Parte 1 da série Autonomia intelectual e o futuro da democracia
Lembro do meu filho, quando completou um ano de idade, dando sozinho seus primeiros passos (trôpegos, engraçados, atrapalhados). Vibro com cada um de seus pequenos passos rumo à autonomia: já come sozinho, põe a própria meia e, às vezes, até o sapato. Sinto algo similar enquanto professor: fico realizado ao ver meus alunos sendo capazes de pensar por conta própria, de realizar atividades complexas sem serem guiados a cada passo ou de levantar perguntas interessantes e investigá-las.
Esses gestos simbolizam um marco do amadurecimento intelectual: a passagem do receber pronto para o pensar por si mesmo. Professores, pais e mentores se orgulham quando veem seus alunos e filhos começarem a formular perguntas próprias, a lidar com problemas sem instruções detalhadas. Esse ideal – ser capaz de usar o próprio entendimento – tem longa história e ressoa ainda hoje como sinônimo de maturidade e liberdade.
Começarei aqui uma série de artigos investigando a importância e o limite da autonomia intelectual, um dos grandes ideais no mundo da mente. Além de examinar essa virtude, pensarei seu papel no atual cenário tenebroso de debate público no qual nos enfiamos. “Nós”, aqui, se refere à nossa sociedade midiatizada, globalizada, plataformizada e, claro, polarizada. Um ambiente em que todos podem dar sua própria opinião, afirmar, curtir, compartilhar e comentar virtualmente sobre qualquer coisa: o palco da autonomia intelectual! Mas, como veremos, em vez de livre pensamento e trânsito rico de ideias, tal exercício virtuoso se transformou em um desastre informacional. Comecemos, assim, entendendo em que consiste a virtude em questão.
Em vez de livre pensamento e trânsito rico de ideias, tal exercício virtuoso se transformou em um desastre informacional.
O que é autonomia intelectual?
No século 18, Immanuel Kant captou essa intuição ao definir o Iluminismo como “a saída do homem de sua menoridade”. Menoridade, para ele, era a incapacidade de usar o próprio entendimento sem a direção de outrem. Seu lema, sapere aude – ouse saber –, condensou um apelo moral e cívico: abandonar a tutela voluntária e assumir a responsabilidade pelo próprio pensar. Desde então, educadores e reformadores têm exaltado a autonomia intelectual como condição para sociedades livres. Em democracias, espera-se que cidadãos saibam avaliar argumentos, pesar evidências, e, quando necessário, questionar autoridades. Pensar por conta própria é visto como antídoto contra manipulação e dogmatismo.
Mas o que exatamente significa autonomia intelectual? À primeira vista, parece uma exigência impossível. Nenhum de nós investiga pessoalmente cada afirmação que acredita. Não repetimos os experimentos que comprovam a gravidade, não reconstituímos sozinhos a história do Brasil, não derivamos de primeira mão cada conceito médico. Dependemos de professores, livros, especialistas, amigos. E isso não é um defeito do nosso tempo; é a própria condição do conhecimento humano. Ele sempre foi construído de forma coletiva, com divisão de trabalho e cadeias de confiança.
Por isso, autonomia intelectual não pode ser confundida com isolamento ou com o individualismo epistêmico. Como diz Jonathan Matheson, o agente “maverick” – que insiste em descobrir tudo sozinho, desconfiando de qualquer autoridade – termina, ironicamente, mais vulnerável ao erro.¹ Ao recusar de forma sistemática a contribuição de outros, perde acesso a fontes confiáveis e multiplica suas chances de engano. É um tipo de autossuficiência que, longe de virtude, se torna vício intelectual. A verdadeira autonomia, pelo contrário, pressupõe discernimento: saber quando recorrer ao próprio juízo e quando confiar no juízo alheio, distinguir especialistas confiáveis de charlatães, reconhecer limites pessoais e, ainda assim, manter uma postura ativa.²
A verdadeira autonomia pressupõe discernimento: saber quando recorrer ao próprio juízo e quando confiar no juízo alheio, distinguir especialistas confiáveis de charlatães, reconhecer limites pessoais e, ainda assim, manter uma postura ativa.
Assim, podemos entender autonomia intelectual, numa formulação modesta, como a competência para regular o próprio pensamento com autoconfiança, integrando de modo responsável a dependência epistêmica dos outros. Ela não se mede pela quantidade de crenças “originais” de alguém, mas pela qualidade de suas escolhas epistemicamente dependentes. Um paciente que pede uma segunda opinião médica, verifica credenciais, pergunta sobre riscos e benefícios não está “fazendo medicina”; está exercendo autonomia intelectual ao navegar em um campo em que não é especialista. A atitude autônoma não elimina a deferência, mas orienta-a.
Essa visão modesta se distingue de uma concepção mais heroica, segundo a qual pensar por conta própria significaria sempre investigar sozinho, aceitar apenas conclusões às quais se chegou de modo independente. Essa versão, além de impraticável, gera resultados pobres: em quase todas as áreas relevantes para a vida há alguém que sabe mais do que nós. Querer reconstruir cada evidência do zero é condenar-se à ignorância ou ao erro. Ao mesmo tempo, deferir à primeira opinião e se recusar a empregar o próprio pensamento é um modo de heteronomia completa. Como diz Jesús Vega-Encabo:
Algo particularmente valioso se perde ao levar uma vida cheia de dependência dos outros, ao não ousar ser guiado pelo nosso próprio juízo e critério, e ao deferir às autoridades (mais ou menos socialmente reconhecidas), ao nos deixarmos levar e conformar a certas “pressões” sociais para aceitar informações e crenças cuja solidez está longe de ser clara para nós.³
Críticas a autonomia intelectual
Até aqui, descrevi uma versão “modesta” da autonomia intelectual: a competência de regular o próprio pensamento com autoconfiança, integrando de modo responsável a dependência epistêmica dos outros. Não é isolamento nem autossuficiência heroica, mas discernimento sobre quando confiar, como confiar e quando recorrer ao próprio juízo. Essa versão modesta parece intuitivamente correta. Mas será que ela de fato melhora a nossa posição epistêmica? Ou será que, mesmo assim, cultivar autonomia intelectual não traz os benefícios que imaginamos?
Mas será que a autonomia intelectual de fato melhora a nossa posição epistêmica? Ou será que, mesmo assim, cultivar autonomia intelectual não traz os benefícios que imaginamos?
Para responder, vale distinguir dois tipos de desafio. O desafio fraco questiona se a autonomia intelectual, mesmo em sua forma modesta, realmente melhora nossa posição epistêmica. Já o desafio forte vai além: afirma que, ao cultivar e exercer autonomia intelectual, não apenas não melhoramos nossa posição epistêmica, como a pioramos.
Essa distinção é útil porque a maior parte das críticas contemporâneas não ataca a caricatura do “maverick” isolado, mas a própria ideia de que uma autonomia integrada à interdependência traga benefícios. Como sintetiza Catherine Elgin, “autonomia epistêmica e interdependência epistêmica andam juntas”:⁴ ambas, combinadas, promoveriam o aprimoramento da posição epistêmica. Os críticos, porém, negam que isso aconteça.
O desafio fraco: autonomia superestimada
De acordo com o desafio fraco, a autonomia intelectual é um traço sobrevalorizado. Jonathan Matheson resume isso no seu mantra: “tudo bem não pensar por conta própria”. Para ele, em muitas de nossas práticas epistêmicas fazemos melhor ao recorrer a outros que estão em melhor posição do que nós, em vez de tentar resolver sozinhos. “Você defere a alguém quando acredita em algo simplesmente com base no que essa pessoa diz; você não pensa por conta própria”.⁵ Para quase qualquer questão, há um caminho melhor para a resposta do que o esforço isolado.
Neil Levy pressiona ainda mais esse desafio. Em sua crítica ao programa de “amelioração” das virtudes intelectuais, defende que, na prática, é o vício do dogmatismo – e não virtudes como abertura mental ou autonomia intelectual – que mais frequentemente conduz a conhecimento e outros bens epistêmicos. “Quanto mais importante é a crença – quanto mais relevante ela é para o nosso funcionamento na esfera pública –, menos importa exibirmos virtudes epistêmicas.”⁶ Para ele, virtudes intelectuais são úteis apenas nos domínios estreitos onde somos de fato especialistas; fora desses domínios, fazem pouca diferença.
Uma resposta inicial ao desafio fraco
Uma resposta direta seria aceder ao diagnóstico de que autonomia intelectual não leva ao conhecimento e, ainda assim, insistir que ela tem valor intrínseco. Poderíamos dizer: “Sim, ela não costuma levar a conhecimento ou crenças verdadeiras, mas isso não importa: ela torna seu possuidor intelectualmente louvável. Reflete uma boa motivação pelos bens intelectuais e, assim, um bom caráter. Isso basta”.
Essa resposta, no entanto, parece insuficiente. Se virtudes intelectuais não contribuem para a posse de bens epistêmicos, qual é o sentido? O valor caracterológico, separado de qualquer melhora na posição epistêmica, não seria um apelo obscuro à noção de caráter para preencher um vazio de valor? Afinal, não consideramos as virtudes intelectuais boas porque levam a uma boa vida epistêmica?
Antes de rejeitar essa réplica de imediato, convém notar uma motivação possível. A autonomia intelectual está intimamente ligada à nossa própria condição de conhecedores – pessoas que pensam, raciocinam e, assim, contam como agentes racionais. Como observa Miranda Fricker, “estamos há muito familiarizados com a ideia, encenada pela história da filosofia em muitas variações, de que é a nossa racionalidade que confere à humanidade o seu valor distintivo”.⁷ Se essa virtude estiver ligada à constituição do ser humano como racional, então toca um valor humano fundamental.
Para que essa motivação tenha sucesso, porém, seria preciso argumentar que a identidade de alguém como pensador racional depende essencialmente da posse da virtude da autonomia intelectual – e isso está longe de ser pacífico. Mas mesmo concedendo esse ponto, permanece um problema: e se o valor caracterológico da autonomia intelectual entrar em conflito com outros bens epistêmicos mais valiosos? Se isso acontecer, o caso em favor da autonomia fica bem mais fraco.
O desafio forte: autonomia como prejuízo
Robin McKenna formula explicitamente o desafio forte. Ele argumenta que a autonomia intelectual não apenas falha em melhorar nossa posição epistêmica, mas pode piorá-la. Mesmo que se conceda que ela tenha valor caracterológico, isso não basta para torná-la valiosa no conjunto. “A inatingibilidade da autonomia intelectual não é meramente decepcionante. Esforçar-se por atingi-la é frequentemente ativamente prejudicial para a nossa situação epistêmica geral.”⁸ O argumento é este:
(1) ao tentar ser intelectualmente autônomo, a pessoa fracassará;
(2) esse fracasso significa que, em vez de conduzir ao sucesso epistêmico, a autonomia intelectual frequentemente leva a crenças falsas ou injustificadas;
(3) crenças falsas ou injustificadas são epistemicamente más;
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(4) não se deve cultivar nem exercer autonomia intelectual.
Se esse raciocínio é correto, temos um “desafio forte”: o cultivo e o exercício da autonomia intelectual pioram nossa posição epistêmica.
E quanto ao valor caracterológico? Se for preciso escolher entre (i) possuir esse valor ou (ii) alcançar conhecimento e evitar falsidades, o segundo deve ter prioridade. Implícito aqui está um argumento simples: num mundo social de conhecimento como o nosso, conhecimento é mais valioso do que a motivação para pensar por conta própria; portanto, conhecimento é mais valioso do que autonomia intelectual.
Para compreender a força dessa visão, não é preciso negar o valor caracterológico; basta aceitar que o valor do conhecimento o supera. E, dado que, em um mundo onde muito do que sabemos – inclusive crenças vitais para nossa sobrevivência e bem-estar – é adquirido pelo trabalho cognitivo de outros, essa posição parece plausível.
Por que tanta desconfiança do indivíduo?
Antes de responder a McKenna, vale notar a dimensão social do seu argumento. Para ele, como para Levy e outros epistemólogos sociais, duas teses interligadas sustentam a desvalorização da autonomia intelectual. A primeira é uma desconfiança empírica do raciocínio individual: mesmo pessoas inteligentes são presas de vieses e falhas cognitivas. Baseados em pesquisas de Pollock,⁹ Kahneman¹⁰ e Mercier e Sperber,¹¹ defendem que, independentemente do QI ou do esforço para adquirir bens intelectuais, o pensamento e o raciocínio próprios não conduzem de maneira confiável a crenças justificadas. Essa tese pode ser formulada da seguinte maneira:
MÁ-PENSANTE: ao pensar sozinho, não importa quão inteligente ou virtuoso, o agente frequentemente falhará epistemicamente.
A segunda tese é que somos muito mais influenciados pelos nossos ambientes cognitivos do que tendemos a admitir – novamente, independentemente de quão alta seja nossa pontuação na virtude da autonomia intelectual. O ambiente cognitivo, especialmente na era digital, coloca-nos constantemente em situações de efeitos de enquadramento, “nudges” e outras influências que passam despercebidas, mas moldam fortemente nossos resultados epistêmicos. Essa segunda tese pode ser formulada do seguinte modo:
SOCIALMENTE LIMITADO: os resultados epistêmicos de uma pessoa são, em grande medida, determinados pela qualidade de suas comunidades e de seus ambientes epistêmicos.
Tomadas em conjunto, as teses MÁ-PENSANTE e SOCIALMENTE LIMITADO sugerem fortemente que a melhoria epistêmica não virá do cultivo de uma virtude individual como a autonomia, mas da reforma das instituições e dos ambientes epistêmicos. Dado que o raciocínio individual é sistematicamente falho, e que nossos resultados dependem de pistas, infraestruturas e sistemas sociais fora do nosso controle, o caminho realista para a melhoria epistêmica não é o penoso cultivo de virtudes pessoais, mas o desenho vigilante de estruturas epistêmicas – algoritmos, ecossistemas midiáticos, instituições educacionais e outros guardiões coletivos. Nessa visão, esforços individuais de autonomia são no máximo marginais e, no pior dos casos, contraproducentes. Se essas teses se sustentarem, o desafio forte segue: a autonomia intelectual não é, no geral, um traço epistemicamente valioso.
Conclusão
Nesta primeira parte, vimos que, mesmo em sua forma modesta, a autonomia intelectual enfrenta críticas sérias. O desafio fraco sugere que ela é superestimada e pouco eficaz; o desafio forte vai além, afirmando que sua prática pode piorar nossa posição epistêmica. Essas objeções colocam em xeque um dos ideais centrais da modernidade: o valor de “pensar por conta própria”.
Essas objeções colocam em xeque um dos ideais centrais da modernidade: o valor de “pensar por conta própria”.
No próximo artigo desta série, examinaremos respostas possíveis ao desafio forte e discutiremos o que está em jogo para a vida democrática, para a qualidade do debate público e para a própria liberdade de expressão em tempos de plataformas digitais.
Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC². |
1. Jonathan Matheson, “The Virtue of Epistemic Autonomy”, in Jonathan Matheson & Kirk Lougheed, Epistemic Autonomy, 2021.
2. Heidi Grasswick, “Epistemic Autonomy in a Social World of Knowing”, in The Routledge Handbook of Virtue Epistemology, 2018.
3. Vega-Encabo, “Understanding and the Value of Intellectual Autonomy”, in Jonathan Matheson & Kirk Lougheed, Epistemic Autonomy, 2021, p. 195.
4. Catherine Elgin, “The Realm of Epistemic Ends”, in Jonathan Matheson & Kirk Lougheed, Epistemic Autonomy, 2021, p. 69.
5. Jonathan Matheson, Why It’s OK Not to Think for Yourself, 2023, p. 27.
6. Neil Levy, “Narrowing the Scope of Virtue Epistemology”, In Social Virtue Epistemology, 2022, p. 127.
7. Miranda Fricker, Epistemic Injustice: Power and the Ethics of Knowing, 2007, p. 44.
8. Robin McKenna, Non-Ideal Epistemology, 2023, p. 93.
9. John L. Pollock, “Defeasible Reasoning”, Cognitive Science 11: 481–518, 1987.
10. Daniel Kahneman, Thinking, Fast and Slow, 2013.
11. Hugo Mercier, Dan Sperber, The Enigma of Reason, 2017.
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