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Marcelo Cabral

Comunidades corrompidas

O caso das câmaras de eco

24/05/2024

Introdução

A atual tragédia climática, humanitária e sanitária que o estado do Rio Grande do Sul enfrenta (já seguida de crises nas áreas econômica, alimentar, de moradia, de segurança, de saúde mental entre outras), é, mais uma vez, acompanhada e agravada por enormes sistemas de desinformação e criação e disseminação de fake news. Trata-se de um processo fomentado para descredibilizar fontes seguras de informação e municiar propagandistas e ideólogos que se interessam por qualquer coisa menos a verdade.

Diante de nossa atual crise epistêmica, é comum refletirmos sobre os diversos vícios intelectuais que as pessoas possuem, que as impedem de buscar boas fontes informacionais e de formar crenças verdadeiras. Entretanto, tal reflexão padece de uma perspectiva exageradamente individualista, onde os culpados são, por um lado, indivíduos criadores de fake news e, por outro, indivíduos que as consomem. Tal perspectiva deixa de investigar os fatores sociais que condicionam grande parte de nossas práticas de conhecimento.

Nesta coluna, tratarei do tema das câmaras de eco; um tipo particular de comunidade que tem se proliferado e se tornado um dos grandes problemas em nossa sociedade digital. Talvez você já tenha ouvido essa expressão e possua uma ideia vaga de seu significado. Espero apresentar um entendimento claro e contribuir para a reflexão do porquê tais comunidades corrompidas se tornaram endêmicas, e como podemos repensar nossa participação em vários grupos, sejam presenciais ou virtuais, de condomínio ou do WhatsApp que, sem percebermos, podem ter características de câmaras de eco.

Nossa necessidade epistêmica de comunidades

Comunidades estão por toda parte e habitamos muitas delas simultaneamente. Famílias, igrejas, escolas, universidades, grupos de pesquisa, clubes, grupos de redes sociais e grupos de trabalho são alguns de seus exemplos paradigmáticos. Em todas elas – em diferentes níveis – práticas epistêmicas são exercidas. Por práticas epistêmicas me refiro àquelas atividades relacionadas à produção, aquisição e distribuição de informação, por meio das quais formamos crenças e opiniões e, idealmente, adquirimos e compartilhamos conhecimento. Assim, todas essas comunidades são, em algum nível, também comunidades epistêmicas.

Em nosso mundo hiper-especializado, nossa dependência das várias comunidades epistêmicas tem aumentado rapidamente. Em alguns casos, a informação envolvida é trivial, como quando perguntamos aos nossos pais o que eles precisam do mercado, ou quando um filho conta seus desafios escolares. Entretanto, quase todo o conhecimento relevante que obtemos e de que necessitamos não adquirimos por meio de uma investigação própria, mas através de alguma comunidade epistêmica. Quando queremos saber quais são os benefícios dos alimentos orgânicos, quais vacinas precisamos tomar, qual é o melhor destino a uma certa cidade, por exemplo, adquirimos tais conhecimentos ao participar de redes apropriadas de informação, isto é, ao incluirmos em nossas comunidades epistêmicas as vozes adequadas ou, mais precisamente, as autoridades epistêmicas apropriadas.

quase todo o conhecimento relevante que obtemos e de que necessitamos não adquirimos por meio de uma investigação própria, mas através de alguma comunidade epistêmica.

John Greco, um dos mais importantes epistemólogos contemporâneos, ao descrever a forma como adquirimos conhecimento em nossas comunidades epistêmicas, enfatiza o papel essencial que a confiança desempenha em tais processos. Não basta que participemos de comunidades e que tais comunidades tenham em seu rol de membros as autoridades epistêmicas apropriadas; é necessário que confiemos no que tais autoridades dizem e afirmam; do contrário, o fluxo informacional será obstruído e o conhecimento não poderá ser transmitido.

Comunidades corrompidas: o caso das câmaras de eco

Um grande problema, então, é quando não há confiança suficiente para que a informação circule. Mas será que a falta de confiança é o único problema relevante? Claro, há também o perigo da confiança exagerada, especialmente quando é depositada nas fontes erradas de informação. A partir de uma análise de desbalanços de confiança (ou de credibilidade), o filósofo C. Thi Nguyen publicou, em 2020, um artigo na importante revista Episteme, que se tornou o artigo mais lido da história da revista: Echo Chambers and Epistemic Bubbles.

Ele define câmaras de eco como:

uma comunidade epistêmica que cria uma disparidade significativa de confiança entre membros e não membros. Essa disparidade é criada ao excluir não membros através de descrédito epistêmico, ao mesmo tempo que amplifica a credencial epistêmica dos membros. [...] câmaras de eco são de tal natureza que uma concordância irrestrita a um sistema de crenças fundamentais é pré-requisito para membresia (formal ou informal), incluindo crenças que apoiam a disparidade de confiança.¹

Vamos analisar cada um dos elementos que ele propõe. Em primeiro lugar, câmaras de eco são comunidades epistêmicas, grupos de pessoas que adquirem e transmitem informações e formam crenças e opiniões a partir dessas informações. Em segundo lugar, há uma disparidade de confiança, isto é, algumas pessoas recebem níveis exagerados enquanto outras recebem pouca ou nenhuma confiança. Aqui temos o pior dos dois mundos: alguns recebem mais confiança do que merecem enquanto, outros, menos do que deveriam receber. Mas como tal credibilidade é distribuída?

A alta, ou praticamente irrestrita, confiança é direcionada aos membros da câmara, especialmente seus líderes. Assim, toda e qualquer coisa que eles afirmem é tomada como verdade. Por outro lado, pessoas de fora da comunidade são desacreditadas, mesmo quando possuem boas evidências, alto conhecimento e profundo entendimento do tópico do qual tratam. Vemos aqui ao menos dois problemas fundamentais que se retroalimentam.

Ao confiar cegamente nos líderes de sua comunidade, membros de uma câmara de eco se tornam iscas fáceis da disseminação de desinformação e de toda sorte de teorias conspiratórias. Talvez os líderes e outros membros compartilhem notícias verdadeiras e ideias bem-embasadas, mas o membro sempre estará suscetível a ser facilmente enganado e mal-informado, visto que a credibilidade que deposita nos outros membros é quase irrestrita. Nguyen afirma:

Câmaras de eco podem criar níveis de crédito descontrolados para certos indivíduos aprovados. Ao remover desconfirmações e descorroboração ao sistematicamente desacreditar tudo e todos fora da câmara, elas podem criar níveis de confiança pervertida e excepcionalmente altos.²

O segundo problema é que os membros de uma câmara de eco se tornam completamente imunes a adquirirem evidências de fontes externas à comunidade, especialmente se tais evidências contrastarem com o que os líderes afirmam. Ficam, assim, fechados em torno de suas ideias, surdos aos sons de fora, ouvindo somente o eco de suas próprias vozes.

O segundo problema é que os membros de uma câmara de eco se tornam completamente imunes a adquirirem evidências de fontes externas à comunidade, especialmente se tais evidências contrastarem com o que os líderes afirmam.

Claro, em um mundo ideal, os líderes de tais comunidades seriam autoridades epistêmicas especialistas no que afirmam, que buscariam apenas transmitir informações confiáveis, teorias bem-estabelecidas e opiniões suportadas pelas melhores evidências disponíveis. Mas pessoas com tais características são, por necessidade, aquelas dispostas a ouvirem e avaliarem seriamente os méritos de ideias contrárias, e que, ao menos em algum nível, sabem que nenhuma comunidade é capaz de encerrar em si todo o conhecimento. Como Nguyen diz:

Em comunidades epistêmicas saudáveis, existe algo como um teto do nível de crédito concedido a cada indivíduo. Uma rede epistêmica saudável vai prover um fluxo constante de evidências contrárias e contra-argumentos; desse modo, nenhum indivíduo ou grupo vai atuar sem ser desafiado.³

Pense, por exemplo, no funcionamento das ciências bem-estabelecidas. As ciências são compostas por várias comunidades epistêmicas concomitantes, como grupos de pesquisa, universidades e outras agências de investigação. Quando uma comunidade em particular apresenta uma ideia à grande comunidade científica, composta de várias outras comunidades locais, há uma ampla troca de informações, checagem de fontes, testes, verificações e, não raramente, defesa de ideias contrárias. Evidência e contraevidência são apresentadas e avaliadas. Nenhum grupo de pesquisa particular possui o monopólio da verdade, e nessa dinâmica social jaz uma das maiores razões para o sucesso cognitivo das ciências.

Grupos de teorias conspiratórias, por sua vez, costumam ser um exemplo paradigmático de câmaras de eco, pois não somente aceitam as ideias dos membros de sua comunidade, como sistematicamente descartam toda e qualquer observação, dado, teoria ou perspectiva que seja contraevidência às teorias de sua comunidade.

Há ainda um outro elemento fundamental, presente na definição de Nguyen, sobre as câmaras de eco, onde uma “concordância irrestrita a um sistema de crenças fundamentais é pré-requisito para membresia”. Por sistema de crenças podemos entender um certo conjunto de crenças aliado aos valores epistêmicos que guiam a aquisição e avaliação de crenças particulares.

Para entendermos o problema do sistema de crenças de câmaras de eco é importante salientar que possuir um sistema de crenças não é algo ruim em si; ao contrário, é uma parte fundamental de qualquer pessoa ou comunidade, que organiza e estrutura sua cognição a partir de um sistema de crenças.

O problema é que certos sistemas de crença são epistemicamente perniciosos, isto é, eles levam aqueles que os adotam a uma operação epistemicamente falha, condicionando-os a formarem e manterem crenças falsas e a evitarem crenças verdadeiras. Tais sistemas perniciosos, Nguyen, em uma publicação mais recente, de 2022, chama de armadilhas epistêmicas, que são sistemas de crenças que se enraízam “porque eles operam para impedir que os aderentes vejam ou reconheçam boas contraevidências”.

A armadilha epistêmica relacionada às câmaras de eco contém (1) crenças que mantêm e aumentam a disparidade de confiança e (2) certos valores epistêmicos que os fazem não apenas ignorar, mas “furiosamente analisar informações, percebendo as que vem de fora da câmara e empregando meios teóricos para desacreditá-las por completo”.⁴ Tais armadilhas, assim, não apenas descartam evidências contrárias, mas criam um sistema de feedback em forma de loop nos seguintes moldes: o líder faz uma previsão de que vozes externas apresentarão críticas e tentarão minar a autoridade dos líderes do grupo; quando, de fato, pessoas de fora da câmara fazem isso, para os membros, as previsões dos líderes se mostram acuradas, o que se torna mais uma razão para que sejam confiados cegamente.

Normalmente, imaginamos um cenário em que possuímos um certo conjunto de crenças sobre um assunto, e, quando encontramos uma pessoa ou comunidade, especialmente se forem respaldadas por setores sociais relevantes, que detêm crenças que contradizem, conflitam ou desafiam nossas crenças, isso nos irá fazer pensar e refletir criticamente.

Mas em câmaras de eco acontece exatamente o contrário: toda vez que um membro encontra pessoas de fora com crenças conflitantes, isso apenas reforça as crenças iniciais, inclusive a crença que os de dentro merecem toda confiança e os de fora não merecem nenhuma confiança, a despeito dos de fora serem experts em sua área, mesmo que apresentem evidências para suas colocações, e ainda que tenham suporte das melhores universidades.

Mas em câmaras de eco acontece exatamente o contrário: toda vez que um membro encontra pessoas de fora com crenças conflitantes, isso apenas reforça as crenças iniciais, inclusive a crença que os de dentro merecem toda confiança e os de fora não merecem nenhuma confiança [...].

É interessante – e profundamente preocupante – pensar que membros de câmaras de eco podem ter vidas intelectuais satisfatórias, que lhes parecem conter explicações aptas e unificatórias para toda sorte de fenômenos.

Negacionistas climáticos, por exemplo, formam estruturas epistêmicas em que todas as fontes científicas de evidência foram inteiramente descartadas. Entrar em uma comunidade negacionista acaba por envolver vários erros e vícios intelectuais, normalmente por meio de um lento acúmulo de pequenos erros, pequenas crenças, pequenos valores adotados, que gradualmente crescem e maturam em uma armadilha epistêmica internamente coerente, que se auto reforça e se torna impermeável.

Ter alto QI e boa formação educacional não é antídoto contra se tornar membro de uma câmara de eco. Nossos vieses cognitivos, a grande vontade de pertencer a um grupo coeso, a simplicidade cognitiva oferecida, o bem-estar de ver nossa ideologia reforçada, o senso de nos sentirmos especiais e inteligentes, a dinâmica dos algoritmos, o ambiente epistêmico altamente poluído que nos dificulta discernir autoridades epistêmicas legítimas de enganadores, tudo isso e muito mais tem tornado esse tipo de comunidade corrompida mais comum e mais influente.

Como saber se somos membros de uma comunidade assim? O que fazer para nos blindar? Para os que já estão dentro, há alguma esperança?

Tratarei das possíveis respostas em uma futura coluna.

 

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

1. C. Thi Nguyen, “Echo Chambers and Epistemic Bubbles”, Episteme, v. 17, n. 1, 2020.

2. Ibidem.              

3. Ibidem.              

4. C. Thi Nguyen, “Epistemic traps”, in Social Virtue Epistemology, 2022,  p. 272.

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