Durante grande parte da história ocidental, especialmente até o início da modernidade, a compreensão da realidade esteve profundamente ancorada em uma leitura teológica do mundo, na qual a criação era interpretada à luz das Escrituras e da ação direta de Deus.1 Esse cenário começa a se reconfigurar a partir dos séculos 17 e 18, com o desenvolvimento da ciência moderna e o avanço das investigações conduzidas por pensadores como Galileu Galilei, Isaac Newton e Pierre-Simon Laplace. Nesse novo âmbito intelectual, os fenômenos naturais passam a ser descritos com base em regularidades e leis, favorecendo uma compreensão progressivamente autônoma da natureza. Como consequência, a referência a Deus deixa de ocupar um papel explicativo central nos discursos sobre o funcionamento do mundo. Esse pensamento atinge um ponto particularmente sensível no século 19, quando Charles Darwin formula a teoria da evolução, que descreve a modificação dos seres vivos ao longo do tempo pelos processos de seleção natural, considerando a hereditariedade e a ancestralidade comum. Dessa forma, a ciência introduziu um modelo explicativo para a diversidade da vida e, mais amplamente, para a compreensão do mundo fundamentado em processos naturais. Para Austin Farrer, isso consolida o que ele chama de “perspectiva desenvolvimentista” como modelo explicativo predominante.2 Diante desse cenário, coloca-se a seguinte questão: a crescente explicação científica dos processos naturais elimina a visão da ação divina contínua?
Deus ainda age no mundo ou apenas deu início a ele?
A expressão “criação contínua”, derivada do latim creatio continua, refere-se à compreensão teológica segundo a qual a ação criadora de Deus não se restringe ao momento inicial do universo, mas se estende à sua sustentação permanente. O Papa Francisco, em sua carta encíclica Laudato Si’, reafirma esse conceito da tradição cristã no parágrafo 80, ao dizer que a “presença divina, que garante a permanência e o desenvolvimento de cada ser, é a continuação da ação criadora”.3 Dessa forma, a doutrina da criação pode ser compreendida em dois sentidos: (1) como a origem de todas as coisas (creatio ex nihilo – “criação a partir do nada”); e (2) como a dependência contínua de todas as coisas em relação à ação de Deus para sua existência (creatio continua).
Nesse contexto, deísmo e teísmo emergem como lados opostos dessa tensão. O deísmo é uma corrente apoiada na razão e na observação da natureza que concebe Deus como o autor inicial da criação e da ordem do universo, mas não como agente atuante em seu curso.4 Nessa perspectiva, frequentemente ilustrada pela metáfora do “relojoeiro”, o mundo é entendido como um sistema autossuficiente, cujos mecanismos, uma vez estabelecidos, operam de forma independente. Deus, nesse modelo, assume o papel de um arquiteto que, após concluir sua obra, não mais intervém em seu funcionamento.
Em contraste, a tradição teísta sustenta que Deus permanece ativamente e pessoalmente envolvido com a criação, não apenas como sua causa originária, mas como aquele que continuamente a sustenta e governa. É nesse horizonte que a doutrina da criação, especialmente em suas formulações clássicas, oferece categorias mais adequadas para pensar a relação entre Deus e os processos naturais.
A compreensão da origem não se limita à afirmação de um início absoluto do universo, mas abrange também a compreensão de que toda a realidade permanece, a cada instante, dependente da ação sustentadora de Deus. Conforme argumenta Mark Harris, a creatio ex nihilo não apenas descreve o modo pelo qual todas as coisas vieram à existência, mas também ilumina a forma pela qual continuam a existir.5 Se Deus é o criador, Ele não depende do mundo nem se confunde com ele; ao contrário, é o mundo que foi criado a partir da obra de Deus, e “é necessariamente dependente de Deus para sua existência”.6 Nesse sentido, a ação criadora divina não se esgota no momento inicial da criação, mas se expressa continuamente como fundamento do ser. Deus, portanto, não é apenas a causa do começo, mas a causa do próprio existir. A criação não possui em si mesma o fundamento de sua existência, mas depende, a cada instante, da ação criadora de Deus. Tudo o que existe só permanece existindo porque é continuamente sustentado pelo Criador.7
A compreensão da origem não se limita à afirmação de um início absoluto do universo, mas abrange também a compreensão de que toda a realidade permanece, a cada instante, dependente da ação sustentadora de Deus.
Ted Peters considera a criação tanto como um evento quanto como um processo. No primeiro caso, tudo que foi criado no início segue em direção ao que já foi estabelecido; no segundo, há um futuro em aberto que pode ser moldado pela própria criação.8 Essa perspectiva encontra respaldo na distinção clássica, formulada por Tomás de Aquino, entre causa primária e causas secundárias.9 Deus, como causa primária, sustenta o ser de todas as coisas, enquanto os processos naturais operam como causas secundárias, segundo suas próprias regularidades. John Gresham Machen também esclareceu essa relação entre causas primárias e secundárias, quando afirmou: “Deus utiliza causas secundárias para realizar o que está de acordo com o Seu propósito eterno. As causas secundárias não são forças independentes de cuja cooperação Ele necessite; mas sim meios que Ele emprega exatamente como deseja”.10
Longe de competir com a ordem natural, a ação divina nela se realiza, ao mesmo tempo em que a fundamenta. Assim, as leis da natureza não constituem um sistema autônomo, mas expressam a dependência contínua da criação em relação ao Criador.11
Nesse ponto, a biologia contemporânea oferece elementos particularmente sugestivos para essa reflexão. A vida, em nível celular e sistêmico, não se apresenta como uma realidade estática, mas como um processo continuamente sustentado por redes complexas de regulação e interação (como o metabolismo, a sinalização celular, a expressão gênica). Mesmo estruturas aparentemente estáveis resultam de processos contínuos de renovação, degradação e reorganização. A manutenção da vida exige uma complexa rede de interações que operam continuamente para preservar sua integridade. Esse fato reforça a compreensão de que a existência não é autossuficiente, mas sustentada por processos que, embora descritos cientificamente, permanecem dependentes de um fundamento mais profundo e podem ser interpretados, teologicamente, como expressões da creatio continua, isto é, da ação sustentadora de Deus que fundamenta, a cada instante, a existência da realidade.12 Nessa perspectiva, James P. Mackey diz que a “evolução é apenas um nome para criação contínua”.13
Mesmo estruturas aparentemente estáveis resultam de processos contínuos de renovação, degradação e reorganização. A manutenção da vida exige uma complexa rede de interações que operam continuamente para preservar sua integridade.
A teoria da evolução, associada ao trabalho de Charles Darwin, passou a oferecer uma explicação robusta para a diversidade e complexidade da vida a partir de processos naturais, como a seleção natural. Como observa Carl Sagan, trata-se de um modelo no qual a ordem pode emergir progressivamente a partir de condições mais simples, sem a necessidade de recorrer a intervenções externas pontuais.14 Em muitos contextos, essa leitura foi interpretada como evidência de que a hipótese de uma ação divina se tornaria dispensável para explicar a origem e o desenvolvimento da vida.
Entretanto, essa conclusão depende de uma compreensão restrita tanto da ciência quanto da teologia. Ainda que a evolução descreva de modo consistente os mecanismos pelos quais formas de vida se diversificam e se organizam, ela não esgota questões relativas à origem do ser, da consciência e da dimensão pessoal da existência humana. A passagem de estruturas biológicas complexas para a experiência subjetiva, autoconsciente e intencional constitui um dos casos mais fortes contra o reducionismo fisicalista. Em outras palavras, a descrição dos processos naturais não necessariamente elimina a necessidade de uma fundamentação mais profunda para aquilo que caracteriza a singularidade da pessoa humana. Como argumenta Francis A. Schaeffer,
Em qualquer grau e em qualquer lugar em qualquer período da história, a resposta impessoal não explica estes dois fatores básicos: (1) o universo tem uma forma e (2) a humanidade do homem.15
Ao estender essa reflexão para a origem da vida e da consciência, surgem duas (entre outras) possibilidades distintas: (1) a de uma força impessoal, como o élan vital proposto por Henri Bergson, entendida como um ímpeto criativo que impulsiona o desenvolvimento da vida; e (2) o sopro divino da existência, que representa o entendimento teológico da dependência da criação em relação ao Criador. C. S. Lewis argumenta primeiramente que não faz sentido atribuir intencionalidade ou finalidade a algo impessoal. Por outro lado, se essa “força vital” for entendida como possuindo intelecto e propósito, ela se aproxima da própria ideia de Deus.16
A emergência da consciência e da capacidade reflexiva não se deixa reduzir facilmente a descrições puramente funcionais ou adaptativas, ou “racionalistas e rasas”.17 Ainda que tais características possam ser analisadas em termos evolutivos, permanece a questão sobre como processos descritos em termos impessoais poderiam dar origem à experiência subjetiva e à intencionalidade que marcam a existência humana. Essa tensão indica que a explicação científica, embora necessária, não é suficiente para englobar toda a profundidade do fenômeno humano, abrindo espaço para uma interpretação que considere também suas dimensões ontológica e teológica.
Nesse sentido, a doutrina da creatio continua permite interpretar os processos naturais, inclusive aqueles descritos pela biologia evolutiva, não como alternativas à ação divina, mas como os meios ordinários pelos quais a criação é sustentada e conduzida.18
A doutrina da creatio continua permite interpretar os processos naturais, inclusive aqueles descritos pela biologia evolutiva, não como alternativas à ação divina, mas como os meios ordinários pelos quais a criação é sustentada e conduzida.
A creatio continua como chave para o “salto conjunto” entre ciência e teologia
À luz do que foi desenvolvido, o diálogo entre teologia e ciência não deve ser compreendido como uma tentativa de fusão ou redução mútua, mas como uma relação de proximidade ordenada, na qual diferentes formas de conhecimento se articulam sem perder sua integridade própria. Como mencionado pelo teólogo Guilherme de Carvalho:
A palavra de Deus e as teorias científicas modernas deveriam ser tratadas como trilhos: próximos o suficiente para que o trem da existência passe sobre elas, mas não tão próximas ou tão distantes que o trem descarrilhe.19
Essa imagem permite compreender que o conhecimento científico e a reflexão teológica, embora distintos em método e escopo, podem convergir na interpretação da realidade.
Os avanços científicos contemporâneos também podem ser compreendidos como ocasiões que ampliam a percepção humana da criação. A recente missão espacial Artemis II da NASA, ao oferecer novas imagens e perspectivas do universo, não apenas expandem o conhecimento cosmológico, mas também intensificam a experiência de contemplação da ordem criada. A tradição bíblica já expressava que “desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas” (Romanos 1.20, NVI).
A investigação científica, longe de obscurecer essa percepção, pode aprofundá-la, ao tornar visíveis aspectos da realidade antes inacessíveis à experiência humana. Como afirma Abraham Kuyper, a ciência não se opõe à fé, mas são “dois meios pelos quais conhecemos a Deus, a saber, as Escrituras e a natureza”.20
A noção de “salto conjunto”, inspirada no conceito de “consiliência” proposto por William Whewell, oferece uma chave para pensar essa relação. Não se trata de forçar uma unificação artificial entre ciência e religião, mas de reconhecer que diferentes campos do saber podem, a partir de suas próprias abordagens, convergir para uma compreensão mais ampla e coerente do real. Corroborando essa ideia, Mary Midgley diz que “Diferentes mapas fornecem informações diferentes sobre a mesma realidade”.21 Sendo assim, a investigação científica, ao descrever com crescente precisão os processos naturais, não esgota o significado da realidade, mas pode aprofundar a percepção de sua inteligibilidade e complexidade, abrindo espaço para sua interpretação teológica.
Desse modo, a doutrina da creatio continua se apresenta como um ponto de articulação particularmente relevante nesse diálogo. Ao afirmar que a criação é continuamente sustentada por Deus, ela permite compreender os processos naturais e a origem da consciência não como instâncias autônomas ou concorrentes à ação divina, mas como expressões ordinárias dessa ação no mundo. A ciência, nesse cenário, não deve se opor à fé, mas pode contribuir para ampliar a compreensão da profundidade e da coerência da criação. Assim, o conhecimento do funcionamento do mundo em seus níveis mais específicos pode tornar-se não um obstáculo, mas um meio pelo qual se reconhece, com maior clareza, a dependência contínua da realidade em relação ao seu Criador.
