O cuidado com o humano diante da ciência e da transcendência
Introdução
Enquanto área do conhecimento, a psicologia tem expandido cada vez mais seus interesses e suas abordagens. Dentre tais interesses, espiritualidade e religiosidade, como elementos constituintes da cultura, têm sido fonte de diversos questionamentos. Diante da dúvida sobre a pertinência da inserção de temas espirituais e religiosos na prática médica e psicológica, sobre os limites de tal aplicação entre o profissional e o cliente, e sobre a legitimidade de tais temas para a saúde mental, focaremos, neste ensaio, em uma abordagem filosoficamente informada a respeito do posicionamento da psicologia ocidental perante a religião.
Devido à discussão em torno da preferência que muitos pesquisadores apresentam ao optarem pelo termo “espiritualidade” em vez de “religião”, faremos uso da definição de Harold Koenig, argumentando a favor de uma definição integradora que mantém, ainda, suas especificidades. Assim, é possível definir espiritualidade como experiência subjetiva a partir da qual o sujeito ultrapassa a experiência fenomênica na busca de sentido existencial, e religião como um sistema tanto de crenças quanto de práticas comunitárias que abarca rituais que comunicam-se com o Sagrado.¹
Tendo em vista tal associação conceitual, buscaremos traçar um panorama sobre o status atual da relação entre psicologia ocidental e a religião, atentando-nos, em um segundo momento, para as raízes filosóficas das problemáticas e para os caminhos razoáveis de relação entre uma ciência que anseia cuidar do humano e uma postura deleitada pela transcendência. Com ênfase no diálogo entre psicologia e religião cristã, este ensaio abordará pontos de convergência e divergência entre ambas, atentando para aspectos que impactam profundamente a discussão, como a natureza humana e o caráter parcial do conhecimento psicológico.
Status da relação entre psicologia e fé
As psicoterapias do Ocidente, a partir do século 19, desenvolveram-se em torno de sintomas de natureza emocional como objetos de estudo, promovendo a preocupação com o desenvolvimento da personalidade. Ana Mercês Bahia Bock refere-se à psicanálise, à Gestalt e ao behaviorismo como sistemas teóricos associados às matrizes da psicologia contemporânea.² Especialmente, é importante problematizar a existência de uma unidade metodológica.³ Por outro lado, é comum o reconhecimento de que há semelhanças fundamentais entre as abordagens psicoterápicas, como aquelas referentes aos objetivos de uma psicoterapia, à centralidade da relação entre o terapeuta e o cliente, à premissa de que a responsabilidade pelas escolhas do cliente está nas mãos deste, e ao estímulo para que o cliente compreenda o “eu”.⁴
William James é comumente reconhecido como um dos psicólogos pioneiros na investigação dos testemunhos espirituais e religiosos. Além disso, enquanto outros precursores da psicologia científica, como John Watson, afirmaram que a religião era uma ilusão irrelevante para as descobertas futuras, Carl Jung identificou, a partir de sua investigação histórica e psicológica sobre a experiência religiosa, a relevância subjetiva da religião na vida dos sujeitos. Complementarmente, há destaque para a antropologia espiritualizada de Viktor Frankl, que, com base em seu encantamento pelo anseio humano por sentido existencial, alimentou a associação íntima entre psicologia e religião.⁵
O ramo da psicologia que estabeleceu uma relação com a teologia e que, por isso, mostra-nos um exemplo de como a psicologia científica se propõe a lidar com a fé foi aquele referido como Psicologia da Religião, direcionada ao estudo do desenvolvimento da fé religiosa (tanto em relação a causas quanto a efeitos para o sujeito), do comportamento religioso e dos mecanismos cerebrais envolvidos.⁶ O movimento em torno do estudo dos aspectos psicológicos envolvidos na questão espiritual foi notório em torno de 1900, com pretensões de aplicação do método científico à psicologia voltada ao estudo da espiritualidade. Novamente, William James é reconhecido como relevante no pioneirismo da Psicologia da Religião, com destaque para sua obra The varieties of the religious experience.⁷ Nela, James distingue religião pessoal de religião institucional, afirmando que a primeira seria objeto de interesse psicológico, uma vez que corresponde às experiências espirituais internalizadas de indivíduos.⁸ Assim, o significado interno da experiência para o indivíduo e o impacto pessoal desta seriam os pontos relevantes a serem tratados por um corpo de conhecimentos concentrado no comportamento humano.
É importante lembrarmos da distinção entre Psicologia da Religião e Psicologia Religiosa, a qual remonta também ao século 20, especialmente aos Les principes de la psychologie religieuse, de Theodore Flournoy e James Henry Leuba. No entanto, a proposta de Flournoy e de Leuba para a Psicologia Religiosa envolve a abstenção de pronunciamento sobre dimensões transcendentes e o foco na experiência vivida pelo sujeito.⁹ Por outro lado, conforme o passar do século 20, o meio acadêmico científico passa a marginalizar o trato da fé pela via psicológica, de modo que o próprio campo da Psicologia da Religião passa a conceder enfoque à associação entre o religioso e processos patológicos e obscurantistas, favorecendo um discurso negativo em relação à religião. Freud, Marx e Nietzsche foram importantes em tal processo influenciado pela força da secularização da época, a qual afetou a relação entre ciência e fé de modo geral.¹⁰ Dessa forma, o campo da psicologia passa a observar o espiritual por meio da autoridade científica e psicológica, cedendo a uma transferência epistemológica que deslegitima a experiência espiritual em sua natureza.¹¹
Em tal contexto, devido às hesitações dos teóricos em torno da relação entre psicologia e fé, a expressão Psicologia da Religião é ainda hoje fonte de questionamentos e vista como substituível por alguns, os quais usam as expressões “estudos psicológicos e religiosos” ou “psicologia da espiritualidade”, às vezes referindo-se à problemática que gira em torno da característica institucionalizada do termo religião.¹²
Assim, estudantes e profissionais não estão seguros sobre o tipo de psicologia que devem escolher aplicar, com receio da psicologização da experiência religiosa ou, por outro lado, com receio do viés intrínseco a uma psicologia religiosa. Neste último caso, é alimentado o medo de que o campo torne-se menos profissional e regido pela especulação, aplicando métodos não reconhecidos cientificamente. Repleta de hesitações, a Psicologia da Religião tem sido tomada pela vontade de harmonizar a necessidade da postura do papel de psicólogo (evitando ser parcial quanto à realidade ontológica do transcendente) com uma escuta à experiência do outro, sempre qualificadamente buscando oferecer suporte adequado. Enquanto isso, a Psicologia Religiosa é aplicada por meio da parcialidade do psicólogo em seu próprio contexto religioso, muitas vezes em serviços voluntários de instituições religiosas. Em tal cenário, tanto o psicólogo quanto o paciente, que procura atendimento especificamente visando ao auxílio religioso, compartilham crenças iguais ou semelhantes.¹³
Apesar da complexidade e sinuosidade da discussão, Paulo Dalgalarrondo observa que a abertura para o estudo da fé nos campos da psicologia, psiquiatria e medicina tem aumentado, uma vez que os profissionais de tais áreas têm colocado a fé como um objeto relevante de pesquisa sobre a subjetividade humana.¹⁴
Para além da Psicologia da Religião, em relação à possibilidade de integração entre psicologia e fé, o aconselhamento pastoral é introduzido na discussão como correspondente da psicoterapia no campo da teologia. Embora o aconselhamento, derivado da expressão “pastoral counseling”, popularizada por norte-americanos no século 20, tenha preocupações centradas na pessoa, tais preocupações direcionam-se à relação da pessoa com Deus. Por outro lado, se considerarmos o aconselhamento pastoral como teocêntrico, surgem alguns impasses, uma vez que seu florescimento enlaça técnicas e conteúdos empregados no campo da psicologia.¹⁵
A associação do aconselhamento pastoral com a medicina remonta à tradição do platonismo e incorporação da atividade de “cura de almas”, que influenciou o papel posteriormente assumido pelo pastor na salvação da alma, liberta pela confissão e absolvição.¹⁶ Schneider-Harpprecht caracteriza o aconselhamento pastoral como uma dimensão da Poimênica, do grego poimen, que significa “a ciência do agir do pastor”. Enquanto a Poimênica seria o ministério de ajuda da comunidade cristã por meio da convivência no contexto da igreja, o aconselhamento busca prover, sem se restringir apenas aos ministros ordenados, auxílio pela conversação e formas de comunicação metodologicamente organizadas. Assim, busca descobrir o significado concreto da liberdade cristã iluminada pela autoridade da graça de Deus, para ajudá-los a viver conscientemente sua relação com Ele e demais relações.¹⁷
Em sua posição extrema, o aconselhamento bíblico defende a suficiência das Escrituras para a compreensão de problemas existenciais não físicos. Tal posição critica as tentativas da psicologia secular de lidar com esses problemas, e boa parte dos conselheiros defende que problemas não orgânicos são sempre problemas espirituais.¹⁸ Nesse sentido, há uma tendência em interpretar diferenças cerebrais associadas a transtornos psicológicos como sendo consequências dos transtornos. De acordo com isso, uma visão secular de um transtorno pode negligenciar suas causas pecaminosas: a solução para os problemas da vida consiste na tentativa de nutrir passo a passo a santificação do cliente e a incorporação da obra de Deus à sua realidade. Ao mesmo tempo, vários estudiosos cristãos temem que as Escrituras não preencham o tratamento de problemas psicológicos, sentindo que o apoio de outras áreas podem torná-lo completo. Além disso, a forma como o aconselhamento propõe lidar com problemas psicológicos pode negligenciar diferenças entre transtornos, como ansiedade e transtorno de ansiedade generalizada, simplificando-os demais.¹⁹
É conhecido que Frankl já distinguira a intencionalidade da assistência médica da alma daquela intencionalidade da assistência pastoral da alma, argumentando que um tipo de assistência não pode substituir o outro.²⁰ Em estudos recentes, Paul Moes e Blake Riek identificaram modelos de integração que ultrapassam os extremos do reducionismo científico e do reducionismo bíblico, e que são identificados como aqueles que buscam se posicionar sobre a significância tanto da ciência quanto da teologia para a abordagem do comportamento humano. É comum aos modelos complementares possuírem semelhanças: 1) Psicologia e teologia servem como ferramentas para investigar o comportamento; 2) Psicologia não pode ser usada para explicar a teologia e vice-versa; 3) Psicologia deve ser uma ciência acompanhada do método científico; 4) Contribuições da psicologia e da teologia juntas favorecem uma melhor visão da natureza humana.²¹
Neste ensaio, enfatizaremos que a polarização da relação entre psicoterapia e aconselhamento como dois extremos de “cura” ou “salvação”, e a polarização entre psicologia e teologia como dois extremos de ciência e fé, não valorizam terrenos comuns entre ambas. O aconselhamento ultrapassa a proclamação direta do Evangelho, tratando de conflitos relacionais e socialmente situados, enquanto a psicoterapia também ocupa-se de casos que envolvem questões de fé, culpa e perdão, por exemplo.²² Em um oceano de detalhes expressos na Pessoa, psicologia e teologia compartilham das mesmas águas, com variedades de sais minerais, seres vivos e suas relações. O primeiro passo para abordá-las é identificar que, na base de tais relações, encontram-se pressupostos e cosmovisões determinantes que não devem ser ignorados quando tratamos da possibilidade de relação entre psicologia e fé.
Tratando a discussão filosoficamente: pressuposições e fundamentações
Alister McGrath aponta Ian Barbour como quem influentemente sintetizou a relação entre ciência e teologia em quatro tipos de relações, tornando-os amplamente difundidos no cenário da discussão: conflito, independência, diálogo e integração.²³ Com base nisso, podemos pensar em cinco modelos básicos de relação: a) conflitantes, com a ciência sendo acusada de ateísmo e a religião acusada de obscurantismo; b) independentes: abordagens paralelas que não se relacionam; c) dialéticas: há o reconhecimento de verdades do outro campo, ainda separados; d) síntese: ambas, incorporando as verdades da outra, estão buscando as mesmas visões; e) interação direta: por meio de interação direta, chegam a acordo ou inconsistência.²⁴
Por trás de cada um desses modelos encontra-se uma definição sobre o que é ciência e o que é teologia e fé. No caso da aplicação de tais modelos à relação entre psicologia e fé, as definições de pessoa ocupam um papel central e incontornável. A teologia, enquanto abarca a busca pela santidade e a união do homem com Deus, inclui também o estudo da natureza humana e do espírito de Deus. Já a psicologia, enquanto objetiva a adaptação dos humanos aos impasses da vida tendo em vista a autorrealização, engloba também o estudo da mente humana e a natureza de seu comportamento. De fato, a psicologia e a fé trabalham com visões próprias sobre a natureza humana, as quais entram, muitas vezes, em conflito,²⁵ afetando a possibilidade de integração entre ambas as áreas.
Como observou Nilton Eliseu Herbes, a psicologia é considerada a ciência que mais se aproxima da religião, uma vez que está interessada na totalidade do fenômeno humano enquanto fenômeno que abarca variadas relações, incluindo aquelas de ordem espiritual.²⁶ No entanto, desde sua emergência como ciência, a psicologia optou por afastar-se da compreensão filosófica da alma para aproximar-se do modelo de conhecimento das ciências naturais. Por trás disso, está a atitude ocidental de afastamento entre ciência e religião já no século 18, permeada pela magnitude do discurso científico, seguro e objetivo.²⁷
Historicamente, tanto a doença quanto sua cura foram associadas a causas sobrenaturais, de modo que o sagrado ocupava um lugar central em discussões sobre a saúde. A partir da disseminação do pensamento científico, todavia, tal mentalidade mudou, dando espaço às causas naturais e biológicas para doenças e curas. Assim, a ação do sacerdote passa a ser desvinculada do poder de cura, cabendo ao médico lidar com doenças físicas ou psíquicas. Isso posto, na modernidade, na medida em que a ciência pretendeu emancipar-se do conceito cristão de alma, a psicologia constitui-se um campo antropocêntrico em contraste com a teologia, campo teocêntrico. Dessa forma, perguntas que não são cabíveis no campo da psicologia são direcionadas às respostas teológicas.²⁸
Nesse contexto, filosoficamente podemos observar como as concepções de pessoa alimentadas pela ciência carregam implicitamente, em seu âmago e em sua essência, visões metafísicas e ontológicas sobre a natureza da realidade. As respostas às perguntas sobre a origem das coisas e sobre a natureza da realidade são, muitas vezes, pontos de partida para as outras questões:²⁹ por exemplo, a visão de mundo naturalista advoga que não pode haver aspectos sobrenaturais na realidade, e, com base nisso, propósito e moralidade devem ter causas naturais. Por outro lado, visões sobre epistemologia moldam o nosso grau de aceitação da ciência, bem como o tipo de ciência pelo qual prezamos.³⁰
Nesse contexto, filosoficamente podemos observar como as concepções de pessoa alimentadas pela ciência carregam implicitamente, em seu âmago e em sua essência, visões metafísicas e ontológicas sobre a natureza da realidade.
Em tal contexto, a questão ampla sobre a natureza humana em geral possui ligação com a questão específica sobre o que define alguém pessoalmente, sendo de significância profunda para a psicologia. Diante da variedade de teorias filosóficas à vista, humanos são muitas vezes entendidos em sua essência como seres físicos determinados pelas leis da física (fisicalismo monista), ou como apenas parte do mundo natural, ou como constituídos de substância material e substância imaterial (dualismo). Muitos psicólogos adotam visões sobre a natureza da realidade e da pessoa humana que tendem ao reducionismo e determinismo, fazendo uso da abordagem positivista ou pós-positivista ao abordarem as ciências sociais. Quando a sobrevivência é colocada como a única aspiração humana, a agência e os valores morais passam a ser reféns do ambiente, excluindo “sentido” e “propósito” da realidade humana. No caso da abordagem adotada por muitos religiosos, a história é vista como predeterminada e seus resultados são conhecidos antecipadamente: podendo haver liberdade, humanos são motivados a buscarem propósito e significado. Por outro lado, a visão apoiada por indivíduos religiosos, mesmo podendo admitir causas físicas, admite que há outros fatores impactando a existência.³¹
Os diferentes níveis de consideração tanto da agência humana quanto do propósito da existência correspondem a diferentes modos de abordar a psicologia. Por exemplo, teorias do desenvolvimento na psicologia possuem abordagem teleológica na medida em que observam mudanças no desenvolvimento como implicando resultados bons ou ruins. Semelhantemente, teorias cristãs do desenvolvimento são teleológicas.³²
Todavia, é importante observar que tais visões compartilham do fato de envolverem uma interpretação extracientífica, ou seja, que ultrapassa a ciência, para explicar o comportamento. Essas visões extracientíficas estão moldadas com base em visões de mundo que influenciam os modelos escolhidos na ciência e, como tais, referem-se a posições que a ciência não pode ultimamente provar. Desse modo, teísmo e naturalismo igualam-se em termos de parcialidade: logo, mesmo que muitos cientistas assumam que apenas as posições sobre ontologia, teleologia e axiologia que tendem ao fisicalismo sejam razoáveis, terão que admitir que tal afirmação não poderá ser validada pela ciência.³³
Tal diagnóstico é importante para que evitemos abismos entre psicologia e teologia, colocando, em um extremo, o domínio da ciência como objetivo e imparcial, e, no outro, a teologia e a religião como conduzidas pela fé. No entanto, tal como alguém apegado ao ambiente familiar, ambas as áreas resistem ao contato com a visão de mundo nutrida pela outra. No campo da psicologia, é comum o questionamento sobre a razoabilidade de permitirmos que ideias em psicologia sejam moldadas por visões de mundo.
No entanto, tal como alguém apegado ao ambiente familiar, ambas as áreas resistem ao contato com a visão de mundo nutrida pela outra.
Por outro lado, uma vez que diferentes interpretações influenciam teorias do campo da psicologia, o campo não é homogêneo em suas posições, sendo necessária a investigação sobre o subcampo, a marca temporal e a teoria da psicologia que será colocada em enfoque.³⁴ Da mesma forma, posições na religião em um geral e no cristianismo não formam um polo homogêneo. Por isso, quando abordamos a possibilidade de relação entre psicologia e fé, é importante evitarmos posições extremistas, como a de um cristão que se nega a relacionar ambas as áreas por achar que a psicologia possui caráter exclusivamente determinista. Assim, devemos evitar generalizar a discussão.³⁵
De fato, a psicologia, apegada à pretensão científica, evita que objetos de estudo transcendentes penetrem seu solo. Contudo, oscila ao se posicionar, pois, na mesma medida em que não há a afirmação da existência de Deus, igualmente não há sua negação, especialmente observando que a ideia de um ser divino faz parte da existência dos indivíduos das mais variadas sociedades.³⁶
Em tal cenário, quando pensamos nas possibilidades de interpretação dos fenômenos, o conflito entre o protagonismo de um viés psicológico-imanente ou de um viés religioso-transcendente inunda a discussão, forçando rivalidade entre o papel da psicologia e da teologia a respeito da sabedoria sobre a vida.³⁷ Em um diálogo entre psicologia e teologia, é importante que a primeira observe o agir religioso, enquanto a segunda aponte para as cosmovisões e premissas filosóficas implícitas ao âmago da psicologia.
Em tal cenário, quando pensamos nas possibilidades de interpretação dos fenômenos, o conflito entre o protagonismo de um viés psicológico-imanente ou de um viés religioso-transcendente inunda a discussão, forçando rivalidade entre o papel da psicologia e da teologia a respeito da sabedoria sobre a vida.
Sobre o papel da psicologia diante da fé
Para Jeremy Carrette, há um conflito que a Psicologia da Religião possui consigo mesma devido à sua origem embasada e influenciada pelo cristianismo, uma vez que, influenciada pela secularização, alimentou a rejeição de seus fundamentos religioso-filosóficos. Assim, haveria imposição de fronteiras entre o religioso e o secular, entre o caráter filosófico e a observação empírica, negligenciando as origens da psicologia derivadas do cristianismo, isto é, suas fundamentações axiológicas.³⁸
Tal reflexão pode auxiliar-nos a pensar sobre as convergências e divergências entre psicologia e religião. Dentre os pontos em comum, podemos observar que ambas visam a uma autoconsciência voltada à libertação de neuroses e vícios e à alimentação da honestidade consigo mesmo no processo de autodesenvolvimento. Assim, comumente buscam auxiliar as pessoas a desenvolverem a capacidade de amar e agir para o bem delas e do outro: por exemplo, a correlação nutrida por Freud entre capacidade de amar e trabalhar e a saúde mental³⁹ é compatível com a visão religiosa. Embora as causas ou as motivações possam ser diferentes, ambas apoiam a realização moral das pessoas, assumindo valores e virtudes como importantes.⁴⁰ Para isso, há um reconhecimento comum da existência do poder da razão, do desejo e emoção, bem como, por meio de diversas interpretações, da profundidade da existência humana.⁴¹
Outro ponto importante é a valorização da vida comunitária como meio terapêutico: na tradição cristã, Psicologia e Psiquiatria associam a vida comunitária com saúde mental.⁴²[5] Além disso, enaltecem relações interpessoais, observando os sujeitos como sujeitos de desejos e demandas em uma relação de conexão e reciprocidade.⁴³
Por outro lado, quando falamos das diferenças entre a psicologia e a religião, podemos observar de que modo os humanos são situados como naturais ou como, de outro lado, em relação com o divino. A psicologia é cativada pelo humano caído, pelos sentimentos humanos naturais, enquanto a religião mergulha a fundo na dimensão ontológica-teológica. Associado a isso, a psicologia apresenta preocupação maior com dilemas particulares da vida cotidiana para a promoção de qualidade de vida, enquanto a religião apoia-se mais no sentido da vida quando tem em vista comportamentos e circunstâncias.⁴⁴ Ao mesmo tempo, quando pensamos na necessidade de que a psicologia assuma suas cosmovisões e premissas filosóficas, rapidamente somos tomados pela ideia de que esta apoia-se, igualmente, no sentido da vida.
Diante dos pontos em comum e pontos de diferença, podemos nos perguntar qual o papel da psicologia diante da fé e da religião. Aqui, cabe voltarmos-nos novamente às bases filosóficas da discussão, uma vez que psicologia e teologia não podem fugir às questões sobre a natureza humana. A religião incorpora o conceito de alma e passa a ser a ele intimamente relacionada, de modo que a história do mundo enquanto história das religiões abarca também a história do conceito de alma.⁴⁵ Da mesma forma que tal princípio animador é objeto da religião, também é objeto da psicologia enquanto consciência, fonte de ação e vida, tal como suas raízes a nutriram.⁴⁶ Por outro lado, a religião preocupa-se com a totalidade da experiência, abordando tanto a vida quanto a morte e abrindo margem ao inexplicável sobre esses aspectos da existência.⁴⁷
Na modernidade, a maquinização da vida ocorre diante dos desafios encontrados pela ciência em torno da observação do vivo. Assim, a ciência parte da premissa do distanciamento de seu objeto e se depara com dificuldades ao estudar o ser humano em sua complexidade.⁴⁸ Será mesmo o distanciamento associado a uma melhor visão? De fato, a própria ciência tem questionado a existência da imparcialidade nos ramos de conhecimento humano,⁴⁹ e explicações de nível humano são ainda mais relevantes e indispensáveis no campo das ciências sociais.⁵⁰
De fato, a própria Associação Americana de Psiquiatria considera a categoria “problemas religiosos ou espirituais” no DSM-IV, legitimando temas religiosos e espirituais como relevantes. Nesse sentido, Edilson Soares de Souza observa que o sagrado pode ao mesmo tempo tanto ser reconhecido como parte da bagagem de um paciente quanto auxiliar o psicólogo em sua relação com o diagnóstico e tratamento do sofrimento deste. Assim, o sagrado passa a ser visto de forma complexa enquanto integrador da subjetividade, e não como mero fruto de algum transtorno.⁵¹ Ainda mais, podemos dizer que há uma interdependência entre o caráter psicológico e o caráter religioso do ser humano,⁵² enfatizando que a espiritualidade está intimamente associada à elevação da mente e da consciência, e à saúde mental buscada pela psicologia.⁵³ Desse modo, as variáveis de ambas as áreas afetariam uma a outra: seria impossível tratar de uma ignorando a outra.
Uma vez que a fé é essencialmente uma postura de aceitação radical, a pessoa em sua integralidade está envolvida no processo de expressão da fé, de modo que esta torna-se forma da existência pessoal.⁵⁴ Mais do que apenas uma postura de aceitação, a fé se direciona à compreensão da realidade e da existência, concentrada em uma convicção subjetiva. Tal projeto é enfatizado por Jorge Ponciano Ribeiro como uma predisposição comum aos humanos e presente em toda a história espiritual do planeta, tornando a experiência religiosa imanente, ao mesmo tempo que é transcendente devido ao seu sentido não quantificável.⁵⁵
Quando tratamos do modo como os cristãos integram fé e psicologia, a psicologia cristã assume a abordagem humanizadora da ciência.⁵⁶ Tal abordagem propõe redefinir a psicologia e seu método, de modo a não restringi-la ao campo empírico. De acordo com isso, o próprio momento de surgimento da psicologia é questionado: a história da filosofia e teologia possuem grande contribuição para a investigação psicológica.⁵⁷
Por outro lado, críticos problematizam a ampliação do campo da psicologia, pois a definição usual do campo, que enfatiza sua cientificidade, é consensual. Diante de tal consenso, a possibilidade de que os humanizadores sejam taxados como irrelevantes para o campo corrente da psicologia é problemática.⁵⁸ Ao mesmo tempo, pode ocorrer uma separação radical de círculos entre cristãos e não cristãos, uma vez que estes podem não desenvolver interesse algum pela psicologia cristã. Por outro lado, os defensores da psicologia cristã apoiam a capacitação de psicólogos critãos em psicologia e teologia de modo equiparado, para que ambas sejam adequadamente desenvolvidas em sua prática.⁵⁹
Diante disso, uma relação de complementação entre psicologia e espiritualidade/religião é o ideal em detrimento de tentativas de substituição. Tal relação ocorreria por meio da identificação de pontos de intersecção entre ambas e, ao mesmo tempo, do esforço para manter a autenticidade de cada campo. Thermos sugere que a psicologia precisa da teologia para desprender-se das amarras do secularismo por meio da espiritualidade, enquanto a teologia precisa da psicologia para manter-se longe do fanatismo e dogmatismo. Podemos pensar, assim, em um relacionamento circular: o diálogo acontece quando elas estão alimentando uma à outra com conceitos e descobertas.⁶⁰ Se almejamos abrir portas para a complementação, abriremos caminho para a visão holística do ser humano.
Especificamente, é importante que a psicologia seja assumida enquanto campo que, tal como outros campos científicos, constrói suas teorias embebida de cosmovisões e hermenêuticas. Uma vez que todas as influências sobre o comportamento não são rastreáveis, algum tipo de hermenêutica acompanha descobertas científicas. Assim, a datar do momento em que a psicologia estiver consciente de suas premissas e fundamentações, a natureza humana poderá ser vista a partir de uma gama ampla de demandas essenciais. Conjuntamente, uma visão não fragmentada do humano surge no horizonte, considerando as áreas do conhecimento de forma integrada com o aspecto biológico, o antropológico, o cultural e o espiritual: o ser humano mostra-se às ciências enquanto ser orgânico e holístico, no qual esses aspectos interagem conjuntamente formando a pessoa.
Considerações finais
A religião e a psicologia preocupam-se com a pessoa moderna e toda a sua bagagem em torno de transtornos e das questões existenciais envolvidas no sofrimento. Tendo em vista o foco no sofrimento humano, ambas as áreas devem preocupar-se em unir forças para implementar as formas de auxílio. Ademais, uma vez havendo variados conhecimentos direcionados ao desenvolvimento humano e à qualidade de vida, dificilmente eles serão opostos de modo a não serem ambos importantes para contribuir com o tema. Diante disso, a psicologia, se centrada na pessoa, aproxima-se daquilo que a teologia tem a dizer sobre o humano. O trabalho da psicologia em relação ao humano moderno precisa esforçar-se para alcançar um equilíbrio entre resultados científicos e as necessidades espirituais.⁶¹
A consideração da integralidade humana é uma demanda do código de ética do psicólogo, a qual é valorizada a partir da escuta a uma expressão da religiosidade do paciente. Por outro lado, negligenciar tal expressão, afirmando que ela apenas cabe na igreja ou em contextos religiosos, é alimentar injustificadamente um abismo entre psicologia e espiritualidade.⁶² Para um diálogo saudável, a espiritualidade deve ser vista para além da lente psicológico-científica corrente, uma vez que as discussões ontológicas e metafísicas são determinantes para que a espiritualidade e a religião possam ser vistas na qualidade de, para além de “interpretações”, factuais e impactantes na realidade.
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* Ensaio classificado em 1º lugar na 5ª chamada de Ensaios do Radar ABC².
1. Koenig, 2006, p. 11.
2. Bock; Furtado; Teixeira, 2008, p. 90.
3. Herbes, 2020, p. 156.
4. Peres; Simão; Nasello, 2007, p. 137-8.
5. Herbes, 2020, p. 147.
6. McGrath, 2010, p. 175.
7. Ibidem, p. 175-6.
8. James, 1995, p. 31-2.
9. De Freitas, 2017, p. 93-4.
10. Ibidem, p. 95.
11. Ibidem.
12. Ibidem, p. 95-6.
13. De Freitas, 2017, p. 103.
14. Dalgalarrondo, 2008, p. 20-25.
15. Herbes, 2020, p. 152.
16. Schneider-Harpprecht, 2011, p. 256.
17. Ibidem.
18. Moes; Riek, 2023, p. 116-7.
19. Ibidem, p. 127.
20. Frankl, 2007, p. 71.
21. Moes; Riek, 2023, p. 131.
22. Herbes, 2020, p. 160
23. McGrath, 2010, p. 45.
24. Papaleontiou-Louca, 2021, p. 2.
25. Coelho, 2024.
26. Herbes, 2020, p. 144.
27. Utsch, 2013, p. 368.
28. Ibidem, p. 369.
29. Coelho, 2024.
30. Moes; Riek, 2023, p. 22.
31. Moes; Riek, 2023, p. 40.
32. Ibidem, p. 41.
33. Ibidem, p. 43.
34. Ibidem, p. 50.
35. McGrath, 2010, p. 45.
36. Peres; Simão; Nasello, 2007, p. 142.
37. Utsch, 2013, p. 372.
38. Carrette, 2012, p. 23-5.
39. Freud, 1955, p. 103; 1961, p. 80.
40. American Psychological Association, 2017, p. 3-4
41. Papaleontiou-Louca, 2021, p. 2.
42. American Psychological Association, 2017, p. 3.
43. Papaleontiou-Louca, 2021, p. 2.
44. Ibidem, p. 2.
45. Ribeiro, 2008, p. 199.
46. Peres; Simão; Nasello, 2007, p. 137.
47. Ribeiro, 2008, p. 199.
48. Ibidem, p. 198.
49. McGilchrist, 2019, p. 51-2.
50. Clayton, 2018, p. 155.
51. Souza, 2006, p. 31.
52. Nascimento, 2023.
53. Bonelli et al., 2012; Moreira-Almeida et al., 2006; Koenig, 2009.
54. Paixão Netto; Machado, 2001, p. 292.
55. Ribeiro, 2008, p. 201.
56. Moes; Riek, 2023, p. 165.
57. Ibidem, p. 165.
58. Ibidem, p. 172.
59. Ibidem, p. 173.
60. Thermos, 2006, apud Papaleontiou-Louca, 2021, p. 3.
61. Papaleontiou-Louca, 2021, p. 4.
62. De Freitas, 2017, p. 104.
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