Temos provas de que Deus existe?

Bruno Ribeiro Nascimento|

13/07/2026

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Bruno Ribeiro Nascimento

Doutor em Filosofia (UFRN), Mestre em Comunicação e Culturas Midiáticas (UFPB), Graduado em Filosofia (UCB) Letras-Português (UFPB) e em Comunicação Social (UFPB). Professor de Filosofia da Religião da Faculdade Internacional Cidade Viva e membro da Associação Brasileira de Filosofia da Religião (ABFR).

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Como citar

Nascimento, Bruno Ribeiro. Temos provas de que Deus existe?. Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 8, jul-dez, 2026.

Uma das histórias mais curiosas sobre Bertrand Russell é que ele passou algum tempo acreditando em Deus. Segundo seu próprio relato autobiográfico, esse momento aconteceu por volta de 1894, quando ainda era estudante em Cambridge. Russell caminhava perto da universidade após comprar uma lata de tabaco. Foi então que, subitamente, tomado por um lampejo, lançou a lata no ar e exclamou: “Meu Deus! O argumento ontológico é válido!1

A história de Russell ilustra uma ideia muito comum na epistemologia da religião: a racionalidade da crença em Deus depende, em última instância, da força dos argumentos. Como vimos, muitos dos que se opõem à crença em Deus não examinam a questão perguntando quais são as condições para a crença racional. Em vez disso, eles geralmente perguntam se o teísta tem evidências ou provas para sua crença; alguns deles tentam argumentar que há evidências suficientes para a crença de que “Deus não existe”.2 De todo modo, a questão: “a crença em Deus é racional?” geralmente é confundida com a questão: “existem evidências em favor da existência de Deus?”. Na epistemologia, essa posição é tradicionalmente denominada evidencialismo.

A questão: “a crença em Deus é racional?” geralmente é confundida com a questão: “existem evidências em favor da existência de Deus?”

O tribunal das evidências

Em nossos dias, é comum ouvir a queixa comum de que a crença em Deus carece de evidências, provas ou demonstrações. Um dos herdeiros do Iluminismo, o cientista Steven Pinker, afirma que “não há uma boa razão para acreditar que Deus existe”.3 Sam Harris faz coro ao afirmar que “já é hora de reconhecermos que a ‘fé’ não é nada mais do que a licença que as pessoas religiosas dão umas às outras para continuar acreditando, quando não há razões para acreditar”.4 Richard Dawkins, ao diferenciar ciência da religião, alega que a fé é um tipo de vício intelectual dos mais danosos, pois “a ciência baseia-se em evidências comprováveis. A fé religiosa não só carece de evidências, como essa independência de evidências é fonte de orgulho, anunciada com alarde”.5 O que une todos eles é a suposição (raramente examinada) de que toda crença racional deve responder ao tribunal das evidências.

Há um respeitável pedigree filosófico em favor do evidencialismo. “Um homem sábio”, disse certa vez o grande filósofo David Hume, “dosa sua crença em proporção à evidência”.6 Outro importante filósofo, William Clifford, sugeriu de forma ainda mais estridente que é eticamente correto acreditar em algo apenas se tivermos provas suficientes em seu favor: “É sempre errado, em toda parte e para todos, crer em qualquer coisa com base em evidência insuficiente”.7

Dentro do evidencialismo, alguns teístas argumentaram que existem boas evidências para se acreditar que Deus existe. Na filosofia analítica da religião, o projeto de debater tais argumentos é conhecido como teologia natural, entendido como a prática de refletir filosoficamente sobre a natureza e a existência de Deus, sem se valer de qualquer revelação divina ou escritura sagrada.8

Assim, para os teólogos naturais, a crença teísta é racional, pois seria possível fornecer bons argumentos em favor da existência de Deus. Ao longo dos anos, foi apresentada uma quantidade monumental de argumentos; há os clássicos argumentos cosmológicos, teleológicos e ontológicos; há argumentos baseados na objetividade da moral, na existência da razão, na natureza dos números, da beleza e do livre-arbítrio, na eficácia da matemática, na confiabilidade de nossas faculdades cognitivas, na consciência e na intencionalidade. De fato, há tantos e tão variados argumentos em favor da existência de Deus que Alvin Plantinga propôs um argumento (The Argument from (A) to (Y)) sugerindo que uma hipótese filosófica que dispõe de tão variado número de evidências independentes, como o teísmo, está em boa situação intelectual.9 Todos esses argumentos são de grande interesse na filosofia contemporânea, com defesas muito sofisticadas e opiniões distintas sobre sua solidez.10 Os adeptos da teologia natural fazem uso dos mesmos padrões de investigação racional de outros empreendimentos filosóficos e científicos, estando sujeitos aos mesmos métodos de avaliação e crítica. Richard Swinburne talvez seja o filósofo que fez o uso mais sofisticado desse tipo de método.11 Para Swinburne, “os mesmos critérios que os cientistas usam para chegar a suas próprias teorias nos levam a ir para além daquelas teorias rumo a um Deus criador que sustenta tudo na existência”.12 Em sua defesa do teísmo, Swinburne emprega um raciocínio bastante comum na ciência, o raciocínio probabilístico. Esse tipo de raciocínio consiste basicamente em comparar diferentes hipóteses e perguntar: qual delas explica melhor os dados que observamos? Por exemplo, cientistas não veem diretamente elétrons, mas inferem sua existência porque essa hipótese explica melhor certos fenômenos do que outras alternativas. De modo análogo, Swinburne argumenta que, ao compararmos duas hipóteses filosóficas – o teísmo (a ideia de que Deus existe) e o naturalismo (a ideia de que só existe a realidade natural) –, Deus oferece uma explicação mais simples, abrangente e coerente do que a hipótese de que não há Deus para aspectos fundamentais do mundo, como a existência do universo, sua ordem, as leis da natureza e até a consciência humana.

(…) uma hipótese filosófica que dispõe de tão variado número de evidências independentes, como o teísmo, está em boa situação intelectual.

O evidencialismo e seus problemas

Agora, se o evidencialista estiver correto, então parece que já sabemos o que torna racional a crença em Deus (e parece que temos uma quantidade monumental de argumentos na mesa para analisar a questão); o problema é que, mais uma vez, as aparências enganam. Há, por exemplo, uma série de dificuldades iniciais com as afirmações de Clifford. Ele diz que é errado crer em qualquer coisa com base em evidência insuficiente. Mas ele não nos diz o quanto de evidência é suficiente. Também não esclarece o que conta como evidência. De fato, a noção de evidência é tão ambígua quanto a noção de racionalidade: o que é evidência? 13 Como você sabe quando tem uma? Ela só vem por meio de argumentos? E como você sabe que tem suficiente ou insuficiente? Presumivelmente, alguém pode alegar ter evidências suficientes para uma crença completamente falsa. Suponha, então, que alguém creia sinceramente ter evidências suficientes para uma crença bizarra – por exemplo, a crença de que a Terra é plana. Tal pessoa seria racional em continuar acreditando nisso? Ou seria ela irracional em acreditar que a Terra é plana mesmo “tendo” evidências? Ela deveria acreditar contra a evidência que acredita ter? O leitor mais astuto diria que faltam aos terraplanistas evidências genuínas. No entanto, um terraplanista não poderia alegar contar com evidências genuínas? Ele não poderia, realmente, acreditar nisso? Se sim, isso não parece abrir as comportas da irracionalidade para justificar todo tipo de crenças absurdas?14

Superadas essas dificuldades iniciais, há um segundo problema: parece que a versão de Clifford e Hume do evidencialismo é completamente irrealista para nós, seres humanos. De acordo com o filósofo Mikael Stenmark, esse tipo de exigência não é de modo algum adequado para seres finitos, com o tempo ou os recursos cognitivos limitados como os que nós temos. Ou seja, agentes racionais não podem perder tempo e recursos para avaliar criticamente, por meio de argumentos, todas as suas crenças.15 Ao olhar para nossas capacidades cognitivas, devemos buscar compreender o que se espera razoavelmente de seres humanos quando eles fazem uso inteligente de seus recursos cognitivos. Pois suponha, diz Stenmark, que formemos cerca de 50 mil crenças por dia (sobre pessoas, notícias, carros etc.). Se tivéssemos que avaliar cuidadosamente as evidências, fazendo juízo informado sobre cada uma delas, isso geraria ainda mais crenças (sobre tais avaliações), aumentando rapidamente para centenas de milhares. O resultado, evidentemente, seria uma sobrecarga mental de tal natureza que nos deixaria intelectualmente paralisados, incapazes de funcionar normalmente. Por isso, a racionalidade humana precisa operar de forma mais sensata, sem exigir evidência explícita para cada crença,16 pois, se você segue realmente este modelo de racionalidade, você não seria capaz de fazer muita coisa na vida. Conscientes de nossos próprios limites cognitivos, não é racional tentar satisfazer uma demanda dessas.

A racionalidade humana precisa operar de forma mais sensata, sem exigir evidência explícita para cada crença.

É claro que isso não significa que as evidências não sejam importantes; todos nós precisamos de evidências sobre o status de algumas de nossas crenças. Crenças científicas, como a crença na teoria da evolução, no Big Bang ou na relatividade geral, por exemplo, precisam de evidências inferenciais para serem tidas como racionais, de uma maneira que a crença de que minha filha Ana Sofia existe não precisa.

O leitor mais atento deve ter notado que o evidencialismo parece oscilar entre dois extremos pouco confortáveis: ou ele é permissivo demais, legitimando crenças absurdas, ou se torna restritivo demais, desqualificando crenças que, em nossa prática diária, consideramos perfeitamente racionais.

Os evidencialistas tentaram contornar esse problema, de modo que há diferentes formas de evidencialismo. Alguns insistem numa versão estrita, segundo a qual uma crença só é racional se for sustentada por evidências avaliáveis pelo agente, exigindo, assim, argumentos, como no projeto clássico da teologia natural.17 Outros adotam uma versão mais moderada, segundo a qual nossas crenças podem ser justificadas a partir daquilo que nos parece verdadeiro à primeira vista (nossas experiências, percepções e intuições), desde que não haja razões contrárias que as anulem.18 Se parece que Deus existe, então estaríamos prima facie justificados em acreditar nisso, pois tal experiência contaria como evidência (a menos, claro, que surjam razões contrárias que anulem tal justificação). Mas dado ainda que essa parece ser uma forma muito permissiva, há ainda evidencialistas que pensam que nem toda aparência conta automaticamente como evidência, mas apenas aquelas que, consideradas no conjunto total das evidências disponíveis ao agente, realmente contribuem para tornar a crença mais provável.19

No cômputo geral, todos eles concordam com o fato de que a evidência desempenha algum tipo de papel central na racionalidade da crença em Deus, mesmo divergindo sobre o que conta como evidência e sobre o quanto dela é necessário para que o teísmo seja considerado racional. Mas será mesmo necessário reunir algum conjunto de evidências para acreditar racionalmente em Deus? Não seria como exigir um conjunto de evidências para acreditar que minha filha Ana Sofia é uma pessoa?

Mas será mesmo necessário reunir algum conjunto de evidências para acreditar racionalmente em Deus?
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* Este é o segundo artigo da série especial Epistemologia da Crença Religiosa.

1. Bertrand Russell, The Autobiography of Bertrand Russell: 1872–1914, 1967, p. 84.

2. Veja Richard Dawkins, Deus, um delírio, 2007.

3. Steven Pinker, O novo iluminismo: em defesa da razão, da ciência e do humanismo, 2018, p. 492.

4. Sam Harris, Carta a uma nação cristã, 2007, p. 67.

5. Richard Dawkins, Ciência na alma: escritos de um racionalista fervoroso, 2018, p. 322.

6. David Hume, Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral, 2010, p. 155.

7. William Clifford, “A ética da crença”, In: Cadernos UFS Filosofia, Fasc. XIII, vol. 8, 2010, p. 137.

8. Para um debate sobre esse conceito, veja James K. Dew Jr.; Ronnie P. Campbell Jr. (Orgs.), Teologia natural: cinco visões cristãs, 2025. Veja também minha resenha: Provas da existência de Deus: cinco olhares sobre Teologia Natural. Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 6, jul-dez, 2025.

9. Em seu texto Two Dozen (or so) Theistic Arguments, Plantinga apenas esquematizou o argumento. Um desenvolvimento bem mais sofisticado encontra-se em Ted Poston, “(Z) The Argument from (A) to (Y): The Argument from So Many Arguments”, In: Jerry Walls; Trent Dougherty (Orgs.), Two Dozen (or so) Arguments for God: The Plantinga Project, 2018.

10. Veja um excelente mapeamento dos vários argumentos teístas publicados em periódicos acadêmicos e em livros de filosofia analítica no excelente site do filósofo C. A. McIntosh. Escrevi um livro que faz um tratamento apropriado de alguns desses argumentos, intitulado Deus: uma defesa filosófica, que está no prelo.

11. Richard Swinburne, A existência de Deus, 2019.

12. Richard Swinburne, Deus existe?, 2015, p. 18. Essa é uma versão mais acessível do argumento de Swinburne, voltada a leitores sem formação filosófica.

13. Apesar de os filósofos concordarem que o conceito de evidência é muitíssimo importante na epistemologia, há um grande desacordo sobre o que conta como evidência: alguns defendem que ela consiste em estados mentais (como experiências e crenças), enquanto outros a entendem como fatos ou proposições. Veja Thomas Kelly, “Evidence”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2016. Clique aqui para acessar.

14. Esse é um argumento de Michael Bergmann, “Evidentialism and the Great Pumpkin Objection”, In: Trent Dougherty (Ed.), Evidentialism and Its Discontents, 2011.

15. Mikael Stenmark, Como relacionar ciência e religião: um modelo multidimensional, 2021, p. 132-139.

16. Ibidem, p. 139.

17. Veja John Depos, “Classical Evidentialism”, In: Depoe & McNabb (Orgs.). Debating Christian Religious Epistemology: An Introduction to Five Views on the Knowledge of God, 2020.

18. Logan Paul Gage; Blake McAllister, “Phenomenal Conservatism”, In: Debating Christian Religious Epistemology: An Introduction to Five Views on the Knowledge of God, 2020.

19. Kevin McCain, “Evidence and Religious Belief”, In: Fuqua & McNabb (Org.), The Cambridge Handbook of Religious Epistemology, 2023.

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