Deixe-me dizer isto claramente: o sobrenatural não existe. E antes que alguém comece a imaginar que o que vem por aí é um libelo contra a ortodoxia teológica, explico melhor: o sobrenatural não existe, o natural também não. “Ah, bom! Agora ficou claro!” Veja: a questão é que esses conceitos, que hoje parecem tão bem estabelecidos e tão fundamentais para descrever como vemos a realidade, só surgiram de fato na modernidade. Por séculos e séculos antes disso, o mundo passou muito bem sem ter de fraturar a realidade em natural e sobrenatural.
“Ok”, alguém dirá; “é fácil entender o que ocorreu. O advento da ciência moderna mudou completamente a forma como entendemos a realidade: muitas coisas foram descobertas, o véu que as encobria foi retirado, foram desveladas, e hoje conhecemos toneladas de coisas que não conhecíamos antes. Podemos olhar o universo — e a realidade que nos cerca — com um conhecimento muito mais profundo e mais preciso. Isso mudou tudo. Sabemos que há, sim, um mundo natural, como ele funciona, quais são as leis que o regem – chamadas, aliás, de leis naturais –, e o sabemos com uma riqueza de detalhes com a qual os antigos jamais sonhariam”. Nesse mesmo fôlego, talvez esse alguém acrescentasse com igual ênfase e sem ocultar certo desdém: “Além do mundo natural, para os que creem, há também um mundo sobrenatural — que cada um pode povoar de acordo com os parâmetros de sua própria crença ou como melhor lhe aprouver”.
A fala imaginária do parágrafo anterior talvez seja sumária demais para definir a questão, mas talvez você concorde que sintetiza o que pensa parcela significativa de pessoas tidas como bem-pensantes, sobretudo certa intelligentsia adepta do naturalismo, cujos ditames ideológicos sutilmente perfundem a cultura contemporânea.
Aliás, sendo mais razoável, é necessário admitir que, apesar de predominante nesse meio, essa forma de ver as coisas não é exclusiva de agnósticos e ateus. Boa parte dos que creem, inclusive os cristãos, também concebe a realidade assim, bipartida entre o natural e o sobrenatural. E, para ser sincero, não posso dizer que, em outros tempos, eu mesmo não tenha sido vítima dessa armadilha conceitual. Mas vamos entender isso um pouco melhor.
Coincidência curiosa, já havia esboçado boa parte desta coluna quando topei com um artigo bastante recente de Peter Harrison, cujo título – veja você! – não é outro senão “Science, Naturalism, and the Idea of the Supernatural”. Como é bom descobrir um texto em que aquilo que a gente apenas intui é iluminado pela clareza e erudição de um scholar requintado como Harrison, sobretudo, quando seus argumentos detalham com precisão aquilo que, a duras penas, só conseguimos conjecturar. A sensação é de uma espécie de libertação.
Pois bem. Embora não tenha sido explícito sobre isso, presumo, Harrison resume nesse artigo alguns dos principais argumentos de seu livro mais recente, Some New World: Myths of Supernatural Belief in a Secular Age (de 2024). No artigo, ele demonstra de forma precisa e embasada como os conceitos de “natural” e “sobrenatural” emergiram historicamente, e quais implicações isso tem para nossa compreensão da realidade.
Conforme aponta em seu artigo, é surpreendente constatar que a ideia de “sobrenatural” está completamente ausente da Bíblia Hebraica (Antigo Testamento), do Novo Testamento e dos escritos dos Pais da Igreja. O termo latino “supernaturalis” aparece de forma tardia apenas no século 13, referindo-se não a uma realidade bipartida, mas ao modo de operar da graça divina. A dicotomia rígida entre natural e sobrenatural só se cristaliza de fato após os debates teológicos pós-Reforma sobre natureza pura e graça:
Na visão moderna que se desenvolveu no contexto das controvérsias da Reforma sobre a “natureza pura”, a operação do “sobrenatural” passou a ser compreendida mais como uma incursão externa nas operações independentes de uma natureza que poderia ser entendida em seus próprios termos.¹
A dicotomia rígida entre natural e sobrenatural só se cristaliza de fato após os debates teológicos pós-Reforma sobre natureza pura e graça.
Paralelamente a esse desenvolvimento teológico, surge na filosofia natural – como então era chamada a ciência nascente – a ideia de “leis naturais” universais e imutáveis impostas por Deus. Diferentemente do que se pensa hoje, para René Descartes, pioneiro no uso desse conceito, todo movimento no universo era causado diretamente pela vontade de Deus. Da mesma forma, Robert Boyle argumentava que os movimentos dos corpos naturais dependiam diretamente “da vontade do autor divino das coisas”. Para Descartes, Boyle, Newton e outros pioneiros da ciência moderna, a universalidade e imutabilidade das leis naturais eram expressão direta da onipotência de Deus e da forma soberana com que ele regia o universo.
Com o tempo, o meio acadêmico, que cada vez mais se esquivava da influência eclesiástica – sobretudo na Inglaterra vitoriana –, foi gradualmente abandonando a matriz teológica da ideia de lei natural, passando a usar esse mesmo conceito para proclamar a autonomia do mundo natural.
Para Harrison, a compreensão teísta original das leis da natureza acabou se tornando um verdadeiro Cavalo de Troia para o naturalismo moderno. Ele explica:
A redução teologicamente motivada da economia causal complexa e multifacetada da Idade Média a uma única e indiferenciada camada de causalidade divina era suscetível a uma simples redescrição em termos naturalistas. As leis da natureza, outrora entendidas como leis impostas à natureza por Deus, poderiam ser entendidas simplesmente como leis intrínsecas à natureza. Essa mudança de valência teológica foi efetuada no século 19, quando naturalistas como Thomas Henry Huxley realizaram uma tomada de posse hostil do conceito de leis da natureza, aceitando de bom grado sua universalidade e inviolabilidade, mas negando as premissas teológicas sobre as quais essas características se baseavam. Ironicamente, as leis da natureza tornaram-se então uma razão para negar a atividade de Deus no mundo natural.²
Assim, nessa irônica reviravolta histórica, as leis naturais, antes vistas como expressão da ação de Deus, passaram a ser usadas para estabelecer a ideia de uma natureza autossuficiente, independente do Criador. Vemos, então, um conceito criado por filósofos cristãos no âmbito da cristandade sendo tomado de suas mãos e usado para dar à luz o naturalismo, o que implicou a invenção do sobrenatural em contraposição à metafísica naturalista que então se estabelecia. Como diz Harrison, “a religião moderna, entendida como crença no sobrenatural, e o naturalismo moderno, entendido como sua negação, surgem como dois lados da mesma trajetória histórica”.³
nessa irônica reviravolta histórica, as leis naturais, antes vistas como expressão da ação de Deus, passaram a ser usadas para estabelecer a ideia de uma natureza autossuficiente, independente do Criador.
Mas, se o natural e o sobrenatural foram uma “invenção”, que dizer então da ciência e do método científico? Baseiam-se numa falsidade? É evidente que não. A ciência, aliás, é talvez o empreendimento humano mais bem sucedido de toda a história. Aquilo que entendemos conceitualmente como processos naturais, em que a ocorrência de padrões, regularidades e relações causais – as “leis naturais” – é observada, estão na raiz do chamado método científico. Mas, note bem: esse é um aspecto do real, não a sua totalidade. Aspecto importantíssimo, claro, mas limitado e, na verdade, escasso quando encaramos a realidade da existência em sua inteira grandeza. O problema não foi a criação de um método naturalista para a investigação do mundo, mas a transmutação silenciosa e sub-reptícia desse método em metafísica.
O que tínhamos antes disso era uma visão muito diferente, em que a natureza era entendida como continuamente aberta e orientada para Deus, sua fonte e seu sustentáculo. Não havia uma divisão estrita entre natural e sobrenatural, embora os fenômenos e ciclos naturais fossem reconhecidos e estudados. Essa unidade original se perdeu com a partição iluminista da realidade em duas esferas estanques.
E essa é uma questão que nos atinge em cheio. A ruptura conceitual entre natural e sobrenatural, ainda que não percebamos, acaba por sutilmente incutir em nossa mente uma visão deísta da realidade, ainda que muitos cristãos sequer tenham consciência disso. Portanto, longe de ser uma discussão meramente semântica, essa questão tem profundas implicações teológicas, filosóficas e até mesmo para a prática científica. Uma compreensão mais profunda das raízes históricas dessa dicotomia pode nos ajudar a recuperar uma visão mais integrada da realidade, em que ciência e fé não sejam vistas como inimigas, mas como duas janelas com vistas privilegiadas para o mesmo “mistério”.
“A razão abomina o dualismo. Qualquer fundamento final de explicação deve ser aquele que une todas as dimensões do ser em um princípio mais simples e conceitualmente mais parcimonioso”.⁴ Concluo, então, evocando aqui o título desta revista, “Unus Mundus”. Existe um “mundo uno” que constitui a realidade em que estamos imersos. Conforme expressa o editorial de lançamento desta revista, através de uma reflexão teológica e filosófica embasada, queremos conectar os diversos aspectos dessa realidade de forma a respeitar suas diferentes características, “bem como o fato de ser a experiência de uma realidade única”. Na cosmovisão bíblica, Deus sustenta em seu ser toda a criação a cada instante. Como diz Paulo aos atenienses, “nele vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17:28). É isto o que o Logos encarnado nos revela: “Ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste” (Colossenses 1:17). In Logos omnia!
Existe um “mundo uno” que constitui a realidade em que estamos imersos. Na cosmovisão bíblica, Deus sustenta em seu ser toda a criação a cada instante. Como diz Paulo aos atenienses, “nele vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17:28).
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1. Harrison, “Science, Naturalism, and the Idea of the Supernatural”, Church Life Journal, 2025.
2. Ibidem.
3. Ibidem.
4. David Bentley Hart, Theological Territories, 2020.
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