“Nós, que somos muitos, formamos um corpo, e cada membro está ligado a todos os outros”1
Apóstolo Paulo
Prólogo
Há mais ou menos dez anos, recebi uma ligação inusitada enquanto passava as compras em um caixa de supermercado. Além do fato de já passar das onze da noite, o único motivo pelo qual atendi o telefone foi porque a ligação era do meu pastor. Claramente era uma emergência. Este era o caso: ele estava fora da cidade e, por isso, não conseguiria ir ao encontro de uma pessoa que estava com pensamentos muito ruins a respeito de si mesmo. Com muito cuidado e respeito, ele me perguntou se eu poderia substituí-lo, já que confiava em minha competência profissional para essa tarefa. Ao contrário do meu pastor, eu não confiava tanto assim em mim mesmo, mas, depois de saber que ele confiava, eu também confiei, e então fui.
O ponto de encontro foi a porta de uma igreja. Chegando lá, encontramos um rapaz com seus vinte e poucos anos esperando em pé, encostado em um portão de ferro, ao lado de fora do templo. Nunca vou me esquecer de seu rosto assustado e impaciente. Parecia querer ir embora, sabe Deus para onde, mas escolheu esperar, e é isso que importa. Ele esperou pela ajuda, ainda que resistindo ao anseio desesperado de sumir da face da Terra.
Foi triste ver aquele rapaz sozinho na rua, mas me alegrou saber que ele ainda estava ali, vivo, aguardando por ajuda no recesso de um não lugar, de costas para a igreja fechada, pois, como disse, já era tarde da noite. Cumprimentei-o apertando sua mão fria e perguntei como estava. Ele não soube responder. Enquanto isso, a alma da rua começava a se embrulhar em um silêncio esquisito, não como quem se recolhe para dormir, mas como quem se aquieta para testemunhar o que está para acontecer. Tudo, inclusive aquele rapaz, parecia aguardar pelo meu próximo passo, mas, de todas as coisas por se fazer, apenas uma ocupava o meu pensamento: “aqui não dá para ficar, precisamos de um lugar para conversar. Mas onde?”
Do que é feito um lugar para conversar?
Tenho quase certeza de que você já passou por algo parecido. Tenho quase certeza de que já precisou encontrar um lugar para conversar com alguém que não estava se sentindo bem ou que queria compartilhar algo mais íntimo, mas o espaço ou a circunstância em que estavam não eram adequados ou propícios. Quando precisamos de um lugar para conversar, geralmente saímos em busca, como se fosse algo que pudesse estar disponível. Mas a verdade é que esse “lugar” não existe, ou pelo menos não existe enquanto algo que já está está pronto, apenas esperando por nós. Sempre é necessário prepará-lo em alguma medida, porque ele não é feito apenas de condições físicas. Se você já leu alguma coisa do psicólogo humanista Carl Rogers,2 saberá do que estou falando.
Construir ou preparar um lugar para conversar envolve a incorporação de um certo conjunto de atitudes, posturas e condutas que sejam propícias à interlocução. Estamos falando de condições humanas, entre as quais estão aquelas que não podem ser desenvolvidas pela mera assimilação individual de informação, mas por meio do convívio, do compartilhamento mútuo e do relacionamento pessoal. O objetivo deste, que é o último artigo de nossa série, consiste em enfatizar o aspecto relacional e comunitário como algo indispensável à integração entre psicologia e fé cristã no contexto brasileiro. Antes, porém, vale a pena compreender um pouco melhor o que exatamente significa preparar um lugar para conversar.
Estamos falando de condições humanas, entre as quais estão aquelas que não podem ser desenvolvidas pela mera assimilação individual de informação, mas por meio do convívio, do compartilhamento mútuo e do relacionamento pessoal.
Preparando um lugar para conversar
A ideia de preparar algo envolve uma tensão interna entre o que já existe e o que ainda não se realizou. Quando penso nisso, lembro imediatamente do que Jesus disse para seus amigos: “vou preparar-vos um lugar”.3 O preparo é um tipo de coisa que não acha lugar nem no presente e nem no futuro. Preparar, do latim, praepǎrāre,4 significa aprontar ou arranjar algo de modo presciente e intencional a fim de que aquilo se realize, como um passarinho que prepara o ninho sem que ainda existam os filhotes.
Observe que preparar não é o mesmo que fazer as coisas acontecerem. Existe uma certa dependência intransponível na tarefa de preparar algo. É que, apesar de todos os esforços na construção de condições favoráveis a um processo, ainda assim ficamos à mercê de fatores e variáveis que estão para além da nossa alçada. Sendo assim, compreender essa diferença pode ser algo decisivo para a maneira como nos engajamos em nossa ciência e profissão.
Não dá para tentar integrar psicologia e fé cristã simplesmente passando por cima das regras do jogo. Por melhores que sejam as intenções, e por mais que estejamos insatisfeitos com o status quo das relações entre psicologia e cristianismo no Brasil, não é forçando5 a barra que construiremos um lugar favorável ao diálogo. É necessário compreender as regras do jogo6 a fim de transformá-las em regras melhores.
Uma psicologia Coram Deo é relacional e comunitária
Nesse sentido, ao pensarmos sobre a tarefa da integração, não deveríamos vê-la como um projeto a ser alcançado a qualquer custo pela imposição de força política, mas como um processo ascendente, construído de baixo para cima. Mesmo sendo Deus e podendo executar o plano divino “de cima para baixo”, Jesus fez o oposto: Ele se esvaziou ao assumir a forma humana e se humilhou ao permitir a condenação à morte, e morte de cruz. Diga-se de passagem, esse foi o meio pelo qual Cristo começou a “preparar um lugar para nós”. Esse “sentimento”7 é o nosso modelo.
O verdadeiro sentido de uma psicologia Coram Deo8 não envolve um compromisso messiânico, seja de um representante político com poder para mudar as regras do jogo à força, seja na tentativa de cada um empreender, por conta própria e isoladamente, uma forma de salvação para o problema. Pelo contrário, o engajamento do cristão na psicologia deve ser moldado pelo modo como as coisas são criadas e cultivadas ao longo de todo o evangelho, de Gênesis a Apocalipse, isto é, de forma relacional. A produção de conhecimento em uma perspectiva cristã deve ser comunitária e, portanto, por natureza, contrária a qualquer tipo de “síndrome do protagonista”.9
A regra básica aqui é, mais uma vez, a busca pelo comum em vez de apenas enfatizar diferenças. Na realidade, muitas vezes as diferenças são mais bem identificadas e compreendidas quando nos permitimos reconhecer previamente aspectos em comum. Nesse sentido, a busca por um lugar de diálogo entre psicologia e fé cristã no Brasil pressupõe o resgate de um terreno comum entre esses saberes e práticas, mas não para confundi-los, e sim para viabilizar a interlocução entre ambos. Assim como em qualquer outra cultura, esse lugar sempre existiu e sempre existirá, porque, a despeito das distintas visões de mundo, sejam elas cristãs ou não, o mundo é um só, é o unus mundus de Deus. Portanto, o lugar existe, mas sempre será necessário prepará-lo.
A busca por um lugar de diálogo entre psicologia e fé cristã no Brasil pressupõe o resgate de um terreno comum entre esses saberes e práticas, mas não para confundi-los, e sim para viabilizar a interlocução entre ambos.
Coração, o território primordial
Como pudemos ver ao longo dos artigos anteriores, três etapas foram propostas na preparação deste lugar comum: “mapear”, “arar” e, por fim, “fertilizar” o terreno. Trocando em miúdos, se pudéssemos resumir o que aprendemos sobre essas etapas, poderíamos dizer que “mapear o terreno” consiste em uma busca pelo conhecimento, reconhecimento e relacionamento em primeira pessoa com aqueles que estão ou não abertos ao diálogo. Essa poderia ser considerada uma premissa básica ao desenvolvimento das etapas seguintes.
Depois do mapeamento, surge a necessidade de “arar o terreno”, também caracterizada como a “arte de criar problemas” por meio de um engajamento mais íntimo com a filosofia e a ciência. Existem perguntas esperando para serem feitas, e essa é uma das melhores formas de evidenciar a necessidade de diálogo. Em último lugar, encontramos o desafio de “fertilizar o terreno” como uma tarefa que exigirá de nós “fazer o bem sem ver a quem”. Nessa etapa, somos convidados a enriquecer o território para além dos nossos muros e cercas, isto é, temos a missão de buscar o bem comum.
De certo modo, todas essas etapas têm em vista o território das relações entre psicologia e religião como nosso foco de atenção, e enquanto buscamos colocá-las em prática, nossos olhos e ouvidos tendem a se voltar para o que está fora de nós mesmos. Porém, há algo muito importante que precisa ser levado em consideração aqui, e talvez deveríamos ter começado por ele: o seu e o meu coração também podem ser vistos como terrenos. Na verdade, esses são os terrenos fundamentais, cujos solos também podem conter pedras e espinhos.
Portanto, sobre tudo o que se deve mapear, arar e fertilizar, os nossos corações devem estar em primeiro lugar, porque deles procedem todas as outras coisas.10 A preparação — ou formação —11 do coração é algo primordial, e ela só pode acontecer na medida em que nos sujeitarmos ao trabalho atento e cuidadoso do Agricultor,12 na companhia da nossa comunidade de fé (isto é, nossas igrejas), mas também de uma comunidade intelectual, como é o caso da própria ABC², a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência.
O papel das comunidades intelectuais
Estar envolvido com pessoas que compartilham desse mesmo objetivo tem sido uma das coisas mais importantes para mim desde que me senti desafiado a compreender e transformar as relações entre psicologia e fé cristã em nossa cultura. É no interior dessas comunidades intelectuais, como o grupo temático ABC²-Psi, que encontro o solo propício para o desenvolvimento de virtudes que jamais ou dificilmente germinariam de modo individualístico.
É ali que temos a oportunidade de reconhecer, traduzir e formalizar problemas envolvendo psicologia e fé cristã, entre os quais aqueles que até então eram apenas vividos de forma anônima e sem a tematização apropriada. Ao compartilharmos os nossos problemas e desafios, temos chance não apenas de encontrarmos respostas, mas, antes de tudo, de aprimorarmos os próprios problemas (o que, como vimos anteriormente, muitas vezes pode ser ainda melhor do que simplesmente encontrarmos uma solução rápida).
Ao compartilharmos os nossos problemas e desafios, temos chance não apenas de encontrarmos respostas, mas, antes de tudo, de aprimorarmos os próprios problemas.
O recurso saturado à autonomização13 do pensamento, evidenciado pela emergência de “intelectuais das redes”,14 nos parece insuficiente para o desenvolvimento de virtudes intelectuais, dado o seu caráter não comunitário de construção do conhecimento. Isso significa reconhecer que não apenas o conhecimento em si, mas o seu cultivo em comunidades intelectuais15 saudáveis, pode verdadeiramente nos tornar aptos à busca pelo bem comum e, consequentemente, colher bons frutos do diálogo entre psicologia e fé cristã no Brasil.
Psicologia e Igreja pensando de modo incorporado
Esse tipo de perspectiva é um bom exemplo de como o pensamento incorporado16 da vida cristã demonstra ser uma alternativa mais apropriada ao desenvolvimento e amadurecimento de contribuições de cristãos para a psicologia brasileira. Se essas contribuições não podem, por um lado, se restringir à igreja, por outro elas não podem ser pensadas a despeito da igreja. Mantidas, por exemplo, todas as críticas pertinentes que o meu pastor poderia fazer com relação a diversos aspectos problemáticos e conflitantes da psicologia, ele não hesitou em recorrer ao meu conhecimento técnico e teórico sempre que julgou apropriado e necessário.
Além disso, a experiência de contar com a confiança do meu pastor em minha competência profissional propiciou, ao longo dos anos, um forte senso de segurança em minha atuação como psicólogo dentro e fora da igreja. Ou seja, esse tipo de diálogo com a igreja local favorece não apenas a troca de conhecimento e o reconhecimento de limites inerentes à psicologia e à teologia, mas também propicia a construção de redes internas de apoio e cuidado adequados em situações como a que mencionei inicialmente neste artigo.
Esse é um argumento vivo em favor de uma abordagem das relações entre psicologia e fé cristã inspirada na mentalidade incorporada do Reino, ou seja, levando-se em consideração o paradigma da igreja enquanto corpo.17 Falo em exemplo vivo porque, sempre que possível, aquele rapaz da porta da igreja e eu ainda hoje continuamos a conversa que começou naquela noite, há mais de dez anos.
Considerações finais
É, portanto, a partir desse lugar pessoal, encarnado e relacional que as teorias e técnicas podem nascer de forma integrada, como um fruto natural. Se isso for verdade, o nosso desafio primordial não seria, stricto sensu, de conhecimento, mas de hospitalidade. Ou, colocado de outro modo, nosso desafio de conhecimento seria, antes de tudo, também uma questão de hospitalidade. Nesse caso, valeria a pena considerar não apenas a parábola do semeador para pensar as relações entre psicologia e fé cristã no Brasil, mas também aquela do bom samaritano.18
Se isso for verdade, o nosso desafio primordial não seria, stricto sensu, de conhecimento, mas de hospitalidade. Ou, colocado de outro modo, nosso desafio de conhecimento seria, antes de tudo, também uma questão de hospitalidade.
É preciso retornar a esse lugar comum e pré-teórico, no qual é possível dizer a quem quer que seja: “Eu sei quem você é.19 Você é o meu próximo”. O resgate do comum não anula nem trivializa as diferenças; antes, nos torna aptos a reivindicar a glória de Deus a despeito de haver ou não reconhecimento por parte daqueles de quem cuidamos: tanto irmãos quanto pares. Nesse recesso do fazer psicologia, o exercício cristão encontra-se totalmente preservado e protegido, aquém de toda e qualquer censura. E, nesse sentido, construir um solo comum para o diálogo entre a alma da psicologia e alma do cristianismo não é uma tarefa solo, mas comunitária. Em outras palavras, nós precisamos ser esse lugar, ou esse lugar precisa ser feito de nós.
Referências
Cabral, Marcelo. “Quando a autonomia intelectual se torna um problema social”. Unus Mundus, 20 jan. 2026.
Cunha, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2010.
Daniel, Giovanna Souza. “Síndrome do protagonista: A contribuição da literatura fantástica para o cultivo da humildade”. Unus Mundus, Belo Horizonte, n. 6, jul-dez, 2025.
Dooyeweerd, Herman. No crepúsculo do pensamento ocidental: estudos sobre a pretensa autonomia do pensamento filosófico. São Paulo: Hagnos, 2010.
Roberts, Robert C.; Wood, W. Jay. Intellectual Virtues: An Essay in Regulative Epistemology. New York: Oxford University Press, 2007.
Rogers, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017.
Schaeffer, Francis A. Escape from Reason. Downers Grove: InterVarsity Press, 2006.
Strawn, Brad; Brown, Warren. Expandindo a vida cristã: como a cognição estendida fortalece a vida da igreja. São Paulo: Thomas Nelson Brasil, 2021.
Willard, Dallas. Renovation of the Heart: Putting on the Character of Christ. Colorado Springs: NavPress, 2021.
Wittgenstein, Ludwig. Investigações filosóficas. 6ª ed. Petrópolis: Vozes, 2009.
14. A noção de “intelectuais das redes” é usada por Marcelo Cabral (2026) para caracterizar pessoas com formação acadêmica que, apesar de serem comprometidas com boas ideias, argumentos e reflexões, podem contribuir para o desenvolvimento de vícios epistêmicos no contexto das redes sociais.
19. Não podemos perder de vista o reconhecimento do quão maravilhoso e belo é o ser humano exatamente em razão de sua origem. Certa vez, depois de ter sido perguntado por um rapaz sobre a razão pela qual foi tratado tão bem, Francis Schaeffer (2006, p. 22) respondeu o seguinte: “‘é porque eu sei quem você é – sei que você foi criado à imagem de Deus’. Em seguida, tivemos uma demorada e notável conversa. Não podemos tratar as pessoas como seres humanos, não podemos vê-las no alto nível da verdadeira humanidade, a menos que conheçamos realmente a sua origem – quem são. Deus diz ao homem quem ele é. Deus nos declara que Ele criou o homem à própria imagem. Portanto, o ser humano é algo maravilhoso”.
