o economista alemão Max Weber, em sua obra A ética protestante e o espírito do capitalismo,²⁵ apontou que o encontro de justificativas teológicas viabilizou a instalação do sistema capitalista em sociedades predominantemente calvinistas. Na esteira dos estudos das afinidades eletivas na religião também está Michael Löwy, que explicita os encontros da teologia cristã na América Latina com ideais marxistas, que culminaram na Teologia da Libertação.²⁶

O cristianismo foi desenvolvido ao longo de muitos séculos, adquirindo características culturais de cada sociedade e época em que se instalou. A institucionalização da Igreja, os tribunais de heresias e concílios ecumênicos tinham como intenção dar um norte aos fiéis, a fim de que fossem estabelecidas as bases dos crentes e seus critérios para pertencer à cristandade. No entanto, conforme já apontado, a autonomia religiosa, que garante que cada indivíduo opte pela forma como vive ou manifesta sua fé, também é válida para o estudo do cristianismo, amparada pela perspectiva da “história vista de baixo”,²⁷ também evidenciada nos estudos antropológicos sob ótica da “religião vivida”.²⁸

Há, também, uma herança da Reforma Protestante na defesa da livre interpretação das Escrituras. Conforme destaca o historiador francês Jean Delumeau, o humanismo renascentista, cuja filosofia e cujas artes estavam voltadas ao estudo do ser humano como um fim em si mesmo, não tendo o conhecimento de Deus como telos, foi fundamental na culminância da Reforma. Para Delumeau, “o humanismo preparou a Reforma de dois modos: contribuiu para aquele regresso à Bíblia que era uma das aspirações da época; chamou a atenção para a religião interior, reduzindo a importância da hierarquia, do culto dos santos e das cerimônias, ao mesmo tempo”.²⁹ Segundo o autor,

o Protestantismo dá ênfase a três doutrinas principais: a justificação pela fé [isto é, a ideia de que a salvação do pecado e da condenação se dá apenas pela graça de Deus mediante a fé do indivíduo, o qual é, inevitavelmente, pecador], o sacerdócio universal [segundo o qual cada cristão deve se ver como um agente da religião ainda que não ocupe cargo eclesiástico] e a infalibilidade apenas da Bíblia.³⁰

Esse retorno à Bíblia abriu caminho para que os indivíduos tomassem múltiplas interpretações acerca dos significados expostos nos textos sagrados, sobre os mais diversos temas, como:

  • Para onde vai a alma do salvo após a morte – descansa até o retorno de Jesus ou imediatamente sobe aos braços do Pai?
  • O livro de Cânticos dos Cânticos é uma exaltação ao amor romântico e ao sexo, usa metáforas para falar do amor de Cristo pela Igreja ou faz as duas coisas?
  • Deus criou o mundo, de fato, em sete dias, ou os sete dias foram colocados de forma metafórica? Como os dinossauros e outros seres atualmente fossilizados se encaixam nessa narrativa?

Essas e tantas outras dúvidas recebem explicações variadas, e a resposta fornecida por elas também está condicionada à ação do tempo. A historiadora Beth Allison Barr, esposa de um pastor batista nos Estados Unidos, após vivenciar os conflitos políticos internos do contexto em que estava inserida, foi atrás da resposta para a seguinte pergunta: “como a submissão das mulheres se tornou a verdade do Evangelho”? O resultado foi uma investigação histórica que se tornou seu aclamado – e polêmico – livro A construção da feminilidade bíblica. Na obra, Barr demonstra que o papel dado a mulheres ao longo da história do cristianismo passou por fases hermenêuticas e históricas que levaram ao contexto de sua inquietação pessoal do patriarcado batista estadunidense.³¹ Mais recentemente, Barr publicou uma história cultural de como casar-se com um pastor se tornou um caminho para mulheres servirem à igreja em alternativa à ordenação pastoral feminina.³²

O emblemático caso de Barr exemplifica o que o historiador britânico Keith Jenkins apontou, que:

o ponto de vista e as predileções do historiador ainda moldam a escolha do material, e nossos próprios constructos pessoais determinam como o interpretamos. O passado que “conhecemos” é sempre condicionado por nossas próprias visões, nosso próprio “presente”.³³

É certo que nem todo historiador cristão pesquisa assuntos relacionados à história do cristianismo (nem é seu dever que o faça), e nem todos os que pesquisam sobre história do cristianismo são cristãos. No entanto, existe algo pesquisado na área da Linguística que diz respeito à “singularidade”, que é definida pela linguista (e cristã) Sonia Almeida como “as marcas do pôr-de-si do pesquisador no que faz, ‘o colocar algo de si’ […] em seus processos de escrita”.³⁴ Dito isso, o historiador cristão, consciente ou inconscientemente, aplica algo de sua bagagem de vida em sua produção intelectual e que deve, de alguma forma, refletir o caráter e a beleza de Cristo.

O dever científico, entretanto, é buscar o distanciamento entre o pesquisador e a fonte. Bloch afirmou, sobre o caso do historiador da religião, que:

A questão […] não é mais saber se Jesus foi crucificado, depois ressuscitado. O que agora se trata de compreender é como é possível que tantos homens ao nosso redor creiam na Crucificação e na Ressurreição. Ora, fidelidade a uma crença é apenas, com toda evidência, um dos aspectos da vida geral do grupo no qual essa característica se manifesta.³⁵

No dever historiográfico, Deus não é um sujeito histórico, mas o alvo de adoração de sujeitos históricos.³⁶ Contudo, a designação de “ciência dos homens no tempo” levou à disputa em torno de quem foi o Jesus histórico; os historiadores que o estudam não têm a Bíblia como única referência, ainda que não a deixem de lado.³⁷ Também há estudos que levam em conta, historicamente, a forma como Jesus foi representado em meios como o cinema³⁸ ou as histórias em quadrinhos,³⁹ e até mesmo pode ser citada Uma história de Deus, obra da historiadora Karen Armstrong, que analisa a construção da ideia de Deus pelas religiões monoteístas.⁴⁰ Nesses casos, o que é estudado é a forma como Deus e Jesus foram vistos e interpretados, ou seja, é a ação humana é que norteia as análises em questão.

***

Refletiremos, agora, sobre a ideia de representação e sua relevância em estudos da História Cultural.

Roger Chartier, historiador francês e uma das maiores referências no campo da História Cultural, trouxe válidas reflexões acerca da formação de identidades de grupos a partir do conceito de representação. O autor aponta três possibilidades para analisar esse conceito:

por um lado, as representações coletivas que incorporam nos indivíduos as divisões do mundo social e organizam os esquemas de percepção a partir dos quais eles classificam, julgam e agem; por outro, as formas de exibição e de estilização da identidade que pretendem ver reconhecida; enfim, a delegação a representantes (indivíduos particulares, instituições abstratas) da coerência e da estabilidade da identidade assim afirmada. A história da construção das identidades sociais encontra-se assim transformada em uma história das relações simbólicas de força. Essa história define a construção do mundo social como o êxito (ou o fracasso) do trabalho que os grupos efetuam sobre si mesmos – e sobre os outros – para transformar as propriedades objetivas que são comuns a seus membros em uma pertença percebida, mostrada, reconhecida (ou negada). Consequentemente, ela compreende a dominação simbólica como o processo pelo qual os dominados aceitam ou rejeitam as identidades impostas que visam a assegurar ou perpetuar seu assujeitamento.⁴¹

De quais formas podemos pensar essas disputas de forças e construções de identidade? Permita-me citar dois casos.

Na segunda metade do século 20, houve grandes conflitos no interior da Igreja Presbiteriana do Brasil. Muitos jovens presbiterianos, inspirados nos ensinamentos do missionário Richard Shaull e na teologia do Evangelho Social de Walter Rauschenbusch, procuraram expressar sua fé de uma maneira prática, envolvendo-se em ação social, atividades ecumênicas e grupos políticos de esquerda. Ainda que muitos deles tenham sofrido com a “caça às bruxas” dentro da IPB, no calor do anticomunismo da Guerra Fria intensificado nos anos de Ditadura Militar, esses sujeitos não abandonaram a identidade presbiteriana, mas a ressignificaram, representando-a de uma forma diferente da hegemônica e institucional.⁴²

Se quisermos entrar no campo das práticas artísticas e culturais, podemos utilizar o exemplo sugerido por Bellotti sobre os metaleiros evangélicos:

somos instigados a compreender os dilemas identitários de jovens que se encontram em diferentes encruzilhadas culturais: seriam “metaleiros” (ou headbangers) demais para os evangélicos mais velhos; seriam evangélicos demais para os “metaleiros”; como se houvesse uma identidade definida para cada grupo, qualificada pela sua alteridade. De que maneira esses jovens procuram se situar e agir na sociedade, dentro e fora de suas igrejas? Como almejam testemunhar seu cristianismo – e que cristianismo é esse?⁴³

Nesses contextos de estudo, não nos cabe fugir da teologia criada por esses grupos, e devemos, também, nos aprofundar sobre o que a Palavra pode sugerir.⁴⁴ Não é o caso de transformar um estudo historiográfico em um trabalho de apologética, mas de compreender que os mais variados grupos cristãos produziram uma teologia, ainda que não acadêmica, que deve ser bem explorada a fim de que tenhamos um trabalho exitoso.

Nesses contextos de estudo, não nos cabe fugir da teologia criada por esses grupos, e devemos, também, nos aprofundar sobre o que a Palavra pode sugerir.

Diante de tantas observações, é ao Evangelho que recorro para encontrar uma resposta. Foi Jesus, no Sermão do Monte, que disse, em alto e bom tom, a famosa frase: “Não julgueis” (Mt 7.1, ARA). É certo que o mandamento de não julgar não está de acordo com uma permissividade quanto ao pecado, mas no olhar para si, a fim de notar os erros que nós cometemos, para que não nos achemos superiores aos outros. No entanto, o apóstolo Paulo, na primeira Carta aos Tessalonicenses 5.21-22 (ARA), disse “julgai todas as coisas, retende o que é bom; abstende-vos de toda forma de mal”. Aplicado ao contexto da pergunta do colega do GT, quais sujeitos históricos podemos chamar de cristãos ou de não cristãos? Aplicar à historiografia os mesmos critérios do IBGE não seria uma leviandade com a nossa fé?

Meu parecer inicial é quase óbvio: devemos tratar os personagens históricos a partir das identificações que eles nos fornecem, uma vez que, conforme explicitou Jenkins, na História repensada, o historiador não possui a habilidade de colocar-se na mente dos personagens que estuda, pois isso é inalcançável.⁴⁵

Meu parecer inicial é quase óbvio: devemos tratar os personagens históricos a partir das identificações que eles nos fornecem [...].

Ainda assim, gostaria de fazer algumas ressalvas.

Gosto de pensar no Credo Apostólico, aquela bela confissão de fé, cujas origens ainda geram intensos debates,⁴⁶ como algo que une cristãos das mais diversas tradições, denominações e ideologias:

Creio em Deus, o Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra.
E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia; subiu aos céus; está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo, a santa Igreja católica,⁴⁷ a comunhão dos santos,
a remissão dos pecados, .
a ressurreição da carne,.
a vida eterna..
Amém.⁴⁸

Considerando que em nosso ofício também temos a obrigação de mostrar o caráter de Jesus, caso o leitor deste artigo seja historiador e esteja interessado em pesquisar a história do cristianismo, pode ser uma boa ideia utilizar trechos das Escrituras para reforçar a pertença dos sujeitos sobre os quais debruça à fé cristã. Nos momentos em que achar que as figuras em questão tomaram ações que não condizem com a Palavra, explicite o porquê e demonstre, a partir de casos concretos a não unanimidade dos fiéis em relação a essa prática. Por exemplo, no caso de escrever sobre a colaboração de evangélicos brancos à segregação nos Estados Unidos, você pode falar, mesmo que seja em um único parágrafo, sobre Bob Zellner, um evangélico branco que foi ativo na luta pelos direitos civis. E por que não falar em Jaime Wright, Rubem Alves, Anivaldo Padilha, Heleny Guariba, entre tantos outros, para contrapor o discurso de que as igrejas evangélicas aderiram fortemente à ditadura militar brasileira?

Cabe, por fim, voltar ao conceito de representação e ao telos que mencionamos anteriormente. Se essas figuras que estudamos dizem que são cristãs, qual o tipo de cristianismo pretende ser apresentado por elas? Se a representação é fruto de uma disputa de forças, fica evidente que há vozes dissonantes; logo, outras expressões de crenças e descrenças coabitam o cristianismo que está sendo estudado. Afinal, qual é o telos a que se submetem essas figuras? Com qual intenção apresentam seu cristianismo? Ainda vivemos em um contexto de tensões e disputas de ideias, e situar as vozes dissonantes de pensamentos hegemônicos também contribui para a demarcação de sua genealogia no campo das ideias.

Espero que este ensaio tenha trazido luz ao questionamento que meu colega de GT apresentou, e que sem dúvidas não é só dele. Encerro com meus votos de que os historiadores cristãos que leiam este texto, ainda que não trabalhem com a história da religião, não percam a oportunidade de colocar a “singularidade” divina em seus trabalhos.

Referências

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Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

* Ensaio classificado em 3º lugar na 6ª chamada de Ensaios do Radar ABC².

1. Redação Veja, 2024.

2. CNN, 2024.   

3. Brown, 2024.    

4. BBC News Brasil, 2025.

5. Du Mez, 2022.

6. Uma pesquisa de 2022 do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social divide os evangélicos progressistas em duas categorias que, ainda que reducionistas, ajudam a compreender um pouco desse segmento: “a) militantes do movimento social que são evangélicos, mas sua identidade de luta é pela terra, pela moradia, etc.; e b) evangélicos para quem a luta se dá a partir de sua fé, atuação na igreja, pastorais e coletivos religiosos” (Instuto Tricontinental de Pesquisa Social, 2022, p. 15). Ver também: Marques, 2023.

7. Wehling, 1992, p. 164.

8. Bona, 2010, p. 174-175.

9. Moreira; Silva, 2022.

10. Bloch, 2002, p. 55.

11. Ruppenthal, 2024.

12. Padilha et al, 2022.

13. Iacomini; Iacomini Junior, 2024.

14. Bellotti, 2011, p. 30.

15. Costa, 2024.

16. Bellotti, 2011, p. 30.

17. Smith, 2017, p. 42.

18. Bloch, 2002, p. 42.

19. Ibidem.  

20. Magalhães, 2009.

21. Giboney, 2024.

22. A palavra woke, que surgiu como um termo utilizado para referir-se à luta por justiça social em defesa de grupos marginalizados, é frequentemente tomada em sentido pejorativo por grupos conservadores. No caso de MacArthur, trata-se de uma acusação de que cristãos estavam aderindo a agendas de esquerda ao considerarem Luther King como um dos seus.

23. Holland, 2022.

24. Souza Junior; Souza, 2020, p. 1189.

25. Weber, 2004.

26. Löwy, 1989; Löwy, 1996.

27. Sharpe, 1992.

28. Recomendo a leitura deste trabalho, sobre a “religião vivida” e o protestantismo no Quênia: Gez, 2018.

29. Delumeau, 1989, p. 82.

30. Ibidem, p. 59.

31. Barr, 2022.   

32. Barr, 2025.     

33. Jenkins, 2001, p. 32-33.  

34. Almeida, 2011, p. 55.

35. Bloch, 2002, p. 58.

36. Ver: Seth, 2013.

37. Chevitarese et al, 2006.

38. Viganò, 2011.

39. Bellotti, 2015.

40. Armstrong, 2008.

41. Chartier, 2002, p. 11.

42. Padilha et al, 2022.

43. Bellotti, 2018, p. 29.

44. Sobre isso, recomendo a leitura de: Taborda, 2024.

45. Jenkins, 2001, p. 68-78.

46. Ferreira, 2024, p. 29-32.

47. Entende-se “católica” aqui por “universal”, seu sentido original. Crer na “santa Igreja católica” é crer na comunhão dos cristãos pelo mundo.

48. Ferreira, 2024, p. 25-26.

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