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Marcelo Cabral

Crenças políticas & crentes políticos

Esboços de uma epistemologia política

21/11/2024

Paixões políticas abundam e explodem nos corações contemporâneos. (Quase) todo mundo tem uma série de convicções sobre quem presta e quem não presta na política, sobre a melhor política industrial, sobre o que deve ou não ser privatizado, sobre política cambial e de juros. Claro, na mesma medida que abundam as convicções, também faltam os devidos graus de conhecimento requeridos para que tais convicções tenham um mínimo de plausibilidade. Assim, mesmo faltando conhecimento político, sobram crenças políticas. Mas o que são, afinal, essas crenças?

O que são crenças?

É comum que, ao ouvirmos alguém falar sobre crenças, associemos a expressão ao domínio religioso: fulano crê em Deus, beltrano é uma pessoa de crenças etc. Entretanto, crenças são atitudes básicas que podemos ter com relação a quase qualquer objeto ou proposição. Eu creio que tenho duas mãos, que estou escrevendo um texto neste momento, que tenho um filho chamado Francisco e que o Palmeiras é o maior campeão brasileiro.

Possuo também crenças científicas e históricas: creio que a água é formada por H2O, que o planeta Terra está aquecendo em grande medida por conta da atividade humana, acredito que o Brasil se tornou independente em 1822 e que Jesus Cristo viveu por volta de 2000 atrás. E também possuo várias crenças religiosas, como a de que esse Jesus é filho de Deus.

Crença, de qualquer tipo, é a atitude de tomar algo (um objeto ou proposição) como verdadeiro. Crer, afinal de contas, é acreditar que a coisa crida é verdadeira.

Por que a verdade das nossas crenças importa?

Visto que acreditamos no que pensamos ser verdadeiro, é relevante que as coisas em que cremos sejam, de fato, verdadeiras. A nossa sobrevivência como indivíduos e espécie dependem, substantivamente, de formarmos várias crenças verdadeiras.

Se você crer que não há perigo em pular de um prédio de 10 andares, que um certo fungo venenoso é saudável ou que nadar em alto mar sem preparo é seguro… sua vida será rapidamente encurtada. Se você tiver crenças falsas a respeito de remédios, de necessidades básicas ou das suas limitações, consequências nefastas serão inevitáveis. Além disso, crenças corretas sobre a ciência e a história são muito importantes para o nosso florescimento enquanto sociedade. Os esquecimentos históricos propositais (como a negação do Holocausto, dos danos do colonialismo europeu ou dos danos de ditaduras), bem como formas de negacionismo científico (negar a eficâcia das vacinas ou a crise climática) são desastrosos para nossa capacidade coletiva de promover sociedades saudáveis, desenvolvidas e justas.

Mas, ao tocar no tema das vacinas, da crise climática e de certos negacionismos históricos, começo a navegar em um terreno espinhoso: muita gente inteligente tem crenças falsas sobre tais coisas. E o que particularmente me interessa nessa coluna é que as razões por trás das crenças de muitos indivíduos a respeito de tais questões parece ter fundamento político – embora sejam crenças de caráter científico e histórico.

O que são crenças políticas?

Uma resposta óbvia seria: são crenças sobre assuntos políticos. Mas as coisas são um pouco mais complexas e interessantes do que isso.

Para começar, podemos entender por crenças políticas: (a) fatos descritivos sobre o funcionamento de sistemas políticos em vários níveis; (b) crenças normativas sobre o que consideramos ser o modo como a política deveria operar (aqui, temos um amplo espectro de crenças, desde crenças gerais sobre o que é uma sociedade justa, até crenças específicas sobre políticas econômicas, educacionais, de saúde, monetárias, e assim por diante); (c) por fim, crenças que, embora não sejam sobre questões primariamente políticas, se tornaram politicamente carregadas – como a questão das vacinas ou da crise climática.

Como as pessoas formam e sustentam suas crenças políticas? De acordo com uma certa teoria ingênua de democracia (folk theory of democracy), os indivíduos que compõem uma certa sociedade empregariam ao menos parte de seu tempo livre lendo, vendo notícias (podcasts, TV etc.) e se informando sobre questões políticas; eles teriam seus valores e preferências e buscariam votar do modo mais racional possível – isto é, elegendo políticos e sustentando políticas que promovessem seus valores e suas preferências.

De acordo com essa visão, as ações e os comportamentos políticos dos indivíduos – em quem votam, a quem financiam, campanhas que sustentam etc., seria informado por suas crenças políticas. Como eles querem o seu florescimento e de sua comunidade, tais indivíduos buscam crenças políticas verdadeiras para que suas ações políticas sejam efetivas e construtivas.
Qualquer leitor minimamente antenado deve ter lido os parágrafos anteriores com um sorriso sarcástico. Afinal de contas, o cenário e comportamento político das pessoas pouco se assemelha a esse quadro idealizado. As paixões ideológicas, o comportamento de manada, a atitude de torcedor e a necessidade de se conformar ao grupo a que pertencem moldam mais o comportamento político do que a busca racional e objetiva por crenças verdadeiras. Nossa arena política se assemelha mais a uma guerra entre torcidas do que a uma conversa entre cientistas políticos.

O que há de diferente com nossas crenças políticas?

Embora, no início dessa coluna, tenha apresentado uma forte associação entre a atitude de crer e a busca pela verdade, há várias pesquisas empíricas que mostram que, ao menos no domínio político (e também em assuntos morais e religiosos), nossas crenças se movem por motivos distintos.

Por exemplo, tendemos a buscar, aceitar acriticamente e nos lembrar mais de evidências que são favoráveis às nossas visões; em contrapartida, tendemos evitar, esquecer e ser mais críticos com relação a evidências que nos são contrárias.¹ Especificamente na política, as pessoas tendem a crer nas mesmas crenças daqueles a quem querem se associar.²

Esses estudos apontam que, em contextos políticos, nossos sistemas cognitivos tendem a operar de modo que não são conducivos à verdade. Em outras palavras, eles operam buscando outras coisas, como conforto psicológico, afirmação da própria identidade por meio da lealdade ao grupo e promoção de interesses não epistêmicos, como econômicos ou culturais.

Ademais, há por vezes no domínio político casos em que pessoas afirmam crer fortemente em coisas nas quais temos boas razões para pensar que elas realmente não acreditam. Uma pesquisa dos Estados Unidos mostrou que um a cada sete norte-americanos diz crer que Barack Obama é o anticristo. Será que 24 milhões de norte-americanos realmente acreditam nisso? Talvez alguns sim, mas parece que a afirmação de crença, nesse caso, e em outros semelhantes, denota alguma outra coisa.

Lembro-me de, durante as ocupações na entrada de vários quarteis após o segundo turno das eleições de 2022, muitos dizerem crer que Alexandre de Moraes seria preso e que Jair seria reconduzido à presidência. Talvez alguns realmente acreditassem nisso; outros, entretanto, poderiam afirmar tais crenças com outras coisas em vista.

Assim, crenças políticas parecem operar com mais complexidade e objetivos distintos em relação a crenças comuns sobre estados de coisas no mundo. Mas será que há alguma forma de compreendermos de um modo mais sistematizado como essas crenças funcionam?

Categorizando crenças políticas

Devo muito da discussão até aqui ao excelente capítulo escrito por Michael Hannon e Jeroen de Ridder.³ Como eles afirmam, “na política, geralmente nos importamos mais com o pertencimento e lealdade de time do que com a verdade porque, para muitas pessoas, a política não é realmente sobre a verdade”.⁴ As crenças políticas – mesmo as crenças falsas e, às vezes, especialmente as falsas – podem promover objetivos sociais e econômicos a ponto de as pessoas simplesmente não se importarem se tais coisas são verdadeiras.

As crenças políticas – mesmo as crenças falsas e, às vezes, especialmente as falsas – podem promover objetivos sociais e econômicos a ponto de as pessoas simplesmente não se importarem se tais coisas são verdadeiras.

Mas como, então, entender essas atitudes cognitivas que pouca relação têm com a verdade? Vale a pena ainda denominá-las de crenças? Hannon e de Ridder propõe que há ao menos três tipos alternativos de atitudes doxásticas que nos ajudam a compreender o comportamento cognitivo político:

  1. Crenças políticas como crenças socialmente adaptativas;
  2. “Crenças” políticas como comportamento expressivo;
  3. Crenças políticas como crenças “meio termo” ou aceitações.
 

Vamos agora explicar brevemente cada uma dessas atitudes cognitivas.

No primeiro caso, os agentes realmente creem nos objetos de suas crenças políticas, mas creem por objetivos deliberadamente não epistêmicos. Especificamente, essas crenças funcionam para fortalecer laços coletivos, pertencimento de grupo e manutenção de câmaras de eco. Imagine alguém que acredita que as eleições de 2022 foram fraudadas e que as urnas eletrônicas foram controladas para gerar certos resultados. Talvez tal crença não seja um erro do funcionamento cognitivo; seja, em vez disso, o sistema cognitivo de crenças socialmente adaptativas funcionando para o seu objetivo específico: fortalecer a identidade de certos grupos ideológicos.

Tais crenças são muito difíceis de serem corrigidas ou alteradas, mesmo em face de contraevidência, exatamente porque tais crenças não são guiadas por uma preocupação com a verdade.

No segundo caso, o termo crença aparece entre aspas porque os indivíduos que as possuem não creem realmente em tais coisas. Tais crenças são formas de responder expressivamente ou simplesmente agir como torcedor (cheerleading). Como Hannon e de Ridder apontam, essa atitude cognitiva ajuda a explicar o fato de, no domínio político, muitas pessoas afirmarem coisas absurdas que, se pressionadas em locais privados, provavelmente não sustentariam. É que tal “crença” é publicamente afirmada para cumprir um papel social, mas não refletem crenças reais dos indivíduos.

Quando um partidário diz publicamente que tal candidato é ilibado ou incorruptível, talvez ele saiba que isso não é verdade. Mas não importa: ele está sustentando tal crença como uma performance para promover seu candidato ou sua ideologia. Isso mostra que, muitas vezes, as pessoas não vivem em “realidades paralelas”, visto que, no fundo, não acreditam em coisas contrastantes; antes, vivem de performances antagônicas.  (Preocupo-me, entretanto, com o fato de algumas pessoas realmente acreditarem nas maiores barbaridades e, por isso, estarmos habitando mundos paralelos.)

Isso mostra que, muitas vezes, as pessoas não vivem em “realidades paralelas”, visto que, no fundo, não acreditam em coisas contrastantes; antes, vivem de performances antagônicas.

Por fim, Hannon e de Ridder propõe uma terceira atitude cognitiva, que funciona como um meio termo entre as duas anteriores: ela não é uma crença completa e total como a primeira, mas também não é simplesmente uma performance, como a segunda. Citando Eric Schwitzgebel , eles afirmam:

Votantes escolhem partidos políticos, em primeiro lugar, para alinhar-se com a coalizão apropriada de seu grupo social. A maioria dos cidadãos apoia um partido não porque eles cuidadosamente avaliaram suas posições políticas e concluíram que se alinham com as suas, mas simplesmente porque o “seu tipo” de pessoa pertence a aquele partido.⁵

Tal crença “meio termo” não guia e regula o comportamento de modo tão direto quanto uma crença completa. Mas, por outro lado, também não são “crenças” que meramente expressam uma atitude. São crenças expressas sinceramente, mas com certo grau (interno, ao menos) de hesitação.

Um exemplo seria uma pessoa que diz não ser racista, mas seu comportamento transmite um senso de superioridade em relação a pessoas negras. Um outro exemplo seria de um progressista que afirma ser contra injustiça social, mas não remunera bem os servidores domésticos que limpam seu banheiro. Tais crenças “meio termo” estão mais presentes em nossos sistemas cognitivos do que gostaríamos de admitir.

Conclusão: como lidar com a complexidade das crenças políticas?

Essa é uma das questões mais importantes e desafiadoras de nosso tempo, e não tenho pretensão de respondê-la aqui. Espero que esta coluna tenha sido bem-sucedida em informar aos leitores sobre a relação conturbada entre crenças políticas e a verdade, e que tenha apresentado um modelo analítico simples e elegante (proposto por Hannon e de Ridder) de três atitudes cognitivas, semelhantes a crenças, que adotamos com bastante frequência no tocante a assuntos políticos. Gostaria, por fim, de propor algumas reflexões para que guiemos nosso pensamento e nossas conversas sobre esse assunto.

Em primeiro lugar, lembre-se de que, no início desta coluna, elenquei três tipos de objetos de crença política (enumerei com “a”, “b” e “c”). O terceiro tipo são c) temas que não são per se políticos, mas que se tornaram politicamente carregados, como a questão das vacinas e da crise climática. Com relação a estes, precisamos de uma profunda e corajosa busca pela verdade, doa a quem doer. Isso significa não arredar o pé contra o crescente negacionismo e continuar insistindo que nossas fontes informativas sobre tais assuntos são os centros científicos bem-estabelecidos, e não partidos políticos, deputados, youtubers ou influencers (mesmo que sejam, individualmente, cientistas. Charlatões proliferam; nossa deferência não deve ser nunca a indivíduos cientistas, mas às comunidades científicas mais bem credenciadas).

Em segundo lugar, precisamos ter coragem de exercitar a autocrítica e autorreflexão. É sempre mais fácil e natural achar que as crenças “do outro” é que são expressivistas ou socialmente adaptativas, e as minhas são racionais e equilibradas. Entretanto, precisamos ter uma capacidade ampliada de escutar, duvidar de algumas de nossas certezas e buscar a melhor evidência, mesmo que contradiga nossas predileções.

Por fim, reforço o quanto nossas crenças políticas estão associadas aos grupos aos quais pertencemos. Tais grupos podem ser formais, como clubes, grupos de amigos, grupos de WhatsApp, mas também podem ser grupos mais informais e fluidos, como as bolhas que automaticamente são geradas por nosso comportamento on-line. Nossa lealdade aos nossos grupos exerce um poder muito – MUITO – maior em nossas operações cognitivas do que temos coragem de encarar. Por esse motivo, cultivar a capacidade de habitar grupos heterogêneos, ou ao menos uma escuta ativa e generosa às vozes divergentes, talvez seja uma das virtudes mais urgentes para nossa crise epistemológica e política contemporânea.

 

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

1. Charles G. Lord, Lee Ross, Mark Lepper, “Biased Assimilation and Attitude Polarization: The Effects of Prior Theories on Subsequently Considered Evidence”, Journal of Personality and Social Psychology, v. 37, n. 11, 1979.

2. Michael Huemer, “Why People Are Irrational about Politics”, In Philosophy, Politics, and Economics: An Anthology, 2016

3. Michael Hannon and Jeroen de Ridder, “The Point of Political Belief”, in The Routledge Handbook to Political Epistemology, 2021.

4. Hannon and de Ridder, 2021, p. 158.

5. Eric Schwitzgebel, “Acting Contrary to Our Professed Beliefs or the Gulf between Occurrent Judgment and Dispositional Belief”, Pacific Philosophical Quarterly, v. 91, n. 4, 2010, p. 307.

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