Psicologia e fé cristã no Brasil (2/6)

“Silenciamento” e “lugar de fala”

Neemyas Kerr Batalha Dos Santos|

30/03/2026

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Neemyas Kerr Batalha Dos Santos

Neemyas é graduado em psicologia pela UFPI, mestre pela UFMA e doutorando na Universidade Federal do Paraná. Trabalha como servidor público, atuando como psicólogo da Diretoria de Acessibilidade da Universidade Federal do Maranhão. Atualmente, coordena o grupo temático ABC² Psicologia.

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Como citar

Santos, Neemyas Kerr Batalha dos. Psicologia e fé cristã no Brasil (2/6): “Silenciamento” e “lugar de fala” . Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 7, jan-jun, 2026.

“Aquilo de que o sujeito não pode falar, ele o grita por todos os poros do seu ser”1

Jacques Lacan

Falar é uma necessidade humana. Quem não fala com a língua, “fala” com as mãos e, no fim, todos nós falamos com o corpo, porque a “fala é o excesso de nossa existência por sobre o ser natural”.2 Não é por acaso que, no relato do Gênesis, é por meio da fala que Deus traz as coisas à existência. Em outras palavras, existe uma conexão muito profunda entre a fala como expressão e a nossa própria existência, por isso que uma das piores coisas que se pode fazer a uma pessoa é mandá-la calar a boca.

Talvez o exemplo não seja dos melhores, mas isso me faz lembrar do meme que nasceu em um debate entre os candidatos ao governo do Piauí, no ano de 2022 – você deve se lembrar disso. Depois de ter sido interrompida pelo mediador, que, por ironia do destino, buscava apenas preservar-lhe o tempo e o direito de fala, a então deputada Maria de Lourdes Soares Melo reagiu: “Ah, você quer me calar?”. É como se a negação ao direito de fala fosse uma negação à própria existência.

Esse parece ser o caso quando observamos alguns meandros da relação entre psicologia e religião no período moderno. De certo modo, a religião se tornou para a psicologia o que o teólogo Hans Küng3 descreveu como tabu, isto é, algo sobre o qual não se pode falar abertamente. Em sentido similar, Viktor Frankl,4 o criador da logoterapia, notou que seus pacientes tinham receio de compartilhar com seus terapeutas questões referentes à religiosidade e espiritualidade pessoal. Mas o que estaria produzindo esse sentimento de vergonha?

Para Frankl,5 o motivo do pudor estaria relacionado ao fato de que, para as pessoas, o tema da religiosidade é algo íntimo e sensível. Contudo, o que também poderia estar em jogo na visão desse autor era a negligência dos psicoterapeutas quando o assunto envolve reconhecer a espiritualidade enquanto algo inerente à vida psíquica de seus pacientes.

Por alguma razão, parte dessa negligência parece ser aprendida em um contexto de silenciamento da religiosidade e espiritualidade dos próprios psicólogos e psiquiatras ao longo da formação. Neste segundo artigo de nossa série sobre psicologia e fé cristã no Brasil, o principal objetivo é refletirmos sobre os impactos desse silenciamento, especialmente no que diz respeito ao modo como cristãos na psicologia têm se comunicado no contexto brasileiro. Precisamos refletir sobre como e onde temos nos comunicado e sobre como esses estilos e espaços de comunicação podem estar contribuindo positiva e negativamente para o diálogo.

O problema do “silenciamento”

Existe uma canção muito emblemática no Brasil que diz o seguinte: “Como é difícil acordar calado”.6 Como cristão e psicólogo, senti várias vezes que estavam tentando me calar. Quer dizer, pensando melhor, pior do que te mandarem calar a boca é não te darem a chance de começar a falar. “Só nos calamos quando podemos falar”,7 e algumas vezes eu sequer abri o bico. Nesse sentido, julgo mais apropriada a expressão de “silenciamento”,8 termo comumente empregado pela professora Marta Helena de Freitas, importante pesquisadora em psicologia da religião no Brasil e atual presidente da International Association for the Psychology of Religion (IAPR). No entendimento de Freitas, esse silenciamento tem sido “experimentado por gerações sucessivas de psicólogos formados a partir de meados do século 19 até às últimas décadas do século 20”.9

Ou seja, o problema é e não é tão recente, mas já tivemos tempo suficiente para que esse “cálice” esteja sendo servido na prática clínica aqui no Brasil. Considere, por exemplo, o fato de que, entre os profissionais da saúde, os psicólogos se destacam em negligenciar questões religiosas,10 mesmo quando estas são reconhecidas como recursos de coping11 na psicoterapia.12 Como resultado de um efeito em cadeia, evitar temas religiosos na prática clínica pode, na realidade, refletir não apenas a ausência de treinamento,13 mas também uma visão negativa sobre a religião,14 cultivada em meio a uma formação marcada por “conflitos” e “ausência de abertura” de professores e colegas.15

[…] evitar temas religiosos na prática clínica pode, na realidade, refletir não apenas a ausência de treinamento, mas também uma visão negativa sobre a religião, cultivada em meio a uma formação marcada por “conflitos” e “ausência de abertura” de professores e colegas.

Sem tirar nem pôr, qualquer cristão psicólogo ou estudante de psicologia concordaria que a noção de “silenciamento” também se aplicaria a alguns contextos teológicos e eclesiásticos. Em outras palavras, irônica, mas não surpreendentemente, a “ausência de abertura” identificada na academia também pode ser comumente encontrada em tradições e comunidades cristãs cujo solo é impermeável ao diálogo com a psicologia (e, às vezes, com a ciência de modo geral). A diferença é que, infelizmente, ainda não temos evidências desse fenômeno registradas na literatura a nível nacional.

Retorno do recalcado

Penso que o “silenciamento” é uma das principais razões para que cristãos na psicologia comecem muito cedo a desenvolver um tipo de apologética quase ostensiva de sua posição, não apenas diante de seus pares, mas também com alguns irmãos na fé. Tanto para estes quanto para aqueles, queremos dizer: “ter cristãos engajados na psicologia é não apenas legítimo, mas também uma necessidade real e urgente”, ou, ainda, “sim, é possível desenvolver e operar uma psicologia de forma ética e, ao mesmo tempo, comprometida com uma visão de mundo cristã”. Motivados pela indignação que nasce do “silenciamento”, cada vez mais pessoas têm se proposto a falar sobre psicologia e fé cristã. De fato, indignar-se pode ser, em muitos casos, não apenas algo justo e necessário, como também um bom começo para mudar a realidade. No entanto, é preciso lembrar que, apesar de muitas vezes nos tirar da zona de conforto, a indignação não pode ou, pelo menos, não deveria ser o guia ou liturgia16 do nosso coração. Mais do que isso, faz-se necessário verificar se o que está sendo dito pelos nossos corações indignados, está sendo, ou não, devidamente compreendido.

Bem, Deus sabe que eu não sou nenhum psicanalista, mas a fala de muitos “psicólogos cristãos” (no sentido pejorativo que infelizmente se costuma dar a esse termo) não tem demonstrado ser qualquer outra coisa senão um mero “retorno do que fora recalcado”17 pelo “silenciamento” da psicologia brasileira.18 Dito de outra forma, pode ser que, no anseio por se fazer ouvir, alguns de nós estejam se permitindo distorcer o discurso sobre integração até o ponto de ele ser visto e ouvido como mero sintoma, ato falho ou chiste.19 Ou seja, uma piada de mau gosto e, em alguns casos, ofensiva. Quer um exemplo? A “cura gay” – circunstância em que, no Brasil, o significado de uma “psicologia cristã”20 foi de tal maneira assimilado ao significante de “conversão sexual” que, hoje, são lamentavelmente expressões empregadas como gêmeas.

[…] pode ser que, no anseio por se fazer ouvir, alguns de nós estejam se permitindo distorcer o discurso sobre integração até o ponto de ele ser visto e ouvido como mero sintoma, ato falho ou chiste.

Se “aquilo de que o sujeito não pode falar, ele o grita por todos os poros do seu ser”,21 é razoável que se questione o que está sendo compreendido pelo outro. A pergunta aqui se aplica a nós: estamos sendo compreendidos? Às vezes tenho a sensação de que, para todos os efeitos, não somos sequer ouvidos (e, quem sabe, também não estejamos ouvindo). Quer dizer, uma rápida busca na internet vai nos trazer uma grande quantidade de vídeos e postsfalando” sobre psicologia e fé cristã (e é possível que você encontre algo escrito por mim também), e, no entanto, o cenário parece piorar proporcionalmente, não em todos, mas em muitos aspectos. É como se estivéssemos jogando lenha na fogueira. Mas calma! É claro que existem muitos pontos positivos em toda essa produção de conteúdos sobre psicologia, espiritualidade e saúde mental a partir de uma perspectiva cristã.

Uma evidência de que devemos olhar para esse “movimento”, enxergando-o pelo lado do copo cheio, é que, com a disseminação desses conteúdos, muitos discípulos de Jesus puderam finalmente encontrar uma abordagem integral mais respeitosa para o cuidado da alma, algo que, como mencionado há pouco, até então tem sido ignorado por muitos psicólogos não cristãos. Essa é uma razão mais que suficiente para entendermos que “falar” sobre psicologia e fé cristã é uma tarefa importante e necessária. Contudo, ela definitivamente não tem sido, não é e continuará não sendo suficiente se o que nós estamos buscando é um cenário mais aberto e menos persecutório para cristãos na psicologia do Brasil.

“Lugar de fala” como nicho de mercado

Reagir ou ter um posicionamento acerca do que é dito contra cristãos na psicologia é algo importante, mas isso não é, ou pelo menos não deveria ser, um fim em si mesmo. Mais do que “falar” sobre psicologia e fé cristã, o que nós realmente precisamos é “conversar” sobre psicologia e fé cristã. A diferença pode parecer sutil, mas ela é determinante na medida em que nem sempre dependo do outro para “falar”, mas, se o que quero é “conversar”, eu dependo, necessariamente, do outro. Como veremos adiante, em certa medida, nós precisamos buscar aqueles que ainda não estão prontos para conversar, começando por nós mesmos, é claro.

Note que, entre os prejuízos da cultura do “silenciamento”, o mais nocivo de todos tem sido a substituição de uma busca pelo diálogo por uma busca pelo “lugar de fala” (no sentido pejorativo em que comumente se emprega esse conceito). É como se a nossa “luta por reconhecimento”22 se corrompesse em um tipo de “racionalidade instrumental”, em detrimento de uma “razão comunicativa”.23 Em outras palavras, grande parte dos nossos discursos têm enfatizado a defesa da autoexpressão e do nicho de mercado, em detrimento de um agir comunicativo, o qual tem por interesse a busca pela compreensão mútua.

[…] entre os prejuízos da cultura do “silenciamento”, o mais nocivo de todos tem sido a substituição de uma busca pelo diálogo por uma busca pelo “lugar de fala”.

Acredito que as redes sociais desempenham um papel importante nesse ponto: por meio delas, nós falamos para o nosso público e demarcamos nossos posicionamentos, mas dialogar (com quem está fora da bolha) é a exceção, e não a regra. Na realidade, elas se tornaram nosso principal meio de comunicação sobre psicologia e fé cristã, na medida em que conseguem canalizar a nossa fala outrora reprimida em contextos institucionais da academia, da profissão e de algumas igrejas.

Entretanto, apesar de terem viabilizado a democratização do conhecimento psicológico entre cristãos e concedido a oportunidade de falarmos abertamente sobre aquilo em que acreditamos, sinto que, na maior parte do tempo, os nossos discursos estão apenas “marinando” em nichos virtuais de mercado ou em “bolhas de filtro”.24

A princípio, não existe nada intrinsecamente errado em construir ou nutrir nichos de mercado, mas é preciso cuidado para não confundir os interesses envolvidos nesse tipo de engajamento. As redes sociais podem viabilizar o encontro entre cristãos em busca de tratamento psicológico e profissionais que compartilhem da mesma fé, e isso é perfeitamente legítimo. Contudo, o compromisso com o diálogo e a integração vai além dos interesses e das necessidades imediatas do profissional, de sorte que, nesse processo, meios e fins não devem ser invertidos.

Barulho no “enxame”

Talvez esse seja o momento de avaliarmos em que medida as tendências e o ambiente das redes sociais podem estar moldando a maneira como temos respondido ao “silenciamento”. Sem nos darmos conta, podemos estar nos habituando ao paradigma dos “reacts”25 em detrimento do compromisso de conversas face a face. Essa tendência corresponde ao que o filósofo Byung-Chul Han (2018) descreveu como “enxame” ao analisar o comportamento “homo digitalis” nas redes sociais. Nas palavras de Han, “os indivíduos que se juntam em um enxame não desenvolvem nenhum Nós. […] O enxame digital, diferentemente da massa, não é em si mesmo coerente. Ele não se externa como uma voz […]. Por isso ele é percebido como barulho”.26 Nesse sentido, se  pararmos para observar bem, tanto o “silenciamento” quanto o barulho dos “enxames”27 compartilham uma característica em comum: a impossibilidade do diálogo.

Isso acontece porque as redes sociais produzem aglomerados de indivíduos sem que haja a necessidade de formação de coletivos e comunidades.28 Consequentemente, um dos principais perigos de se abordar o debate entre psicologia e religião de modo circunscrito ao ambiente digital é o risco de que a interlocução se restrinja a “câmaras de eco”.29 Assim como os enxames, as “câmaras de eco” podem nos dar a ilusão de uma comunicação verdadeira, sem a exigência de um compromisso na busca pelo diálogo. Esse tipo de ilusão nos compele a “falar” sem a necessidade de dialogar. Em resumo, estamos em busca de um “lugar de fala” em detrimento de um lugar para conversar.

Esse tipo de ilusão nos compele a “falar” sem a necessidade de dialogar. Em resumo, estamos em busca de um “lugar de fala” em detrimento de um lugar para conversar.

A essa altura do campeonato, você deve estar pensando: “Okay, Okay… acho que já entendi o suficiente. A busca por um “lugar de fala” como um fim em si mesmo é algo insuficiente para mudarmos o cenário atual. Mas e agora? Quais são os próximos passos?”. Bem, eu olharia para você com o mesmo olhar do Tio Nilson30 e diria: “que tal começar a ajuntar esterco?”.  Apesar de inglório, esse convite envolve um tipo de engajamento inevitável para cristãos na psicologia. Agora, entender como isso se traduz na prática é um assunto para os próximos artigos desta série, nos quais lançaremos mão de três princípios ou etapas para a construção de um solo propício ao diálogo: mapear, arar e fertilizar o terreno.

Referências

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1. Excerto de Jacques Lacan (1998) em seus “Escritos” (1954) acerca do retorno do real no simbólico, por meio do sintoma.

2. Merleau-Ponty, 2011, p. 267.

3. Algo sugerido por Küng (1990), em seu livro Freud and the Problem of God.

4. Frankl (2017) faz essa observação no livro A presença ignorada de Deus.  

5. Ibidem.

6.Cálice” (1978), composta por Chico Buarque e Milton Nascimento. Durante os tempos de ditadura no Brasil, a música era uma das principais formas de burlar a cultura de silenciamento.

7. Merleau-Ponty, 2011, p. 223.

8. A expressão parece ser empregada pela primeira vez em Freitas (2007), mas também tem sido, até o presente momento, usada por outros autores como Matos (2024) ou Junior e Costa (2024) a fim de descrever o mesmo fenômeno.

9. Freitas, 2017, p. 95.

10. Oliveira et al., 2019.

11. A noção de coping espiritual/religioso pode ser traduzido como o uso positivo ou negativo que se pode fazer de crenças, práticas ou de qualquer recurso da fé, religiosidade ou espiritualidade com o intuito de enfrentar situações desafiadoras, estressoras ou que provocam sofrimento. O pesquisador Kenneth Pargament (2001) tem sido uma das principais referências do assunto no campo da psicologia da religião.

12. Brito, Seidl e Costa-Neto, 2016.

13. Em Costa, Nogueira e Freire (2010), mas também em Piasson (2017).

14. Brito, Seidl e Costa-Neto, 2016.

15. Realidade identificada por diversos autores como Cunha, Scorsolini-Comin (2019); Egg-Serra e Holanda (2022); Matos (2024) e, também, Pereira e Holanda (2019).

16. A noção de “liturgia da indignação”, empregada por Paulo Won, é bastante semelhante à ideia de “reatividade tóxica” usada por Paul Tripp (2022) e reflete discussões desenvolvidas por Samuel D. James em seu livro “Digital Liturgies: Rediscovering Christian Wisdom in an Online Age”.

17. Freud, 2010.

18. Valeria muito a pena investigar este cenário de repressão da espiritualidade no contexto da psicologia brasileira a partir da noção de “presença ignorada de Deus” ou, mais precisamente, de um Deus que se tornou inconsciente (“unbewußte Gott”), a partir do pensamento de Viktor Frankl (2020). O sentido do “ignorado” para Frankl (2020, p. 58) é o de que, “às vezes, Deus permanece inconsciente para nós, que nossa relação com ele pode ser inconsciente, ou reprimida, e, assim, oculta para nós mesmos” (grifo nosso). Ainda segundo Frankl (2020, p. 66), “quando a fé atrofia, parece que ela se distorce, desfigura. Com efeito, não constatamos também no âmbito cultural, isto é, não somente numa escala individual, mas também social, que a fé reprimida degenera em superstição? E isso parece acontecer onde quer que o sentimento religioso se torne vítima de uma repressão por parte da razão despótica, de uma inteligência técnica” (grifo nosso). 

19. Freud, 2014.

20. Para uma introdução e aprofundamento à verdadeira noção de “psicologia cristã” (Christian Psychology), vale a pena conferir autores como Robert C. Roberts (1997; 2012); Paul J. Watson (2011) e, em especial, Eric L. Johnson (2007; 2010).

21. Excerto de Jacques Lacan (1998) em seus “Escritos” (1954) acerca do retorno do real no simbólico, por meio do sintoma.

22. Conceito desenvolvido por Axel Honneth, filósofo e sociólogo ligado à chamada Escola de Frankfurt. A ideia de “luta por conhecimento” foi utilizada por Honneth (2003) para descrever o modo com o qual os indivíduos tentam se inserir e se tornar participantes nas sociedades modernas.

23. A noção de “razão comunicativa” foi proposta pelo filósofo e sociólogo Jürgen Habermas, pensador contemporâneo que, assim como Honneth, era ligado à Escola de Frankfurt. Para Habermas (2012), alguns dos conflitos enfrentados pelas sociedades modernas decorrem da predominância de uma “razão instrumental” (isto é, focada mera e utilitariamente na utilização de meios para um determinado fim produtivista), em detrimento de uma “razão comunicativa”(orientada para o diálogo e a compreensão dos indivíduos entre si).

24. Pariser, 2011.

25.Reacts” são, geralmente, vídeos nos quais criadores de conteúdo comentam, ponto a ponto, algum material produzido por outros produtores de conteúdo ou assuntos em geral. Apesar de serem boas estratégias para emitir a opinião de alguém sobre um tema em emergência, não oferecem meios para uma comunicação direta, frequentemente apenas “atiçando” respostas emocionais no espectador. O pastor e escritor Paul Tripp, em seu livro Reactivity: How the Gospel Transforms Our Actions and Reactions (2022), conceitua essa tendência como cultura de reatividade.

26. Han, 2018, p. 16.

27. Uma vez que o enxame envolve um ambiente de cultivo de individualidades, conforme sugerido por Melo (2020).

28. Han, 2018.

29. A metáfora das “Câmaras de Eco” foi utilizada pelo advogado Cass R. Sunstein (2007) para descrever a maneira como as pessoas se organizam na internet em “territórios” fechados, nos quais suas visões de mundo e os compromissos ideológicos são constantemente reafirmados. Para Löblich e Venema (2021), ao serem capturadas pelas “câmaras de eco”, as pessoas desenvolvem uma comunicação fragmentada, na medida em que a esfera pública comum se esfacela, criando, assim, o que Marcelo Cabral (2024) descreveu como “comunidades corrompidas”. Isso não significa, no entanto, que o diálogo seja impossível nas redes sociais, mas que talvez elas não sejam originalmente pensadas e estruturadas com esse fim, o que exigiria de nós esforços e estratégias ainda mais adequadas para preparar um lugar para conversar sobre psicologia e fé cristã em espaços como o Instagram, por exemplo.

30. Referência à história contada no primeiro artigo desta série: “Psicologia e fé cristã no Brasil: existe um lugar para conversar?”. Para melhor compreensão do sentido, sugere-se a sua leitura prévia.

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