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Guilherme de Carvalho

Conhecer, amar e servir

A missão do acadêmico cristão

09/08/2024

Rei na ação, profeta na confissão e sacerdote no coração, o homem deve permanecer neste triplo ofício diante de Deus. – Abraham Kuyper, Calvinismo.

Na coluna anterior, reportei aos leitores um inusitado diálogo que tive com o Dr. Egbert Schuurman em 2016, quando ele expressou certa ansiedade quanto à ausência, àquela altura, de intelectuais proféticos na arena pública. Depois de explicar e desenvolver a ideia básica do que seria esse “intelectual profético”, fiz a promessa de que expandiríamos o assunto na coluna. Mas, para tanto, um enquadramento teológico se faz necessário.

O tema do profetismo emerge, em teologia, nos estudos históricos sobre o fenômeno profético na antiga religião de Israel, no desenvolvimento do conceito de revelação, nas discussões sobre os ofícios de Cristo e no estudo sobre os charismata, ou dons e graças espirituais concedidos à Igreja por obra do Espírito Santo. Menos comum é a sua consideração sob o tema da teologia da cultura e, mais amplamente, da missão cristã. Estou convencido, no entanto, de que esse é o seu locus mais apropriado.

Sem dúvida, é claro, da ótica dogmática, o seu ponto de origem é cristológico. O profetismo do antigo Israel não teria tanta importância para nós se não encontrasse em Jesus Cristo o seu clímax e destino final, e esse tem sido o testemunho de muitos doutores da igreja a partir da doutrina dos ofícios de Cristo; ou melhor, do munus triplex, ou tríplice ofício de Cristo.

A doutrina dos ofícios está, entre os loci da dogmática, dentro da doutrina da obra de Cristo e, particularmente, de sua função mediatória, como Deus-Homem. Seu assunto, em suma, é o modo como, em Cristo, os antigos ofícios divinamente estabelecidos para o povo de Deus encontraram a sua consumação.

Esses três ofícios – profeta, sacerdote e rei – foram estabelecidos na antiga aliança pelo próprio Deus por meio de comissionamentos e de uma unção especial, sinalizando o poder e a autoridade divina, e sua função era nitidamente mediatória. O profeta mediava a voz divina, o sacerdote, a presença e santidade divinas, e o rei, o governo e cuidado divinos, ainda que em uma diversidade de expressões e de imperfeições. Crucialmente, no entanto, no próprio Antigo Testamento desenvolve-se a expectativa de um salvador messiânico representado pela forma definitiva desses três ofícios; e, de fato, a figura de Jesus nos evangelhos incorpora de modo magnífico essas três funções, como o maior dos profetas, o sumo-sacerdote e o herdeiro do trono de Davi. Herman Bavinck sumariza de modo magistral o tríplice múnus de Cristo:

Para ser um mediador, um salvador completo, ele tinha de ser apontado pelo Pai em todos os três e equipado pelo Espírito para todos os três ofícios [...] Ele precisava ser um profeta para conhecer e desvelar a verdade de Deus; um sacerdote, para se devotar a Deus e, em nosso lugar, oferecer-se a Deus; um rei, para governar e nos proteger segundo a vontade de Deus. Para ensinar, reconciliar e liderar; para instruir, adquirir e aplicar a salvação; sabedoria, justiça e redenção; verdade, amor e poder – todos os três são essenciais à completude da nossa salvação.¹

[...] de fato, a figura de Jesus nos evangelhos incorpora de modo magnífico essas três funções, como o maior dos profetas, o sumo-sacerdote e o herdeiro do trono de Davi.

Mas Bavinck não se limita a recordar o tríplice ofício de Cristo, repetindo as grandes linhas da tradição teológica; em consonância com sua ênfase na unidade de redenção e criação, e ecoando insights anteriores do teólogo e estadista Abraham Kuyper, Bavinck busca uma explanação não arbitrária para esses três ofícios, e vai encontrá-la projetando-os antropologicamente, como necessidades humanas universais enraizadas na própria natureza humana criada:

A verdade é que a ideia de humanidade (humanness) já compreende em si mesma essa tripla dignidade e atividade. Os seres humanos precisam de uma cabeça para conhecer, um coração para entregar e uma mão para governar e liderar; correspondentemente, eles foram no princípio equipados por Deus com o conhecimento e o entendimento, com a justiça e a santidade, com o domínio e a glória.²

A importância desse ponto é que a cristologia dos ofícios de Cristo implica por necessidade, retrospectivamente, uma antropologia dos ofícios e, prospectivamente, uma eclesiologia dos ofícios. O que sugiro, portanto, é que se pense as funções da comunidade cristã e de seus membros como expressando, de forma dupla, necessidades e dimensões da relação humana com Deus refletidas na estrutura da experiência religiosa humana geral, por um lado, e dimensões da missão cristã, por outro. E isso teria incidência direta sobre o trabalho do acadêmico e do cientista cristão. Em um relevante estudo recente sobre a teologia do trabalho, também sob influência de Bavinck, Matthew Kaemingk e Cory Willson desenvolvem essas implicações:

Aqueles que seguem a Cristo são chamados a seguir esse triplo chamado. O que isso significa para os trabalhadores? Chamados a serem profetas, os trabalhadores têm a responsabilidade de falar e advogar pela verdade e justiça de Deus em seu trabalho diário. Chamados a serem sacerdotes, trabalhadores têm a responsabilidade de se engajar no ministério da reconciliação e intercessão em seu lugar de trabalho. Chamados a serem reis e rainhas, trabalhadores têm a responsabilidade real de administrar bem o seu poder e executar a justiça no lugar de trabalho. À medida em que os trabalhadores crescem em Cristo, vivem crescentemente esse triplo chamado para serem profetas, sacerdotes e reis no local de trabalho.³

O que sugiro, portanto, é que se pense as funções da comunidade cristã e de seus membros como expressando, de forma dupla, necessidades e dimensões da relação humana com Deus refletidas na estrutura da experiência religiosa humana geral, por um lado, e dimensões da missão cristã, por outro.

O interesse específico desses autores é a dimensão litúrgica da vida profissional e laboral dos cristãos, de modo que eles focam em seu ofício sacerdotal. Em tempo oportuno, vamos examinar de perto esse ofício em nossa coluna, mas gostaria de destacar aqui as possibilidades abertas por essa interpretação cristológica da tarefa humana e eclesiástica.

Em primeiro lugar, ela nos ajuda a esclarecer como Cristo responde a dimensões únicas e distintivas da natureza humana, como a capacidade da linguagem, o senso moral e religioso, e suas altíssimas habilidades manuais, resultantes, por sua vez, do bipedalismo. Esses distintivos permitiram o discurso racional e o pensamento coletivo, o impulso espiritual que organiza a simbólica e o imaginário em direção à transcendência, e o poder de transformação e domínio técnico da criação. Além disso, ela esclarece a necessidade universal de mediação com a divindade, refletida na busca por sabedoria e conhecimento em diferentes tradições e projetos intelectuais, na busca sacerdotal por união e integração em diversas religiões, e nos esforços por domínio técnico e político da natureza e das sociedades humanas. Nesse sentido, o tríplice múnus fornece categorias para análise cultural cristã e para a teologia pública.

Refletindo aspectos da própria natureza humana, os três ofícios não apenas encontram seu clímax em Cristo, mas são restaurados por ele. Bavinck argumentará que:

os ofícios profético, sacerdotal e real, que foram a possessão original da humanidade, são plenamente restaurados neles por Cristo... o novo céu e a nova terra indubitavelmente oferecem abundante oportunidade para o exercício desses ofícios, mesmo que a forma... permaneça desconhecida para nós.⁴

A restauração dos ofícios por Cristo só será plenamente visível na Nova Criação, mas já pode ser experimentada substancialmente – para usar a expressão tão cara a Francis Schaeffer – na vida e no serviço cristãos hoje.

E isso nos leva ao desdobramento que mais nos interessa, de caráter missiológico. A cristologia dos ofícios nos ajuda a reconhecer três dimensões do trabalho acadêmico cristão. Cristo representa a culminância do sentido, do desejo e da criatividade, ensinando-nos a conhecer, amar e servir; por isso precisamos segui-lo nessas três dimensões.

Cristo representa a culminância do sentido, do desejo e da criatividade, ensinando-nos a conhecer, amar e servir; por isso precisamos segui-lo nessas três dimensões.

É a partir daí, portanto, que falaremos sobre profetas, sacerdotes e reis no mundo acadêmico; reis-servos, imitadores de Jesus, que manifestam seu governo messiânico por intermédio do cuidado amoroso pelos bens internos da ciência e pelo serviço criativo ao mundo; sacerdotes, que contemplam a glória divina na criação, anunciam e louvam as maravilhas de Deus e consagram a vida ao seu louvor; e profetas, articuladores e divulgadores da verdade revelada nos dois livros de Deus (o livro das obras divinas, ou natureza, e livro das palavras de Deus, a Escritura). Aqui está, como dizem os anglófonos, in a nutshell, a súmula da missão acadêmica cristã: profeta na explanação científica, sacerdote na contemplação da natureza, rei no serviço à academia. Conhecer, amar e servir.

 

Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC².

1. Herman Bavinck, Reformed Dogmatics, Volume 3: Sin and Salvation in Christ, 2006.

2. Ibidem. 

3. Matthew Keamingk e Cory B. Willson, Work and Worship: Reconnecting Our Labor and Liturgy, 2020, p. 52.

4. Herman Bavinck, Reformed Dogmatics, Volume 4: Holy Spirit, Church, and New Creation, 2008, p. 729 (itálico meu).

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