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Marcelo Cabral

Nem ciência, nem religião

Quem, atualmente, tem a primazia do conhecimento?

04/03/2026

Não há dúvida de que Peter Harrison é um dos mais relevantes pensadores no campo da Ciência e Religião. Já foi diretor do Ian Ramsey Center for Science and Religion – talvez a instituição acadêmica mais relevante em todo o mundo no assunto –, cargo que depois foi ocupado por Alister McGrath e, agora, por Mark Harris. Entre vários prêmios e honrarias, Peter Harrison foi convidado para palestrar nas prestigiosas Gifford Lectures,  que resultaram no livro Os territórios da ciência e da religião, publicado pela ABC² em parceria com a Editora Ultimato. Por sinal, esse é um daqueles livros “must read!”, e lhe garanto que mudará para sempre a maneira como você enxerga a história das interações entre ciência e religião.

Talvez você esteja se perguntando por que eu, um epistemólogo, esteja nesta coluna tratando de um historiador. Claro, para além do meu envolvimento com o tema Ciência e Religião nos últimos 10 anos e da minha paixão por história, há, na obra de Harrison, diversas discussões epistemológicas. Afinal de contas, tanto a ciência como a religião são (entre outras coisas) modos de conhecer a realidade.

Afinal de contas, tanto a ciência como a religião são (entre outras coisas) modos de conhecer a realidade.

Entre as teses que o tornaram mais famoso, está aquela conhecida como “remarkable reversal”, que podemos traduzir por algo como a dramática inversão. No restante desta coluna, explicarei onde está a dramaticidade de tal inversão e proporei, com alguma ousadia, que estamos agora passando por uma nova, e mais perigosa, inversão. Ou seria reversão?

Comecemos, então, pela tese de Peter Harrison. A cultura científica moderna, ele argumenta, que surgiu em meados do século 16, só veio a se estabelecer como prática social definitiva e autônoma na parte final do século 19. Foi um longo processo de consolidação. Ao longo desses três séculos de transição, não havia a noção de um método científico unificado, tampouco havia a profissão do “cientista”, nem mesmo a ideia de um conjunto disciplinar que poderíamos chamar de “ciência”. Antes, havia uma miríade de atividades exploratórias, como a filosofia natural, a astrologia e a história natural, desenvolvendo observações e experimentos, aliados à matemática (também em franco desenvolvimento), com o objetivo de gerar conhecimentos do mundo natural e melhorias técnicas para a vida humana.

O que diversos historiadores da ciência enfatizam e Peter Harrison investe muitas páginas para demonstrar é que nesse período de transição as novas ciências experimentais eram altamente contestáveis: não gozavam de apoio popular, não tinham estima de investidores e eram até mesmo satirizadas em jornais e círculos culturais. Mesmo na academia, as ciências empíricas não chegavam nem perto da teologia ou das humanidades em importância: “Em Oxford, em 1870, havia 145 cátedras em estudos clássicos, em comparação com quatro em ciências naturais.”¹

As ciências empíricas não possuíam consenso sobre sua importância social e nem epistêmica. Muitos duvidavam que elas poderiam gerar conhecimento genuíno e, mais ainda, conhecimentos valiosos, que promovessem a elevação humana, a formação do caráter, a sabedoria divina e um entendimento integrado da realidade. Esses conhecimentos formavam um tipo de epistemologia das virtudes.

Como, então, as novas ciências se estabeleceram no Ocidente? Como viriam a se tornar a potência intelectual que conhecemos? Foi por meio de uma aliança com a prática social e intelectual que gozava do maior prestígio, daquela que, pensavam, conduzia verdadeiramente à elevação humana, à formação do caráter, à sabedoria divina e a um conhecimento integral da realidade: a teologia.

A revolução científica, portanto, não se deu por meio de uma ruptura ou de um distanciamento da religião, mas por um tipo de aliança talvez ainda mais forte do que aquele da Idade Média. Não à toa, a maior parte dos escritos científicos durante os séculos 16, 17, 18 e 19 – com o exemplo supremo da Principia, de Newton – era feita também como discursos teológicos, mostrando como o entendimento da natureza promovia a epistemologia das virtudes e, também, como a ordem e as leis do mundo natural refletiam a ordem, o poder e a sabedoria divinas. Esse projeto de aliança foi uma nova forma de teologia natural. Não é nenhum exagero, nem abuso religioso, argumentar que as novas ciências eram, portanto, formas de um discurso teológico.

A revolução científica, portanto, não se deu por meio de uma ruptura ou de um distanciamento da religião, mas por um tipo de aliança talvez ainda mais forte do que aquele da Idade Média.

Pois bem. As novas ciências só puderam se consolidar porque se apoiaram no prestígio da teologia. Mas (e agora seria interessante se houvesse um fundo musical dramático), no fim do século 19, por uma série de processos que vão além do que me cabe dizer nessa coluna (leia Peter Harrison!), a ciência moderna finalmente se estabelece como atividade integral, institucionalmente robusta, profissionalmente reconhecida e socialmente validada. Mais do que isso, ela destronou a teologia como a detentora dos valores epistêmicos supremos. Geram conhecimento – talvez não tão integrado e nem formador de caráter –, mas um conhecimento que pode ser atestado por todos, que encontra lastro em experimentos e não na mera especulação. E, sendo agora detentora do trono epistêmico, é a teologia que, para se sustentar como uma prática de conhecimento, precisa se “validar” ao tentar se aproximar das práticas científicas:

Defensores da abordagem experimental julgaram necessário apelar a fatores extrínsecos à ciência a fim de estabelecer sua utilidade social. Parte de sua estratégia foi apelar à religião, cuja legitimidade à época estava acima de qualquer dúvida. Se isso soa anti-intuitivo, é somente porque nos séculos entre aquela época e agora ocorreu uma dramática inversão da condição relativa da ciência e da religião, de modo que é muito mais provável hoje em dia que a religião busque firmar sua legitimidade apelando à ciência, em vez do contrário. De fato, para alguns, a religião é legítima apenas até o ponto em que consegue demonstrar suas credenciais pelas condições estabelecidas pela ciência. A situação dos séculos 17 e 18 era um tanto diferente.²

Aí está a dramática inversão: enquanto nos primeiros séculos de seu surgimento as ciências experimentais precisaram do apoio da teologia para se estabelecer – e precisaram mostrar que geravam um tipo de “epistemologia das virtudes”, que era o padrão teológico de conhecimento –, a partir do final do século 19 o jogo se inverteu, e, gozando de supremacia intelectual, foi a vez da ciência ditar, com sua epistemologia científica, o padrão de conhecimento que qualquer outra prática intelectual, incluindo a teologia, precisariam perseguir para ter validação.

Muita tinta foi gasta mostrando os perigos que essa inversão promoveu. Isso pode ser enunciado como o perigo do cientificismo, que é a visão de que apenas as ciências empíricas são modos válidos de conhecer.

Precisamos rumar para a parte final deste artigo. Lanço então a questão: será que a ciência ainda possui o “trono epistêmico”? Será que ela goza de amplo e completo respaldo social como o modo mais confiável de conhecer a realidade? Se isso talvez fosse incontestável até alguns anos atrás, vivemos nos últimos anos uma explosão de negacionismos científicos. Movimentos antivacina, terraplanismo, contestações do consenso a respeito do aquecimento global, entre outras coisas, evidenciam um amplo sentimento e atitude, de diversos estratos sociais, contra a ciência estabelecida. Trata-se de uma forma curiosa de anti-intelectualismo porque, ao mesmo tempo que diz prezar pela verdade e pelo conhecimento, peleja contra as instituições que podem promovê-los. É anti-intelectual não porque não leia livros, mas porque lê mal, lê más fontes e cai em uma série de erros epistêmicos.

Estamos, então, na era de uma nova e dramática inversão. A ciência não tem mais o prestígio social e intelectual de que usufruiu por mais de 100 anos. Mas quem, então, ocupou seu lugar? Essa é a pergunta da vez, e creio que ninguém tenha a resposta definitiva. Concluirei, entretanto, com alguns palpites.

De início, é importante perceber que dizer que a ciência perdeu o lugar de monopólio do conhecimento não significa que ela não tenha mais força social. Ela continua possuindo uma ampla gama institucional e financeira que – ainda bem – continua a sustentá-la como atividade importante na cultura contemporânea. Mas, como veremos a seguir, outras forças vêm ganhando crescente relevância  epistêmica, isto é, têm assumido autoridade para dizer o que é e o que não é conhecimento, o que pode ser considerado confiável, o que se estabelece como informação, evidência e padrão legítimo  de racionalidade.

Em primeiro lugar, ideologias. Embora com vários níveis de sofisticação, vemos gente pensando do seguinte modo: “se minha ideologia diz que tal fulano é confiável para falar de medicina ou de aquecimento global, ou de direitos humanos, ou seja lá do que for, então ele é confiável”. A multidão de gente bem-formada acreditando, ou ao menos dizendo crer, nas coisas mais estapafúrdias, mostra quão dramática é a nossa reversão. Em segundo lugar, as Big Techs – mais especificamente seus donos e associados – têm um controle crescente sobre as informações que consumimos e que, por isso, nos parecem razoáveis. Mas não é preciso dizer que eles se preocupam mais com seus bolsos cheios do que em promover a verdade. Em terceiro lugar, vemos a religião tentando recuperar o prestígio epistêmico de outrora muitas vezes por meio da promoção de uma guerra aberta à ciência. O grande problema é que, em vez de promover algum tipo de epistemologia das virtudes, que, como antigamente, valorizava a formação do caráter intelectual e a promoção de um conhecimento coerente, a religião, principalmente ramos cristãos, tem promovido uma epistemologia dos vícios: dogmatismo, heteronomia intelectual, ignorância ativa, impermeabilidade à evidência, arrogância intelectual, entre outros vícios.

Em última análise, a marca dessa nova dramática inversão é que ninguém assumiu o posto antes ocupado pela ciência. Embora seja saudável nos libertarmos do cientificismo, o atual vácuo de autoridade epistêmica nos projeta em um ambiente cognitivamente hostil, no qual oportunistas – sejam proprietários de grandes corporações, ideólogos ou influenciadores –  exploram essa lacuna para ganhar poder social e perpetuar a crise do conhecimento.

[...] o atual vácuo de autoridade epistêmica nos projeta em um ambiente cognitivamente hostil, no qual oportunistas exploram essa lacuna para ganhar poder social e perpetuar a crise do conhecimento.

Nosso horizonte não se mostra particularmente otimista nem plenamente nítido. Mas talvez uma renovada ênfase no caráter intelectual, no conhecimento para o florescimento humano, na busca mais integrada pela verdade e num senso maior de responsabilidade nas práticas de conhecer – aquilo que denomino epistemologia das virtudes – nos apontem um caminho melhor a ser trilhado.

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

1. Peter Harrison, Os territórios da ciência e da religião, 2017, p. 160.

2. Harrison, 2017, p. 138.

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