É racional acreditar em Deus sem evidências?

Bruno Ribeiro Nascimento|

20/07/2026

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Bruno Ribeiro Nascimento

Doutor em Filosofia (UFRN), Mestre em Comunicação e Culturas Midiáticas (UFPB), Graduado em Filosofia (UCB) Letras-Português (UFPB) e em Comunicação Social (UFPB). Professor de Filosofia da Religião da Faculdade Internacional Cidade Viva e membro da Associação Brasileira de Filosofia da Religião (ABFR).

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Como citar

Nascimento, Bruno Ribeiro. É racional acreditar em Deus sem evidências?. Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 8, jul-dez, 2026.

Quando o grande filósofo Alvin Plantinga estudou em Harvard, ele encontrou pela primeira vez vários não cristãos sérios e dedicados, que defendiam uma diversidade enorme de opiniões sobre religião; algumas delas vinham de pessoas altamente inteligentes e talentosas, que tinham pouco mais do que desprezo pelo que Plantinga acreditava. Tal diversidade o levou a avaliar e questionar suas próprias crenças cristãs. Contudo, certa noite, enquanto voltava do jantar para seu dormitório, Plantinga teve uma profunda experiência religiosa que “resolveu suas dúvidas” e afetou profundamente sua abordagem sobre como pensar a crença em Deus. Estava escuro, ventava, chovia e tudo ao seu redor parecia hostil. Mas, de repente, foi como se os céus se abrissem, e ele sentiu, com grande clareza, convicção e persuasão que o Senhor Deus estava realmente ali. Nos termos de Plantinga, “eu ainda estava envolvido com os argumentos sobre a existência de Deus, mas eles frequentemente me pareciam meramente acadêmicos, de pouca relevância existencial, como se estivéssemos discutindo se realmente houve um passado, por exemplo, ou se realmente existem outras pessoas, em vez de apenas robôs engenhosamente construídos”.1

Vimos que existe uma quantidade monumental de argumentos e debates filosóficos sobre a crença em Deus na epistemologia da religião. Grande parte das pessoas que creem em Deus, porém, não recorrem a tais provas ou argumentos para fundamentar suas crenças. Provavelmente, suponho, a maioria delas sequer ouviu falar em tais evidências. Mas se elas não acreditam fundamentadas em evidências, acreditam fundamentadas em quê?

Crença em Deus sem argumentos (ou crer sem provar: a epistemologia reformada)

Uma tese relevante que buscou responder essa pergunta é a chamada Epistemologia Reformada. Desenvolvida por filósofos como Alvin Plantinga, Nicholas Wolterstorff e William Alston, ela sustenta que a crença em Deus pode ser racional, mesmo que o teísta não conheça qualquer evidência em favor da existência de Deus – na verdade, mesmo que ele não acredite que existam tais evidências e mesmo se, de fato, não existirem tais evidências. A crença em Deus não é intelectualmente defeituosa na ausência de provas ou argumentos, pois estes não são necessários para conferir racionalidade à crença teísta. Mas se ele não acredita racionalmente com base em argumentos, como o teísmo pode ser racional?

A crença em Deus não é intelectualmente defeituosa na ausência de provas ou argumentos, pois estes não são necessários para conferir racionalidade à crença teísta.

Para responder essa pergunta, os epistemólogos reformados olharam para o modo como nossas crenças são formadas: muitas das crenças que sabemos serem verdadeiras são naturalmente formadas em nós; ou seja,2 elas não são derivadas de provas ou argumentos. De fato, as crenças mais certas de que dispomos, como a crença de que existe um mundo fora de nossa mente, ou que o passado tem mais de cinco minutos, ou que existem outras mentes, ou ainda que nossas faculdades cognitivas são confiáveis, são crenças desse tipo. Mas, por serem formadas desse modo, isso não significa que elas são infundadas.

Para entender como isso se dá, Plantinga faz uma sutil distinção entre “fundamento” e “evidência”.3 Para compreender melhor a força dessa distinção, considere o seguinte argumento elaborado por mim:4 grande parte das pessoas possui uma convicção ou crença natural de que agem livremente, isto é, que elas são autoras de suas ações e que poderiam agir de forma diferente daquela como efetivamente agiram. Nos termos do grande filósofo Thomas Reid, “uma convicção tão precoce, tão universal e tão necessária na maioria de nossas operações racionais que deve ser o resultado de nossa constituição e da obra Daquele que nos criou”.5 Essa crença é geralmente chamada de livre-arbítrio, isto é, a capacidade do agente de controlar suas próprias ações. Esse controle envolve dois aspectos: a liberdade de agir de modo diferente do que se agiu (poder fazer ou não fazer algo) e ser o autor da ação, isto é, o fato de que o agente é a fonte de suas decisões, não sendo totalmente determinado por causas externas ou antecedentes.

De onde vem tal convicção? Certamente não surge pela análise detalhada de argumentos filosóficos ou de evidências explícitas, mas é fundamentada na experiência imediata que temos de nós mesmos como agentes. Antes de qualquer reflexão filosófica, já nos percebemos como capazes de agir, decidir e controlar nossas ações. Quando observamos nossa própria consciência, sentimos claramente que podemos agir de outra forma. Essa crença, além disso, é profundamente enraizada e universal, aparecendo desde cedo na vida humana e estando implícita em práticas cotidianas como prometer, aconselhar e julgar. Para boa parte da humanidade, só faz sentido atribuir culpa ou mérito se o agente pudesse ter agido de maneira diferente.6 E mesmo diante de desafios filosóficos e científicos, essa crença não é facilmente abandonada. Embora existam argumentos contra o livre-arbítrio, eles não parecem suficientemente fortes para superar a força de nossa experiência de liberdade.

Ora, a crença em Deus parece ser uma crença desse tipo. Ela parece que se forma em nós naturalmente, decorrente da predisposição normal de nossas faculdades cognitivas.7 Para boa parte dos teístas, a crença em Deus parece muitíssimo convincente, claramente verdadeira, atraente – tal como a crença de que amo e me relaciono com minha filha, de que o passado existe ou que tenho livre-arbítrio. O teísmo se encontra profundamente embutido em nossa cognição, fazendo parte da maneira ordinária como nós, humanos, pensamos o mundo. Como aponta William Alston, muitos teístas afirmam possuir experiências diretas da presença de Deus;8 alguns experimentam a presença dEle em momentos de oração, outros sentem seu coração arder quando as Escrituras são lidas, e outros, ainda, parecem ver claramente a mão do Senhor dirigindo e guiando suas vidas. Para os crentes, algumas dessas experiências mais profundas da presença de Deus são de tal maneira verdadeiras que é difícil duvidar delas. E, assim como a crença no livre-arbítrio, a crença em Deus aparece de forma precoce, é amplamente difundida entre diferentes culturas e está integrada a práticas fundamentais da vida humana.

O teísmo se encontra profundamente embutido em nossa cognição, fazendo parte da maneira ordinária como nós, humanos, pensamos o mundo.

Além disso, embora existam críticas e objeções filosóficas ao teísmo, elas não parecem suficientemente decisivas para eliminar sua plausibilidade racional. Nesse sentido, ambas as crenças compartilham um mesmo perfil epistêmico. Os filósofos chamam esse tipo de argumento de Argumento de paridade: se certos tipos de crenças comuns são considerados racionais sem prova conclusiva (como a crença no livre-arbítrio), então crenças religiosas podem ser igualmente racionais nas mesmas condições.9

Em suma, o que essas duas crenças têm em comum (assim como outras crenças naturais que temos) é a noção de que, apesar de todos nós termos uma forte inclinação para sua aceitabilidade intelectual, e apesar de a maioria de nós acreditar que elas são racionais, não possuímos um argumento conclusivo em seu favor. Nesse caso, se a crença em Deus parece assim tão certa para os teístas – certa como é a crença de que temos livre-arbítrio –, parece que a coisa mais racional a fazer é acreditar que existe tal pessoa como Deus, pelo menos até termos boas razões para pensar ao contrário. Se a crença em Deus se revela à experiência do teísta como imediata e diretamente justificada, pareceria ser irrazoável solicitar que os teístas vejam sua crença em Deus como exigindo um argumento para ser considerada racional. É claro que aqui é preciso fazer uma qualificação importante. O adepto da Epistemologia Reformada não está comprometido com a ideia de que tais experiências provam a existência de Deus – como se elas fossem um tipo de argumento ou evidência. Também não se está afirmando que qualquer pessoa que tenha qualquer experiência ou inclinação religiosa seja racional. Nem ainda se está alegando que todas as crenças teístas formadas de maneira direta são intelectualmente adequadas. De acordo com Nicholas Wolterstorff, as afirmações da Epistemologia Reformada são muito mais cautelosas: apenas “algumas das crenças imediatas sobre Deus mantidas por algumas pessoas possuem esse mérito [epistêmico]”.10

Conhecimento primeiro: saber que Deus existe sem precisar provar

Muita coisa poderia ser dita sobre a Epistemologia Reformada, envolvendo as réplicas que são feitas contra ela, bem como as tréplicas.11 Aqui, quero explorar apenas um desenvolvimento recente: podemos saber que Deus existe a partir da perspectiva do conhecimento primeiro (knowledge-first), associada a um importante filósofo contemporâneo, Timothy Williamson.12

A teoria de Williamson funciona, grosso modo, da seguinte forma: os filósofos tradicionalmente procuram estabelecer critérios para que uma crença conte como conhecimento. Na análise clássica, por exemplo, sustenta-se que, para sabermos que algo é verdadeiro, é necessário que o agente acredite nessa proposição (crença), que ela seja de fato verdadeira (verdade) e que haja boas razões ou justificações para sustentá-la (justificação).13 A epistemologia do conhecimento-primeiro, por outro lado, toma o conhecimento como conceito fundamental e sustenta que noções como justificação, racionalidade e evidência devem ser explicadas a partir dele, isto é, em termos do que efetivamente sabemos.

Embora Timothy Williamson não seja propriamente um amigo do teísmo, Christina Dietz e John Hawthorne desenvolvem uma proposta interessante a partir da epistemologia do conhecimento-primeiro.14 Se o ponto de partida para avaliar a racionalidade de uma crença não é a busca por evidências independentes, mas o conjunto de conhecimentos efetivamente disponíveis ao sujeito, então, caso alguém realmente saiba que Deus existe, essa proposição já integra o seu corpo de evidências. Com isso, há uma inversão da lógica tradicional do evidencialismo: em vez de exigir evidências prévias para justificar a crença teísta, admite-se que, sendo o teísmo um tipo de conhecimento, ela mesma pode desempenhar o papel de evidência, pois os conceitos de evidência e racionalidade precisam ser derivados daquilo que nós sabemos. Assim, uma Epistemologia Reformada da teoria do conhecimento-primeiro pode sustentar que a crença em Deus é racional mesmo sem argumentos clássicos, pois ela pode constituir diretamente parte da base epistêmica do agente.

Em vez de exigir evidências prévias para justificar a crença teísta, admite-se que, sendo o teísmo um tipo de conhecimento, ela mesma pode desempenhar o papel de evidência.

Vale notar, a título de conclusão, que o teísta não sustenta sua crença em Deus de modo hipotético ou meramente inferencial. Se o conhecimento é o ponto de partida da vida intelectual das pessoas, então a crença em Deus pode ser compreendida como parte daquilo que o teísta já sabe. Nesse sentido, o compromisso do crente com o teísmo não é o resultado de uma cadeia de argumentos filosóficos; ele é fruto de algo mais básico, o conhecimento, a partir do qual outras avaliações (evidência, racionalidade, justificação etc.) devem ser compreendidas. Se sabemos que Deus existe, então não há nada de irracional ou injustificado em aceitar o teísmo como uma crença racional. Claro que isso depende de um grande “se”: se há conhecimento nesse caso. Mas talvez aqui os limites da filosofia se tornem evidentes: ela pode esclarecer as condições da racionalidade, mas não necessariamente determinar (pelo menos não de forma conclusiva) se esse conhecimento está ou não presente aqui.

É tempo de concluir nossa breve jornada epistemológica. Como vimos, a questão que colocamos no início (a crença em Deus é racional?) é mais complexa do que parece à primeira vista. Há todo um arsenal de questões filosóficas para tentar responder tal questão: o que é racionalidade, o que conta como evidência, se os argumentos em favor da existência de Deus são bons o suficiente, se tais argumentos são necessários para a racionalidade, se é possível saber que Deus existe mesmo sem tais provas etc. Todos esses tópicos são objeto de profundo debate, respostas sofisticadas e desacordos filosóficos na epistemologia da crença religiosa. Longe de ser uma questão encerrada, o debate sobre a racionalidade da crença religiosa permanece vivo e filosoficamente fecundo.

Uma lição que surge desse debate é que teístas e não teístas devem ser epistemicamente honestos sobre os limites de suas próprias posições. Os que exigem provas para o teísmo precisam explicar melhor por que essa exigência não se aplica igualmente a tantas outras crenças fundamentais que todos nós aceitamos sem demonstração (por exemplo, a crença no livre-arbítrio). Os que não exigem provas, por sua vez, não podem se esquivar das responsabilidades intelectuais que acompanham qualquer crença séria. Contudo, talvez a lição mais profunda seja que a filosofia e a academia têm seus limites, de modo que reconhecê-los faz parte da sabedoria intelectual. A filosofia e a epistemologia, penso, podem clarificar conceitos, fazer perguntas pertinentes e mostrar que certos sensos comuns são menos sólidos do que parecem. Mas elas não podem, sugiro, determinar se alguém realmente conhece a Deus. Essa última questão ultrapassa o domínio da pesquisa acadêmica e toca em algo que a tradição cristã sempre soube: conhecer a Deus não é apenas saber que Ele existe, mas relacionar-se com Ele, tal como uma pessoa se relaciona com outra. Falando por mim, e não em nome da epistemologia da religião, conhecer a Deus é um tipo de conhecimento valioso – de fato, o mais valioso de todos.

Talvez a lição mais profunda seja que a filosofia e a academia têm seus limites, de modo que reconhecê-los faz parte da sabedoria intelectual.
Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

* Este é o terceiro e último artigo da série especial Epistemologia da Crença Religiosa.

1. Alvin Plantinga, “A Christian Life Partly Lived”, In: Kelly James Clark (Org.), Philosophers Who Believe: the spiritual journeys of 11 leading thinkers, 1993, p. 51-52.

2. Alvin Plantinga, Crença cristã avalizada, 2018, p. 195.

3. Ibidem, p. 192-194.

4. Veja meu ensaio Deus é uma hipótese científica? Clique aqui para acessar. 

5. Thomas Reid, Thomas Reid’s inquiry and essays, 1863, p. 336.

6. Hagop Sarkissian et al., “Is belief in free will a cultural universal?”, Mind & Language, v. 25, n. 3, 2010, p. 346-358.

7. Kelly James Clark, God and the brain: the rationality of belief, 2019.

8. William Alston, Percebendo Deus: a experiência religiosa justificada, 2020.

9. Mark S. McLeod, Rationality and theistic belief: an essay on reformed epistemology, 1993.

10. Nicholas Wolterstorff, “Reformed epistemology”, In: D. Z. Phillips; Timothy Tessin (Eds.), Philosophy of Religion in the 21st Century, 2001, p. 44.

11. Bruno Nascimento, “Seria a epistemologia reformada um tipo de fideísmo?”, Revista Brasileira de Filosofia da Religião, v. 9, n. 2, 2022, p. 75-99.

12. Timothy Williamson, “Knowledge First”, In: M. Steup; J. Turri; E. Sosa (Eds.), Contemporary Debates in Epistemology, 2014.

13. Essa abordagem enfrentou vários problemas a partir de um artigo clássico de Edmund Gettier. Veja: Edmund Gettier, “Is justified true belief knowledge?”, Analysis, v. 23, n. 6, 1963, p. 121-123.

14. Christina Dietz; John Hawthorne, “Knowledge-First Epistemology and Religious Belief”, In: Fuqua; McNabb (Org.), The Cambridge Handbook of Religious Epistemology, 2023, p. 256-270.

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