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Marcelo Cabral

Um vício dos astutos

(Ou: até mesmo os inteligentes dão com os burros n’água)

02/08/2024

Acorda, nem levanta, pega o celular, e mais um dia começa. WhatsApp, Instagram, X, sites de notícias ou alguma outra rede social: no mundo atual, o velho jornal impresso foi suplantado por uma série quase infinita de canais de informação que, conscientes ou não, consumimos com grande volúpia. Ainda tem os podcasts, vídeos no YouTube e provavelmente outros meios ainda mais populares que desconheço.

Além do acesso quase ininterrupto a informações, muito se fala a respeito de como as redes sociais transformaram quase todo mundo em produtor de informação. Se antes tal empreendimento era restrito aos acadêmicos, jornalistas e a mais algumas poucas profissões, hoje qualquer um com um perfil em uma rede social pode – e frequentemente o faz – escrever e postar. Compartilham-se ideias, impressões, reflexões sobre tudo e mais um pouco.

No meio cristão, isso é ainda mais exacerbado. Talvez seja o ímpeto missional, talvez a necessidade de aparecer. Toda música, todo filme ou toda série vira palco de infindáveis (e repetitivas) análises, com tons geralmente moralizantes e paternalistas. Enquanto escrevo essa coluna, já no 4º dia das Olimpíadas de Paris, é incontável a quantidade de posts sobre a famigerada cena da abertura que parodiou o quadro de Da Vinci retratando a Santa Ceia. (Sei que alguns alegam que a paródia foi de um outro quadro sobre Dionísio, mas deixo esse debate pra quem se interessa.)

Como de costume, nessa coluna não escreverei sobre esse ou algum outro caso “do momento”. Creio que há gente mais competente para fazê-lo. Quero, em vez disso, refletir sobre o hábito de produção desenfreada de informações, particularmente com vistas a um vício intelectual extremamente frequente: a rigidez de compreensão. Esse vício, defenderei, é comum até mesmo em textos e posts de pessoas inteligentes, bem-formadas e com bons recursos linguísticos.

A rigidez de compreensão é uma tendência de usar um ou poucos constructos teóricos como chave-hermenêutica para ler e interpretar todo e qualquer objeto de investigação. Um objeto de investigação pode ser virtualmente qualquer coisa: uma questão, um livro, um poema, uma tese, um quadro, um evento cultural, uma propriedade, entre muitas outras coisas.

Esse vício se mostra muito prontamente em teóricos que, de tão apegados ao seu esquema interpretativo, desprezam esquemas concorrentes. Isso é perceptível no psicólogo comportamental que não vê nenhum valor na psicanálise, no filósofo analítico que desdenha de autores como Paul Ricoeur ou Nietzsche, no filósofo continental que diz que os analíticos são rasos, no cientista que acha que filosofia não passa de conversa fiada, no biblista que acha que teólogos sistemáticos são de uma categoria inferior… essa lista não tem fim.

Para além do desprezo por tradições intelectuais ou abordagens teóricas distintas, esse vício tem outras maneiras de se manifestar. Ele ocorre quando alguém impõe seu esquema interpretativo favorito sob o objeto que interpreta de forma ad hoc ou forçada. Imagine alguém que, ao interpretar um livro, já o lê com sua teoria prefixada e não permite que o próprio texto, com suas complexidades, suas nuances e sua estrutura próprias contradiga ou transgrida a teoria do leitor.

Italo Calvino exemplifica esse vício com sua típica sagacidade e ironia:

Recebi uma visita de uma moça que está escrevendo uma tese sobre meus romances para um grupo de estudos universitários muito importante. Vejo que minha obra lhe serve perfeitamente para demonstrar suas teorias, o que decerto é um fato positivo, para meus romances ou para as teorias, não sei. Sua conversa, muito bem fundamentada, passa-me a impressão de que se trata de um trabalho conduzido com seriedade; mas meus livros, quando vistos pelos olhos dessa moça, são para mim irreconhecíveis. Não ponho em dúvida que essa Lotaria (assim se chama) os tenha lido conscienciosamente, mas creio que os leu apenas para encontrar neles o que já estava convencida de achar ali antes de tê-los lido.¹

Como todos os vícios, a rigidez de compreensão tem versões mais diretas e outras mais sutis. Na sua versão mais direta, apresenta-se em intérpretes que possuem um único e simplório esquema interpretativo e o impõe indistintamente em todo e qualquer objeto. Pense em cristãos que se fixam no esquema “criação-queda-redenção” para explicar o enredo de todos os filmes, o significado de todos os quadros e a estrutura de todos os livros.

Em suas formas mais sutis, pode ser um vício presente até nos mais letrados, nos experts, particularmente acadêmicos que têm um zelo excessivo por suas teorias ou formas de entendimento. Um marxista que vê instâncias de suas teorias em tudo ou um psicanalista que, em qualquer evento, enxerga confirmações das doutrinas freudianas.

É importante lembrar que os bons livros – assim como qualquer artefato cultural –, embora possam certamente ser iluminados por certas teorias específicas, dificilmente se reduzem a elas. O bom leitor será capaz de empregar uma gama ampla de abordagens teóricas e, mais do que isso, será capaz de deixar o texto falar por si, de apreciar e entender as singularidades do autor e dos retratos (da vida humana, por exemplo) que ele explora e expõe em seu texto.

O bom leitor será capaz de empregar uma gama ampla de abordagens teóricas e, mais do que isso, será capaz de deixar o texto falar por si, de apreciar e entender as singularidades do autor e dos retratos (da vida humana, por exemplo) que ele explora e expõe em seu texto.

O vício intelectual da rigidez de compreensão, assim como os demais vícios epistêmicos, pode ser analisado por ao menos três eixos: (1) capacidade cognitiva, (2) crença e (3) motivação.

  1. É uma inabilidade de apreciar recursos epistêmicos para além de um ou poucos recursos que constitui suas atitudes interpretativas prediletas;
  2. É uma crença (ou conjunto de crenças) de que sua preferência teórica é superior a todas as outras teorias ou esquemas interpretativos, em todo e qualquer contexto;
  3. Duas motivações características:

a. Uma falta de motivação em apreciar outros esquemas interpretativos.

b. Uma forte motivação em aplicar apenas seu limitado conjunto de esquemas indiscriminadamente a qualquer texto ou objeto de investigação.

Lembremos, entretanto, que não há nenhum problema inerente em uma pessoa, mesmo um acadêmico, possuir uma teoria favorita ou um conjunto restrito de esquemas interpretativos. Afinal de contas, para que se domine uma teoria, é necessário muito treino e anos de dedicação. Permitam-me alguns exemplos de meu campo de estudos.

Para que um estudante de filosofia adquira maestria em um filósofo específico, é necessário anos e anos de dedicação, treino sob supervisão adequada, participação em boas comunidades epistêmicas, aquisição de uma série de competências cognitivas e sucesso em articular seus entendimentos sobre o autor. Imagine um kantiano. Para além de ler repetidas vezes e com extremo cuidado algumas das obras de Kant, a pessoa precisará estudar a literatura secundária relevante, participar de congressos de especialistas, estudar com outros kantianos e articular seus entendimentos de modo a serem validados pela comunidade de especialistas – por exemplo, por meio de publicações em boas revistas acadêmicas.

Assim, é pouco provável que um verdadeiro kantiano tenha tempo para se tornar especialista em Platão, em epistemologia analítica ou algum outro autor ou campo. É claro que, para ser um bom kantiano, ele precisará de algum estudo e entendimento da história da filosofia, especialmente dos antecessores de Kant e de seus principais interlocutores. Mas, de todo modo, seu domínio de outros autores será limitado.

Mesmo depois de conquistar o que chamaríamos de uma maestria em Kant, essa pessoa provavelmente teria domínio de um aspecto, livro ou tese particular desse autor. Não seria estranho, e nem errado, se tal filósofo utilizasse seu treino e domínio de ideias kantianas para interpretar coisas e objetos diversos.

O vício que estou aqui apontando é o uso indiscriminado de um conjunto muito restrito de preferências teóricas ; é o uso raso de um conceito ou de uma teoria, como quando alguém, que não é especialista e não possui nenhuma maestria, torna-se dogmático em aplicar uma versão pouco polida de uma ideia teórica; é manifestado no desprezo por ideias ou repertórios conceituais distintos.

O vício que estou aqui apontando é o uso indiscriminado de um conjunto muito restrito de preferências teóricas [...].

Como é de sua natureza, o cultivo de um vício particular costuma se somar a outros vícios de sua vizinhança conceitual. Uma pessoa com rigidez de compreensão provavelmente se tornará demasiadamente dogmática a respeito de suas próprias ideias e interpretações, evitando aquilo que Jose Medina chama de “fricção epistêmica”, isto é, engajar-se ativa e abertamente com ideias e quadros epistêmicos que o desafiem. Sem uma propensão para ativamente buscar “mais alternativas que aquelas noticiadas”, corre-se o risco de aprofundar seus vícios, manter a ignorância e a “meta-cegueira”, isto é, a incapacidade de detectar “a própria inabilidade de entender certas coisas”.²

É comum de certos grupos, muito certos de suas próprias ideias, que pregam humildade, mas colocam-se rapidamente em pedestais, serem insensíveis às limitações de seus “próprios imaginários sociais, o que os acaba levando a uma série de outros vícios intelectuais, como preguiça intelectual, mentalidade fechada e arrogância epistêmica”.³

Com a pressão para que todos nos tornemos palpiteiros de plantão, escrevendo, tuitando ou instagramando sobre todo assunto polêmico ou que gere visualizações, os vícios intelectuais se reproduzem na mesma escala que crescem as publicações. Se a sabedoria é o cultivo das virtudes, é na mesma medida a abstenção e o esforço para se livrar dos vícios. Contra a rigidez intelectual, um pouco de mentalidade-aberta, de humildade intelectual, de inquisitividade e de amor ao conhecimento serão sempre boas vacinas.

Com a pressão para que todos nos tornemos palpiteiros de plantão, escrevendo, tuitando ou instagramando sobre todo assunto polêmico ou que gere visualizações, os vícios intelectuais se reproduzem na mesma escala que crescem as publicações.

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

1. Ítalo Calvino, Se um Viajante numa noite de inverno, 2023, p. 197.

2. Jose Medina, 2011, “The relevance of credibility excess in a proportional view of epistemic injustice: Differential epistemic authority and the social imaginary”, Social Epistemology, p. 29.   

3. Medina 2011, p. 26.    

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