ARTIGO

(Re)descobrindo o sagrado diante da cultura profana

Diálogos entre a fenomenologia da experiência religiosa de Mircea Eliade e a teologia cristã na contemporaneidade

Victor Breno Farias Barrozo|

22/08/2025

Victor Breno-2

Victor Breno Farias Barrozo

Doutor em Ciências das Religiões pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) com estágio-sanduíche na Universidad Complutense de Madrid (PDES/CAPES). Graduado em Teologia pelo Instituto Bíblico das Assembleias de Deus (IBAD).

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Como citar

Barrozo, Victor Breno Farias. (Re)descobrindo o sagrado diante da cultura profana: diálogos entre a fenomenologia da experiência religiosa de Mircea Eliade e a teologia cristã na contemporaneidade. Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 6, jul-dez, 2025.

Na contemporaneidade, sobretudo desde a segunda metade do século 20, as emergências e transformações na experiência religiosa em âmbito global têm surgido como um dos principais fenômenos que vêm sendo instigados nos estudos acadêmicos e na discussão pública, inclusive no Brasil. Tal questão se coloca dentro do pano de fundo histórico-cultural da crise da modernidade e das revisões teóricas nas ciências humanas e sociais a respeito das chamadas teses da secularização. Predominou, num primeiro momento, uma perspectiva da secularização ligada a uma tradição iluminista e humanista de que o desenvolvimento do mundo moderno seria acompanhado do que o sociólogo italiano Sabino Acquaviva chamou de “eclipse do sagrado”,¹ ou seja, um desaparecimento progressivo da religião com o advento das sociedades técnico-científicas e industriais. Entretanto, com o boom religioso registrado no século passado em diversos lugares do mundo, com a efusão de novas expressões religiosas, espiritualidades, fundamentalismos, transnacionalização religiosa, movimentos de renovação, deu-se, na interpretação de alguns, um processo de “ressacralização” da sociedade que apontaria para uma “dessecularização do mundo”.²

[...] com o boom religioso registrado no século passado em diversos lugares do mundo [...] deu-se, na interpretação de alguns, um processo de “ressacralização” da sociedade que apontaria para uma “dessecularização do mundo”.

Diante desse cenário, a fenomenologia da experiência religiosa do romeno Mircea Eliade pode nos permitir acessar as “camuflagens do sagrado no mundo contemporâneo”.³ Eliade é reconhecidamente um dos principais pensadores no campo dos estudos da religião do século 20, o qual, além de influenciar diversos outros autores, também exerceu impacto sobre várias outras áreas como a antropologia, história e a própria teologia. Para tanto, no presente artigo, queremos propor um diálogo com a fenomenologia eliadiana à luz da teologia cristã, na intenção de buscar elementos e ferramentas teórico-metodológicas que nos permitam compreender a experiência religiosa, destacando especialmente os distanciamentos e as aproximações possíveis que esse método e esse autor podem oferecer para uma elucidação teológica da questão do sagrado em nossas sociedades modernas.

O historiador e fenomenólogo romeno Mircea Eliade desenvolveu seus trabalhos concentrando-se, sobretudo, nas análises da experiência religiosa humana a partir de uma perspectiva comparada, investigando os mitos, ritos e símbolos das religiões ao longo da história. Das contribuições oferecidas por ele, encontra-se, no cenário da segunda metade do século 20, a reafirmação da dimensão antropológica irredutível daquilo que ele denomina homo religiosus. Para Eliade, a religião é uma estrutura antropológica estruturante da existência humana que deve ser entendida não apenas a partir das abordagens histórico-sociais ou psicológicas, mas sim a partir de uma perspectiva própria da experiência do sagrado. De acordo com ele, a fenomenologia da religião tem por tarefa descrever e interpretar os fenômenos religiosos a partir de suas experiências e vivências com o sagrado, sobretudo da manifestação de alguns elementos comuns: símbolos, mitos e rituais. O autor romeno retrata essa experiência com o sagrado nos seguintes termos:

A sacralidade é, em primeiro lugar, real. Quanto mais religioso é o homem, mais real ele é, e mais ele se desvia da irrealidade de um devir privado de significação. Daí a tendência do homem para "consagrar" toda a sua vida. As hierofanias sacralizam o cosmos, os ritos sacralizam a vida. Essa sacralização pode também ser obtida de maneira indireta, isto é, pela transformação da vida num ritual. [...] A esse respeito, todo ato se mostra apto a tornar-se um ato religioso, da mesma maneira que todo objeto cósmico se mostra apto a tornar-se uma hierofania. O que é o mesmo que dizer que qualquer instante se pode inserir no Grande Tempo e projetar o homem em plena eternidade.⁴

A partir dessa tese central, Eliade desenvolverá todo um vasto e profundo estudo sobre a pesquisa comparada das religiões ao longo da história considerando essa perspectiva fenomenológica, sobretudo na sua trilogia Histoire des Croyances et des Idées Religieuses, escrita entre 1976 e 1983. Com base nesses trabalhos comparativos, ele elaborou, nos dois livros já mencionados anteriormente, uma teoria fenomenológica da experiência religiosa do humano. No cerne do pensamento eliadiano, está a ideia de que a hierofania do sagrado se manifesta dentro de uma estrutura e morfologia específica, revelando as diversas “modalidades do sagrado”, bem como o momento histórico da “situação do homem em relação ao sagrado”.⁵

Na fenomenologia da experiência religiosa de Eliade, por intermédio de uma descrição comparada das religiões, o autor buscou demonstrar a existência de um fio condutor, um elemento que pode ser sublevado, que perpassa todas as religiões de todas as épocas e que constituiria a “essência” das religiões: a realidade do sagrado e do profano. Essa categoria é perceptível nas mais diferentes e distintas religiões, e é também útil no entendimento da organização e dos sentidos religiosos para o homo religiosus. De acordo com ele, sagrado e profano constituem as essências das religiões. Esse binômio se constitui como duas realidades distintas, mas que só podem ser compreendidas uma pela outra e em sua correlação mútua. Como afirmado pelo autor, “o sagrado e o profano constituem duas modalidades de ser no Mundo, duas situações existenciais assumidas pelo homem ao longo da sua história.⁶ Ainda, para o autor, a compreensão dessa relação possibilita a todo e qualquer investigador conhecer as “dimensões possíveis da existência humana”.⁷ Para Eliade, “o homem toma conhecimento do sagrado porque este se manifesta, se mostra como algo absolutamente diferente do profano”.⁸ A experiência religiosa surge na existência humana como manifestação do sagrado (hierofania/cratofania), algo que se apresenta em oposição ao profano, mas é justamente nessa realidade profana que o sagrado aparece ao indivíduo religioso. E essa experiência é totalizante e se apresenta como algo que afeta a experiência total de vida.

Entretanto, diante das modalidades da dialética entre o sagrado e o profano manifestas ao longo da história das religiões por todo o tempo, a cultura contemporânea tem sido marcada por um novo elemento comparado às sociedades arcaicas ou tradicionais: o fenômeno da “dessacralização” do mundo. Eliade afirmará que, em oposição ao “homem religioso”, emerge o “homem privado de sentimento religioso”, em um mundo dessacralizado. Essa postura seria, do ponto de vista histórico das civilizações humanas, incomum: “uma descoberta recente na história do espírito humano”. Ainda, para o autor, “o homem moderno dessacralizou seu mundo e assumiu uma existência profana”. Ao longo da história das religiões, mas sobretudo da modernidade, Eliade aponta para a experiência da “resistência ao sagrado”:

[...] há que considerar uma tendência contrária, a da resistência ao sagrado, resistência que se manifesta no próprio âmago da experiência religiosa. A atitude ambivalente do homem perante um sagrado que simultaneamente atrai e repele é benéfica e perigosa, tem a sua explicação não só na estrutura ambivalente do próprio sagrado, mas ainda nas reações naturais que o homem manifesta perante essa realidade transcendente que o atrai e aterroriza com idêntica violência. [...] Essa resistência ao sagrado tem como correlato, na perspectiva da metafísica existencial, a fuga à autenticidade. Ao profano, à ilusão ao não-significante, responde, sempre na mesma perspectiva, o plano do "geral".⁹

Eliade afirmará que, em oposição ao “homem religioso”, emerge o “homem privado de sentimento religioso”, em um mundo dessacralizado. Essa postura seria, do ponto de vista histórico das civilizações humanas, incomum: “uma descoberta recente na história do espírito humano”.

Como o fenomenólogo aponta, essa dessacralização “caracteriza a experiência total do homem não religioso das sociedades modernas” que, por essa razão, encontra dificuldades de “reencontrar as dimensões existenciais do homem religioso” presente nas sociedades passadas. Todavia, mesmo diante de tal realidade, Eliade mostra a permanência das “modalidades do sagrado e a situação do homem num mundo carregado de valores religiosos”,¹⁰ ou, como mencionado na introdução deste texto, as “camuflagens do sagrado no mundo contemporâneo”,¹¹ e que “até a existência mais dessacralizada conserva ainda traços de uma valorização religiosa do mundo”.¹²

[...] se a história é capaz de promover ou de neutralizar novas experiências religiosas, não consegue nunca abolir definitivamente a necessidade de uma experiência religiosa. Mais ainda: a dialética das hierofanias permite a redescoberta espontânea e integral de todos os valores religiosos, quaisquer que eles sejam e qualquer que seja o nível histórico em que possam encontrar-se a sociedade ou o indivíduo que realiza essa descoberta. A história das religiões vê-se, assim, reduzida, em última análise, ao drama provocado pela perda e pela redescoberta desses valores, perda e redescoberta que não são nunca, que não podem mesmo nunca ser, definitivas.¹³

Essa redescoberta do sagrado no contexto da cultura profana, como diagnosticada por Eliade, aponta que, mesmo diante da “repugnância natural do homem histórico” em “abandonar-se totalmente à experiência sagrada”, a permanência e força do sagrado nas sociedades modernas indica essa “impotência a renunciar definitivamente a uma tal experiência” com o sagrado.¹⁴

Em conclusão, a fenomenologia de Mircea Eliade oferece importantes contribuições para o estudo e compreensão da religião, inclusive a fé cristã, na contemporaneidade. Eliade nos ajuda a entender a universalidade da experiência religiosa, mostrando como a religião está presente em todas as culturas e em todos os tempos – mesmo nas chamadas sociedades seculares – o que se evidencia pela persistência dos símbolos e rituais na cultura profana. Além disso, o pensador romeno resgata o potencial do simbolismo religioso diante da tendência racionalizante do mundo moderno, de fornecer sentido e identidade aos indivíduos e sociedades. Por fim, ao considerar a dimensão religiosa da constituição antropológica do sujeito – o homo religiosus –, Eliade fornece elementos para abordar a questão religiosa na atualidade como algo pertencente a uma esfera com lógica e linguagem próprias, sem cair em reducionismos ou simplificações ideológicas ou patológicas.

A partir da contribuição da fenomenologia da experiência religiosa de Mircea Eliade, podemos estabelecer um diálogo contemporâneo entre ciência e fé cristã a respeito da compreensão da manifestação do sagrado no contexto da cultura profana. A despeito das tentativas modernas da cultura profana, por meio da secularização, de afastar da vida privada e da sociedade a experiência com o sagrado, a fenomenologia reconhece a dimensão religiosa como parte irredutível da constituição antropológica do humano, ou homo religiosus. A fé cristã em um cenário de profanização da cultura, marcada pela secularização – e suas consequentes tentativas de dissolução do sagrado da vida humana e na sociedade – pode, nutrindo-se da contribuição da fenomenologia da experiência religiosa de Mircea Eliade, reafirmar a dimensão do sagrado como estruturante da existência humana.

A despeito das tentativas modernas da cultura profana, por meio da secularização, de afastar da vida privada e da sociedade a experiência com o sagrado, a fenomenologia reconhece a dimensão religiosa como parte irredutível da constituição antropológica do humano, ou homo religiosus.

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

1. Sabino Acquaviva, El eclipse de lo sacro em la civilizacion industrial, 1972.

2. Peter Berger (Ed.), The desecularization of the world: resurgent religion and world politics, 1999.

3. Cleide Cristina Scarlatteli Rohden, A camuflagem do sagrado e o mundo moderno: à luz do pensamento de Mircea Eliade, 2004.

4. Mircea Eliade, Tratado de história das religiões, 2008, p.374.

5. Ibidem, p.8.

6. Mircea Eliade, O sagrado e o profano,1995, p. 20.

7. Ibidem, p. 20.  

8. Ibidem, p. 18.  

9. Han, 2016, p.31.

10. Eliade, 1995, p. 23.

11. Rohden, 2004.

12. Eliade,1995, p. 27.

13. Eliade, 2008, p.378-379.

14. Eliade, 2008, p.375.

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