ENSAIO

O papel epistêmico da tolerância religiosa

Ofensas doxásticas e a racionalidade da crença

Gustavo Oliva de Oliveira|

04/06/2025

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Gustavo Oliva de Oliveira

Gustavo Oliva de Oliveira é Mestre em Filosofia pela PUCRS e Doutorando na UNISINOS. Estuda, principalmente, questões relacionadas à filosofia moral, epistemologia, e filosofia da religião. Projetos de pesquisa atuais envolvem a moralidade de imposições de risco e a relação entre racionalidade epistêmica, normatividade moral, e crença religiosa.

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Como citar

Oliveira, Gustavo Oliva de. O papel epistêmico da tolerância religiosa: ofensas doxásticas e a racionalidade da crença. Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 5, jan-jun, 2025.

Introdução

A tolerância religiosa é uma prática comum de diversas comunidades religiosas e é costumeiramente pensada como um mecanismo moral para o respeito e inclusão social de pessoas que professam outras fés. Embora muito tenha sido dito sobre sua relevância moral e religiosa, neste artigo pretendo destacar outro papel da tolerância religiosa: a maneira como ela protege a racionalidade epistêmica da crença.¹ Essa importância está ligada ao fenômeno das ofensas doxásticas,² que acontecem quando a formação ou manutenção de uma crença em si constitui uma ofensa contra alguém. A maior parte das teorias sobre este fenômeno implicam que essas crenças são epistemicamente irracionais, embora possam parecer inicialmente justificadas. Considerando como funcionam sistemas de crença religiosa, é plausível que muitos desses sistemas possam incluir crenças que fundamentam a formação de outras crenças que constituem ofensas. Por exemplo, a crença de que uma pessoa específica de um contexto cultural diferente, que não segue a religião do agente, é uma pessoa moralmente inferior em algum aspecto, ou vive sua vida de maneira objecionável, inferida simplesmente porque essa pessoa pertence a outra religião, é, aparentemente, um caso de ofensa doxástica. E, ao cometer essa ofensa, o agente epistêmico religioso perderia sua justificação epistêmica naquela crença. Além disso, existe a possibilidade que uma perda de confiança no seu sistema de crenças geral seja necessária, o que seria um prejuízo epistêmico considerável para o agente.

Neste ensaio, exploro a ameaça imposta pelas ofensas doxásticas à racionalidade da crença religiosa e argumento que o problema só surge quando os sistemas não incluem tolerância religiosa ou quando os agentes ignoram os mecanismos de tolerância de um sistema; em outras palavras, a tolerância religiosa protege a racionalidade da crença religiosa. O desafio nos ajuda a repensar a maneira como fazemos inferências sobre indivíduos com base em crenças gerais sobre grupos, especialmente no contexto das crenças religiosas, explorando como a intolerância religiosa pode causar prejuízo epistêmico, tornando as crenças religiosas de um agente menos justificadas. O resultado é uma fundamentação não apenas moral, mas também epistêmica, da tolerância religiosa.

Ofensas doxásticas acontecem quando a formação ou manutenção de uma crença em si constitui uma ofensa contra alguém. Existem diversos exemplos de ofensa doxástica — frequentemente, o fenômeno envolve algum tipo de crença negativa sobre alguém que foi formada com base em evidência insuficiente, ignorando relações interpessoais, ou por meio de raciocínio enviesado ou preconceituoso. Assim, tanto crenças racistas, sexistas e xenofóbicas, como crenças mal motivadas sobre pessoas que conhecemos são candidatas naturais a ofensas doxásticas.

De interesse especial são os casos em que uma crença parece ofender alguém enquanto a crença é, à primeira análise, epistemicamente racional. Considere uma leve adaptação do caso discutido na literatura por Rima Basu,³ Basu e Mark Schroeder⁴ e Tamar Szabó Gendler.⁵ Um membro de um clube da alta sociedade vê um homem negro no local e forma a crença de que ele é um trabalhador do clube. Já que, até agora, todos os membros do clube que ele conheceu eram brancos, e todos os trabalhadores do clube eram negros, o agente tem forte evidência estatística de que o homem negro é um empregado do clube.

O caso é inspirado numa história real experienciada pelo historiador John Hope Franklin em uma visita ao Cosmos Club em 1995.⁶ O membro que formou a crença a respeito de Franklin parece ter evidência estatística que torna a verdade da crença muito provável, o que, na maioria dos casos, é suficiente para obtermos justificação. Mas como pode uma crença epistemicamente racional ser moralmente errada? Isso sugeriria que existe um conflito entre a normatividade moral e a normatividade epistêmica, o que é indesejável do ponto de vista teórico, por motivos que exploraremos na próxima seção.

Uma maneira de resolver o problema do conflito é a adoção do que alguns filósofos chamam de infiltração moral, a ideia de que propriedades morais de crenças podem influenciar seu status epistêmico de forma não evidencial. Visões como essa são chamadas de impuristas na epistemologia porque permitem que considerações que não estão relacionadas à verdade ou evidência interfiram na justificação epistêmica — em oposição ao purismo, que trata da racionalidade epistêmica como exclusivamente uma questão de evidência e outras características relacionadas à verdade das crenças.

Por exemplo, em um modelo influente de infiltração moral, o limiar de evidência necessário para racionalmente crer em uma proposição que envolva contextos morais delicados é mais alto do que seria em contextos não morais.⁷ O impurista defende que casos de aparente conflito são, na verdade, situações em que a crença é epistemicamente irracional. Isso ocorre porque o contexto moralmente problemático em que a crença foi formada aumenta o limiar evidencial, exigindo, portanto, mais evidências para que a crença seja justificada. Uma solução alternativa é manter uma visão purista, que explica os casos de conflito ao associar a imoralidade da crença a uma falta de entendimento, o que torna todos os casos de ofensa doxástica, em última análise, epistemicamente irracionais. Dessa forma, o conflito se dissolve, já que moralidade e racionalidade epistêmica caminham juntas.⁸ O resultado importante para nossos propósitos é que crenças imorais são consideradas epistemicamente irracionais por ambos os partidos.

Agora, considere sistemas de crença religiosa, os quais incluem crenças de diferentes tipos: algumas são mais teóricas ou especulativas, como crenças metafísicas sobre quais tipos de entidades existem ou crenças sobre a origem do mundo; outras são de natureza mais prática, envolvendo crenças morais sobre como devemos viver ou sobre quais deveres temos de cumprir, e quais são as consequências para aqueles que descumprem essas normas. Olhando de perto para esses sistemas de crença, é possível argumentar que muitos deles vão incluir alguns elementos que, sem o mecanismo da tolerância, apoiam a formação de crenças que constituem ofensas. A título de ilustração, a crença de que uma pessoa específica é moralmente inferior ao agente ou possui características morais negativas, inferida do fato de que segue uma religião associada a práticas diferentes da do agente, reprovadas por sua própria religião, é um potencial caso de ofensa doxástica. Afinal, se um sistema de crenças possui itens decisivos sobre assuntos morais que envolvem que tipo de vidas viver, é possível que tais crenças permitam inferências sobre indivíduos específicos que não seguem determinados comportamentos. É verdade que muitas das religiões mais populares, como é o caso de diferentes formas de Cristianismo, possuem mecanismos intrínsecos de tolerância que são relevantes no processo de formação de crenças desse tipo, bloqueando-as. No entanto, se um agente seguidor da religião ignorar a tolerância religiosa, pode cometer uma ofensa doxástica.

Se esse for o caso, aquele que crê religiosamente perderia a justificação epistêmica para aquela crença, e é discutível que essa perda possa afetar a confiança geral do agente no sistema de crenças religiosas. Esse é o insight central explorado neste ensaio: a intolerância religiosa impacta não apenas o status moral das crenças religiosas, mas também seu status epistêmico. Isso porque, se algumas crenças religiosas podem ser moralmente erradas, e crenças com essa característica são irracionais, a racionalidade das crenças religiosas poderia ser ameaçada de maneira mais generalizada.

[...] a intolerância religiosa impacta não apenas o status moral das crenças religiosas, mas também seu status epistêmico.

No que se segue, vou explicar o fenômeno das ofensas doxásticas e por que as diferentes maneiras de resolver o conflito acabam na ideia de que crenças imorais são sempre irracionais. Em seguida, explorarei como esse debate se aplica ao caso da crença religiosa e, também, de que modo a crença religiosa intolerante pode afetar a racionalidade epistêmica além da moralidade. Por fim, considerarei algumas estratégias para preservar a racionalidade de crenças religiosas intolerantes, discutindo os méritos dessas abordagens e as implicações do debate para a racionalidade das crenças religiosas de modo geral, destacando a relevância da tolerância.

Ofensas doxásticas: duas explicações para o fenômeno

O fenômeno das ofensas doxásticas diz respeito a erros morais constituídos por crenças. Frequentemente, crenças desse tipo são imorais e epistemicamente irracionais, isto é, não são apoiadas devidamente pela evidência disponível. E acredito que existe uma conexão a ser trabalhada: muitas dessas crenças são imorais justamente por revelarem uma falha no entendimento do contexto moral relevante, e essa deficiência pode ser facilmente traduzida em uma falta de evidência que a torna epistemicamente injustificada. Em alguns casos, no entanto, é menos claro que ofensas doxásticas tenham sido causadas por crenças irracionais.

Voltemos ao caso do clube mencionado anteriormente, no qual o agente forma uma crença sobre a ocupação de um indivíduo apenas com base em seu pertencimento a um grupo racial. Uma reação comum a esse caso é o juízo de que se trata de um caso de racismo — mais especificamente, algo próximo de um perfilamento racial. Se esse for o caso, essa crença parece ser moralmente errada e configura um exemplo de ofensa doxástica. No entanto, não é imediatamente claro que a crença seja epistemicamente irracional, já que o agente possui evidência estatística que aponta para uma alta probabilidade de a crença ser verdadeira. Na verdade, essa crença aparenta ter uma probabilidade semelhante ou até maior de ser verdadeira do que a maioria das nossas crenças cotidianas consideradas racionais. Pense em crenças banais, como a de que há uma jarra cheia de água gelada em minha geladeira com base na evidência de que a coloquei ali alguns minutos atrás. Essa crença é perfeitamente racional, ainda que exista uma probabilidade de que seja falsa (por exemplo, a geladeira pode não ter gelado a água ainda, ou ter estragado, ou alguém tenha tomado metade da jarra e ela não está mais cheia). Ou, ainda, crenças formadas com base em testemunho de outras pessoas, como a de que vai chover hoje com base na previsão do tempo, parecem ser racionais ainda que a probabilidade de serem verdadeiras não seja tão alta (muitas vezes menores que 0,8, por exemplo).

Se uma crença for racional e imoral ao mesmo tempo, temos um exemplo de conflito entre a normatividade moral e epistêmica. Embora possam existir conflitos que envolvam um dever de agir de forma “contrária” ao que a evidência nos mostra (considere, por exemplo, agir como se acreditasse na recuperação de um parente doente, mesmo que a evidência aponte para o contrário), casos como o discutido anteriormente são mais sérios. Nesse caso, as normatividades conflitantes não estão apenas recomendando uma ação e uma crença que estão de alguma maneira sem conformidade: trata-se de uma norma requerendo a formação de uma crença enquanto a outra proíbe a formação desta. O agente estaria, assim, impossibilitado de seguir ambas as demandas normativas.

Repare que não se trata exatamente de um conflito entre normas que regulam formas diferentes de atividade, o que seria mais aceitável. Por exemplo, é amplamente reconhecido que, em muitos casos, há uma certa desarmonia entre a normatividade epistêmica e a racionalidade instrumental. A primeira considera a evidência disponível e outros fatores ligados ao compromisso com a verdade, visando representar o mundo com precisão; já a segunda está voltada para a eficácia na satisfação das preferências do agente. Em outras palavras, normas para crer e normas para agir podem apresentar diferenças sem possuir um conflito real, porque se referem a diferentes domínios — considere, por exemplo, que pode ser instrumentalmente racional agir como se você fosse o melhor jogador de futebol em campo e arriscar jogadas mais difíceis com mais confiança, mesmo que você não tenha evidência suficiente para sustentar a crença nessa proposição.

O conflito trabalhado aqui, no entanto, refere-se a como dois tipos de normatividade estão em embate sobre quais crenças o agente deve formar. Estamos falando de moralidade e racionalidade da crença, o que torna este um conflito mais difícil de lidar do que o caso apresentado anteriormente. Por isso, filósofos buscam frameworks teóricos que possam evitar esse tipo de conflito normativo. Agora, explico as duas opções mencionadas anteriormente para dissolver o conflito em casos desse tipo.

A solução impurista envolve aceitar a ideia de que o status epistêmico de crenças pode ser afetado por considerações não epistêmicas. Uma forma popular de impurismo é a infiltração moral, a visão de que considerações morais podem afetar a racionalidade epistêmica. De acordo com a versão defendida por Basu, o limiar de evidência necessária para a crença racional aumenta quanto mais relevante for o contexto moral envolvendo a crença. Assim, no caso do clube, ainda que a evidência estatística fosse suficiente para justificar crenças em casos triviais, ela não é suficiente para sustentar uma crença carregada de conteúdo moral. Se a racionalidade epistêmica funciona dessa maneira, então não existe conflito: a crença racista é, ao mesmo tempo, imoral e irracional.

Apesar da solução oferecida, existem razões para duvidar da infiltração moral. Por exemplo, é possível argumentar que, ao sempre elevar o limiar de evidência necessário, a infiltração moral dificulta a formação de crenças em casos nos quais há pouca evidência disponível, mas em que a formação da crença é necessária. Em outras palavras, o contexto moral deveria diminuir o limiar. Mas, como Georgi Gardiner⁹ ressalta, é difícil pensar em uma norma que nos explique quando o limiar deveria se elevar ou diminuir, já que considerações diferentes poderiam nos levar a aumentar ou diminuir no mesmo contexto. Por exemplo, no processo de formação de crença sobre um acusação de discriminação por gênero cometida por um amigo, existem considerações para diminuir o limiar para acreditar na acusação, como o fato de que historicamente muitos casos foram acobertados e você pode estar enviesado por sua proximidade do acusado ; por outro lado, podem existir considerações para aumentar o limiar de evidência, que envolvem seu relacionamento com o amigo, os impactos de uma acusação desse tipo, e toda evidência que ele já te forneceu sobre seu caráter. Outra preocupação diz respeito à maneira como o acréscimo de evidência pode levar um agente a perder justificação — como nos casos em que o agente obtém evidência de que o contexto moral é arriscado. Parece estranho que o ganho de evidência, que promove uma melhor compreensão da situação, leve à perda de justificação, especialmente quando essa evidência não é derrotadora da crença.¹⁰

Considerações como as apresentadas anteriormente podem levar filósofos de inclinação purista a preferirem uma explicação alternativa para o aparente conflito. Vale lembrar que o problema só existe se a crença estiverde fato bem apoiada pela evidência disponível. No caso do clube, o agente que forma a crença está ignorando uma quantidade significativa de evidência contrária: por exemplo, ainda que o caso tenha poucos detalhes, é bastante plausível que, ao atentar para aspectos como a idade da pessoa, sua roupa (por exemplo, se está de uniforme), seu comportamento (se está prestando serviços a outros membros do clube), o agente estaria em uma posição mais adequada para fazer a inferência correta. Em vez disso, o agente se concentra unicamente no fato de que aquela pessoa pertence a um certo grupo demográfico.¹¹ Esse fato torna a crença imoral, mas podemos argumentar que é o que torna a crença irracional, por não fazer jus à toda evidência disponível. Essa consideração explica por que a crença é imoral e irracional, desfazendo o conflito normativo entre moral e racionalidade epistêmica.

Qualquer que a sua interpretação preferida, uma característica permanece constante: crenças imorais são epistemicamente injustificadas. Esse é o ponto relevante para nossa discussão, pois, se essa análise estiver correta, a formação de ofensas doxásticas consiste na formação de uma crença irracional. É previsível que teorias que tentam evitar o conflito entre moralidade e racionalidade epistêmica cheguem a essa conclusão, uma vez que mantém uma espécie de “harmonia” entre os critérios morais e racionais da formação e manutenção de crenças. A seguir, investigo a relevância dessa conclusão para a racionalidade das crenças religiosas, especialmente no que tange à noção de tolerância.

Ofensas doxásticas e papel epistêmico da tolerância

Crenças imorais são epistemicamente irracionais. Isso significa que pessoas que aderem a sistemas de crença que envolvem ou estão conectados a crenças imorais deveriam se preocupar com seu status epistêmico. Como mencionado anteriormente, algumas das grandes religiões são flexíveis em seus sistemas morais, de maneira que pessoas com diferentes tipos de fé sejam respeitadas por meio da tolerância religiosa. No entanto, é possível que pessoas religiosas falhem na prática dessa tolerância; o problema é que, quando isso ocorre, algumas crenças religiosas de caráter moral podem ser associadas a inferências sobre pessoas de diferentes grupos religiosos, levando ao julgamento de que esses indivíduos são moralmente inferiores em algum aspecto apenas por pertencerem a outro grupo.  O problema é que inferir que alguém é uma pessoa ruim apenas com base no fato de ela pertencer a um grupo é, frequentemente, uma forma de ofensa doxástica. Naturalmente, é possível que algumas vezes seja racional e moralmente apropriado fazer este tipo de inferência, como no caso de alguém que pertença a um grupo envolvido em atividades consideradas imorais sem controvérsias, como grupos de ódio extremistas. Mas esse não é o caso paradigmático de pertencimento a um grupo.

Se crenças imorais são epistemicamente irracionais, então pelo menos as inferências desse tipo feitas sobre indivíduos são irracionais. O que dizer, então, da racionalidade das crenças generalizadas sobre a moralidade de outros grupos? Uma preocupação é que sua racionalidade esteja também ameaçada. Afinal, se for irracional inferir que uma pessoa específica pertencente a um grupo religioso possui alguma característica moral negativa simplesmente por pertencer a esse grupo, é plausível que também seja necessário diminuir a confiança na crença geral de que os membros desse grupo como um todo possuem essa característica e por isso são moralmente inferiores, mesmo que em grau pequeno. É uma situação estranha: temos uma crença geral (algo como “pessoas pertencentes ao grupo y possuem característica x”) que torna altamente provável uma proposição (algo como “a pessoa z possui a característica x”) na qual a crença é irracional, e esse fato é, de certa forma, uma razão epistêmica contra a crença geral. É claro que, considerando princípios morais de tolerância intrínsecos à religião, essa alta probabilidade não existe. No entanto, se o sujeito é intolerante, não parece haver um mecanismo inferencial que impeça a formação da ofensa doxástica, o que gera um prejuízo epistêmico em sua crença religiosa de modo mais abrangente. Este é o papel epistêmico da tolerância religiosa: ao bloquear a formação de crenças imorais desse tipo, o agente não ganha razões epistêmicas contra suas crenças religiosas, mantendo, assim, a justificação epistêmica original.

Este é o papel epistêmico da tolerância religiosa: ao bloquear a formação de crenças imorais desse tipo, o agente não ganha razões epistêmicas contra suas crenças religiosas, mantendo, assim, a justificação epistêmica original.

Agora, vou sugerir e discutir algumas estratégias para defender a crença religiosa intolerante desse tipo de objeção. Se uma defesa do tipo for bem-sucedida, então o papel epistêmico da tolerância religiosa é diminuído, uma vez que a formação de crenças aparentemente imorais não afeta a racionalidade das crenças em si ou do sistema de crenças. Se, no entanto, essas defesas apresentam problemas, então a importância da tolerância aumenta, não apenas em termos morais, mas também epistêmicos. A defesa mais fácil de todas é apenas negar a existência de, as ofensas doxásticas. Como mencionei anteriormente, alguns filósofos já duvidam da ideia, e uma razão para esse ceticismo é o fato de que a maioria deles rejeita o voluntarismo doxástico, a tese de que podemos controlar aquilo em que acreditamos, em conjunto com a adoção de um princípio de controle segundo o qual só podemos ser moralmente responsáveis pelo que controlamos.¹² Em vez disso, argumentam eles, a ofensa é causada por alguma outra atitude, como uma ação (por exemplo, falar ou agir de acordo com a crença).

Embora os dois princípios supostos anteriormente (o involuntarismo doxástico e o princípio de controle) sejam plausíveis, a existência de ofensas doxásticas pode se apoiar na ideia de que podemos obter algum tipo de controle sobre nossas práticas de formação de crença. A ideia é que podemos ter controle de segunda-ordem, por exemplo, por intermédio das escolhas sobre no que prestar atenção, que tipo de ambiente frequentar, se procuramos mais ou menos evidência etc., e essa forma limitada de controle já é suficiente para fundamentar a imoralidade da formação e manutenção da crença em si.¹³ Além disso, a ideia de que crenças podem ser imorais faz parte da moralidade do senso comum.

Uma segunda forma de rejeitar o problema seria negar o evidencialismo sobre crenças religiosas, isto é, defender que crenças religiosas podem ter status epistêmico positivo mesmo que não alcance os limiares requeridos de evidência para outras formas de crença, que é uma maneira popular de conceber a crença religiosa pelo menos desde o surgimento da epistemologia reformada.¹⁴ A visão de Plantinga, por exemplo, é a de que a crença religiosa pode manter sua garantia [warrant] se puder ser defendida de objeções conhecidas. Assim, mesmo se a crença inferida constituir uma ofensa, ela mantém um tipo de status epistêmico positivo: a garantia.

Uma consideração que pode ser feita contra essa estratégia é que o fato de uma crença ser ou implicar ofensas doxásticas pode contar como contraevidência para a crença e, em alguma medida, para crenças relacionadas do mesmo sistema. Se uma crença a implica as crenças b, c, e d, e a crença b é injustificada, isso impacta a confiança em c e d, porque impacta a confiança em a, já que a é mais provável dado que b, e c e d são mais prováveis dado que a. Assim, alguém poderia levantar a ideia de que a irracionalidade de b é contraevidência para as outras crenças do sistema, no sentido em que diminui o grau de confiança que seria justificado, ainda que apenas levemente. Isso pode ser problemático, porque a ideia de invocar a noção de garantia epistêmica implica que a crença pode ser defendida contra objeções, o que torna difícil utilizá-la como defesa contra essa mesma objeção. Se o impacto da objeção for de apenas reduzir a confiança do agente no sistema de crenças, é plausível que existam maneiras de manter a garantia, já que a ideia é que algumas crenças epistemicamente irracionais possam ter este status; mas, no caso da própria crença imoral, é difícil ver como ela pode ter esse aval, já que deve existir algum problema na avaliação da evidência que conta como contraevidência ou objeção. Além disso, a tolerância protege, a princípio, a racionalidade da crença, mas é possível que crenças sem tolerância possuam outros tipos de status epistêmico positivo sem que esta perca o papel epistêmico.

Outra forma de defesa busca simplesmente romper a conexão entre a justificação das crenças intolerantes e a justificação da crença no sistema geral. A ideia é que, mesmo que as crenças negativas sobre indivíduos, inferidas apenas de seu pertencimento a outras fés, sejam irracionais, a justificação das crenças religiosas gerais do indivíduo estão a salvo, porque podemos explicar a irracionalidade da crença específica de outras formas — por exemplo, apelando para outros vieses que o agente possui e que não têm relação com o sistema de crenças geral. No entanto, o problema parece ser que, em muitos casos, quando o sujeito não leva a tolerância em consideração, as outras crenças do sistema de fato tornam provável a verdade da crença imoral. Por isso, nesses casos, é possível explicar a formação dessas crenças apenas por meio do sistema e da não consideração da tolerância. Assim, é difícil compreender como o processo inferencial intolerante poderia evitar algum tipo de prejuízo ao sistema geral, mesmo que esse prejuízo se manifeste na forma de uma razão epistêmica para diminuir a confiança nas proposições gerais que fundamentam a inferência imoral.

Novamente, essas não são considerações contra a racionalidade da crença religiosa em si: são, sim, observações que ajudam a mostrar como os mecanismos de tolerância servem para manter a justificação do sistema religioso de maneira interna. Talvez também possam servir como explicação para o surgimento de mecanismos de tolerância em algumas das grandes religiões, embora eu considere mais plausível que a origem de tais mecanismos se deva a questões práticas e morais presentes na história de cada religião. Certamente, são ferramentas que contribuem para o sucesso epistêmico dos sistemas de crença religiosa. De maneira geral, a defesa epistêmica completa das crenças religiosas intolerantes se mostra insuficiente, evidenciando que a tolerância religiosa transcende o âmbito moral e constitui também um exercício fundamental da racionalidade epistêmica. As reflexões apresentadas neste ensaio ressaltam a relevância desse mecanismo em múltiplos contextos, fornecendo argumentos adicionais para a promoção e a prática da tolerância entre diferentes tradições religiosas.

[...] essas não são considerações contra a racionalidade da crença religiosa em si: são, sim, observações que ajudam a mostrar como os mecanismos de tolerância servem para manter a justificação do sistema religioso de maneira interna.

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Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

* Ensaio classificado em 4º lugar na 6ª chamada de Ensaios do Radar ABC².

1. Outras relações entre tolerância religiosa e virtudes epistêmicas já foram feitas na direção contrária: por exemplo, Quinn (2005) e Kraft (2006) ressaltam que a humildade epistêmica leva à tolerância religiosa. Neste ensaio, concentro-me em como a tolerância protege a crença religiosa de se tornar irracional.

2. Traduzo doxastic wronging como “ofensa doxástica”, em vez de “injustiça doxástica”, para evitar o uso do termo “injustiça”, já que pode causar confusão com a literatura das injustiças epistêmicas.

3. Basu, 2020.

4. Rima e Schroeder, 2019.

5. Gendler, 2011.

6. Gendler, 2011, p. 35; Franklin, 2005.

7. Basu, 2019, 2020; Basu; Schroeder, 2019.

8. Gardiner, 2018.

9. Gardiner, 2018.

10. Oliva de Oliveira, 2023, p. 11.

11. Gardiner, 2018.

12. Basu; Schroeder, 2019.

13. Oliva de Oliveira, 2023, p. 14-15.

14. Moon, 2016; Plantinga, 2000; Plantinga; Wolterstorff, 1983.

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