O conceito de mordomia cristã baseia-se na imagem do mordomo como um servo fiel que cuida, zela e administra com responsabilidade todos os bens que seu senhor coloca sob seu cuidado.1 Essa compreensão é uma ideia com limitações, mas amplamente difundida no meio cristão, sendo constantemente apresentada como um princípio norteador do papel do homem no mundo criado por Deus. Consequentemente, nos últimos anos, essa noção tem sido explorada, sobretudo, em âmbitos como a gestão financeira, a administração do tempo, a produtividade ou, ainda, o cuidado com o corpo.
Contudo, embora útil, essa compreensão revela-se limitada quando aplicada às questões ambientais. Segundo Tiago Pereira e outros especialistas no tema, o problema não tem a ver necessariamente com o termo mordomia, mas com a forma como o conceito é interpretado. Assim, o questionamento que emerge é: qual papel o homem deve exercer diante da natureza? Ou, ainda, o que Deus espera de suas criaturas e qual o propósito delas diante da criação? Pereira sugere que o anseio de Deus é algo mais profundo, um verdadeiro relacionamento entre Ele, o homem e todo o restante da criação. Portanto, a ação ecológica é mais uma questão de um relacionamento correto do que de uma administração correta. E, enquanto comunidade cristã, nosso engajamento é fundamental diante dos desafios ambientais e climáticos do nosso país e de todo o planeta.
Não obstante, isso torna-se ainda mais urgente no contexto da moda, que está entre os maiores agentes da crise climática global, consumindo e poluindo com números alarmantes. A indústria da moda gera entre 8% e 10% das emissões globais de CO₂, o equivalente à produção da indústria da aviação e náutica juntas.2 Ela produz mais de 100 bilhões de peças por ano e consome 215 trilhões de litros de água.3 Além disso, um caminhão de resíduos têxteis é descartado por segundo, e mais de 92 milhões de toneladas vão para aterros todos os anos.4 De igual modo, com o crescente predomínio do poliéster – que já corresponde a mais de 60% da matéria-prima têxtil utilizada globalmente – há um aumento significativo na dispersão de microplásticos nos oceanos e, consequentemente, no corpo humano.5
A indústria da moda gera entre 8% e 10% das emissões globais de CO₂, o equivalente à produção da indústria da aviação e náutica juntas.
Porém, pouco ou quase nada se fala da aplicação do conceito bíblico de mordomia cristã no trato das questões ambientais nas dinâmicas da moda. Como bem observa o teólogo Robert Covolo,6 “a moda apresenta diversas questões sérias a todos os cristãos que, vamos admitir, vestem algum tipo de roupa”. Ele acrescenta ainda que não se pode dispensar a moda, uma vez que, ao vestir-se pela manhã, participamos dos sistemas, das estruturas e dos padrões da moda. Inclusive, Covolo7 ressalta que a rica dinâmica entre moda e teologia tem boas razões para considerar uma à outra como importantes, afirmando que os cristãos teóricos de moda “não têm o luxo de se isolar da teologia”. Porém, os teóricos da moda não são os únicos chamados à ação. Do mesmo modo, “os teólogos devem resistir à tentação de marginalizar a moda como mera manifestação de vaidade e imodéstia”. Segundo Covolo, “Paris e Jerusalém têm boas razões para considerar uma à outra como importante”.
Além disso, o que dizer a respeito dos cristãos que trabalham na indústria da moda? Como eles devem compreender e exercer sua responsabilidade de modo que glorifiquem a Deus nesse contexto? Se a mordomia bíblica cristã abrange todas as dimensões da vida, então a moda, produzida e consumida por cristãos, não deveria refletir o compromisso com o cuidado da criação? Desse modo, torna-se oportuno analisar como o conceito bíblico de mordomia cristã, reinterpretado sob a perspectiva ambiental, pode oferecer fundamentos para práticas sustentáveis nas dinâmicas entre o cristão e a moda. Nesse sentido, primeiramente apresenta-se uma revisão e ampliação do termo mordomia cristã.
Se a mordomia bíblica cristã abrange todas as dimensões da vida, então a moda, produzida e consumida por cristãos, não deveria refletir o compromisso com o cuidado da criação?
Mordomia ambiental cristã
Embora a compreensão de mordomia cristã seja majoritariamente associada à figura do servo fiel encarregado de administrar os bens de seu senhor, teólogos e estudiosos têm percebido que esse conceito, ainda que fundamentado em verdades bíblicas, e apesar de enfatizar um senso de compromisso e zelo, apresenta limitações. Segundo Warners e Heun,8 se entendermos que os homens são simplesmente mordomos, a riqueza da nossa descrição de trabalho se perde e nos tornamos meros administradores da criação, limitando o escopo de nossa responsabilidade e nos isentando de muitas outras tarefas no que diz respeito à criação.
O biólogo Tiago Pereira,9 no artigo “A mordomia ambiental cristã é suficiente?”, levanta algumas dificuldades que podem surgir a partir da interpretação das funções e do trabalho do mordomo, descritas na Figura 1. Segundo a análise de Pereira, as limitações surgem especialmente pelo fato de a figura do mordomo não estar necessariamente implícita nos relatos da criação de Gênesis 1 e 2.
Figura 1 – Limitações associadas ao conceito de mordomia ambiental cristã. Elaborado pela autora, com base em Pereira (2024).
Os relatos da criação nos primeiros capítulos de Gênesis estabelecem os fundamentos para compreender a mordomia ambiental cristã bíblica como o exercício de um domínio delegado por Deus, que reflete o caráter do próprio Deus, em que a autoridade real se expressa em cuidado, serviço e responsabilidade. Os verbos hebraicos radah (dominar) e kabash (subjugar), em Gênesis 1.26-28, não legitimam a exploração irresponsável da terra, mas descrevem o mandato de governá-la de modo a preservar sua integridade, à imagem do Rei-Pastor que conduz e protege suas criaturas. Gênesis 2 aprofunda essa vocação ao situar o ser humano como parte do próprio solo, chamado a cultivar (abad) e guardar (shamar) o jardim plantado por Deus, em funções que evocam tanto o trabalho cuidadoso quanto o serviço sacerdotal em um espaço concebido como criação e templo. Assim, a articulação dessas narrativas teocêntricas de Gênesis indica que o domínio humano deve ser exercido de dentro da criação, reconhecendo a interdependência entre todos os seres e assumindo uma postura de rei-servo e sacerdote-jardineiro que preserva, protege e amplia a ordem, a beleza e a vida provenientes do Criador. Toda a criação tem como propósito último a glória de Deus, e se o ser humano é criado para dominar sobre a criação, ele glorificará a Deus exercendo esse domínio de forma adequada.
Moda
Essa perspectiva contrasta com a lógica de consumo que a indústria da moda construiu, sendo muito bem-sucedida em induzir à compra de coisas de que não se precisa, ultrapassando a função utilitária em direção à função emocional e afetiva do consumo, desencadeando, assim, impulsos de compra não racionalizados.10 O consumo marcado pela lógica do consumismo, nesse caso, é aquele no qual a satisfação contínua de desejos se sobrepõe à consideração de necessidades, responsabilidade ou discernimento.11 Não obstante, o sistema de moda conhecido como fast fashion transformou o ato de vestir-se em um ciclo acelerado, usurpando das roupas sua durabilidade. Assim, o sistema domina as atividades da indústria com roupas a preços ultracompetitivos que, ao aumentarem a produção global de roupas de baixo custo e baixa durabilidade, alterou a relação das pessoas com as roupas, que são usadas menos vezes do que 15 anos atrás, e, depois de apenas sete ou oito usos, vão para descarte.12 Como consequência, multiplicam-se imagens de montanhas de roupas descartadas em locais como o deserto do Atacama, no Chile, e nas praias de Gana, na África.13
O consumo marcado pela lógica do consumismo, nesse caso, é aquele no qual a satisfação contínua de desejos se sobrepõe à consideração de necessidades, responsabilidade ou discernimento.
No Brasil, um estudo da Inteligência de Mercado (IEMI) para a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção14 (ABIT), ao comparar os dados de 2020 com os de 2022, constatou que houve um aumento de 170 milhões de peças na produção de confecções. Esses estudos sugerem o aumento proporcional do lixo têxtil e alertam para uma crise de excesso de produção na indústria da moda. Além disso, essa indústria é uma das maiores consumidoras de água. O Brasil, o segundo maior produtor de jeans do mundo, com um consumo médio de 15 mil litros de água na produção de uma calça jeans, contribui nesse cenário.15 Soma-se a isso a relevância do Brasil como um grande produtor de algodão, que representa 90% das fibras naturais utilizadas na indústria têxtil e que utiliza, em média, mais de 30 mil litros de água para criar um quilo de algodão.16 Estima-se que de 17% a 20% da poluição industrial da água é provocada pelo tratamento e tingimento têxtil.17
O consumo excessivo de água, as emissões de poluentes e a produção de resíduos levam a indústria da moda a ser classificada como uma das mais poluentes do mundo, com números alarmantes de consumo e poluição. Os dados confirmam que “o cuidado com o meio ambiente é a ordenança que vem sendo desconsiderada e esquecida”18 pelos cristãos, realidade esta que exige que cristãos recuperem a visão integral da vida que as Escrituras oferecem. Na moda, existe uma responsabilidade que é de todos, afinal, do nascer ao morrer, vivemos envoltos em tecidos. Diariamente, com o ato de vestir, exercemos a moda, que não é exclusivamente uma peça de roupa, mas sim uma constituição de elementos invisíveis que os seres humanos incorporam naquele fragmento de tecido.19
Será possível confessar o Senhor da criação e, ao mesmo tempo, participar passivamente da destruição daquilo que Ele fez de bom? O cristão que aguarda novos céus e nova terra não deveria contribuir com montanhas de roupas descartadas, com o aumento da contaminação dos rios por processos de tingimento ou com cadeias produtivas que tratam pessoas como descartáveis. Responsabilidade na moda significa, antes de tudo, responsabilidade diante de Deus, e isso se expressa em práticas como rever o guarda-roupa antes de realizar novas compras, questionar o desejo de comprar mais, discernir onde e de quem comprar, e também prolongar a vida das peças por meio de conserto, reforma e customização, pois cada gesto revela uma espiritualidade que se traduz em cuidado.
Responsabilidade na moda significa, antes de tudo, responsabilidade diante de Deus.
Por fim, a responsabilidade não deve recair apenas sobre o consumidor. A indústria que lucra com o excesso precisa ser confrontada em seus modelos de produção e, consequentemente, repensar processos criativos, rever escalas produtivas e priorizar transparência e dignidade. Outra questão relevante para se levar em conta é o fato de que por volta de 75 milhões de trabalhadores na cadeia da indústria têxtil vivem em vulnerabilidade ou situação de trabalho análogo à escravidão20. Nesse sentido, os cristãos que atuam na cadeia produtiva da moda são chamados a criar, produzir e inovar com justiça com relação aos trabalhadores e, também, com respeito ao ritmo da criação, tendo em mente que o cuidado com a criação não é uma pauta externa à fé, mas parte constitutiva do evangelho que anuncia a reconciliação e a restauração de todas as coisas.
1. Tiago Pereira, “A mordomia ambiental cristã é suficiente?”, Unus Mundus, 2024. Clique aqui para acessar.
