Há uma cena recorrente em muitas famílias. O filho está prestes a entrar na universidade, mudar de cidade, ganhar autonomia ou simplesmente atravessar a fronteira simbólica entre adolescência e vida adulta. Nesse momento, alguns pais despertam para uma urgência repentina: agora precisamos conversar seriamente sobre valores, fé, caráter, escolhas e direção de vida.
A intenção costuma ser sincera. O problema é o momento. Nenhuma árvore finca raízes na véspera da tempestade. Ninguém constrói fundamentos quando a casa já começou a balançar. Da mesma forma, ninguém prepara o coração de um jovem em poucos discursos de última hora depois de anos de silêncio formativo.
Ninguém prepara o coração de um jovem em poucos discursos de última hora depois de anos de silêncio formativo.
A entrada na universidade apenas revela algo que vinha sendo construído muito antes.
Por isso, quando falamos sobre jovens que se perdem, abandonam convicções ou chegam fragilizados à vida adulta, talvez a pergunta principal não seja “o que aconteceu aos dezoito anos?”, mas “o que aconteceu dos cinco aos dezoito?”.
Formação humana é um processo longo. É repetição, hábito e convivência. É ambiente moral e exemplo encarnado no cotidiano. É o tipo de coisa que vai sendo sedimentada aos poucos, quase invisivelmente, até se tornar estrutura interior.
Pais sabem disso intuitivamente em outras áreas. Ninguém espera ensinar honestidade em uma palestra aos filhos quando completam dezessete anos. A criança aprende honestidade quando percebe que mentiras pequenas também importam. Aprende vendo como os pais lidam com dinheiro, promessas, favores, erros e pedidos de perdão. Aprende observando coerência.
O mesmo vale para fé, vocação, disciplina, coragem, compaixão, curiosidade intelectual e amor à verdade.
Muitos imaginam a educação apenas como transmissão verbal de conteúdos. Sentar, explicar, corrigir conceitos e seguir adiante. Isso é parte da tarefa, mas está longe de ser o centro dela. Crianças não aprendem principalmente por conferência. Aprendem por imitação, por práticas reiteradas, por ritmos familiares, por afetos compartilhados, por histórias narradas e pela vida vista de perto. Elas observam mais do que escutam.
Se em casa a fé aparece apenas como obrigação social, dificilmente será recebida como beleza viva. Se o conhecimento é tratado com desprezo, será estranho exigir depois maturidade intelectual. Se perguntas sinceras são reprimidas, não surpreende que mais tarde busquem respostas longe da família. Se os pais falam de verdade, mas vivem de aparências, a incoerência ensina mais alto do que o discurso.
Se em casa a fé aparece apenas como obrigação social, dificilmente será recebida como beleza viva.
Ao mesmo tempo, não se trata de buscar perfeição doméstica. Famílias reais são imperfeitas, cansadas, contraditórias e em processo contínuo de amadurecimento. O ponto não é produzir lares impecáveis, mas ambientes honestos onde arrependimento, perdão, conversa e crescimento também sejam normais. Filhos não precisam de pais sem falhas. Precisam de pais verdadeiros.
Quando penso em preparar filhos para o mundo adulto, gosto de uma imagem simples: musculatura. Existe musculatura física, que cresce com esforço progressivo, constância e resistência. Existe também musculatura moral, espiritual e intelectual.
Ela cresce quando a criança aprende a esperar. Quando enfrenta pequenas frustrações. Quando precisa pedir perdão. Quando percebe que nem todo desejo merece ser obedecido. Quando aprende a ouvir argumentos diferentes sem desmoronar. Quando descobre que pensar dá trabalho. Quando percebe que algumas convicções exigem coragem.
Até mesmo no desenvolvimento da nossa fé vemos dois aspectos. O primeiro está associado à nossa conversão, que regenera nosso coração no momento em que somos convencidos pelo Espírito Santo de que Jesus é o nosso Senhor e Salvador. O Reverendo Paulo Fontes, um pastor querido, me ensinou que esse é o momento em que Deus nos tira da poça de lama onde vivíamos escravos do pecado. Mas há um outro aspecto complementar e importante: a carreira da fé. Neste, somos ativos participantes, crescendo no conhecimento da salvação, dando razão pela nossa fé e ajudando o espírito a limpar a lama que ainda está grudada em nosso corpo. Esse segundo aspecto é o que comparo ao exercício, uma vez que nele desenvolvemos musculatura quando atuamos e cooperamos com a limpeza. E esse exercício vem justamente pelas provações que nos fazem perseverar na esperança de que seremos plenamente limpos quando Jesus completar a boa obra que começou em nós.
Quem é poupado de toda tensão costuma chegar fraco às tensões inevitáveis da vida, pois não se exercitou.
Por isso, criar filhos não é blindá-los de toda dificuldade, mas sim prepará-los gradualmente para lidar com dificuldades maiores. Não é construir uma bolha perfeita, mas uma base sólida. Não é esconder a existência do mal, do erro e das ideias ruins, mas ensinar discernimento diante delas, inclusive na vida intelectual, acadêmica e universitária.
Criar filhos não é blindá-los de toda dificuldade, mas sim prepará-los gradualmente para lidar com dificuldades maiores.
Isso vale especialmente para a relação entre fé e conhecimento. Jovens que nunca puderam fazer perguntas profundas sobre Deus, sofrimento, ciência, sexualidade, justiça ou sentido da vida talvez façam essas perguntas pela primeira vez longe de casa, em ambientes pouco interessados no cuidado pastoral da resposta.
Melhor que as façam antes, perto de gente que os ama e pode conduzi-los como personal trainers.
Uma família sábia não teme perguntas honestas. Ela as acolhe. Nem sempre terá respostas prontas, e isso também educa. Às vezes, a melhor resposta é: “não sei ainda, mas vamos pensar nisso juntos”. Humildade intelectual dentro de casa pode ser uma das maiores heranças que os pais oferecem.
Há ainda algo decisivo: filhos precisam enxergar que a vida adulta tem propósito. Muitos colapsos juvenis não nascem apenas de dúvida intelectual, mas de vazio existencial. Se tudo o que mostramos a eles é desempenho, status, dinheiro ou aparência, não lhes teremos dado ferramentas suficientes para que enfrentem o mundo.
Eles precisam perceber que trabalho pode ser serviço, estudo pode ser vocação, conhecimento pode ser responsabilidade, liberdade pode ser entrega, sucesso pode ser redefinido e a vida pode ser vivida diante de algo maior do que o próprio ego.
Quando isso vai sendo construído desde cedo, a universidade muda de lugar simbólico. Ela deixa de ser o grande monstro que ameaça destruir tudo e passa a ser apenas mais uma etapa importante da jornada humana. Desafiadora, sim. Complexa, sim. Mas não soberana.
Nenhuma instituição forma sozinha aquilo que uma infância inteira deixou de formar. E nenhuma instituição destrói facilmente aquilo que foi plantado com profundidade ao longo de anos. Meu irmão, Leo, costuma repetir o lema ensinado pelo Reverendo Elben Lenz César: “cuide das raízes, espere pelos frutos”. Acho que ele se aplica também à educação de filhos.
Isso não significa garantia absoluta. Filhos são pessoas, não projetos controláveis. Têm liberdade, personalidade, dores próprias e caminhos surpreendentes. Mesmo os melhores pais conhecem limites reais. Ainda assim, a formação importa profundamente.
No fim, talvez a pergunta mais importante para os pais não seja “como impedir que meu filho mude?”, porque todos mudarão. A pergunta melhor é: “que raízes estou cultivando para que ele cresça bem quando mudar?”.
Filhos não se formam na véspera da partida. Formam-se nas pequenas manhãs comuns, nas conversas repetidas, nos hábitos discretos, nos exemplos constantes e no amor paciente de muitos anos.
Filhos não se formam na véspera da partida. Formam-se nas pequenas manhãs comuns, nas conversas repetidas, nos hábitos discretos, nos exemplos constantes e no amor paciente de muitos anos.
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