Na minha época de infância e adolescência, éramos estimulados a desenvolver habilidades cada vez mais complexas para a vida profissional, como se pequenas microespecializações nos dessem alguma vantagem no currículo da vida adulta. Na geração dos meus pais, quase ninguém falava inglês, então fazer aula de inglês era um diferencial. Na minha geração, todo mundo que podia já fazia inglês. Ter um bom inglês ainda contava, mas já se falava em dominar uma terceira língua, e surgiram muitos cursos de espanhol.
Vieram os idiomas, a datilografia, a aula de pintura, o desenho técnico, o curso de informática, a fotografia, algum curso de gestão, secretariado, e tantas outras ferramentas técnicas que marcaram gerações. Mas, com a mesma rapidez com que chegaram, algumas saíram de cena sem deixar saudades. Qual jovem hoje dedica quatro horas por semana para aprender a usar um editor de texto ou treina todos os dias para digitar usando todos os dedos? Para onde foram essas especializações? Algumas certamente fizeram diferença nos currículos da vida adulta de muita gente, mas a maioria simplesmente sumiu.
Hoje, algumas novidades têm me assustado e me levam a perguntar que tipo de habilidade será, de fato, um diferencial para os adultos do futuro. Talvez isso revele mais sobre minha visão pastoral de professor universitário e pai do que sobre o mundo em si.
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O mundo digital tem levantado questões profundas nesse sentido. A forma como vivemos muda a cada salto do desenvolvimento tecnológico. Acontece que, nas últimas décadas, os degraus foram grandes demais para quem já vinha subindo a escada. Esses saltos, principalmente na tecnologia digital, mudaram drasticamente a relevância das nossas habilidades adquiridas.
Deixe-me refletir sobre três momentos recentes que correspondem a três saltos tecnológicos que a era digital, com a ajuda dos smartphones, trouxe à tona.
Primeiro, eu me lembro de quando a internet começou. As primeiras coisas que me chamaram a atenção foram o e-mail e as salas de bate-papo. De repente, eu tinha uma caixa de mensagens que me conectava com qualquer pessoa no mundo, instantaneamente. Aprendemos a criar contas de e-mail específicas para viagens, para assuntos sérios e outras só para bobagens. Aprendemos também a esperar a meia-noite para pagar um único pulso na conexão discada (sim, isso existia; procure no Google) e ficávamos maravilhados por não precisar esperar dias para conseguir uma imagem rara para um trabalho da escola.
Em uma década, a internet nos trouxe todo o conhecimento do mundo na palma da mão. Descobrimos que tínhamos acesso a tudo, a qualquer informação necessária ou desnecessária para a vida. Não precisaríamos mais memorizar nada, bastava buscar. Não precisaríamos mais desenvolver a resposta, era só encontrar.
Sou professor de engenharia em uma grande universidade brasileira. Quando passo um problema de mecânica dos fluidos para meus alunos do terceiro ano, você acha que a maioria gasta um bom tempo tentando resolvê-lo ou a primeira reação é buscar na internet se alguém já postou a resposta em algum fórum?
A sensação de que a informação está sempre disponível reduziu nossa necessidade de engajamento intelectual. E sem engajamento intelectual, não há aprendizagem. Portanto, a falsa impressão de que sabemos tudo porque temos acesso a tudo nos leva a parar de aprender. Esta é uma habilidade em risco: saber aprender. Aprender exige esforço, leva tempo, dá trabalho. Temo que a paciência para esperar o fruto do esforço investido seja outra habilidade (ou virtude) em extinção. Nos tornamos especialistas em acessar informação, mas estamos perdendo a capacidade de desenvolver conhecimento de forma autônoma e de nos esforçar para aprender.
Segundo, veio então a era das redes sociais. Elas nos deram acesso a todas as pessoas, seus gostos e opiniões (interessantes ou não), o tempo todo. Nos expuseram a um número gigantesco de amigos que nunca vimos e nos levaram a construir uma versão de nós mesmos para agradar gente que nem conhecemos, numa performance que alimenta o ego de formas que não sabíamos existir.
Ganhamos habilidades para gerenciar milhares de vidas ao mesmo tempo, mas perdemos o tato com as vidas ao nosso lado. De repente, nos preocupamos com quem nos segue, com quem curte o que postamos, com o impacto da nossa presença digital. A comida não precisa mais ter sabor, basta sair bonita na foto. As fotos da viagem não servem para recordação, mas para aparentar uma vida perfeita. Aprendemos a editar imagem, vídeo, áudio e contar histórias melhor que os profissionais das décadas passadas.
Ganhamos habilidades para gerenciar milhares de vidas ao mesmo tempo, mas perdemos o tato com as vidas ao nosso lado.
Nos tornamos especialistas em causar furor com comentários ácidos, milimetricamente calculados para gerar engajamento. Aprendemos a melhor hora do dia para postar, a duração ideal de vídeo, o tipo de conteúdo que rende mais. Sim, há muitas habilidades envolvidas. Contudo, nesse processo, perdemos algumas das mais fundamentais. Cada vez mais, jovens têm dificuldade de sustentar uma conversa profunda, olho no olho. Esquecemos como nos relacionarmos fora da bolha e com outra faixa etária. Perdemos o senso do contraditório respeitoso, da construção de argumentos. O tempo médio de concentração intelectual caiu, e há muitos alunos em universidades de excelência que não conseguem se engajar minimamente com a leitura de um texto argumentativo.
As microdoses de dopamina que nosso cérebro recebe cada vez que rolamos a tela, milhares de vezes por dia, nos dão uma falsa sensação de saciedade. Elas cauterizam a paciência, nos impedem de esperar pelo ganho real e nos mantêm alheios à realidade ao nosso redor enquanto estamos imersos nas realidades de outras partes do mundo.
Por isso, as habilidades raras de hoje são: saber conversar, ler o olhar, interpretar um sorriso, saber argumentar, ter paciência, apreciar o imperfeito, rir da vida real e não de sua versão filtrada.
Terceiro, entramos agora na era das inteligências artificiais. Uma área fantástica, cheia de promessas para a humanidade, e também cheia de ameaças para algumas habilidades fundamentais. A facilidade com que geramos conteúdo com IA é fascinante e, para dizer a verdade, viciante. De repente, eu não preciso sequer pensar para escrever. Há poucos anos, precisávamos buscar e organizar a informação. Hoje, basta perguntar, e a resposta vem pronta, digerida, estruturada e, se quiser, já transformada em slides.
A especialização recente de saber programar um algoritmo já está ficando para trás. Qual será a nova datilografia do nosso tempo? Não há mais necessidade de estudar inglês, espanhol ou qualquer outro idioma; a IA traduz tudo, para todos. Não precisamos mais sintetizar ideias; é só pedir para resumir e mostrar o essencial. Não precisamos mais analisar coisa alguma; a IA entrega correlações e comparações prontas de tudo. A reflexão crítica parece estar com os dias contados. A toada da verdade será definida por quem gerar mais conteúdo, e quem o absorver mais rápido sai na frente. As novas especializações se reduzem a saber pilotar o prompt.
Ironicamente, é certo que vou passar este texto por uma IA para revisar minha concordância. Mas eu poderia muito bem ter escrito um prompt e deixado que ela fizesse tudo isso por mim. As habilidades raras agora são: saber escrever, saber pensar, saber refletir criticamente, desenvolver opinião estruturada, argumentar com sentido próprio. Hábil será quem conseguir desenvolver sua inteligência, quem conseguir ser genuinamente único.
Hábil será quem conseguir desenvolver sua inteligência, quem conseguir ser genuinamente único.
Sou pai de uma menina e um menino. Claro que me preocupo em lhes oferecer oportunidades para desenvolverem habilidades úteis para a vida. Invisto tempo e recursos no inglês, nas aulas de piano e em qualquer outra coisa que veja valor para suas vidas. Sei que pertencem a uma geração que vai dominar a internet, as redes e a IA com facilidade. Serão mais habilidosos e especializados que eu nas ferramentas do seu tempo. Por mais que eu saiba datilografar com quase todos os dedos das mãos, eles só precisarão do dedão para conquistar o mundo a partir de uma tela pequena.
Mas acredito que há um capital a ser preservado. Um tipo de habilidade básica que será essencial no futuro. Ironicamente, habilidades antes fundamentais agora voltam a ser diferenciais. Passei por um tempo em que microespecializações construíam um bom currículo. Para meus filhos, talvez, ter habilidades básicas seja a verdadeira novidade da próxima década.
Isto é, sei que vão se desenvolver com naturalidade na tecnologia digital. Portanto, resta-me oferecer o que está desaparecendo, mas ainda tem muito valor: saber aprender, aprender a ler, falar fazendo sentido, argumentar com rigor, escrever com estrutura, saber conversar, ter paciência, valorizar o mundo natural, cultivar amizades concretas. Tudo isso parecia óbvio e básico há uma ou duas gerações, mas agora tudo isso pode ser o verdadeiro diferencial.
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