SIMPÓSIO

Mapeando o terreno

Bruno Mori Porreca|

07/03/2025

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Bruno Mori Porreca

Psicólogo clínico, pós-graduado em Intervenção ABA para Autismo e Deficiência Intelectual. Possui 14 anos de experiência no trabalho com pessoas com TEA, TDAH e Neurodivergências. É membro da Igreja Presbiteriana Central de Curitiba.

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Como citar

Porreca, Bruno Mori. Mapeando o terreno. Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 5, jan-jun, 2025.

Um fenômeno curioso que tem sido observado em anos recentes é o aumento significativo da procura de estudantes pelo curso de psicologia.¹ Esta passou de uma graduação relativamente marginal a um dos cursos mais concorridos da USP.² Outras universidades relataram fenômenos semelhantes, e isso vem acompanhado do aumento na procura pela residência de psiquiatria entre os médicos. De uma formação que tradicionalmente era vista como “pouco científica” ou até, como já ouvi de um psiquiatra, “a ovelha negra da medicina”, ela passou a ser uma das mais concorridas.³

Mas o que explica esse aumento? Os dados ainda são incertos. Especula-se que a geração Z possa apresentar maior consciência social sobre questões de saúde mental, o que pode tornar o curso mais atrativo para esse público. A explosão de perfis em redes sociais de influenciadores neurodivergentes ou que lutam com algum transtorno mental, voltados para divulgação de evidências científicas e conscientização desses quadros, também é um fator de popularização da psicologia. E é importante lembrar que a humanidade acabou de sair de uma pandemia global de Coronavírus, o que certamente impactou a saúde mental de diversos jovens e pode ter tornado o tema em uma questão saliente.⁴

Por um lado, o aumento da procura pelo curso de psicologia é positivo. É bom que mais pessoas estejam preocupadas com questões de saúde mental. Por outro, há sempre a preocupação com a formação desses estudantes, uma vez que aumentar a quantidade de cursos e de profissionais formados não necessariamente implica que eles terão uma boa formação ou serão profissionais qualificados. Some-se a isso o fato de a psicologia ser inerentemente multifacetada e plural. É só observar como a disciplina no Brasil ainda não se decidiu sobre ser parte das ciências humanas ou das ciências da saúde (com representantes bélicos de ambos os lados). Estudantes são apresentados desde o início a uma multiplicidade de teorias e autores, muitas vezes com visões antagônicas entre si. Autores como Luís Cláudio Figueiredo já há bastante tempo tem preferido falar de psicologias, entendendo a disciplina como permeada por diferentes matrizes epistemológicas.⁵ Isso porque existem diferentes visões de mundo, de ser humano, de ciência e de psicoterapia na psicologia.

Autores como Luís Cláudio Figueiredo já há bastante tempo tem preferido falar de psicologias, entendendo a disciplina como permeada por diferentes matrizes epistemológicas. Isso porque existem diferentes visões de mundo, de ser humano, de ciência e de psicoterapia na psicologia.

Isso tudo não seria um problema se a psicologia fosse uma disciplina totalmente teórica. Mas não é! Esses estudantes, que serão mergulhados em um turbilhão de visões de mundo concorrentes, logo sairão para o mercado de trabalho e atenderão pessoas. E seus pacientes os procurarão com dilemas sérios de vida e até transtornos mentais graves. A situação se agrava ainda mais no caso do estudante cristão, que tem de lidar com questões como: de que modo é possível navegar em meio a tamanha pluralidade teórica? Como manter a fidelidade a pontos doutrinários e éticos basilares da fé cristã e, ainda assim, manter um diálogo crítico com a diversidade de visões de mundo presentes na psicologia? Como fazer a visão cristã do ser humano, com todas as suas especificidades, dialogar com a diversidade de perspectivas na psicologia?

Muitas tentativas foram feitas. O livro Integrando psicologia e fé: modelos para um engajamento cristão,⁶ dos psicólogos Paul Moes e Blake Riek, se propõe justamente a ser um mapa nesse território, um mapa que delimita os diferentes terrenos e propõe categorias para que possamos pensar como esse diálogo pode ser feito. O livro parte de uma perspectiva cosmovisionista,⁷ ao mesmo tempo que resgata as categorias de interação entre fé e cultura de Richard Niebuhr.⁸ Como os autores desse simpósio bem perceberam, essas ferramentas conceituais possibilitam construir uma espécie de “crivo” que averigua tanto pontos de contato quanto de discordância entre o cristianismo e as teorias da psicologia. Como é bastante explorado no livro, um diálogo verdadeiramente produtivo deveria ser específico para cada área da psicologia.

Para tornar a questão mais concreta: boa parte das polêmicas envolvendo o diálogo entre psicologia e cristianismo refere-se não à psicologia enquanto ciência, mas a prática da psicoterapia, e isso pode ser verificado no caso do Aconselhamento Bíblico ou Noutético,⁹ que os autores propõem se tratar de uma forma de “reducionismo bíblico”. Ora, esse é um campo muito específico de atuação da psicologia, e ele tem questões próprias muito diferentes, por exemplo, dos debates envolvendo pesquisas de base e interações mente-cérebro. Os dilemas enfrentados por um neuropsicólogo enquanto pesquisa o funcionamento dos neurônios não são os mesmos enfrentados por um psicoterapeuta que atende uma pessoa com depressão. São campos distintos dentro da psicologia e que farão perguntas diferentes. E mesmo se nos ativermos apenas à psicoterapia, os dilemas enfrentados por um terapeuta cognitivo-comportamental não serão os mesmos enfrentados por um terapeuta humanista-existencial, pois eles estão se movendo em matrizes teóricas diferentes.

Outro ponto desenvolvido no livro e enfatizado nos estudos presentes são as diferentes compreensões existentes sobre o método científico. O debate sobre a cientificidade da psicologia é antigo e até hoje é fonte de muitas controvérsias.¹⁰ Os autores do livro adotam a atitude salutar de apontar que diferentes modelos de engajamento propõem diferentes entendimentos sobre o que é a ciência. Afinal, um neurocientista não trabalha com a mesma metodologia que um psicólogo social, e ambos se utilizam de métodos muito diferentes dos de um psicólogo clínico. Se a ontologia define a epistemologia, diferentes objetos de estudo requerem diferentes métodos de pesquisa.¹¹

Se a ontologia define a epistemologia, diferentes objetos de estudo requerem diferentes métodos de pesquisa.

Ainda refletindo sobre o método científico adequado para a psicologia, os autores dos estudos foram perspicazes em compreender que, embora haja uma contribuição indispensável a ser dada pelo livro, a psicologia tal como se estabeleceu no Brasil tem peculiaridades que a diferenciam muito do contexto norte-americano do livro. Se Moes e Riek são rápidos em descartar a psicanálise como um elemento datado na psicologia, reservando poucos parágrafos para discuti-la, no contexto brasileiro ela ainda se mostra um paradigma dominante e bem-estabelecido em muitos cursos de graduação. O contexto brasileiro também favoreceu uma penetração maior das terapias de base fenomenológica e existencial, de maneira muito mais pervasiva que no contexto americano. Ainda no contexto latino-americano, temos a  , que tem presença marcada em muitos departamentos de Psicologia Social. Mas talvez o ponto mais decisivo seja o da “Psicologia Cristã”. Se, no contexto americano, a proposta de Psicologia Cristã de autores como Eric Johnson¹² é advogada como uma perspectiva meta-teórica crítica, aproximando a psicologia do diálogo com a grande tradição cristã e sustentando a cientificidade da psicologia e a necessidade de pesquisas, no Brasil o termo evoca outro tipo de associação, dada a própria legislação do Código de Ética do Psicólogo¹³ e as recomendações do Conselho Federal de Psicologia.¹⁴ Como os autores do simpósio bem perceberam, é necessário uma releitura crítica dos conceitos de autores estrangeiros.

Por fim, cabe lembrar que o objetivo principal de promover um diálogo crítico dos cristãos com a psicologia tem um objetivo mais do que apenas apologético e envolve mais do que meramente prepará-los para vida acadêmica. Envolve prepará-los para o serviço. Em um mundo no qual a prevalência de transtornos mentais aumenta cada vez mais, em um país que possui quadros alarmantes de depressão e ansiedade entre jovens e no qual as ciências Psi vêm obtendo cada vez mais visibilidade e importância, a presença cristã nesses meios se torna imprescindível, pois é justamente aí que precisamos ser o sal da terra e a luz do mundo.

[...] cabe lembrar que o objetivo principal de promover um diálogo crítico dos cristãos com a psicologia tem um objetivo mais do que apenas apologético e envolve mais do que meramente prepará-los para vida acadêmica. Envolve prepará-los para o serviço.

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

1. Ver: “Procura por curso de psicologia nas faculdades explode no Brasil”, O Estado de Minas, 2023. Clique aqui para acessar.

2. Ver: “Educação libera resultado do Provão Paulista; psicologia é o curso mais concorrido na USP”, Governo do Estado de São Paulo, 2025. Clique aqui para acessar.

3. Ver: “Melhores residências em Psiquiatria: quais são os quatro hospitais mais concorridos no SUS-SP?”, Blog Medway. Clique aqui para acessar.

4. Ver: “Procura por curso de Psicologia cresce 112,4% no Brasil: Mudanças na sociedade e pandemia impulsionam interesse pela área”, Blog da Universidade Tiradentes, 2024. Clique aqui para acessar.

5. Luis Claudio M. Figueiredo, Revisitando as Psicologias: da epistemologia à ética das práticas e discursos psicológicos, 2009.

6. Paul Moes e Blake Riek, Integrando Psicologia e Fé: modelos para um engajamento cristão, 2024.

7. A tradição de cosmovisão é bem estabelecida dentro de alguns círculos protestantes e reformados. Originário da filosofia, o termo “cosmovisão” foi primeiramente usado no contexto cristão pelo teólogo presbiteriano escocês James Orr, mas tomou corpo dentro do movimento neocalvinista holandês com os trabalhos de Abraham Kuyper, Herman Bavinck e Herman Dooyeweerd. Moes e Riek se baseiam principalmente nas leituras contemporâneas de David Naugle e Albert Wolters. Ver: James Orr, A visão cristã de Deus e do mundo, 2023; Abraham Kuyper, Calvinismo, 2019; Herman Bavinck, Cosmovisão Cristã, 2024; David Naugle, Cosmovisão: a história de um conceito, 2017; Albert Wolters, A criação restaurada: base bíblica para uma cosmovisão reformada, 2006. Para uma releitura crítica contemporânea do movimento, ver: Craig Bartholomew, Contours of the Kuyperian Traditiona systematic introduction, 2017; Cory C. Brock e N. Gray Sutanto, Neo-Calvinism: a theological introduction, 2022.

8. A divisão clássica de Richard Niebuhr se refere ao influente livro Cristo e cultura, publicado no Brasil em 1967 pela editora Paz e Terra. Para uma releitura contemporânea da obra, ver: D. A. Carson, Cristo e cultura: uma releitura, 2012.

9. Movimento de aconselhamento que começou por Jay Adams e que sempre apresentou uma postura ativamente crítica com relação à psicologia. Para uma leitura atual do movimento, ver: Heath Lambert, Teologia do aconselhamento bíblico: fundamentos doutrinários do ministério de aconselhamento, 2017; Heath Lambert, O aconselhamento bíblico depois de Jay Adams, 2019.

10. A questão da cientificidade da Psicologia e da delimitação do seu objeto de estudo remonta aos primórdios da disciplina, que já foi objeto de discussão por filósofos como Wilhelm Dilthey e William James. Para um panorama atual do debate, ver: Luís Claudio M. de Figueiredo; Pedro L. R. Santi, Psicologia, uma (nova) introdução: uma visão histórica da psicologia enquanto ciência, 2003.

11. A máxima “a ontologia delimita a epistemologia” é retirada da leitura que o teólogo Alister McGrath faz do filósofo da ciência Ram Roy Bhaskar. Embora McGrath a utilize dentro do contexto teológico, dentro da sua proposta de um resgate da teologia natural, a sua perspectiva de um pluralismo epistemológico adequado à diversidade de objetos de pesquisa casa bem com a multiplicidade metodológica dentro da psicologia. Ver: Alister McGrath, A Ciência de Deus: uma introdução à teologia científica, 2016; Alister McGrath, Surpreendido pelo sentido: ciência, fé e como conseguimos que as coisas façam sentido, 2015.

12. Os textos fundantes do movimento já estão disponíveis em português: Eric Johnson, Fundamentos do cuidado da alma: uma proposta de psicologia cristã, 2021; e Eric Johnson, Aconselhamento Cristão: Os recursos terapêuticos da fé cristã para o cuidado da alma, 2021.

13. Principalmente os itens “a” e “b” do Artigo 2º do Código de Ética do Psicólogo. Clique aqui para acessar.

14. A Resolução CFP 07/2023. Clique aqui para acessar.

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