ENSAIO

A dialética da consciência de si*

Esquece-te de ti mesmo e conhece-te a ti mesmo

Ana Beatriz de Andrade Delgado Ruggeri|

24/05/2024

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Ana Beatriz de Andrade Delgado Ruggeri

Graduada em Teologia pela Faculdade Internacional Cidade Viva (FICV), com pós-graduação em Educação Cristã Clássica pela mesma instituição. Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Atualmente é mestranda em Ciências das Religiões pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde se dedica à pesquisa na área de Literatura e Sagrado.

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Como citar

Ruggeri, Ana Beatriz Delgado. A dialética da consciência de si: esquece-te de ti mesmo e conhece-te a ti mesmo. Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 3, jan-jun, 2024.

Introdução

Explorar a natureza da consciência e da cognição implica a habilidade do indivíduo de reconhecer e refletir sobre si mesmo. Esse empreendimento envolve muitos questionamentos na filosofia da mente, tais como: o que é a mente? O que é a consciência? A consciência é uma propriedade exclusiva da mente humana? Qual é a relação entre mente e corpo? Qual é a natureza da experiência subjetiva? O que é a percepção? O mundo externo realmente existe? Essas são apenas algumas das inúmeras questões que emergem no intrincado tecido de interações entre o eu, o mundo e nossas experiências internas e externas. Dessa maneira, quando expressamos o desejo de conhecer nosso eu e buscamos o autoconhecimento, sabemos verdadeiramente o que isso significa? Para chegar à autoconsciência, muita coisa está envolvida, como as questões fundamentais sobre a nossa natureza e sobre a consciência do nosso eu. Todavia, será que sabemos definir o que é o eu?

Nesse contexto, o presente ensaio visa realizar uma investigação no campo da Filosofia da Mente, atravessando fronteiras com a Teologia e dialogando com certos aspectos da pesquisa psicológica. Para isso, será analisada a noção de autoconsciência por meio da filosofia de Louis Lavelle em sua obra O erro de Narciso. O cerne deste estudo é lançado sobre o Mito de Narciso, que servirá como fundamento para toda a estruturação deste trabalho, concentrando-se nas ideias de Lavelle e explorando como a autoconsciência retratada em Narciso se assemelha à noção de “autenticidade” na modernidade. Por fim, apresentarei uma perspectiva cristã sobre a importância de unir nosso eu a algo maior do que nós mesmos, uma autoconsciência que vai além do eu autocomplacente: Cristo.

O que é o eu?

O conceito do eu permeia discussões mais diversas ao longo do tempo, desde Platão a Descartes e até filósofos que estudam o self na contemporaneidade, como Charles Taylor. Immanuel Kant introduziu a distinção entre o eu transcendental e o eu empírico. Os teólogos da tradição cristã também pensaram sobre o self, como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino (Agostinho foi quem antecipou o cogito de Descartes, discutindo como a mente conhece a si mesma).

Assim, existem muitas formas de responder a essa questão; escolhemos então a resposta de Louis Lavelle, filósofo francês do século 20. Lavelle discute o eu de maneira profunda em sua obra Presença total, bem como na obra selecionada para este ensaio, O erro de Narciso. Para ele, o eu emerge do Ser – entendido como a totalidade da existência, que abarca todos os elementos da realidade, incluindo a experiência humana. No entanto, em contraste com as coisas criadas pelo Ser, como objetos inanimados e animais irracionais, o eu se distingue por sua consciência. O eu nunca é encontrado numa experiência separada do Ser, como algo que exista independentemente do Ser, mas o eu existente envolve a existência do Ser e constitui uma espécie de determinação desta. Dessa forma, o eu não pode ser compreendido isoladamente, mas está em constante interação com o Ser, que, por sua vez, é um ato eternamente presente e atuante.¹

Para Lavelle, os seres humanos possuem a capacidade única de ter consciência de si mesmos e da realidade ao seu redor. Por exemplo, o lírio e um elefante existem no mesmo grau do ser humano, mas há uma diferença entre eles na modalidade de sua existência: a consciência. Como Abraham Kuyper disse certa vez: “Mesmo que o lírio esteja vestido com uma glória maior do que a de Salomão em todo o seu esplendor, ele, todavia, não sabe de toda a sua beleza e não compreende a mínima parcela do pensamento de Deus que encontra expresso em sua existência”.²

Partimos então da perspectiva de que os seres humanos têm consciência de sua existência, diferentemente do lírio vestido em glória. E por que isso é importante? Porque nos permite agir no mundo e conhecer a realidade. Entrega-nos uma consciência que “vive a dialética das contradições, do sim e do não, mas encontra no Ser o Sim que supera os limites da consciência e tudo abraça e tudo atualiza.”³ Uma espécie de realidade ou verdade mais profunda que vai além das limitações da consciência individual, uma busca pela plenitude da totalidade que está sempre em movimento, agindo no mundo, uma vez que o Ser está sempre presente e em constante atividade. Além disso, diferentemente do lírio, a consciência de si nos permite não apenas admirar a beleza, mas também glorificar a grandeza de Deus pela própria existência.

Nessa perspectiva, não se trata apenas de alcançar um estado de entendimento, mas de viver em um processo constante de descoberta. Uma “profundidade do ser” nos permite acessar nossa consciência e reconhecer nossa existência de maneira reflexiva, ao mesmo tempo em que permanecemos inquietos diante das perguntas fundamentais da nossa alma e das exigências que isso envolve. Mesmo que tentemos ser como um animal ou um lírio, inconscientes de sua existência, não conseguimos fugir do eu consciente que faz parte do mundo e tem a liberdade de agir dentro do Ser, relacionando-se com suas próprias possibilidades, visto a sua capacidade volitiva de tomar decisões, e cujas ações moldam sua identidade e sua relação com o mundo e com o outro.

Tanto Lavelle quanto Santo Agostinho enfatizam a certeza da existência, do conhecimento e do amor próprio, desafiando os céticos; contudo, Lavelle acrescenta que o eu não é solitário como em Descartes, existindo em um mundo essencial para sua própria manifestação e existência.⁴ Agostinho diz que reconhecemos o eu no nosso próprio conhecimento e no nosso amor, e mesmo que esses sentimentos sejam direcionados a algo falso, a verdade de nosso amor permanece: “Porque não me engano quanto ao fato de amar, não me enganando no que amo, pois, embora o objeto fosse falso, seria verdadeiro que eu amava coisas falsas”.⁵

Por vezes, na era moderna, quando expressamos o desejo de autoconhecimento, estamos envoltos em uma vaga ideia do que isso realmente significa e limitados por uma superficialidade. Santo Agostinho, no livro A cidade de Deus, capítulo 2, diz que o homem é feito à imagem e semelhança de Deus e, mesmo estando distante de Deus e sendo diferente em substância, o ser humano é, por natureza, a criatura mais próxima de Deus; sendo assim, pode aperfeiçoar-se para se tornar ainda mais semelhante a Ele.⁶ Próxima especialmente pela parte que supera a existência dos animais: a mente, a razão e a própria autoconsciência. Contudo, essa proximidade é obscurecida por vícios profundos e arraigados, uma vez que, para a essência do homem, o vício é contrário à sua natureza e só pode prejudicá-la. Não seria um vício afastar-se de Deus se não fosse mais natural estar com Ele.⁷ Assim, para Agostinho, a essência do homem deve ser instruída e purificada pela fé para caminhar com confiança em direção à verdade. Além disso, ele defende que a própria Verdade, Jesus, o Filho de Deus, ao assumir a forma humana, estabeleceu e fundou a fé, proporcionando ao homem um caminho através do Homem-Deus até o Deus do homem.

Desse modo, é da natureza do eu reconhecer a Verdade, o Bem e a Beleza, mas há uma mácula em sua essência que reverbera em sua manifestação mais profunda. Vemos que o eu evita tudo aquilo que é mais nobre e belo no mundo, tudo o que tem valor e que deve ser amado. Evita essas coisas sob o pretexto de uma suposta incapacidade ou indignidade, quando, na verdade, está fugindo de si mesmo. As coisas mais superficiais e baixas que o atraem ou o retém são apenas distrações, mais superficiais e triviais, que seduzem e afastam do que o eu realmente é. Não é que não tenha a capacidade de encarar a verdadeira natureza, mas sim porque falta coragem para empregar plenamente as habilidades e responder às demandas internas.⁸

Na experiência do eu, o homem busca, sim, pelas coisas nobres que deve amar e se autoconhecer, todavia, essa busca é corrompida por vícios e por um ego inflamado que o leva para outros fins e que busca qualquer outra coisa, menos aquilo que deseja. Narciso, por exemplo, conheceu a si mesmo, mas falhou na experiência desse conhecimento; por causa do seu vício, foi impedido não somente de unir-se à luz, mas também de suportá-la, falhando miseravelmente em compreender sua verdadeira essência, pois desejou que ela fosse a sua própria imagem e semelhança.

Podemos conhecer verdadeiramente a nós mesmos ao olharmos para nós?

Na mitologia grega, o mito de Narciso, narrado por Ovídio,⁹ nos conta a história de um jovem de beleza inigualável, cujo amor-próprio o levou a um destino trágico. Narciso despertou muitas paixões ao seu redor, mas sua fixação por sua própria imagem o impediu de amar qualquer outra pessoa que não fosse ele mesmo. Eco, uma ninfa apaixonada por ele, foi rejeitada sem piedade, assim como outras ninfas e jovens que também o desejavam; essa atitude de Narciso desencadeou ressentimento entre eles. Dessa forma, ressentido, um deles ergueu as mãos para o céu, exclamando: “Que ele ame, por sua vez, e não possa possuir o objeto amado!”.¹⁰ A deusa de Ramnonte atendeu a essa prece, e Narciso foi castigado quando se deparou com sua própria imagem refletida em uma fonte cristalina. Ele se apaixonou por essa imagem sem perceber que era apenas um reflexo de si mesmo. Seus esforços para alcançar o que via foram em vão, pois não havia nada além da sua própria imagem na água. Nem mesmo as repetições das palavras de Eco conseguiram abrir seus olhos para a realidade.

A obsessão de Narciso o consumiu gradualmente, pois desejava algo inalcançável: “Oh! se eu pudesse separar-me do meu próprio corpo! Desejo desusado em um amante, queria estar separado do que amo!” Narciso foi cativado pela beleza ilusória que se apresentava a ele sem compreender que era apenas um reflexo de si mesmo. E quando finalmente reconheceu sua própria imagem, foi consumido pela dor e aguardou a morte, fixando seus olhos na água. Assim, a sua morte foi resultado de sua própria autoilusão, sendo encontrado no local apenas uma flor dourada com flores brancas no lugar de seu corpo. E, mesmo após a morte, na condenação do inferno, Narciso ainda buscava sua imagem refletida nas águas do Estige, mostrando a profundidade de sua obsessão durante toda a eternidade.

O mito nos leva a questionar se de fato alcançamos o conhecimento verdadeiro sobre nós mesmos ao nos observarmos ou se, ao contrário, estamos sucumbindo ao mesmo erro de Narciso, envolvendo-nos em uma obsessão pela própria imagem. Tal obsessão levou Narciso ao sacrifício da própria vida pela contemplação de si mesmo, desviando-se da sua essência.

Narciso foi condenado a amar, por sua vez, e não poder possuir o objeto amado; e não foi isso que aconteceu? Ele ansiava por ser Narciso, mas se surpreendeu ao perceber que era, na verdade, um objeto para si mesmo. O seu desejo era ser, ao mesmo tempo, amante e amado, unindo em si dois papeis que normalmente se contrapõem. Porém, ele se viu amando um objeto que não podia possuir.

No entanto, como podemos definir o autoconhecimento senão como o ato de olhar para si mesmo? Em O erro de Narciso, Louis Lavelle defende que a consciência deve se perceber como o cimo de sua alma (a alma sendo a essência, a única capaz de unir o homem a Deus). “Um eu que se descobre com emoção, mas também é uma alma, uma essência espiritual, uma pura personalidade livre, que corresponde à vocação assumida.”¹¹ Aqui, Lavelle contrasta com a visão psicanalítica, não por sua abordagem naturalista ou irreligiosa, mas por não ir além do diálogo interno do eu consigo mesmo, que propõe uma reorganização das diferentes facetas que compõem o eu, e não um diálogo do eu com a alma. Para ele, o eu não deve ser exaltado excessivamente, como frequentemente é sugerido pela psicanálise, promovendo uma centralidade do eu, nem deve ser aniquilado até o ponto de negá-lo completamente. O problema está no egoísmo inerente à consciência que temos de nós mesmos como seres únicos e inimitáveis. Esse amor exagerado por nós mesmos nos aprisiona, transformando-nos em escravos de nossos próprios desejos e de nossas próprias vontades, impedindo-nos de atingir a verdadeira liberdade da alma.¹²

Com frequência, o ego humano tende a se concentrar em si mesmo. Por exemplo, diante de uma dor de cabeça, é comum buscarmos imediatamente uma maneira de aliviá-la, demonstrando nossa inclinação natural ao autocuidado, uma tendência inerente à natureza humana. No entanto, vemos que, no mito, é o amor excessivo de Narciso por si mesmo que o leva à perdição: a fixação obsessiva em sua própria imagem o impede de ver além de si mesmo e o desconecta das relações genuínas com os outros e com o mundo ao seu redor. Ele se mira em vez de viver, o que é seu primeiro pecado. Busca sua essência e encontra apenas sua imagem, que não cessa de decepcioná-lo; e o espelho aprisiona um atrás-do-mundo que lhe escapa.¹³

O belo jovem enfrentava dificuldades em se conhecer em virtude de sua superficialidade, impulsionada por sua vaidade e pelo desejo de posse. Sua identidade era moldada pela imagem idealizada que havia criado de si mesmo, tornando-o incapaz de conectar-se genuinamente com o mundo e as pessoas ao seu redor. Ele via tudo como extensões de sua própria imagem, instrumentalizando as pessoas para se verem como reflexos dele mesmo, cobrindo-os com uma camada de narcisismo. Ao encontrar sua própria imagem refletida, despertou para uma existência mais profunda, mas ainda estava preso em uma visão egocêntrica que o impediu de enxergar além de si mesmo; seu único desejo era possuir essa imagem.

Para que Narciso seja plenamente realizado, é necessário que ele não permita que seu próprio ego o domine; aquilo que é atribuído ao eu é apenas uma fase que ele supera ao encontrar sua verdadeira essência, a alma. O diálogo entre a alma e o eu continua, mas agora em uma relação de harmonia e transcendência, onde o eu não está no comando, mas sim guiado pela alma em busca de pureza.¹⁴

Assim, o autoconhecimento se dá quando o eu assume seu lugar apropriado, desvela-se a habilidade de discernir a essência em detrimento da mera aparência, de desvendar o que verdadeiramente somos, libertos das ilusões que nos cercam. Com efeito, ergue-se como o antídoto capaz de quebrar as correntes de uma imagem superficial que encobre nossa essência. Somente ao deixarmos de lado o falso eu, que emerge quando nos prendemos unicamente à nossa superficialidade e evitamos a transcendência, podemos genuinamente nos conhecer. Isso requer um movimento não apenas de introspecção, mas também de extroversão, saindo de nós mesmos para explorar e compreender nossa verdadeira natureza.

O entrave da autofruição que restringe o engajamento completo do eu com o mundo

A consciência autocomplacente de Narciso o faz perder a capacidade de agir no mundo, pois ele se concentra tanto em se ver e pensar em si mesmo que fica retido nos grilhões de sua própria imagem. Em vez de voltar-se para o mundo ao seu redor, sua autoconsciência narcisista o leva à paralisia e, mesmo quando percebe que a imagem que está vendo é apenas um reflexo de si mesmo, ele não consegue buscar seu eu verdadeiro voltando-se para a realidade. Narciso precisa despertar aos poucos a sua consciência para a formação de sua identidade; contudo, o seu erro é acreditar que ele mesmo já criou o seu eu verdadeiro. Ele busca possuir uma existência que ainda não se manifestou completamente por causa da ilusão que o impede de alcançar o verdadeiro autoconhecimento.

A consciência autocomplacente de Narciso o faz perder a capacidade de agir no mundo, pois ele se concentra tanto em se ver e pensar em si mesmo que fica retido nos grilhões de sua própria imagem.

Com efeito, “toda ação nos traduz e nos atrai ao mesmo tempo”;¹⁵ isto é, o agir reverbera a nossa identidade, mostrando ao mundo como somos e no que acreditamos. A ação no mundo nos coloca à prova, testando se realmente agimos de acordo com os nossos princípios e valores. Dessa maneira, apenas quando saímos da passividade e nos engajamos no mundo, nos tornamos plenamente nós mesmos, pois, ao sairmos de nós mesmos para agir, deixamos o domínio da virtualidade – algo que Narciso precisava fazer – para ocupar um lugar no mundo e assumir responsabilidades.

No livro Vícios esplêndidos,¹⁶ a autora Rebecca Konyndyk DeYoung relata, no primeiro capítulo, a sua experiência durante o primeiro ano de sua pós-graduação em Filosofia, onde se sentiu uma impostora entre colegas tão inteligentes e ávidos que debatiam questões difíceis. Ela descreve um sentimento de inadequação que a fez passar todo o primeiro ano escondida, temendo que sua suposta incapacidade fosse descoberta. Durante seus estudos, ao ler Tomás de Aquino, encontrou o vício da “pusilanimidade”; as pessoas afetadas por esse vício se afastam de tudo o que Deus as chamou para ser, e sua fraqueza de coração decorre da confiança em si mesmas, e não na graça de Deus que poderia equipá-las.¹⁷

Esse é um vício relacionado à pequenez da alma, que se manifesta na tendência de evitar responsabilidades antes de agir e em rejeitá-las após a ação. Pessoas com esse vício encontram justificativas apenas quando acham que podem evitar críticas ou punições. No entanto, se as circunstâncias não lhes são favoráveis, podem não estar dispostas a assumir responsabilidades ou dar explicações, procurando atribuir a culpa a outro fator que não a si mesmas.¹⁸

Por outro lado, segundo Lavelle, os mais fortes – entendidos aqui como aqueles que não são dominados por esse vício, mas que cultivam a virtude da coragem – assumem a responsabilidade antes e depois da ação, aceitando o fardo como parte intrínseca de sua existência. O homem corajoso também assume a responsabilidade pelo fracasso, mas reconhecendo que não se deve avaliar o insucesso apenas com base na dor ou na relação entre sua intenção e seu resultado, e sim considerar o impacto espiritual que sua ação pode gerar. Por vezes, a aparência de fracasso não reflete necessariamente uma derrota verdadeira, pois ele acredita em uma justiça que rege o mundo.¹⁹

“Para Kant, o dever é questão de pura vontade: ‘Podes, portanto, deves’; é a intenção, no sentido da tensão do querer que faz o valor da ação”.²⁰ Todavia, Lavelle traz uma nova percepção sobre o valor da ação, considerando que a verdadeira essência da consciência de si não reside em uma obstinação em querer, mas sim em aceitar. Ele diz que cada indivíduo é chamado por uma eleição transcendental para cumprir uma tarefa única, uma vocação que somente ele pode realizar, sua ação no mundo. Aqueles que têm consciência dessa eleição entendem que sua vontade pessoal tem pouca relevância nesse processo, haja vista que a verdadeira consciência de si, que forma a identidade, leva a uma vontade que se sacrifica.

Existe, portanto, um repouso interior alcançado pelo abandono do amor-próprio, enquanto o agir no mundo nos liberta do entrave da autofruição, da pequenez da alma e da nossa virtualidade. Entretanto, isso nos coloca em uma posição de ação e responsabilidade, permitindo-nos revelar quem somos e, gradualmente, tomar consciência de nossa existência por meio de uma vontade livre, e essa liberdade possibilita a fruição beatífica e a realização da alma em Deus.

O erro de Narciso e o erro do homem moderno

A consciência de si, o despertar para a existência, é essencial para alcançarmos a verdade, e, para isso, é necessário cultivar a sinceridade. Cada pessoa confronta a própria identidade com uma mistura de fascínio e desconforto ao comparar a realidade externa – a imagem que projeta para os outros – com a realidade interna – os sentimentos, impulsos e desejos ocultos. Essa dissonância entre a aparência externa e a verdade interna faz com que cada um se torne um mistério para si mesmo, cuja revelação completa é tão difícil quanto constrangedora, visto que exige encarar tanto os aspectos luminosos quanto os lugares mais sombrios da própria natureza.²¹

Por meio da sinceridade, somos capazes de nos conhecer verdadeiramente e nos tornarmos quem realmente somos destinados a ser – na verdade, quem fomos criados para ser. A sinceridade envolve tanto a introspecção quanto a expressão de nossa identidade para o mundo, como já foi dito, no entanto, surge o desafio: “ser transparente aos outros como se é a si mesmo”.²²

Por meio da sinceridade, somos capazes de nos conhecer verdadeiramente e nos tornarmos quem realmente somos destinados a ser – na verdade, quem fomos criados para ser.

Ao investigarmos a própria sinceridade, percebemos que o objeto desta investigação – a verdade interior de uma pessoa, a busca da autenticidade – é complexo e dinâmico para que possa nos satisfazer plenamente. Nesse sentido, o amor-próprio pode atuar como uma forte barreira para a sinceridade. A dificuldade da sinceridade surge justamente por causa da nossa própria divisão interna, onde mostramos apenas alguns aspectos de nós mesmos. Como Lavelle diz, uma “dificuldade de estar presente ao que se diz, ao que se faz, com a totalidade de si mesmo, que sempre se divide e só nos mostra alguns de seus aspectos, nenhum deles verdadeiro”.²³

E esse não foi o erro de Narciso? Esse erro é comum a todos em todas as épocas, porém é mais contundente na modernidade, quando as pessoas acreditam que estão se conhecendo na dormência de uma consciência autocomplacente, presas na dificuldade da sinceridade, diante da mesma ilusão de Narciso.

No livro The Ethics of Authenticity,²⁴ Charles Taylor discute os desafios enfrentados na era moderna e identifica três males principais: individualismo, primazia da razão instrumental e perda de liberdade política. O individualismo é caracterizado pela tendência das pessoas em estabelecerem seus próprios critérios de vida, decidindo suas crenças e convicções independentemente de valores tradicionais ou externos, como a noção de Deus ou de Bem. Isso é a ética da autenticidade,²⁵ que valoriza a voz interior de cada indivíduo e sua fidelidade a si mesmo, muitas vezes levando a decisões baseadas na busca de originalidade em detrimento da sinceridade.²⁶

Isso é a ética da autenticidade, que valoriza a voz interior de cada indivíduo e sua fidelidade a si mesmo, muitas vezes levando a decisões baseadas na busca de originalidade em detrimento da sinceridade.

Na modernidade, as pessoas não conseguem encontrar modelos para viver fora de si mesmas, pois definem a forma como pretendem viver e encontrar sua realização, incluindo suas formas mais degradadas, absurdas ou triviais.²⁷ Um exemplo é o caso de Émile Ratelband, um holandês que tentou legalmente mudar sua data de nascimento para se adequar à sua própria percepção de idade (desejava ficar 20 anos mais novo “para se dar melhor no Tinder”), sugerindo que, assim como é possível alterar questões fundamentais da identidade, como o gênero ou o nome, também deveria ser possível alterar a idade.²⁸ E de fato, diante da ética da autenticidade, o que deveria impedi-lo? Nessa perspectiva, a ideia é que não há autoridade externa além da voz interior de cada um, e a liberdade é definida pela capacidade de autodeterminação.

No livro O custo do discipulado, de Jonas Madureira, a questão da sinceridade e o paradigma da autenticidade são explorados por meio das reflexões de Taylor, especialmente com base nos exemplos das confissões de Santo Agostinho e Jean Jacques Rousseau.²⁹ Agostinho testemunha uma alma que cultivou a sinceridade. Ao olhar para si mesmo, para suas memórias, identifica suas limitações e percebe-se como alguém incapaz de se autocriar. Conclui que há algo maior do que ele mesmo: um Criador que o impulsiona a existir. Sua esperança é moldar sua identidade à imagem divina, vendo Deus como um modelo a ser imitado e admirado.

Em contrapartida, Rousseau valoriza sua autonomia e originalidade, expressando preocupação em ser diferente dos outros. Sua interioridade é destacada por Taylor ao mostrar que sua grande popularidade advém, em parte, de sua articulação de algo que já estava acontecendo na cultura. Rousseau frequentemente apresenta a questão da moralidade como ato de seguir uma voz da natureza dentro de nós.

Dessa forma, embora muitos busquem uma consciência reflexiva semelhante à de Agostinho, carecem de sinceridade, sendo mais próximos do paradigma de Rousseau. Eles almejam encontrar seu próprio cumprimento, moldando suas identidades apenas por si mesmos. Não há espaço para os que desejam ser apenas mais um; todos querem ocupar o lugar de destaque, serem reconhecidos. Não há anonimato na ética da autenticidade.

O amor-próprio se compraz tanto em si mesmo que persiste inclusive no reconhecimento de sua própria miséria, buscando monopolizar e manipular tudo em seu próprio benefício, intensificando-se mesmo quando busca cura.³⁰ Portanto, o bem que os homens na modernidade poderiam fazer para si e para o outro seria o de nunca permitir serem subjugados pelo seu próprio amor, por sua autoimagem, visto que a pureza da alma é alcançada quando a consciência de si evita o excesso de autocontemplação.

Esquece-te de ti mesmo e conhece-te a ti mesmo

“Se os antigos dizem ‘conhece-te’ e os cristãos ‘esquece-te’, é que eles não falam do mesmo eu: e só é possível conhecer um com a condição de esquecer o outro”.³¹

“Se os antigos dizem ‘conhece-te’ e os cristãos ‘esquece-te’, é que eles não falam do mesmo eu: e só é possível conhecer um com a condição de esquecer o outro”.

O mesmo pecado de Adão e Eva ao se voltarem para si mesmos foi compartilhado por Narciso e por todos nós. Eva desviou seu olhar para a superficialidade, da mesma forma que nos deleitamos no amor-próprio e na consciência autocomplacente. Todavia, “a pureza é querer que as coisas sejam o que são”,³² profunda em sua simplicidade, uma aceitação despretensiosa e desinteressada da realidade como ela é, em vez de tentar moldá-la de acordo com os próprios desejos ou interesses. Quando buscamos isso, estamos nos esforçando para conhecer o nosso eu que reconhece a presença do Ser, como explicado inicialmente neste ensaio. Isso nos leva a enxergar o eu no mundo sem distorções criadas por nossas inclinações pessoais, ou seja, como foi dado para ser.

O eu está sempre ligado à mesma existência, como afirma Lavelle. Dessa forma, a experiência humana se amplia conforme os sacrifícios individuais para o autoconhecimento, mas nunca atinge um padrão definitivo. Convergindo com a Teologia, a autofruição é enganosa, mas fruir em Deus nos eleva a graus mais plenos da nossa consciência, da nossa identidade, pois é onde encontramos a verdade. Assim como Narciso precisava despertar sua consciência para esquecer de si e, então, começar a conhecer-se verdadeiramente, olhar para as boas-novas de Cristo também tem o poder de penetrar até o íntimo, dividindo alma e espírito, julgando os pensamentos e as intenções do coração.³³

A verdadeira autenticidade não exige a necessidade exacerbada de olhar para si, mas, em vez disso, é uma postura de humildade e receptividade. Ou seja, um reconhecimento de que a verdadeira compreensão e o verdadeiro crescimento só podem surgir quando nos libertamos dos grilhões do nosso amor-próprio, superando a fidelidade a si e nos unindo àquele que sonda e conhece o que a mais profunda consciência não pode alcançar: Cristo, o Criador da nossa consciência, da nossa alma, da completude do nosso ser, no qual vivemos, nos movemos e existimos!³⁴ Porque é somente quando renunciamos à nossa própria autenticidade para deixar Cristo revelar quem somos que verdadeiramente nos conhecemos.

Porque é somente quando renunciamos à nossa própria autenticidade para deixar Cristo revelar quem somos que verdadeiramente nos conhecemos.

Como C. S. Lewis destaca em Cristianismo puro e simples, quando permitimos que Cristo assuma o controle, seus filhos refletem sua imagem, tornando-se pequenos Cristos, mas nunca suficientemente expressivos para incluir plenamente sua essência. Ele nos aprimora, realçando o que há de bom em nós, como o sal na comida que ressalta os sabores. No entanto, se o excesso de sal pode obscurecer os sabores naturais, o excesso de Cristo não se sobrepõe a singularidade humana, mas sim a aperfeiçoa. Deus torna “pequenos Cristos”, por meio da imitação, todos diferentes entre si, porém não sendo suficientes para expressá-lo completamente.³⁵

Como certa vez disse Charles Spurgeon: “Jesus preenche nossa consciência até que ela fique em perfeita paz. Nosso julgamento com a persuasão da certeza de seus ensinamentos. Nossa memória com a lembrança do que ele fez. E nossa imaginação com a perspectiva do que ele ainda vai fazer”.³⁶ Temos, portanto, de sair de nós e adentrarmos em Cristo, unindo-nos a Ele.

 

Referências

Agostinho, Santo. Cidade de Deus: Parte II. Editora Vozes, 2012.

Agostinho, Santo. Confissões. Edição digitada por Lucia Maria Csernik, 2007.

BBC. Holandês de 69 anos pede à Justiça para ficar 20 anos mais novo para se dar melhor no Tinder. BBC, 8 de novembro de 2018. Clique aqui para acessar.

Bíblia Sagrada. Almeida Corrigida Fiel. Brasil, 2010.

DeYoung, Rebecca Konyndyk. Vícios Esplêndidos: um Novo Olhar Sobre os Sete Pecados Capitais. Trad. Breno Nunes Seabra. 1ª ed. São Paulo: Editora Trinitas, 2023.

Madureira, Jonas. O Custo do Discipulado: A Doutrina da Imitação de Cristo. Editora Fiel, 2019.

Kuyper, Abraham. Sabedoria e prodígios: graça comum na ciência e na arte. Brasília, DF: Monergismo, 2017.

Lavelle, Louis. A Presença Total. Tradução de Américo Pereira. Covilhã: Universidade da Beira Interior, 2008.

Lavelle, Louis. O erro de Narciso. Tradução de Maria Helena Nery Garcez. São Paulo: É Realizações Editora, 2012.

Lewis, C. S. Cristianismo Puro e Simples. Traduzido por Gabriele Greggersen. 1ª ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.

Ovídio. Metamorfoses. Tradução de David Gomes Jardim Junior. Editora Tecnoprint S.A, 1983.

Spurgeon, Charles Haddon. Dia a Dia com Spurgeon: Meditações Diárias do Príncipe dos Pregadores. Publicações Pão Diário, 2015.

Souza, Braulio Sebastião. O Ser, a Existência e a Realidade: uma introdução a Louis Lavelle. Blog pessoal, 13 de abril de 2020. Clique aqui para acessar.

Taylor, Charles. The ethics of authenticity. United States of America: Canadian Broadcasting Corporation, 1991.

 

 

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

* Ensaio classificado em 3º lugar na 4ª chamada de Ensaios do Radar ABC².

1. Lavelle, 2008, p. 25.

2. Kuyper, 2017, p. 29.

3. Lavelle, 2012, p. 16.

4. Souza, 2020.

5. Agostinho, 2012, capítulo 26.           

6. Ibidem, capítulo 2.

7. Ibidem, capítulo 17.

8. Lavelle, 2012, p. 51.

9. Ovídio, 1983, p. 59-61.

10. Ibidem, p. 59.

11. Lavelle, 2012, p. 24.

12. Ibidem.                

13. Ibidem, p. 40.            

14. Ibidem, p. 24.

15. Ibidem, p. 79.

16. DeYoung, 2023, p. 14-15.

17. Ibidem, p. 13-15.

18. Lavelle, 2012, p. 80.

19. Ibidem, p. 81.

20. Ibidem, p. 32

21. Ibidem, p. 64.

22. Ibidem, p. 31.

23. Ibidem, p. 64.

24. Taylor, 1991.     

25. A ética da autenticidade, segundo Taylor, é baseada em formas anteriores de individualismo que rompem os laços comunitários. Por um lado, o individualismo de Descartes destaca a responsabilidade individual pelo pensamento e pela ação, enfatizando a autonomia e liberdade em relação às normas sociais. Por outro lado, o individualismo político de Locke prioriza a pessoa e sua vontade sobre a obrigação social, defendendo direitos naturais e liberdades individuais. Ver: Taylor, 1991, p. 25.

26. Ibidem, p. 2.   

27. Ibidem, p. 40.

28. BBC, 8 novembro de 2018. Clique aqui para acessar.

29. Madureira, 2019, p. 66-67.

30. Lavelle, 2012, p. 131.

31. Ibidem, p. 52.  

32. Ibidem, p. 15.

33. Hebreus 4.12 (ACF).

34. Atos 17.28 (ACF).

35. Lewis, 2017, pp. 191-192.

36. Spurgeon, 2015, p. 169.

Outros ENSAIOS [nº 3]

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Ciência e sagrado
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À beira de um admirável mundo novo
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