Breves considerações sobre a crise cultural epistêmica
Introdução
Em meados de 1963, um curto e conciso artigo transformou as pesquisas sobre teoria do conhecimento. A epistemologia foi abalada pelo texto de Edmund Gettier (1927-2021). Em seu texto, Is Justified True Belief Knowledge?,¹ Gettier utiliza, mediante a lógica proposicional, dois contraexemplos para indicar que a definição tradicional tripartite do conhecimento — crença verdadeira justificada — não fornece condições suficientes para que alguém conheça algo de fato. Um sujeito pode crer em uma proposição verdadeira e estar justificado em sua crença, mas, em alguns casos, ele não sabe que a proposição é verdadeira, ou seja, ele não tem conhecimento. Seu argumento ficou conhecido como “problema de Gettier”. Ao apresentá-lo, Gettier não estava defendendo que o conhecimento nunca poderia ser alcançado, o que resultaria em um completo ceticismo; seu projeto tinha por objetivo, apenas argumentar que a crença em uma proposição verdadeira e justificada não é suficiente para que alguém tenha conhecimento de determinado fato.
Ao contrário do “problema de Gettier”, que de fato trouxe uma mudança significativa e contribuiu para o desenvolvimento de várias novas teorias e abordagens em epistemologia, concentrar-nos-emos no campo filosófico cultural. O problema a ser discutido será chamado de “diagnóstico genealógico² da crise cultural epistêmica”, uma vez que há uma suposta morte do conhecimento e um fenecimento da verdade,³ pois, conforme Michael Lynch nos lembra, “[…] nós não podemos ignorar como o conhecimento é formado e distorcido. Nós estamos vivendo uma crise epistemológica”.⁴ Nossas considerações, portanto, serão panorâmicas, e não exaustivas; ensaísticas, e não analíticas.
Ao conceber um “diagnóstico genealógico da crise cultural epistêmica”, não queremos argumentar a favor de uma causalidade histórica que progressivamente agravou uma crise na cultura. Em vez disso, queremos simplesmente apontar possíveis fatores filosóficos que contribuíram, direta ou indiretamente, explícita ou implicitamente, para as problemáticas contemporâneas do conhecimento. Portanto, nosso texto será dividido em três seções explanatórias e uma conclusiva. A primeira, na qual exploro o niilismo como base existencial para o perspectivismo interpretativo; a segunda, na qual aponto que o movimento pós-estruturalista, inserido no fenômeno da “condição pós-moderna”, colaborou para o relativismo do conhecimento; a terceira, na qual desenvolvo os prejuízos epistêmicos provenientes do fenômeno da pós-verdade; e a quarta, na qual apresento uma conclusão do “diagnóstico genealógico”.
Assim sendo, para guiar nossa argumentação, levantamos a seguinte indagação: é possível traçar um “diagnóstico genealógico da crise cultural epistêmica”? Qual a relação entre o perspectivismo nietzschiano, o relativismo do pós-estruturalismo e o negacionismo/conspiracionismo popular? Conceitos como verdade, racionalidade e objetividade ainda têm valor epistêmico entre os intelectuais na academia e fazem sentido entre os “leigos” na web?
Qual a relação entre o perspectivismo nietzschiano, o relativismo do pós-estruturalismo e o negacionismo/conspiracionismo popular?
Nietzsche para além da “morte de Deus”
Uma das relevantes reflexões do filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) sobre fenômenos cognitivos é identificada como perspectivismo. Porém, antes de explicarmos a respeito do perspectivismo nietzschiano, vamos considerar sua concepção ética, isto é, a condição existencial ou “anti-metafísica”:⁵ o niilismo.
Niilismo: desvalorização, desconfiança e desencanto
Em um de seus fragmentos póstumos de 1885-1888, Nietzsche compreende o niilismo como a perda de sentido na existência proveniente do colapso de valores éticos absolutos. O termo niilismo provém da palavra nihil do latim, que significa nada. Conforme Nietzsche: “Esta é a forma mais extrema do niilismo: o nada [a ausência de sentido] eterno!”.⁶[1] Segundo as reflexões aforísticas do filósofo, o elemento decisivo do niilismo é o ceticismo em relação à moral, pois “os valores supremos se desvalorizaram”[2],⁷ restando, assim, uma “desconfiança absoluta em relação à força organizadora da vontade para a totalidade.”⁸[3] Analisando o “niilismo europeu” de seu tempo, a sua constatação é de que “nos tornamos geralmente desconfiados em relação a um ‘sentido’ do mal, ou mesmo da existência”, pois quando a visão de mundo cristã perdeu seu monopólio de interpretação no ocidente, “uma interpretação desabou; mas, pelo fato de que ela passava por ser ‘a interpretação’, parece que não há mais qualquer sentido na existência, que tudo é em vão.⁹[4]
Ademais, Nietzsche diz que o niilismo em seu “estágio final” exclui valores universais e categorias racionais, como “finalidade”, “unidade” e “ser”, implicando, assim, na perda de sentido da existência. Segundo ele, “a crença nas categorias da razão é a causa do niilismo – medimos o valor do mundo com estas categorias, que saem de um mundo puramente fictício”, isto é, as expectativas ilusórias do próprio indivíduo, e então, “[…] todos os valores por meio dos quais até agora buscamos tornar o mundo apreciável e assim mesmo acabamos por depreciá-lo, logo que eles se revelaram inaplicáveis […]”.¹⁰[5] Tais valores, adverte o filósofo, são projeções mentais úteis que os indivíduos realizam sobre as coisas para manter e aumentar os modos de dominação humana. Em suma, o que Nietzsche quer expressar é que a identificação de significado no mundo e, portanto, sua apreciação mediante as categorias racionais, se perde quando os valores universais mostram-se incapazes de efetividade prática.
Portanto, há pelo menos dois aspectos que culminaram no niilismo exposto por Nietzsche: i) com o declínio hierárquico da cosmovisão cristã no ocidente para interpretar o mundo – segundo ele, influenciada pelo platonismo –, houve a desconfiança absoluta em valores universais, pois estes, segundo Nietzsche, se desvalorizaram; ii) com a inaplicabilidade das categorias da razão (finalidade, unidade, ser), categorias estas provenientes de um pragmático exercício mental para projetar a dominação humana, ocorreu a depreciação do mundo, um “desencanto” cosmológico.
Perspectivismo enquanto impulso de domínio e multiplicidade interpretativa
Seria a postura existencial de desconfiança absoluta de valores supremos e o desencanto depreciativo do mundo o fundamento para a concepção e legitimação de várias perspectivas sobre um mesmo objeto, dado que universais racionais objetivos se foram? Em outras palavras, é o niilismo a base do perspectivismo?
Após as considerações sobre o niilismo e a concepção “antimetafísica”, podemos apresentar o perspectivismo¹¹ de Nietzsche. O perspectivismo é concebido como sendo o modo de legitimar a multiplicidade de pontos de vista sobre um mesmo conceito, fenômeno ou valor, e, assim, obter um maior entendimento. Enxergar de modo plural, observar sob vários pontos de vista e ter uma “preparação do intelecto para a sua futura ‘objetividade’ […] saber utilizar em prol do conhecimento a diversidade de perspectivas e interpretações afetivas”,¹² é a postura que o filósofo alemão descreve como requisito para obter o conhecimento de algo.
Somado a isso, o perspectivismo implica que o conhecimento do mundo somente é possível mediante a interpretação, uma vez que não há um significado oculto a ser descoberto, mas apenas perspectivas. A perspectiva particular de cada indivíduo é orientada pelo impulso de domínio pessoal, pois, pelas necessidades subjetivas, sejam positivas ou negativas, ocorre a interpretação do mundo. Conforme o filósofo:
Na medida em que a palavra ‘conhecimento’ faz sentido, o mundo é cognoscível: mas é interpretável de outra forma, não tem um significado por trás dele, mas inúmeros significados, ‘perspectivismo’. São nossas necessidades que interpretam o mundo: nossos impulsos e seus prós e contras. Cada impulso é uma espécie de desejo de domínio, cada um tem sua perspectiva, que gostaria de impor como regra a todos os outros impulsos.¹³
Já em A Gaia Ciência, Nietzsche traz o seguinte questionamento:
Até onde vai o caráter perspectivista da existência, ou mesmo se ela tem algum outro caráter, se uma existência sem interpretação, sem ‘sentido’ [Sinn], não vem a ser justamente ‘absurda’ [Unsinn], se, por outro lado, toda a existência não é essencialmente interpretativa — isso não pode, como é razoável, ser decidido nem pela mais diligente e conscienciosa análise e autoexame do intelecto: pois nessa análise o intelecto humano não pode deixar de ver a si mesmo sob suas formas perspectivas e apenas nelas. [...] O mundo tornou-se novamente ‘infinito’ para nós: na medida em que não podemos rejeitar a possibilidade de que ele encerre infinitas interpretações.¹⁴
Assim sendo, além de considerar o mundo uma representação a partir da interpretação específica de cada perspectiva, a própria existência também está restrita à interpretação pessoal de cada indivíduo. Logo, tanto o primeiro como a segunda são objetos passíveis de infinitas interpretações, motivadas pelos impulsos de domínio proveniente das necessidades subjetivas, isto é, o desejo de imposição pessoal de um impulso a outro movido pelo afeto. Dessa forma, segundo Nietzsche: “[…] precisamente o perspectivismo é necessário, graças ao qual cada centro de força — e não apenas o ser humano — constrói a partir de si todo o resto do mundo a si mesmo, isto é, mede-o, manipula-o, configura-o segundo a sua força […]”.¹⁵
Na juventude de seu trabalho filosófico, em um escrito póstumo de 1873 intitulado Verdade e mentira no sentido extramoral, o filósofo alemão apresenta que o conhecimento é proveniente da linguagem. Ele indica o aspecto metafórico como sendo fundamental para originar a denominação das “coisas existentes” na realidade, que em si mesma não contém nenhuma essência, mas apenas objetos nomináveis. A verdade no sentido extramoral, isto é, para além da ética cristã, é:
Uma multidão móvel de metáforas, metonímias e antropomorfismos; [...] uma soma de relações humanas que foram realçadas [...] e ornamentadas pela poesia e pela retórica, e que, depois de um longo uso, pareceram estáveis, canônicas e obrigatórias aos olhos de um povo [...].¹⁶
Em outro fragmento, Nietzsche caracteriza a verdade como “a espécie de ‘erro’ sem o qual uma determinada espécie de seres vivos não poderia sobreviver”.¹⁷ Desse modo, Nietzsche desenvolveu “uma abordagem da linguagem em termos pragmáticos, considerando-a como uma práxis social e definindo o significado e a verdade em termos de uso”.¹⁸
Portanto, podemos considerar dois pontos principais do perspectivismo: i) a perspectiva interpretativa de cada pessoa particular é orientada por seu impulso de domínio segundo suas necessidades subjetivas (isto é, seus afetos); e ii) diante de múltiplas perspectivas particulares, temos uma aproximação do conhecimento mediante interpretações conjuntas. Entretanto, ao tentar denominar o fenômeno ou objeto conhecido, o conhecimento se dissolve na linguagem, pois esse campo é o modo de empregar um sistema útil de palavras para conduzir os indivíduos a crerem em valores transcendentais. Logo, conforme exposto em O niilismo europeu, os valores epistêmicos e metafísicos (finalidade, unidade, ser, verdade, objetividade) […] “são apenas os resultados de certas perspectivas de utilidade adequadas para manter e aumentar as formas de dominação humana: perspectivas que são falaciosamente projetadas na essência das coisas.”.¹⁹ Em suma, a perspectiva interpretativa particular, proveniente do impulso de domínio das paixões, projeta na linguagem valores transcendentais, os quais assumem um modo útil de conservar a dominação humana; mas é somente na multiplicidade interpretativa, mediante a junção de perspectivas, que é possível conhecermos.
Em suma, a perspectiva interpretativa particular, proveniente do impulso de domínio das paixões, projeta na linguagem valores transcendentais, os quais assumem um modo útil de conservar a dominação humana; mas é somente na multiplicidade interpretativa, mediante a junção de perspectivas, que é possível conhecermos.
Entretanto, como conhecer os eventos históricos, por exemplo, de maneira segura e coerente, ao reunir na interpretação várias perspectivas que são particularmente orientadas por seus impulsos afetivos? Ao levar em consideração cada perspectiva particular para interpretar algo e, assim, obter conhecimento, o resultado, em última consequência, será o relativismo, a perda da objetividade, pois não haverá mínima coerência aproximada de uma perspectiva de interpretação com outra perspectiva, uma vez que não há um critério universalmente válido para justificá-las. Além disso, seria o perspectivismo passível de retroaplicação, ou seja, a abordagem perspectivista não seria apenas outra perspectiva, e uma das mais falhas, para enfrentar o problema de como conhecemos? Se aceitarmos a afirmação do filósofo, “não há fatos, apenas interpretações”,²⁰ pois “o perspectivismo é apenas uma forma complexa de especificidade”.²¹ Assim, o que nos resta diante da multiplicidade interpretativa de perspectivas particulares para obtenção do conhecimento?
O movimento pós-estruturalista da “condição pós-moderna”
Ao denominarmos o período recente de “pós-modernidade” – que se estenderia do final do século 19 até o nosso presente momento –, não queremos entrar no mérito da correta categoria sociológica ou histórica do termo para definição do tempo. Para além de “modernidade inacabada” de Habermas,²² ou “modernidade tardia” de Anthony Giddens,²³ ou até mesmo a “hipermodernidade” de Lipovetsky,²⁴ cada uma dessas expressões com suas respectivas particularidades de análise, “pós-modernidade” foi a que ganhou maior visibilidade por sua utilização francesa e, posteriormente, norte-americana.²⁵ Reconhecemos que a pós-modernidade não realizou uma ultrapassagem ou um rompimento absoluto com a modernidade, como o prefixo “pós” às vezes nos dá a entender; o que ela fez foi apenas transformar ou rejeitar alguns princípios filosóficos culturais modernos, como o racionalismo dualista. Desse modo, para explicarmos como a vertente teórica pós-estruturalista, contrária ao estruturalismo iniciado no século 19, culmina no relativismo, iniciaremos apresentando nessa seção que o movimento pós-estruturalista é proveniente da “condição pós-moderna”.
Suspeita e heterogeneidade da “condição”
“A condição pós-moderna” é o título da renomada obra de Jean-François Lyotard (1924-1998), a qual versa sobre o desenvolvimento do fenômeno da pós-modernidade e suas implicações na cultura. A pós-modernidade, categoria trabalhada não só por Lyotard, consiste basicamente na suspeita das “metanarrativas”, pois “manifesta-se na multiplicação de centros de poder e de atividade, e na dissolução de toda espécie de narrativa totalizante que afirme governar todo o complexo campo da atividade e da representação sociais.”²⁶ A suspeita das metanarrativas, isto é, as explicações absolutas da realidade, seja de cunho filosófico, seja de cunho religioso (por exemplo, o idealismo hegeliano ou a tradição judaico-cristã), e o desenvolvimento de diferentes perspectivas de interpretação, (às vezes, até mesmo contraditórias) constituem os elementos principais do fenômeno pós-moderno, manifesto não só na filosofia, mas também nas artes, na literatura e na comunicação.
Para Lyotard, “o saber pós-moderno […] aguça nossa sensibilidade para as diferenças e reforça nossa capacidade de suportar o incomensurável. Ele mesmo não encontra sua razão de ser na homologia dos experts, mas na paralogia dos inventores”;²⁷ em outras palavras, é a suspeita de sistemas totalizantes homogêneos e a abertura à linguagem heterogênea ilógica, isto é, múltiplas e diferentes criações para o discurso (verbal e escrito) sem o critério do sentido lógico. No entanto, ao se “deparar” com a dificuldade para responder o desafio do conhecimento (compreensão factual e explicação objetiva) sobre a realidade, restou à pós-modernidade abraçar a abordagem perspectivista. Enquanto a modernidade enfatizava a racionalidade e o papel da coerência e da unidade na interpretação do mundo, a pós-modernidade celebra os aspectos contraditórios e fragmentados e a desunidade da realidade, sendo a própria interpretação do indivíduo uma representação de construção da realidade.²⁸
Entretanto, como pode um discurso, que tenta “descentralizar” qualquer metanarrativa evocando a suspeita da universalidade e da objetividade do conhecimento, não estar ao mesmo tempo suscetível à suspeita de sua própria tese ao se considerar único em sua análise totalizante? Conforme Steve Connor, crítico literário norte-americano, menciona:
[é de se admirar] o grau de consenso no discurso pós-moderno quanto ao fato de já não haver possibilidade de consenso, os anúncios peremptórios do desaparecimento da autoridade final e a promoção e recirculação de uma narrativa total e abrangente de uma condição cultural em que a totalidade já não pode ser pensada.²⁹
A princípio, não sofreria a pós-modernidade do mesmo problema lógico do perspectivismo, a retroaplicação metodológica, ou seja, isentar-se da aplicação de sua própria análise?
Ao assinalar tais apontamentos críticos à “pós-modernidade”, não queremos defender um retorno filosófico à modernidade racionalista, pretensamente autônoma e supostamente exclusiva no pensamento. No entanto, percebemos que é importante esclarecer as características da “condição pós-moderna” para que então apontemos a “origem” do movimento pós-estruturalista. Desse modo, as principais características que podemos considerar são: i) a suspeita aos sistemas totalizantes, ou metanarrativas, que pretendem explicar por completo a realidade; e ii) o desenvolvimento cultural de múltiplas perspectivas distintas e contraditórias, ou seja, a heterogeneidade interpretativa ilógica.
O relativismo do movimento
O conceito de “pós-estruturalismo”³⁰ consiste no movimento teórico do ramo epistemológico localizado dentro do fenômeno mais abrangente chamado “pós-modernidade”, sendo concebido até mesmo como uma “representação da pós-modernidade”.³¹ Dentre os principais teóricos vistos como “pós-estruturalistas” estão os franceses Michel Foucault (1926-1984), Jacques Derrida (1930-2004) e Roland Barthes (1915-1980). A diferença entre o estruturalismo e o “pós-estruturalismo” consiste basicamente na análise, por um lado, e na crítica, por outro, das estruturas racionais³² da realidade. O movimento pós-estruturalista, iniciado em meados dos anos 1960, caracteriza-se essencialmente pelas instabilidades estruturais, ou a crítica às estruturas normativas que determinam o objeto analisável, e as relativizações do processo de significação da realidade, com sua ênfase histórica, social e interpretativa. Para fins metodológicos, exploraremos apenas a filosofia de Derrida, com ênfase em sua concepção desconstrucionista.
Para Derrida, o logocentrismo, isto é, a concepção metafísica da centralidade da palavra/ideia, fixa e definitiva que é expressa no discurso, deve ser enfrentada mediante a desconstrução. A desconstrução é um modo de leitura interpretativo segundo o qual se encara a pretensa verdade absoluta dicotômica de um texto, conforme Ricardo Gouvêa expõe:
[...] é uma prática de leitura baseada em uma hermenêutica de suspeita em que o texto é entendido a partir da sua autodesintegração teórica. A desconstrução implica a subversão, a descentralização de qualquer origem perceptível de discursos autoritativos associados à ‘metanarrativas’ [...].³³
É também mediante a diferenciação comparativa que esse modo ganha sua maior “função”, pois a “desconstrução derridiana consiste em uma tentativa de reconceber a diferença que divide a autoconsciência. […] É um tipo de pensamento que nunca se encontra no fim”,³⁴ seja por ser “indecidível”, seja por ser “impossível”. Exerce também uma crítica às polaridades conceituais com a pretensão de neutralidade oposta ao “objetivismo” sobre a verdade. Conforme Derrida: “Desconstruir a oposição significa, primeiramente, em um momento dado, inverter a hierarquia”,³⁵ hierarquia que é dominante e homogênea, por exemplo, alma/corpo, verdade/mentira, identidade/diferença.
Desse modo, a desconstrução de Derrida torna-se uma alternativa “metodológica” de oposição à polarização conceitual no conhecimento. No entanto, as consequências notáveis de tal empreendimento derridiano é uma abertura ao relativismo, ou seja, uma indefinição e um indeterminismo da linguagem em virtude da origem de múltiplos sentidos ou de possibilidades semânticas. O relativismo que acusamos nesse empreendimento é tanto um relativismo contrário ao realismo, que, por sua vez, advoga a objetividade e a factualidade no processo de conhecimento, quanto um relativismo aos moldes do subjetivismo, que evoca a interpretação pessoal a partir de determinados contextos. Conforme o verbete “relativismo” no The Stanford Encyclopedia of Philosophy:
O relativismo, nesse sentido negativo, é uma característica proeminente do trabalho dos relativistas malgré eux, como Richard Rorty (1979) e Jacques Derrida (1974). O que justifica a denominação ‘relativista’ em vez de ‘cético’ não é apenas a suspeita desses filósofos da possibilidade de objetividade, mas sua insistência no papel dos contextos sócio-históricos, psicológicos e textuais em relatos de verdade e reivindicações de conhecimento.³⁶
Em uma palestra no ano de 1966, intitulada A estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências humanas, Derrida esboça sua concepção acerca dos conceitos metafísicos que a história da filosofia ocidental construiu, opondo uma categoria a outra, e faz uma crítica especificamente ao estruturalismo “inicial” de Lévi-Strauss (1908-2009):
Já não se lhes atribui nenhum valor de verdade, nem nenhuma significação rigorosa, estaríamos prontos a abandoná-los a qualquer momento se outros instrumentos parecessem mais cômodos. Enquanto esperamos, exploramos a sua eficácia relativa e utilizamo-los para destruir a antiga máquina a que pertencem e de que eles mesmos são peças. É assim que se critica a linguagem das ciências humanas.³⁷
Além disso, Gary Aylesworth, especialista em filosofia continental contemporânea, mencionando a concepção de Lyotard, diz que o conhecimento “não faz nenhuma pretensão de ser original ou mesmo verdadeiro” e suas ideias “não devem receber valor preditivo em relação à realidade, mas valor estratégico em relação às questões levantadas.”³⁸
Tal concepção de Lyotard e Derrida é semelhante ao pragmatismo linguístico de projeção de valores que mencionamos anteriormente, sobre uma das características do perspectivismo em Nietzsche. Ao enfatizarem a “eficácia relativa” e o “valor estratégico” da utilização de categorias racionais, como objetividade, universalidade e verdade, os autores expressam seu compromisso com o relativismo do conhecimento e o perspectivismo da compreensão. O que há, então, é uma “crise de legitimação, sem justificativa universal para o conhecimento”.³⁹
Ao enfatizarem a “eficácia relativa” e o “valor estratégico” da utilização de categorias racionais, como objetividade, universalidade e verdade, os autores expressam seu compromisso com o relativismo do conhecimento e o perspectivismo da compreensão.
Portanto, podemos conceber o movimento pós-estruturalista a partir de dois aspectos teóricos provenientes da “condição pós-moderna” e suas respectivas implicações. Para o primeiro aspecto, o modo de leitura desconstrucionista de Derrida, podemos perceber duas implicações: i) indeterminismo linguístico e ii) polissemia semântica. Para o segundo aspecto, a suspeita das metanarrativas conforme Lyotard, percebemos a implicação que vai da descentralização explicativa à iii) multiplicidade heterogênea interpretativa. A partir dessas três implicações (indeterminismo, polissemia e heterogeneidade), perguntamo-nos: quais são os critérios que restaram para o processo de conhecimento, ao desconsiderar as categorias racionais? Em outras palavras, como é possível estabelecer a objetividade explicativa ao priorizar a indeterminação linguística? Qual o critério lógico que a multiplicidade de diferenças interpretativas, com suas infinitas possibilidades de sentido, contém se desconsiderarmos a factualidade para a compreensão e a universalidade da explicação?
Pós-verdade: a roupagem “intelectual” das fake news?
Ao contrário das duas abordagens anteriores – o perspectivismo nietzschiano e o relativismo pós-estruturalista – o fenômeno da pós-verdade não consiste em um movimento teórico-filosófico. Sua origem é bem diferente, pois não nasce da argumentação técnica, e sim da persuasão apelativa; sua recepção, ou melhor, seu convencimento, é midiático, jornalístico, dialógico. Quando empregamos o termo “pós-verdade”, queremos expressar o apelo afetivo de persuasão que as informações têm para convencer os indivíduos e confirmar suas crenças pessoais mediante uma declaração parcialmente verdadeira, que “[…] opera com a corrupção dos argumentos e evidências para proteger compromissos ideológicos e identidades sociais.”⁴⁰ Em suma, pós-verdade é uma informação distorcida do fato objetivo.⁴¹ Para explicarmos tal fenômeno, caracterizaremos a pós-verdade em duas dimensões: i) as bolhas epistêmicas e as ii) câmaras de eco.
Em suma, pós-verdade é uma informação distorcida do fato objetivo.
As câmaras de eco consistem na exclusão e no descrédito de opiniões contrárias. Seus membros, conforme Michael Lynch explica, “ativamente desconfiam de fontes ‘externas’”.⁴² As bolhas epistêmicas consistem na satisfação de opiniões já preservadas e na desinformação de novas descobertas. Seus membros “simplesmente carecem de informações relevantes”.⁴³ A distinção feita por Lapsley e Chaloner é bem elucidativa, pois, enquanto as câmaras de eco “se engajam na resistência ativa e depreciação da opinião divergente”, as bolhas epistêmicas “simplesmente ignoram ou raramente encontram informações contrárias”.⁴⁴ Desse modo, seja por meio das câmaras de eco ou das bolhas epistêmicas, a pós-verdade trabalha mediante o apelo persuasivo para conduzir os indivíduos à confirmação de suas próprias crenças mesmo quando não possuem evidências; e, posteriormente, a propagação discursiva, seja escrita (virtual) ou verbalizada (dialógica), podendo suscitar até mesmo a execução de tal crença.
Ademais, duas implicações são derivadas das dimensões da pós-verdade: o negacionismo e o conspiracionismo. O antissemitismo e o terraplanismo, exemplos recorrentes atualmente, são ataques fortes contra a história e a ciência, mediante a negação factual e a obscuridade anticientífica. Nas redes virtuais,⁴⁵ narrativas conspiracionistas, majoritariamente de cunho político-ideológico, e negacionismo científico são alguns dos discursos mais propagados. Assim sendo, podemos inferir que as câmaras de eco suscitam o negacionismo e as bolhas epistêmicas, o conspiracionismo. Um detalhe curioso a ser acrescentado é que, no ano de 2016 – “coincidentemente” o ano da eleição em que o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, saiu vitorioso –, a expressão “post-truth” (pós-verdade) foi escolhida como a palavra do ano pelo “Oxford Dictionaries”.⁴⁶
Conclusão
Podemos afirmar que o perspectivismo nietzschiano, promovido no século 19, e o pós-estruturalismo francês com suas implicações relativistas, em meados da década de 1960, são os dois possíveis fatores filosóficos que culminaram, direta ou indiretamente, no fenômeno da pós-verdade em nosso presente contexto cultural?
De perspectivas particulares conduzidas pelo impulso de domínio afetivo, passando pela indeterminação linguística e multiplicidade interpretativa, culminando nas narrativas de conspiração e nos discursos negacionistas, podemos perceber genealogicamente a crise do conhecimento. O diagnóstico que pretendíamos apresentar manifesta-se do perspectivismo ao relativismo e do relativismo ao negacionismo/conspiracionismo. Ainda que não seja de forma causal determinante, a concepção de diagnóstico situa-se na genealogia que recebe influência de seu movimento antecessor. Porém, assim como Lee McIntyre adverte, não queremos culpar o perspectivismo e o pós-estruturalismo “[…] pelo mau uso [que fizeram] de suas ideias, mesmo que devam aceitar alguma responsabilidade por minar a ideia de que os fatos importam na avaliação da realidade e por não prever o dano que isso poderia causar.”⁴⁷ Assinalando essa ressalva, podemos identificar próximas relações entre tais posturas epistemológicas: o fenômeno da pós-verdade tem sua base ancorada em seu antecessor teórico, o relativismo, que, por sua vez, recebeu influência do perspectivismo. Semelhante consideração foi feita por Vinícius Carvalho e Antonio Videira:
Se hoje a difusão global da pós-verdade, a propagação sistemática de fake news e o crescimento vertiginoso de movimentos negacionistas e obscurantistas estão [crescendo], não podemos nos esquecer de um exercício genealógico acurado que nos leva a considerar o papel desempenhado pelos relativismos do século passado no enfraquecimento gradual da confiança na realidade objetiva e na verdade factual.⁴⁸
Para que uma afirmação seja válida e verdadeira, isto é, para que haja encadeamento lógico e correspondência com a realidade, é preciso de uma justificativa objetiva e universal. Entretanto, com o colapso de valores racionais e a consequente deslegitimação da objetividade, afirmações válidas e verdadeiras não podem sequer ser apresentadas, restando-nos somente interpretações subjetivas e perspectivas particulares que são, no máximo, variavelmente úteis. Uma possível solução ética para o enfrentamento da crise cultural epistêmica consistiria na necessidade de:
[...] reconstruirmos [e recuperarmos] as noções de “factualidade”, “objetividade” e “verdade”. [...] Sem o compromisso realista com a “busca da verdade” dos fatos objetivos, a atividade crítica se perde em um relativismo não somente inconsistente e obscuro, mas epistemologicamente nocivo, que contribui para o agravamento da crise da razão.⁴⁹
Para que uma afirmação seja válida e verdadeira, isto é, para que haja encadeamento lógico e correspondência com a realidade, é preciso de uma justificativa objetiva e universal.
Além disso, conforme Lapsley e Chaloner propõe: “[…] uma maneira de derrotar as tendências da pós-verdade é tornar a virtude intelectual em um objetivo explícito da educação científica e considerar a educação científica uma forma especial de educação do caráter.”⁵⁰
Por fim, trago a colocação final de Michael Polanyi (1891-1976) – polímata britânico do século passado, que trouxe grandes contribuições, também, para a epistemologia – em sua excelente obra Ciência, fé e sociedade, que nos ensina sobre a dedicação social para com os valores éticos e racionais:
Acredito que mostrei que a procura contínua de um processo intelectual importante, pelos homens, exige um estado de dedicação social, e também que os homens só podem viver uma vida intelectual e moralmente aceitável numa sociedade que lhe é dedicada. O que não pode deixar de sugerir que toda a finalidade de uma sociedade está em permitir aos seus membros perseguir suas obrigações transcendentes, em particular a verdade, a justiça e a caridade.⁵¹
Portanto, do perspectivismo nietzschiano ao fenômeno da pós-verdade, a crise cultural epistêmica pode ser diagnosticada a partir de três pontos: i) o colapso de valores éticos e a valorização de infinitas interpretações; ii) a rejeição das categorias racionais e a ênfase na indeterminação linguística; e, por fim; iii) a deslegitimação da verdade e a propagação de distorções objetivas.
Referências
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Derrida, Jacques. Posições. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.
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1. Ver: Gettier, 2013.
2. Para fazermos jus a Nietzsche, tanto “diagnóstico” quanto “genealogia”, são provenientes de sua filosofia.
3. Gomes, 2000.
4. Lynch, 2021.
5. Martin Heidegger (1889-1976) critica a filosofia nietzschiana por também ser metafísica, pois, em sua substituição ontológica do “esquecimento do ser” (entificação do ser) pela “vontade de potência”, seu pensamento continha traços sobre a concepção fundamental do ente. Dessa forma, utilizamos a expressão “antimetafísico” para enunciar a rejeição de Nietzsche ao sistema metafísico “tradicional” – a filosofia ocidental de Platão a Hegel, e não necessariamente “não metafísico”, isto é, sem metafísica.
6. Nietzsche, 2003, p. 9. Noéli Correia de Melo Sobrinho (tradutor e especialista na obra de Friedrich Nietzsche) e outros pesquisadores da filosofia nietzschiana traduziram alguns dos “Fragmentos Póstumos” de Nietzsche a partir de diferentes organizações de estudiosos nietzschianos internacionais. A citação referida está inserida nos fragmentos dos anos 1885-1888, O niilismo europeu. Para referenciarmos todas as citações dos “Fragmentos Póstumos” traduzidos tanto por Noéli quanto por outros pesquisadores, seguiremos a numeração da página de suas traduções publicadas nos respectivos periódicos ou livros referenciados abaixo.
7. Ibidem, p. 12, adaptado.
8. Ibidem, p. 14.
9. Ibidem, p. 8.
10. Ibidem, p. 18.
11. O termo “perspectivismo”, como categoria de sua “teoria do conhecimento”, não foi utilizado de forma rigorosa pelo filósofo alemão, ainda que o utilize em seus escritos; porém, comentaristas e críticos o empregam para elucidar seu modo de abordagem do conhecimento sob vários pontos de vista. Outros, ainda, usam “perspectiva óptica da cognição”. Ver verbete “6.2 Perspectivism” em: Anderson, 2022.
12. Nietzsche, 2001, p. 108-9.
13. Nietzsche, 2008, p. 222, tradução livre.
14. Nietzsche, 2012, p. 213-4.
15. Nietzsche, 2008, p. 603, tradução livre.
16. Nietzsche, 2001, p. 12-3.
17. KSA [Obras completas. Edição de estudos críticos] 11.502, Nachlass/FP 34 [243], apud, Mota, 2010, p. 234.
18. Ibidem, p. 233.
19. Nietzsche, 2001, p. 18.
20. Nietzsche, 2008, p. 222, tradução livre.
21. Ibidem, p. 603.
22. Habermas, 1992.
23. Giddens, 2002.
24. Lipovetsky, 2004.
25. “Parafraseando Ricoeur, a história do ‘pós-modernismo’, no continente americano é a história das heresias ao pensamento nietzschiano.” Sanfelice, 2013, p. 205.
26. Connor, 1992, p. 16.
27. Lyotard, 2009, p. xvii.
28. Mendes, 2015.
29. Connor, 1992, p. 17.
30. É importante frisar que no âmbito conceitual o termo “pós-estruturalismo” sofre da mesma dificuldade terminológica que “pós-modernidade”, uma vez que os dois termos contém o prefixo “pós” expressando uma posterioridade temporal. Porém, o pós-estruturalismo “ora é visto como uma etapa subsequente ao esgotamento estruturalista, ora como um corpo teórico autônomo e paralelo (neo-estruturalismo), ou ainda como negação do estruturalismo (anti-estruturalismo) […]”. Cezar, 1995, p. 129.
31. Ibidem, p. 129.
32. “Enquanto o estruturalismo [concepção descritiva da vida a partir das estruturas e sistemas segundo a linguística] abarca a produção, principalmente das ciências humanas, a partir da segunda metade do século 20 – não estando incluído, portanto, no projeto da pós-modernidade –, o pós-estruturalismo teria sua gênese nos trabalhos de Derrida e Foucault, a partir da década de 1960, e seria coerente com tradições não racionalistas, sobretudo com as obras de Nietzsche do século 19.” Mendes, 2015, p. 46.
33. Gouvêa, 1996, p. 4.
34. Lawlor, 2022.
35. Derrida, 2001, p. 48.
36. Baghramian; Carter, 2022.
37. Derrida, 1971, p. 238.
38. Lyotard, 1984, p. 7, apud, Aylesworth, 2015.
39. Lyotard, 1984, p. 37-41, apud, Smith, 2021, p. 241.
40. Lapsley; Chaloner, 2022a.
41. “Informação ou asserção que distorce deliberadamente a verdade, ou algo real, caracterizada pelo forte apelo à emoção e que, tomando como base crenças difundidas em detrimento de fatos apurados, tende a ser aceita como verdadeira, influenciando a opinião pública e comportamentos sociais.” Ver: Academia Brasileira de Letras.
42. Lynch, 2021.
43. Ibidem.
44. Ibidem.
45. Vale a pena mencionar um texto escrito durante o primeiro ano da pandemia da COVID-19, no qual apresento alternativas de enfrentamento às fake news a partir da hermenêutica filosófica. Ver: Silva, 2021.
46. Oxford, 2016.
47. McIntyre, 2018, p. 127, tradução livre.
48. Silva; Videira, 2020, p. 1057.
49. Ibidem, p. 1056.
50. Lapsley; Chaloner, 2022b.
51. Polanyi, 2015, p. 147.
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