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Gustavo Assi

Oceano, energia e sustentabilidade

O offshore do amanhã

14/03/2025

Nos últimos anos, como professor e pesquisador de engenharia naval e oceânica, tenho refletido profundamente sobre o futuro da indústria offshore. Para quem não está familiarizado com o termo, offshore se refere a tudo o que ocorre no mar, especialmente com relação à exploração de recursos naturais, como a produção de óleo e gás (O&G). Essa indústria tem sido essencial para o desenvolvimento energético do Brasil e do mundo, permitindo-nos extrair combustíveis de reservas localizadas a quilômetros de profundidade abaixo do leito marinho.

Como cristãos, sabemos que fomos chamados a preservar o mundo criado por Deus e a cultivá-lo da melhor forma possível. Esse chamado nos convida a buscar sabedoria e responsabilidade ao utilizar os recursos naturais, equilibrando desenvolvimento econômico com cuidado ambiental. Depois de tantos anos trabalhando para desenvolver tecnologias que tornem a extração de óleo e gás mais eficiente, estou instigado a pensar em como pode ser o futuro sustentável dessa indústria, se é que há um. É possível conceber uma indústria offshore “diante da face de Deus”? Como podemos alinhar inovação tecnológica com responsabilidade ambiental e cosmovisão cristã?

Como cristãos, sabemos que fomos chamados a preservar o mundo criado por Deus e a cultivá-lo da melhor forma possível.

Não deixa de ser um dilema. Afinal, a indústria com que mais trabalho é, por natureza, associada à extração de combustíveis fósseis, justamente um dos grandes desafios à transição energética. Por isso, minha intenção nesta coluna é compartilhar um pouco de como tenho refletido sobre minha carreira e a tecnologia que desenvolvo, o que inclui mudanças de rota profissional motivadas por uma visão cristã de mundo. Creio que precisamos fazer algo para viabilizar uma transição energética que seja responsável, viável e fiel ao chamado de sermos bons mordomos da criação de Deus.

Antes de partirmos para dados técnicos e estatísticos, vamos reconhecer que o oceano é uma fonte preciosa de recursos. E, se assumirmos que esses recursos devem ser explorados de maneira sustentável, vale reconhecer que a sustentabilidade não é um conceito monolítico, mas assume formas e cores diversas. (Uso “cores” como referência ao conceito de desenvolvimento sustentável da ONU, estruturado sobre 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.) Mas, por ora, nos basta uma definição pelo oposto: uma exploração não sustentável é aquela que age como se não houvesse amanhã.

Nosso desenvolvimento nacional está profundamente entrelaçado aos recursos do oceano. O Brasil ainda se estrutura ao longo da costa: 55% da população vive a menos de 150 km do mar. Nossa história é marítima desde o início, e a exploração costeira tem sustentado grande parte da economia, muitas vezes de forma extrativa. No entanto, ainda há vastos potenciais inexplorados, tanto em termos geográficos quanto de novos setores econômicos. Em outras palavras, a exploração sustentável dos ambientes costeiro e oceânico tem espaço tanto para corrigir abordagens passadas quanto para inovar em novas frentes.

Nos últimos 40 anos, acompanhamos o amadurecimento da indústria offshore na produção de óleo e gás. Vencemos desafios tecnológicos e alcançamos reservas em águas ultraprofundas. Os recursos energéticos explorados nessas décadas sustentaram parte significativa do desenvolvimento econômico do país. Hoje, 37 empresas operam em exploração e produção offshore em nossas águas, com a Petrobras respondendo por 64% desse esforço. Estima-se um investimento de 102 bilhões de dólares neste setor entre 2024 e 2028. A exploração offshore segue sendo uma peça-chave na matriz energética nacional.

O fato é que o futuro exigirá mais energia, mas também exigirá energia mais limpa. E, por estar tão intimamente ligada à produção energética no Brasil, a indústria offshore será protagonista no processo de transição energética. Assim como o pré-sal foi o grande vetor do desenvolvimento tecnológico dos anos 2000, a transformação para a “indústria offshore do amanhã” será o motor desta década.

O fato é que o futuro exigirá mais energia, mas também exigirá energia mais limpa. E, por estar tão intimamente ligada à produção energética no Brasil, a indústria offshore será protagonista no processo de transição energética.

Nesse contexto, tenho trabalhado com três passos para uma exploração sustentável do oceano. O primeiro passo é a descarbonização das operações atuais. Parece paradoxal falar em descarbonização de uma indústria que extrai hidrocarbonetos, mas, se queremos mudar para uma matriz verdadeiramente limpa e sustentável, precisamos passar por esse período de transição.

Hoje, 95% do petróleo e gás produzido no Brasil vem do oceano, com 75% dessa produção vindo do pré-sal. Nosso óleo é menos intensivo em carbono do que a média mundial. Se deixarmos de produzir, precisaremos importar combustível com pegada de carbono maior. Além disso, a razão energia investida/energia obtida no pré-sal é da ordem de 15:1, um número altamente eficiente.

Portanto, precisamos investir em tecnologias para produzir mais energia com menos impacto ambiental. Nesse sentido, eletrificação de sistemas, melhor aproveitamento de energia térmica, novos materiais e integração com fontes renováveis (eólica, ondas, marés, correntes) devem ser prioridades.

O segundo passo requererá novos processos e operações. Prevemos que o pico da produção de O&G offshore deve ocorrer por volta de 2030. Com a transição energética em curso, outras fontes de energia limpa ganharão espaço, mas ainda haverá uma grande infraestrutura offshore operante: plataformas, poços e equipamentos submarinos.

Esses ativos podem ser reaproveitados de forma estratégica. O pré-sal, por exemplo, pode se tornar um gigantesco sorvedouro de carbono capturado, armazenado em reservatórios geológicos ou cavernas de sal. O offshore também pode produzir hidrogênio e amônia de baixa pegada de carbono, além de combustíveis sintéticos.

Operações remotas e autônomas, uso intensivo de digitalização, economia circular para reaproveitamento de ativos… tudo isso moldará os novos modelos de negócio da indústria offshore.

O terceiro passo é a integração com outros setores industriais. O Brasil tem uma vantagem incomparável em recursos naturais e capacidade industrial para executar uma transição energética de forma soberana. Como bom mineiro, diria: temos a faca e o queijo na mão.

Apesar do peso do offshore na energia nacional, não podemos delegar a um único setor a responsabilidade da transição. Precisamos conectar a indústria offshore a outros setores intensivos em carbono, como etanol, siderurgia, cimento, fertilizantes e químicos. Esses setores emitem CO2 concentrado em chaminés ou dutos, criando oportunidades para captura e utilização do carbono (CCUS).

O offshore pode absorver boa parte do carbono gerado na produção de biocombustíveis, mas essas estratégias integradoras exigem políticas públicas que transcendam governos. Aqui, a voz da universidade se torna crucial, servindo de ponte entre indústria e governo.

Assim, acho que um oceano sustentável ainda terá exploração offshore, mas que será mais limpa, eficiente e segura, de modo que produziremos mais energia com menos emissões. A combinação de uma produção de O&G menos poluente, captura e conversão de carbono, e integração com setores industriais será o alicerce do offshore do amanhã.

A combinação de uma produção de O&G menos poluente, captura e conversão de carbono, e integração com setores industriais será o alicerce do offshore do amanhã.

Ao longo dessa caminhada, percebo que minha vocação para a pesquisa e para o desenvolvimento tecnológico precisa estar alinhada à responsabilidade de moldar uma indústria offshore mais sustentável. Quero que meu trabalho, dentro da engenharia e da ciência, contribua para a boa administração dos recursos naturais e para a construção de um futuro energético mais equilibrado. Ao buscar soluções para reduzir impactos e promover a inovação sustentável, creio estar prestando um bom serviço diante da face de Deus.

 

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

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