Parte 2 da série Autonomia intelectual e o futuro da democracia
“Sapere aude!”, “ouse conhecer!” “Tenha coragem de usar o seu próprio entendimento!” Como vimos na parte 1 da série Autonomia intelectual e o futuro da democracia, pensar por si próprio, a autonomia intelectual, é uma das virtudes intelectuais mais estimadas e cobiçadas. E não à toa; afinal de contas, se o uso dos poderes da razão é uma das marcas distintivas da verdadeira humanidade, então a competência em usar tais poderes — a autonomia intelectual — é de fato fundamental.
Lembre-se que, desde o início, optei por apresentar uma visão sóbria e moderada dessa virtude. Ser autônomo não significa pensar sozinho, mas incorporar sabiamente a dependência epistêmica de outras pessoas, tradições e perspectivas. Assim, defini autonomia intelectual como a competência para regular o próprio pensamento com autoconfiança, integrando de modo responsável a dependência epistêmica dos outros.
No artigo anterior, apresentei diversas críticas contra essa virtude. Deixe-me rapidamente retomar a última delas — e a mais voraz. De acordo com pensadores como Neil Levy e Robin McKenna, amparados em uma gama de estudos empíricos, mesmo pessoas de alto QI e que sejam intelectualmente virtuosas falham sistematicamente ao tentar pensar de maneira autônoma. Coloquei isso a partir de duas teses:
MÁ-PENSANTE: ao pensar sozinho, não importa quão inteligente ou virtuoso, o agente frequentemente falhará epistemicamente.
SOCIALMENTE LIMITADO: os resultados epistêmicos de uma pessoa são, em grande medida, determinados pela qualidade de suas comunidades e de seus ambientes epistêmicos.
A conclusão mais importante — e polêmica — que Levy e McKenna levam de tais teses é que a melhora na vida epistêmica de indivíduos não virá por meio do cultivo de virtudes intelectuais, mas sim por meio da melhoria do ambiente epistêmico. Como disse, “o caminho realista para a melhoria epistêmica não é o penoso cultivo de virtudes pessoais, mas o desenho vigilante de estruturas epistêmicas — algoritmos, ecossistemas midiáticos, instituições educacionais e outros guardiões coletivos”.
Isso parece razoável, e é de fato uma discussão urgente. Vivemos um ambiente epistêmico altamente poluído, com fake news abundando, vários pseudoexperts enganando internautas, perfis de influencers conduzindo multidões ao erro e cursos on-line com verniz de profundidade, mas apenas inculcando distorções ou superficialidade. Precisamos de um desenho institucional mais seguro, com reforços e estímulos para canais e fontes de informação confiáveis e sanções contra disseminadores de desinformação.
Precisamos de um desenho institucional mais seguro, com reforços e estímulos para canais e fontes de informação confiáveis e sanções contra disseminadores de desinformação.
Sistema ou autonomia intelectual: precisamos escolher?
Há, contudo, um problema no argumento de Levy e McKenna, e considero essencial para o nosso bem-estar epistêmico (e para o futuro da democracia) que analisemos tal problema com cuidado. Eles estão certos ao insistir em desenvolvimentos institucionais e sistêmicos, em regulação para práticas on-line e promoção de políticas que promovam melhorias epistêmicas. Mas isso significa que indivíduos devem desistir de cultivar a autonomia intelectual?
A resposta é não. Eles partem da suposição de que bastaria reformar as instituições e plataformas para que o ambiente de informação se tornasse saudável, sem que as pessoas precisassem mudar seus hábitos cognitivos. Essa suposição é, no mínimo, ingênua. Instituições e plataformas on-line não são entes neutros à espera de ajustes técnicos; são sistemas moldados por interesses econômicos e disputas de poder. As redes sociais, por exemplo, não foram desenhadas para promover a verdade, mas para capturar atenção. Seus algoritmos recompensam o que provoca engajamento — e o engajamento nem sempre tem qualquer relação com a qualidade das informações. Além disso, dado os interesses políticos e econômicos dos donos das Big Techs, não podemos esperar que o design e a estrutura de mídias sociais, sites de busca e IAs irão evoluir para promover a verdade. Ademais, dado o avanço de governos populistas mundo a fora, que aliam novas formas de fascismo ao uso de desinformação, é também ingênuo crer que aqueles com real poder de moldar leis e promover regulações terão o nosso bem-estar epistêmico em vista.
A desordem é parte do modelo de negócios. Os fluxos de desinformação, as bolhas de opinião e a manipulação algorítmica não são anomalias, mas são os próprios mecanismos pelos quais o sistema se sustenta. Esperar que tais agentes promovam espontaneamente a reforma das próprias plataformas é como esperar que uma indústria de cigarro lidere uma campanha contra o tabagismo, ou que as bets liderem leis antiaposta.
Pensar por conta própria, nesse contexto, é menos um gesto de autossuficiência e mais um ato de resistência. Trata-se de tentar escapar, ainda que parcialmente, das lógicas de manipulação que nos cercam — resistir à servidão cognitiva que se instala quando deixamos que plataformas, influenciadores e políticos ditem aquilo em que devemos crer. O esforço autônomo, ainda que produza erros, vale por nos manter minimamente vigilantes, conscientes de que há forças interessadas em dirigir nosso pensamento.
O filósofo Aidan McGlynn chama essa função da autonomia de “seguro epistêmico”. Assim como quem faz um seguro não elimina todos os riscos, mas reduz sua vulnerabilidade, cultivar a autonomia não garante que acertaremos em nossos juízos, mas apenas nos protege de depender completamente de instituições que podem não ser epistemicamente benevolentes. Exercitar o pensamento próprio, ainda que limitado, é uma forma de manter aberta a possibilidade de correção e de resistência frente a agentes poderosos (Big Techs e governos que flertam com fascismo).
Assim como quem faz um seguro não elimina todos os riscos, mas reduz sua vulnerabilidade, cultivar a autonomia não garante que acertaremos em nossos juízos, mas apenas nos protege de depender completamente de instituições que podem não ser epistemicamente benevolentes.
A importância social da autonomia intelectual
Recapitulando: o desafio à autonomia intelectual se apoia em duas teses. A primeira é a MÁ-PENSANTE: a ideia de que, ao pensar por conta própria, mesmo pessoas inteligentes frequentemente fracassam em alcançar bons resultados epistêmicos. A segunda é a SOCIALMENTE LIMITADO: a tese de que nossos resultados cognitivos dependem, em grande medida, da qualidade das comunidades e dos ambientes epistêmicos dos quais fazemos parte.
Considerando a segunda tese, surge uma pergunta óbvia: se nossos resultados epistêmicos dependem tanto da qualidade das comunidades e fontes de informação, não deveríamos ao menos tentar escolher as melhores comunidades, os canais mais confiáveis e as autoridades epistêmicas mais competentes? E essa escolha não é, em si, uma forma de exercitar a autonomia intelectual?
Em outras palavras, se interpretarmos a tese SOCIALMENTE LIMITADO de maneira radical — como se os sujeitos epistêmicos fossem totalmente determinados pelo meio social, sem qualquer liberdade para escolher suas fontes, seus ambientes ou os especialistas —, então todo resultado epistêmico seria uma questão de pura sorte. Nessa visão, só restaria torcer para estar inserido num bom ambiente cognitivo. Isso, porém, destruiria a própria noção de sujeito conhecedor: se somos apenas produtos passivos de nosso meio, não há mais sentido em falar de responsabilidade epistêmica.
Algo semelhante ocorre com a tese MÁ-PENSANTE, quando levada ao extremo. Se aceitarmos que todos os indivíduos raciocinam mal a ponto de não haver diferença relevante entre um agente cuidadoso e um descuidado, perdemos o critério para distinguir entre bons e maus pensadores. Mas isso não corresponde ao que observamos. Há, de fato, pessoas que escolhem confiar no consenso científico, e outras que preferem as teorias conspiratórias. Há quem pense duas vezes antes de compartilhar uma afirmação duvidosa, e há quem repasse tudo que recebe. Há aqueles que se preocupam em distinguir bons especialistas de falsos especialistas, e outros que não prestar nenhuma atenção.
Como observa Catherine Elgin,¹ “abrir mão da autonomia não é uma opção”. Continuamos a elogiar quem raciocina com rigor e a criticar quem raciocina mal; louvamos ideias originais, censuramos conclusões apressadas. Esse sistema de elogio e censura só faz sentido se assumirmos que as pessoas têm algum controle — por menor que seja — sobre suas práticas cognitivas. Ser digno de louvor ou culpa depende de ser responsável e, portanto, de conservar ao menos um resquício de autonomia.
Em última análise, defender a autonomia intelectual não significa rejeitar a confiança, mas exercê-la com discernimento. Autonomia não é pensar contra todos, mas saber em quem e em que confiar: distinguir entre especialistas genuínos e falsos, entre consenso científico e ruído de opinião. Numa época em que o saber é distribuído por redes complexas e frequentemente distorcidas, a forma mais madura de autonomia talvez seja a de reconhecer os próprios limites e, ainda assim, assumir a responsabilidade de escolher bons interlocutores, fontes confiáveis e comunidades epistêmicas que se orientem por práticas de justificação e verificação. Pensar por conta própria, nesse sentido, é participar conscientemente de um ecossistema de conhecimento que valoriza a verdade. Um gesto de confiança racional, não de isolamento cético.
Autonomia não é pensar contra todos, mas saber em quem e em que confiar: distinguir entre especialistas genuínos e falsos, entre consenso científico e ruído de opinião.
No próximo e último artigo desta série, apresentarei um desafio final à ideia de autonomia intelectual e discutirei suas consequências para o futuro da nossa possibilidade de democracia.
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1. Catherine Elgin, “The Realm of Epistemic Ends”, in Jonathan Matheson & Kirk Lougheed, Epistemic Autonomy, 2021, p. 55.
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