ENSAIO

Mito verifeito e o Evangelho nos contos de fadas

Giovanna Souza Daniel|

21/03/2025

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Giovanna Souza Daniel

Teóloga, pós-graduanda em Literatura, Educação Cristã Clássica e Novo Testamento. Mestranda em Teologia. Busca resgatar uma leitura narrativa, literária e dramática dos textos bíblicos.

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Como citar

Daniel, Giovanna Souza. Mito verifeito e o Evangelho nos contos de fadas. Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 5, jan-jun, 2025.

Do ponto de vista cultural, o mito figura como uma das formas narrativas mais antigas a cumprir com o objetivo de contar uma história capaz de explicar a realidade – ou, melhor dizendo, o objetivo mais específico de elucidar determinada cosmovisão. Assim, não é de se admirar que uma das principais ênfases da teologia imaginativa é a ideia do mito como base do cristianismo.

Nesse ponto, vale salientar que o conceito de mito, para os fins deste trabalho, em nada se assemelha ao de fantasia ou ficção, mas busca referenciar tão somente a noção de relato ou narrativa capaz de explicar a condição das coisas. Destarte, entende-se por mito o tema ou conteúdo de uma história, a alma, por assim dizer, que transcende e independe do método de comunicação, de modo a persistir ao longo do tempo e do espaço. O mito é a essência que não se desgasta, a verdade que não se abala ao capricho das circunstâncias. Isso posto, quando se introduz a ideia do mito como base para o Evangelho, não se pretende diminuir o segundo ao compará-lo com o primeiro; antes, tal comparação tem como objetivo transmitir a imutabilidade do Evangelho, a capacidade de atravessar eras e culturas, e transpassar tantos corações no passado e no presente, conferindo inteligibilidade – mais que isso, sentido – à vida do homem. 

C. S. Lewis, enquanto um dos defensores dessa ideia, acreditava firmemente que a revelação divina era mitopoética, chegando a afirmar ousadamente que a própria fé deveria ser expressa na linguagem do mito; linguagem tal que penetra fundo no imaginário humano e sobrevive às mudanças comuns às circunstâncias. Enquanto os jargões teológicos estão sujeitos ao desgaste, o mito permanece e, tornado fato, subsiste inegável.¹

Como se sabe, a revelação foi registrada na Bíblia. É interessante que o Senhor tenha utilizado esse meio, transmitindo sua mensagem pelos mais variados gêneros literários e figuras de linguagem;² porém, Deus também se revelou em carne, na forma de um homem, Jesus Cristo. Deus não se contentou em escrever a história, mas escolheu efetivamente entrar nela, fazer parte dela, conferindo validade e historicidade ao grande drama cósmico exposto nas Escrituras. Conforme postula Kevin Vanhoozer, a unidade do cânon “não é a unidade de um Euclides ou de um mosaico, mas a de um mythos ou ‘enredo’: a representação de uma ação completa” em Cristo Jesus, “a corporificação e encenação do propósito divino que dá vida a todo o drama da redenção”.³

Na pessoa de Jesus, que viveu e andou entre os homens, Deus comprovou suas palavras e encarnou a lenda que era sussurrada de página em página, o mito que era contado desde o princípio. O Logos divino, presente desde antes da criação, saiu do livro e entrou no mundo. Cada versículo, cada capítulo, cada história apontava para ele, a mensagem principal de toda a trama. Jesus Cristo é o personagem central da história, o fundamento sob qual toda a Palavra se sustenta.

O tema essencial da narrativa é este: Cristo é o Senhor. Assim sendo, é natural que uma boa leitura das escrituras aponte para ele. Nenhum assunto é mais crucial e enfático do que o senhorio de Cristo; tudo está subordinado a ele. Portanto, mais do que um livro que esclarece a história do homem com Deus, a Bíblia é um livro sobre aquele que é o começo e o fim de tudo: a lenda viva, o mito verifeito,⁴ o Deus revelado.

a Bíblia é um livro sobre aquele que é o começo e o fim de tudo: a lenda viva, o mito verifeito, o Deus revelado.

Desse modo, conforme leciona Juan Stam, para interpretar bem a Bíblia, sempre será necessário dispor de uma mente sujeita ao cativeiro de Cristo e de uma imaginação disciplinada para não ver nada “além de Jesus Cristo, e este crucificado”.⁵ Em termos simples, para citar Hugo Vanni, o drama bíblico “interessa-se por fatos, que devem ser interpretados à luz de Deus, o qual guia os eventos da história e lhes dá um significado que transcende a materialidade”.⁶ Não há outra forma. Cristo é a lente através da qual a narrativa ganha sentido. Logo, ao contemplar a trama à luz de Cristo, a literatura bíblica amplia os horizontes do homem de maneira a permitir uma visão da história como um todo, conferindo não apenas significado, mas unidade e objetivo ao processo histórico.

Dito isso, embora Lewis trace paralelos entre a estrutura do Evangelho e a dos mitos, de maneira geral depreende-se que o propósito cardinal da Bíblia não é explicar somente o contexto da história humana, mas edificar a fé e alimentar a esperança ao apontar para o Autor por trás da grande história, a Pessoa por meio da qual todas as coisas foram feitas. Como pontua Joachim Jeremias, “é sobre o fato de que o mundo foi criado por seu intermédio que se funda o direito de Jesus Cristo à autoridade soberana sobre todas as coisas”,⁷ seja no livro, seja fora dele; Cristo estava presente no início da história e estará presente até o fim.

No entanto, em grande parte das Escrituras, esse fato permanece encoberto, um mistério no sentido mais elevado da palavra, mas um mistério que é revelado: primeiro, no Antigo Testamento, por meio de profecias, promessas e alusões, e, depois, no Novo Testamento, em um tempo certo e um local determinado, por intermédio de Jesus, Deus encarnado, mito feito fato, a Palavra comprovada. Nos termos imortalizados pelo Evangelho segundo João, Cristo é o Verbo que se fez carne e andou entre os homens, a luz que raiou sobre o mundo e afastou a escuridão. Em vista disso, pode-se afirmar que o próprio Cristo é a sombra brilhante⁸ que escapa das páginas do livro e invade a realidade. Ele é a verdade que reina, seja no mundo de fato, seja no mundo da imaginação, pois não existem limites ao seu senhorio.

Assim, embora ao longo da Bíblia a figura de Jesus apareça cercada por uma abundância de imagens, assuntos e símbolos, o leitor mais atento não corre o risco de perdê-lo de vista em meio às coisas secundárias; pelo contrário, é a sombra brilhante de Cristo que ilumina tais coisas, com efeito que é somente através da sua luz que é possível enxergá-las e, nelas, contemplar seu reflexo grandioso (Salmos 36:9). Em verdade, não poderia ser de outra forma; a luz é demasiadamente forte para ser ofuscada ou até mesmo atenuada. Nesse sentido, vale trazer à memória o que se encontra registrado em 2 Coríntios 4:6 (NVI): “pois Deus, que disse: ‘Das trevas resplandeça a luz’, ele mesmo brilhou no nosso coração, para a iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo”.

é a sombra brilhante de Cristo que ilumina tais coisas, com efeito que é somente através da sua luz que é possível enxergá-las e, nelas, contemplar seu reflexo grandioso (Salmos 36:9).

Os fatos, portanto, se resumem a esta narrativa-mestra da qual o Grande Autor faz parte, um drama que apenas Ele pode dirigir e que somente por meio dele se pode interpretar: na eternidade passada, o Deus trino criou os céus e a terra, porém, por advento da queda, o pecado entrou no mundo e Deus fez uma promessa, deixando aos homens a esperança de que, embora o mundo estivesse quebrado e caído, nem tudo estava perdido, pois viria Um capaz de reverter o desastre e reconciliar os laços partidos. Esse é o drama das Escrituras, uma história com início, meio e fim, com bestas, milagres e todo tipo de elemento fantástico,⁹ uma história por vezes ameaçadora e angustiante, mas que aponta para um futuro próximo onde acontecerá o “julgamento divino solene e a instauração do reinado do Senhor”.¹⁰

Na opinião de J.R.R. Tolkien, essa narrativa possui elementos não somente compartilhados pela estrutura mitopoética, mas também pela estrutura comum à literatura fantástica. Em termos mais claros, ele afirma o seguinte:

Os evangelhos contêm um conto de fadas, ou uma estória de uma classe maior que abarca toda essa essência dos contos de fadas. Contém muitas maravilhas, principalmente artísticas, belas e comoventes: “míticas” em seu significado perfeito e completo. Mas essa estória adentrou a história e o mundo primário; o desejo e a aspiração da subcriação foram elevados à plenitude da Criação. O Nascimento de Cristo é a eucatástrofe da história do homem. A Ressurreição é a eucatástrofe da estória da Encarnação. Essa estória começa e termina em alegria. [...]. Essa história é superior; e é verdadeira. A arte foi comprovada.¹¹

Aliado a isso, nota-se que, enquanto livro, a Bíblia apresenta conteúdo com forte apelo imaginativo. Na perspectiva de Stam, a literatura bíblica consiste, em grande parte, na imaginação a serviço do Reino de Deus, utilizando, para tanto, variadas figuras de linguagem que emprestam elementos da fantasia criativa e que esbanjam uma boa dose de capacidade lúdica. Assim, na perspectiva desse autor, é preciso compreender a literatura bíblica como um gênero estético, polido, com regras próprias e artifícios literários que apresentam suas próprias chaves de interpretação. A leitura deve ser realizada com amparo da razão, porém, uma vez que os versos bíblicos constantemente apelam para os sentidos de percepção,¹² convidando o leitor para se envolver no enredo, também é necessário enxergar a história com os olhos da imaginação.

Dito isso, quanto mais imaginativa for uma mitologia – ou uma história, para este efeito –, tanto maior será sua capacidade de “comunicar mais realidade”.¹³ A imaginação, portanto, não é uma rota de escape ou uma estrada enlameada por mentiras e ilusões, mas sim um caminho confiável, uma trilha repleta de placas que apontam para a verdade suprema que permanece imutável em qualquer era. Assim, “todos os verdadeiros artistas, consciente ou inconscientemente, sentem que estão tocando verdades transcendentais; que suas imagens são sombras de coisas vistas através de um véu”.¹⁴

Dessa forma, segundo acreditava Tolkien, o criador de uma história “faz um mundo secundário no qual nossa mente pode entrar. Dentro dele, o que ele relata é ‘verdadeiro’, está de acordo com as leis daquele mundo. Portanto acreditamos, enquanto estamos, por assim dizer, do lado de dentro”.¹⁵ Assim, pelo uso da imaginação, o leitor consegue entrar na história, perscrutar o universo médio¹⁶ e sentir-se parte da narrativa, parte da fantasia, parte daquela estranha magia das fadas ou, melhor dizendo, do encanto das sombras brilhantes que saem do livro e alcançam a realidade, ressignificando os contornos do mundo de fato e da própria vida do sujeito que se permitiu ter a mente e o coração cativados pelo deslumbramento dos contos fantásticos. O vento perigoso e sublime da floresta encantada sopra frescor ao cotidiano e ao ordinário dos dias comuns.

Em termos mais simples, a qualidade mágica do texto fantástico se comunica diretamente ao imaginário do leitor, e o imaginário, por sua vez, realiza um precioso jogo intertextual: a experiência adquirida por meio dos livros não apenas dialoga com a realidade, mas também transforma a realidade do indivíduo cuja imaginação foi abrasada, o indivíduo no qual o deslumbramento foi avivado.

Em tudo isso, um conhecimento imemorial é despertado no coração do leitor: a percepção bíblica de que, embora esteja no mundo, não pertence a ele. Ao desbravar o universo médio dos contos de fadas, o sujeito sente que, embora more em uma casa limpa, ordenada e confortável, não pertence àquele local. Ele sente que existe algo mais, algo além do que se pode ver com os olhos naturais. Por isso, a pessoa que lê fantasia não questiona os elementos divinos ou mágicos da história, pois nela está contido “o projeto da criatura humana em seu estágio mais original e puro, [e está] encharcada pelo gracioso hálito de Deus”.¹⁷ A fantasia, portanto, não ofusca a realidade, mas aguça o olhar do sujeito ao despertar desejos aos quais nada na Terra pode satisfazer, de maneira a chegar à conclusão lógica, segundo Lewis, de que o ser humano, em verdade, foi feito para outro mundo, quiçá outra vida.

Em tudo isso, um conhecimento imemorial é despertado no coração do leitor: a percepção bíblica de que, embora esteja no mundo, não pertence a ele.

Quanto aos elementos simbólicos, vale mencionar que a Bíblia em si é repleta de metáforas, analogias e parábolas, figuras de linguagem e técnicas de comunicação que atuam conjuntamente na tarefa salutar de melhor transmitir o significado real por trás das histórias contadas – isto é, o mito, a alma, a essência da história, que permanece imortal independentemente de como a história em si é contada. De maneira semelhante fazem os contos de fadas. A fantasia não busca convencer ninguém da existência de dragões ou bruxas más, mas tão-somente contar uma história, comunicar valores, virtudes e morais que transcendem o próprio enredo e que vivem além da narrativa, mas se expandem em sombras brilhantes por toda a realidade. Nesse sentido, pode-se argumentar que as fantasias são mais eficazes que os contos realistas em demonstrar que é preciso observar regras para alcançar-se a felicidade, pois elas transcendem o tempo e as circunstâncias, livrando-se do que é supérfluo para alcançar o que é verdadeiro.

Em contraste, as histórias que se mostram descompromissadas com a verdade ao abordar uma vida sem desafios e dificuldades, um caminho sem obstáculos e curvas ao longo da estrada, se revelam muito mais perigosas ao peito humano, além de completamente avessas à mensagem do Evangelho e do Deus feito homem, pregado à Cruz do Calvário para expiar os pecados que ameaçavam trazer morte eterna à toda criação; o mesmo Deus que convidou os homens a negar a si mesmos, carregar a própria cruz e seguir os seus passos que primeiro levaram ao Gólgota e, somente depois, à Eternidade. Histórias que buscam encobrir ou camuflar as questões intrínsecas à experiência da vida neste mundo, tais quais a morte, a doença, a mentira e a dor, bem como a saudade, a coragem, a virtude, a esperança, a fé e o amor, não conduzem o leitor à canto algum; pelo contrário, falham com a verdade e fomentam a ilusão.

Apesar disso, não é incomum que haja questionamentos e controvérsias acerca dos elementos próprios dos contos de fadas, até mesmo no interior da Igreja. Muitos acreditam que histórias que versam sobre bruxas, dragões, monstros, milagres e impossibilidades lógicas podem produzir um efeito nocivo aos leitores, seja a curto prazo, no caso das crianças, seja a longo prazo, no caso dos adultos que cresceram em meio à literatura fantástica. Alguns pais, impulsionados pelo instinto de proteção, sequer permitem que os filhos entrem em contato com narrativas dotadas de assombro, fantasia ou magia, a qualidade sobrenatural que desperta impressões das mais fortes e profundas no imaginário humano. Lewis, porém, crendo que a verdade era mais bem transmitida por meio da imaginação, argumentou de maneira diametralmente oposta. De acordo com sua concepção, os contos de fadas, diferentemente de muitos contos realistas, promovem a verdade de que o mal existe e de que não é possível derrotá-lo sem ajuda, com efeito de que é necessário um salvador ou, em termos fantásticos, um herói.¹⁸

os contos de fadas, diferentemente de muitos contos realistas, promovem a verdade de que o mal existe e de que não é possível derrotá-lo sem ajuda, com efeito de que é necessário um salvador ou, em termos fantásticos, um herói.

Isso posto, torna-se indispensável mencionar algumas das aplicabilidades da fantasia e dos contos de fadas ao Evangelho. Uma delas é o que pode ser intitulada “necessidade do herói”, afinal, em toda boa história mágica, além de bruxas, gigantes, monstros e fadas, há também a figura essencial daquele capaz de libertar os oprimidos, de livrar o reino do maligno, de salvar a princesa, encontrar o tesouro, domar o dragão, contornar as armadilhas, vencer as lutas e derrotar o inimigo. Assim, embora os contos fantásticos apresentem vilões formidáveis, terrores agudos e perigos acachapantes, há consolo e proteção na figura do herói forte e corajoso que não hesita ou empalidece em face do mal, mas sobre ele triunfa com graça e honra. Os vilões talvez sejam implacáveis, mas os heróis também o são. Desse modo, a literatura fantástica ensina a preciosa lição de que não é possível salvar-se sozinho. É necessário que haja alguém capaz de enfrentar o mal e prover uma salvação eficaz contra os monstros e contra a maldade que o homem descobre em si mesmo.

Nesse tocante, aos moldes do Evangelho, Bruno Bettelheim afirma que, nos contos de fadas, “a vitória não é sobre os outros, mas apenas sobre si mesmo e sobre a vileza (principalmente a própria, que é projetada como o antagonista do herói)”,¹⁹ bem como a diversidade de sentimentos despertados pelo que é mau. Esse confronto, cuja raiz está na queda do Éden, é transmitido pela linguagem da fantasia e do imaginário, mas não deixa, por conta disso, de ecoar a importante oração ensinada por Jesus: “livra-nos do mal”. Conforme lecionava Agostinho,²⁰ o mal está centrado na vontade humana, na desobediência e na rebelião contra a ordem criada, e é somente quando o homem compreende nos desejos e nas inclinações do próprio coração aquilo que viola a lei de Deus que se torna possível compreender o mal que habita em si. É necessário reconhecer a própria sombra, o próprio mal, o próprio pecado, e os vilões e antagonistas literários certamente esboçam de maneira crível, lúdica e aguçada este cenário. Esse processo de autoexame para o arrependimento dura uma vida inteira e, quando mediado pela imaginação e pelos artifícios retóricos da literatura fantástica, se torna mais leve, uma vez que o exercício da alteridade contribui e favorece imensamente ao desenvolvimento sadio do leitor, agregando vivências e expondo a mente a modelos virtuosos, dignos de serem seguidos. O desenvolvimento e o amadurecimento passam a ser vistos como atos heroicos, que acendem fagulhas de verdade no coração de quem assim os vê.

Através da literatura fantástica, o leitor aprende a resolver muitos dos seus próprios conflitos, tanto externos como internos, à medida que compreende melhor a dubiedade que marca o ser humano. Nesse sentido, reconhecer o pecado, no mundo e em si, como grande vilão da história, é essencial para que o homem possa se livrar das sugestões e influências da natureza caída; porém, é necessário, ainda, algo que não depende do próprio homem: um salvador que entra na história, que entra no mundo e domina o pecado quando tudo parecia estar perdido. E o pecado só pode ser superado pela justiça do salvador nato, o único justo em quem não há nenhuma mácula. Dito isso, nos contos de fadas, bem como na vida real, a necessidade do herói aponta para o herói máximo, aquele que é o caminho, a verdade e a vida (João 14:6), o Verbo que se fez carne e andou entre os homens (João 1:14), aquele que por todos se entregou na Cruz do Calvário.

A necessidade do herói incute na mente humana a certeza de que homem algum está apto para solucionar todos os dilemas, e desperta no coração o anseio por um herói que reconheça as limitações dos homens e, ainda assim, os ajude, com efeito de que o leitor passa a procurar por esse herói, a buscá-lo não somente com os olhos da imaginação, mas com os olhos da fé, o único capaz de remediar os conflitos da história e proporcionar o almejado e, no caso do mundo de fato, imerecido final feliz.

Quanto à jornada do herói em si, pode-se afirmar que constitui uma espécie de espinha dorsal de toda narrativa fantástica, cuja trajetória se mostra decisiva para o destino a ser alcançado ao final da história. A jornada do herói tem como enfoque o ser humano e suas lutas, enfatizando o cultivo de virtudes e o afiamento da moral, tornando claro o fato de que os seres humanos, tanto reais quanto fantásticos, simplesmente não conseguem se salvar sozinhos. Nesse sentido, os passos do herói na fantasia e nos contos de fadas ganham uma nova dimensão de profundidade religiosa ao retratar também a história de Jesus Cristo.

Em termos inequívocos, a Bíblia, ainda em seus primeiros capítulos, prenuncia um salvador que virá trazer redenção ao mundo caído e quebrado, um guerreiro ferido que esmagaria a cabeça da serpente, o servo sofredor, o leão e o cordeiro que tiraria o pecado do mundo, a luz brilhante que afastaria a escuridão, a vida verdadeira que venceria a morte de uma vez por todas e para todo o sempre.

As Escrituras narram o nascimento de Jesus, a sua infância e diversos outros detalhes do seu cotidiano que desvelam o mundo comum do herói, o contexto maior no qual está inserido. As bodas, retratadas em João 2, quando Jesus realiza seu primeiro milagre, podem muito bem ser interpretadas como o seu chamado à aventura, sendo seguido por diversas situações que se encaixam no modelo heroico de Joseph Campbell,²¹ tais como a recompensa, a volta para o lar e a ressurreição. Cristo é crucificado, sim, mas o caminho de volta ao lar está justamente em sua morte na cruz, a recompensa pela fidelidade no plano de salvação e redenção da boa criação. Cristo, então, ascende aos céus em uma ressurreição literal e corpórea, o verdadeiro clímax da história da humanidade, a maior eucatástrofe, uma reviravolta jubilosa sobre a qual todas as demais são modeladas. Ainda, mediante a compreensão narrativo-estrutural de Vladimir Propp,²² após a morte e ressurreição, o herói sobe ao trono e se casa, assim como Jesus Cristo, entronizado em glória, há de receber sua noiva, isto é, a igreja e os salvos (Apocalipse 19:7; 21:2). Esse é o verdadeiro final feliz, proporcionado pelo único e verdadeiro Herói.

Nesta mesma veia, vale a pena destacar mais uma característica clássica dos contos de fadas, a qual Chesterton chama de Doutrina da Alegria Condicional,²³ o fundamento no qual se sustenta a fantasia. Esse princípio determina que toda felicidade e virtude dependem de um “se”. Essa é uma lei imutável da ética élfica: tudo é possível, mas em tudo há uma condição. A Cinderela pode ir ao baile, mas deve retornar antes da meia-noite, ou a magia acabará. A Pequena Sereia pode se tornar humana, mas apenas se o príncipe verdadeiramente a amar. Pinóquio será um menino de verdade, desde que seja corajoso, honesto e generoso. Essa cláusula condicional da felicidade pontua todos os contos de fadas e consiste em um requisito essencial para a magia, exigindo do protagonista a obediência irrestrita a princípios que podem ou não lhe fazer sentido.

Em outros termos, tudo é permitido, exceto o que é proibido. Portanto, para Chesterton, “todas as coisas atordoantes e colossais concedidas dependem de uma pequena coisa negada” e “todas as coisas loucas e atordoantes que são liberadas dependem de uma coisa que é proibida”.²⁴ Essa é a moral do País das Fadas: toda a felicidade se apoia em alguma condição incompreensível, a qual precisa ser cumprida para desfrutar-se da alegria.

No jardim do Éden, uma condição semelhante foi imposta a Adão e Eva: poderiam comer livremente de todas as árvores, exceto da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque, no dia em que dela comessem, certamente morreriam. Nesta passagem, em Gênesis 2:16-17, o Senhor não explica a razão dessa proibição, mas tão somente deixa claro quais as consequências de uma eventual transgressão: o primeiro casal, perfeitamente criado, em um mundo perfeito e imortal, se sujeitaria à morte, algo que, até então, era estranho à boa criação. Nessas circunstâncias, Adão e Eva viviam em perfeita glória e, portanto, tinham muito a perder caso desobedecessem à ordem de Deus. A condição talvez parecesse absurda, mas a obediência, por outro lado, era simples. Toda a felicidade estava garantida, alicerçada em uma única obrigação de não fazer.

No Novo Testamento, em Mateus 16:25, as palavras de Jesus demonstram outro exemplo da alegria condicional: “Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á”. Para salvar a própria vida, primeiro é necessário perdê-la por amor a Cristo. Mais uma vez, à primeira vista, a condição parece incompreensível, porém, em contrapartida, oferece em troca uma felicidade também incompreensível. Nesse caso, toda a alegria depende de uma obrigação de fazer, de uma obediência ativa que desafia a razão da criatura a fim de derramar luz sobre o assunto do céu, derrubando as muralhas da vaidade e do entendimento humano para abrir espaço à lógica do Reino.

Dito isso, segundo Chesterton, a Doutrina da Alegria Condicional é uma característica essencial dos contos de fadas e, também, da vida. Toda a felicidade depende de uma condição incompreensível, algo que pode ser feito ou desfeito a qualquer momento, sem que se explique a razão da necessidade de obedecer à lei imposta. Desse modo, a moral da elfolândia determina que toda alegria possui um contraponto a fim de ser desfrutada. A magia tem um preço e a felicidade pertence aos corajosos e honestos, aqueles fiéis e obedientes o bastante para reconhecer o seu valor, bem como o preço pago por tamanha alegria. No universo de Deus, este preço foi pago pelo sangue derramado por Cristo na cruz e, para que toda felicidade seja alcançada, basta seguir os passos de Jesus, carregando a própria cruz pela vereda estreita que leva ao seu encontro. Os termos são simples, as consequências são de júbilo inimaginável, e as condições, com o auxílio do Senhor, são plenamente suportáveis, embora o trajeto não seja sem os seus percalços. Nesse sentido, a felicidade é como vidro: frágil e brilhante; caso as condições sejam burladas, perecerá em um instante, porém, se as leis divinas forem observadas, possui o pendor de durar por toda a eternidade. Assim é a alegria no País das Elfos, bem como no País dos Homens, pois eis que há apenas um Deus, Senhor dos homens, dos anjos e das fadas.

De fato, todo o homem teve uma aventura horrível, digna dos contos de fadas, e, por meio da graça e misericórdia do Senhor, através do sangue de Jesus, da crucificação da carne, da peregrinação pela estreita vereda e da luta diária contra o pecado mortal, todo o homem teve também uma grande eucatástrofe – uma reviravolta positiva que garante que o indivíduo não encontre uma desgraça terrível, iminente e muito plausível e provável, mas um final feliz e triunfante em sua história ou, melhor dizendo… – na história. Uma história que começa e termina em alegria, pois nem tudo está perdido – então, ainda há esperança –, uma vez que o próprio Autor adentrou o Conto e transformou homens de papel – facilmente corruptíveis – em homens de verdade – revestidos da armadura de Deus, com a qual podem enfrentar, em seu Santo Nome, qualquer batalha. Nesse cenário, os homens, pecadores e arrependidos, crentes em Cristo, se apresentam não mais como escravos da rebelião, mas como Cavaleiros da Távola Celeste, servindo a um Rei mais forte e poderoso que Artur, personagens de uma história maior do que qualquer fantasia, pois, afinal, a realidade é melhor – mais incrível, mais mágica – do que qualquer conto de fadas.

ainda há esperança –, uma vez que o próprio Autor adentrou o Conto e transformou homens de papel – facilmente corruptíveis – em homens de verdade – revestidos da armadura de Deus, com a qual podem enfrentar, em seu Santo Nome, qualquer batalha.

Com efeito, o drama das Escrituras – isto é, a grande narrativa da existência, a história verdadeira na qual todas as demais são espelhadas – não possui uma última página. O Herói triunfou sobre o inimigo, o mal do pecado e da rebelião foi vencido, o terror passou, a redenção debutou e o Reino de esperança iniciou no tempo para prevalecer por toda a eternidade, mas as linhas não terminaram, as aventuras, em verdade, apenas começaram, porque o Logos divino não passou. Os céus e a terra um dia passarão, mas a Palavra do Senhor permanecerá para sempre. Pois boas histórias têm um fim. Porém, a melhor e mais real de todas nunca termina. Afinal, o verdadeiro final feliz não conhece fim algum.

 

Referências

Agostinho. Confissões. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

Bettelheim, Bruno. A psicanálise dos Contos de Fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.

Campbell, Joseph. The hero with a thousand faces. Princeton: Princeton University Press, 1949.

Chesterton, Gilbert K. Ortodoxia. 1. ed. São Paulo: Principis, 2019.

Jeremias, Joachim. As palavras desconhecidas de Jesus. Santo André: Academia Cristã, 2006.

Lewis, C. S. Sobre histórias. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018.

Lewis, C. S. Surpreendido pela alegria. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2021.

Mcgrath, Alister. A vida de C. S. Lewis: do ateísmo às terras de Nárnia. São Paulo: Mundo Cristão, 2013.

Osborne, Grant R. A espiral Hermenêutica: uma abordagem à interpretação bíblica. Tradução de Daniel de Oliveira. São Paulo: Vida Nova, 2009.

Queiroz, Carlos. Deus na Criança. In: DIAS, L.; FASSONI, K.; PEREIRA, W. (orgs.). Uma Criança Os Guiará. Por uma teologia da criança. Viçosa: Ultimato, 2010.

Schökel, Luis Alonso (org.). A Bíblia do Peregrino. Tradução para edição brasileira de José Bortolini, Ivo Storniolo e Raimundo Vidigal. São Paulo: Paulus, 2005.

Stam, J. Comentário Bíblico iberoamericano (Vol. I). Argentina: KAIROS, 1999.

Tolkien, J. R. R. Árvore e folha. 1. ed. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2020.

Vanhoozer, Kevin J. O drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã. São Paulo: Vida Nova, 2016.

Vanhoozer, Kevin. O racionalista romântico. Brasília: Editora Monergismo, 2017.

Vanni, Hugo. Apocalipse: uma assembléia litúrgica interpreta a história. Tradução de Pier L. Cabra. São Paulo: Paulinas, 1984.

 

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* Ensaio classificado em 5º lugar na 5ª chamada de Ensaios do Radar ABC².

1. Lewis, 2021, p. 261-262.

2. Nas escrituras, Deus, na maioria das vezes, fala por meio de visões, metáforas, histórias, parábolas, paradoxos ou canções, pois são esses os veículos disponíveis para a imaginação, uma vez que exigem atenção e clamam por interação com o homem, incluindo-o na história. Assim, a imaginação, enquanto processo de criação de imagens e associação de sentidos, exulta através das figuras de linguagem, as quais ministram conhecimento, permitindo que o homem “veja” e “prove” a realidade contada nas histórias ao trazê-lo para dentro do drama, transformando a existência em uma narrativa com início, meio e fim. Nesse panorama, as figuras de linguagem oferecem uma estrutura interpretativa, possibilitando que o homem experimente a realidade em suas profundezas sobrenaturais, adicionando uma nova dimensão prática à vivência humana. Essas histórias bíblicas não são apenas narrativas de um passado distante, mas se comunicam com o presente e prenunciam o futuro que virá; são tramas que estão costuradas no próprio tecido da existência; são faroletes e canais de comunicação; são estrelas brilhantes em um mundo sombrio, permitindo que a humanidade se situe, se encontre, descobrindo o caminho para elas e, então, por meio delas. À princípio, pode parecer um tanto contraditório ou contraintuitivo à mente moderna, mas a narração de histórias e a linguagem figurativa têm sido utilizadas para comunicar o Evangelho desde o início. A própria Bíblia é repleta de poesia e metáforas e coisas parecidas, e Deus também é imaginativo; ele é o Criador. Portanto, a criatividade não é algo ruim, ela pode ser usada para o bem, e a imaginação pode ser uma ferramenta valiosa para o desenvolvimento do senso narrativo do homem enquanto partícipe da história contada por Deus.

3. Vanhoozer, 2016, p. 274.

4. Essa palavra pode ser encontrada na obra “Árvore e folha” de Tolkien, em um ensaio no qual ele discorre sobre a fantasia e os contos de fadas. O significado é de algo que foi feito verdade ou que se revelou a verdade.

5. Stam, 1999, p. 28-29.

6. Vanni, 1984, p. 9.

7. Jeremias, 2006, p. 101.

8. Esse termo trata-se de uma referência à experiência de C. S. Lewis na sua primeira leitura do livro Phantastes, de George MacDonald. Segundo ele, esse foi o “batismo da sua imaginação”. Conforme Lewis, há em toda fantasia uma “sombra brilhante”, um vislumbre de beleza de outro mundo que desperta um anseio não apenas por aquele mundo, como também pela experiência de desejar o mundo; é uma sombra brilhante que sai do livro para o mundo real e transforma todas as coisas comuns sem que ela mesma seja alterada; uma borealidade santa, uma alteridade total que “o ajudou a observar um forro de prata brilhante em torno de nuvens terrenas, uma dimensão mais profunda das coisas terrenas comuns, um mundo além da lógica fria e da matéria” (Vanhoozer, 2017, p. 111). Essa sombra brilhante nada mais é do que uma qualidade do universo real em que vivemos, mas que é melhor transmitida pela lei mágica dos contos de fadas e suas figuras de linguagem.

9. Osborne, 2009, p. 356.

10. Schökel, 1997, p. 2513.

11. Tolkien, 2020, p. 78-79.

12. Stam, 1999, p. 29.

13. McGrath, 2013, p. 279.

14. Chesterton, 2010, p. 111.

15. Tolkien, 2020, p. 48.

16. Através da imaginação, a literatura cria um “universo médio” que trabalha com possibilidades que mediam e influenciam a experiência humana. Neste trabalho de mediação, a imaginação nada mais é que a ponte que atravessa um reino médio onde a fantasia permite que a razão humana enxergue além da transparência do mundo e encontre a verdade.

17. Queiroz, 2010, p. 47.

18. Lewis, 2018, p. 81-82.

19. Bettelheim, 2002, p. 140.

20. Agostinho, 1973. p. 142.

21. Campbell, 1949, p. 23.

22. Propp, 1984, p. 73.

23. Chesterton, 2019, p. 73.

24. Ibidem, p. 66.

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