Ao examinar os aspectos fundantes da realidade, costumo pensar a respeito deles como singularidades. Em análise matemática, uma singularidade é um ponto no qual um objeto matemático não está definido, uma descontinuidade. De forma análoga, há singularidades fundamentais na estrutura da realidade que representam pontos de ruptura e descontinuidade em relação ao que é considerado “natural”. A partir dessas poucas linhas, o eventual leitor ou leitora já depreenderá que, para mim, os fundamentos da realidade situam-se algures (que tal ressuscitarmos essa bela expressão?) imersos na transcendência.
As singularidades, por assim dizer, apontam para o infinito. O matemático alemão David Hilbert dizia que não há infinitos na natureza.¹ Mas quem diz que o real se restringe ao natural?
Créditos: Ahmedabad University.
A singularidade cósmica
A teoria do Big Bang estabelece que o processo que deu início ao universo não apenas desencadeou a expansão de matéria e energia, mas deu origem ao próprio espaço-tempo. Essa singularidade cósmica primordial é caracterizada por densidade infinita, emergindo dela todo espaço-tempo, energia e matéria do universo. De acordo com a teoria, nas vizinhanças dessa singularidade, as leis da física deixam de ser “bem-comportadas” e se tornam inválidas, impossibilitando retroceder até exatamente o instante inicial.
Se foi assim que tudo começou, isso implica uma descontinuidade fundamental entre o que chamamos de natural — desenvolvimento do universo primordial — e de sobrenatural — o ato de criação divino. Enquanto a ciência pode estudar o que se seguiu após essa singularidade, o ato da criação, por sua natureza sobrenatural, está fora do alcance de qualquer técnica experimental ou formalismo teórico. Afinal, como poderia ser examinado cientificamente um ato que precede — em todos os sentidos — a todas as coisas, inclusive a existência de espaço, tempo e matéria?
Há uma variedade de modelos cosmológicos que tentam evitar esse problema da singularidade inicial, mas se a teoria do Big Bang hoje predominante vier a prevalecer como o modelo cosmológico padrão definitivo, teríamos o fato curioso de que a descontinuidade absoluta entre o natural e o sobrenatural se manifestaria em nosso lado da existência na forma de uma singularidade matemática irremovível e incontornável, à qual está interditada qualquer possibilidade de aplicação das leis da física. Espantoso! Posso apenas intuir isto: é difícil exprimir em palavras o quanto essa singularidade cósmica se conforma à descontinuidade apenas imaginável entre o natural e o sobrenatural.
Posso apenas intuir isto: é difícil exprimir em palavras o quanto essa singularidade cósmica se conforma à descontinuidade apenas imaginável entre o natural e o sobrenatural.
Outra singularidade notável é que as próprias leis naturais, que governaram o desenvolvimento do universo nascente, parecem ter surgido do nada, sem que sejamos capazes de explicar sua origem. Como dizia o físico Eugene Wigner, ganhador do prêmio Nobel de 1963, não é natural que existam leis naturais.² Só sabemos que elas passaram a existir e que governaram o processo de desenvolvimento do universo, mas o caráter dessas leis naturais transcende a materialidade da própria existência: embora sejam reais e constituam os entes estruturantes da realidade física, não são tangíveis.
Leis naturais são reveladas pelas regularidades e pelos padrões observados na natureza, tornando manifesto algo absolutamente notável e fora do alcance explanatório de qualquer cosmovisão naturalista: há racionalidade nos processos naturais. E isso se conecta com um assunto que abordaremos adiante, a inteligibilidade da natureza.
Antes de entrar no próximo tópico, quero mencionar de passagem que as especulações cosmológicas recentemente em voga, prometendo explicar uma suposta origem espontânea do universo a partir do nada, são mera fraude intelectual ou, na melhor das hipóteses, autoengano combinado com abuso de linguagem. O máximo que se pode fazer a partir da ciência é conjecturar sobre a transição do universo de um estado físico preexistente para outro, jamais a passagem de não existência para existência, pois isso constitui, entre outras coisas, uma impossibilidade lógica: o universo não pode causar a sua própria existência a partir do nada. Embora frequentemente se faça esta confusão, cosmologia não é ontologia.
A singularidade da vida
Os registros fósseis indicam que a vida começou na Terra há pelo menos 3,5 bilhões de anos e há mais de 500 milhões de anos ocorreu a chamada “explosão do Cambriano”. Essa expressão refere-se à “explosão” de novas formas de vida animal e estruturas corporais que começaram a surgir nesse período e a partir das quais praticamente todos os animais com os quais estamos familiarizados hoje foram derivados. A questão fundamental aqui é: como foi que a vida, tal como a conhecemos, começou? Nas palavras de Nick Lane, “há um buraco negro no coração da biologia. Dizendo sem rodeios, não sabemos por que a vida é como ela é”.³
Muitos preferem tratar a origem da vida em termos de abiogênese; hipótese segundo a qual a vida poderia surgir espontaneamente, de forma contínua, a partir de matéria inanimada. Essa hipótese não encontrou até hoje comprovação experimental, não obstante as inúmeras e sofisticadas tentativas de simular em laboratório condições que supostamente reproduziriam os meios físicos e químicos necessários para que alguma forma elementar de sistema orgânico vivo desse o ar da graça.
É importante salientar que a questão da origem da vida se distingue de discussões quanto ao processo evolucionário de matriz darwiniana, já que este presume a existência de organismos vivos suscetíveis a mutações e seleção natural, enquanto o problema da origem da vida se refere, de maneira simples e direta, a uma suposta sequência de processos físicos e químicos que teriam viabilizado a existência da primeira célula autorreplicante.
Nas últimas décadas, o conceito de complexidade tornou-se uma categoria central para as investigações sobre a origem da vida. Os adeptos do conceito de design inteligente consideram que a existência de complexidade irredutível representa um obstáculo intransponível, de forma que o problema da origem da vida por processos exclusivamente naturais seria insolúvel.
Por outro lado, há uma corrente no meio científico que busca encontrar quais teriam sido os passos dados pela natureza para construir os blocos fundamentais que deram origem ao mais simples sistema vivo. Anos atrás, o grupo de pesquisa liderado por John Sutherland conseguiu resultados notáveis ao mostrar que os precursores de ribonucleotídeos, aminoácidos e lipídios podem ser simultaneamente obtidos de uns poucos compostos que estariam presentes na Terra primitiva.⁴
Alguns, otimistas com esses achados, julgam que a síntese de uma protocélula acontecerá inevitavelmente nas próximas décadas. Outros pensam que isso jamais acontecerá. Teríamos, então, também na origem da vida, assim como no caso do início do universo, uma singularidade fundamental?
Para mim, a resposta é sim! Mas isso, em minha opinião, independe de que se consiga ou não sintetizar uma protocélula em algum momento futuro. Penso que a questão aqui é diferente, mas guarda uma possível analogia com o que ocorre com a teoria do Big Bang no seguinte sentido. Quando tratam de cosmologia, frequentemente as pessoas se prendem à origem temporal do universo e desatendem à questão da origem ontológica de sua existência.
De maneira análoga, no caso da biologia, o foco de atenção acaba sendo posto na origem temporal da vida (obviamente, assunto de importância colossal), mas deixa-se à margem o fato de que as leis de todo o universo foram desenhadas para acolher e dar suporte à vida. Ou seja, o universo todo conspira em favor da vida! Que o universo na sua imensidão seja assim como é, tenha a estrutura e a dinâmica que tem, para operar em favor da vida, é algo extremamente singular, reflexo direto do caráter racional e contingente da criação divina.
Que o universo na sua imensidão seja assim como é, tenha a estrutura e a dinâmica que tem, para operar em favor da vida, é algo extremamente singular, reflexo direto do caráter racional e contingente da criação divina.
A singularidade da consciência
O problema da natureza da consciência subjetiva é outro exemplo de singularidade na estrutura da realidade. Já me referi a esse aspecto em uma coluna anterior. O filósofo David Chalmers denominou isso “hiato explanatório”: mesmo com o conhecimento completo da neurofisiologia cerebral, permanecerá uma lacuna de entendimento sobre como a atividade neural dá origem aos aspectos conscientes da experiência.⁵ Essa lacuna não é meramente conceitual, mas ontológica, apontando para uma singularidade na própria estrutura da realidade.
Essa constatação leva alguns pensadores a concluir que a consciência não pode ser reduzida a fenômenos físicos, pois possui uma realidade “extrafísica”. Nas palavras do filósofo John Searle, “a consciência é um traço biológico do mundo, mas não pode ser plenamente capturada por uma descrição física”.⁶
Nas tradições filosóficas e contemplativas, a consciência é vista como uma participação na realidade transcendente de Deus, o fundamento único da mente e do ser. Assim, a racionalidade impressa na criação e a singularidade da consciência humana refletem a racionalidade do Logos divino como princípio ordenador de toda a realidade.
Cristo: a singularidade essencial
“No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.” (João 1:1-3)
É curioso que João, no prólogo de seu evangelho, apresente o Senhor Jesus com a expressão Logos, que possui vários significados carregados de sentido filosófico. Em decorrência disso, esta é uma palavra que pode ser traduzida de muitas maneiras. Por volta do ano 400 d.C., quando Jerônimo traduziu a Bíblia para o latim, dando origem à Vulgata, usou a expressão Verbum. Daí, em algumas traduções lermos “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós” (João 1:14). Às vezes, em outras traduções, aparece a expressão Palavra. Mas, um dos significados mais recorrentes para Logos é Razão.
Ainda que o significado preciso e originário intencionado por João seja matéria de investigação e disputa entre os experts, faz sentido pensar no âmbito da cosmovisão cristã que, como todas as coisas vieram à existência pelo Logos divino, toda a criação seja marcada pela racionalidade logoica e tenha a sua dinâmica conduzida de acordo com princípios racionais que, com o advento da ciência moderna, foram identificados como leis naturais.
Quanto a nós, seres humanos, faz sentido considerar que o privilégio com o qual fomos contemplados, de termos sido criados à imagem e semelhança de Deus, nos confira a condição especial de sermos dotados de uma racionalidade que reflita a racionalidade divina, a mesma que foi impressa em toda a criação. Assim, pode-se dizer que há um logos (razão) implantado no coração da criação, manifesto nas regularidades, padrões e dinâmicas que governam os processos naturais; e que este logos (razão) procede do Logos divino, está submetido a Ele e para Ele converge (Efésios 1:10).
Assim, pode-se dizer que há um logos (razão) implantado no coração da criação, manifesto nas regularidades, padrões e dinâmicas que governam os processos naturais; e que este logos (razão) procede do Logos divino [...]
Essa visão, inteiramente ancorada nas Escrituras e plenamente satisfatória do ponto de vista intelectual, torna, por um lado, compreensíveis as razões pelas quais é possível fazer ciência e, por outro, oferece uma explicação notavelmente simples para o enigma que tanto incomodava Einstein, na sua expressão de que: “O eterno mistério do mundo é a sua compreensibilidade… O fato de [o mundo] ser compreensível é um milagre”.⁷ O enigma de Einstein simplesmente evapora diante do entendimento de que:
se acreditarmos que a estrutura da realidade pode verdadeiramente ser refletida na estrutura do nosso pensamento, devemos também acreditar que existe uma dimensão ideal ou abstrata ou puramente inteligível da realidade que corresponde às categorias e conceitos que nos permitem compreender o mundo.⁸
Refletindo a respeito dos últimos avanços da física e da biologia molecular, David Bentley Hart faz um comentário que vai direto ao ponto:
Ambas as ciências continuam de maneiras muito diferentes a revelar camadas de inteligibilidade cada vez mais profundas, sendo ambas inspiradas pela fé na racionalidade das leis naturais e no poder dos paradigmas conceituais de refletir as verdades racionais sobre as quais a realidade é construída.⁹
Essa convicção de que a realidade foi construída sobre verdades racionais, em grande parte acessíveis à nossa razão (mas, nem tudo: vide as singularidades mencionadas anteriormente), me leva a uma conclusão bastante otimista quanto ao futuro desenvolvimento da ciência: quanto mais a ciência avançar, mais se tornará evidente que o universo tem sua origem última (e primeira) no Logos divino, pois “Ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste” (Colossenses 1:17).
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* Este texto é uma versão enxuta (mas acrescida de novos elementos) de um artigo publicado originalmente no Boletim da ABC2 de Dezembro de 2017 sob o título “Os três Big Bangs”.
1. Uma discussão científica sobre este ponto pode ser encontrada em George F. R. Ellis et al., “The physics of infinity”, Nature Physics, v. 14, n. 8, 2018.
2. Eugene P. Wigner, “The unreasonable effectiveness of mathematics in the natural sciences”, Communications on Pure and Applied Mathematics, v. 13, n. 1, 1960.
3. Nick Lane, The Vital Question, 2015.
4. Bhavesh H. Patel, Claudia Percivalle, Dougal J. Ritson, Colm D. Duffy, e John D. Sutherland, “Common origins of RNA, protein and lipid precursors in a cyanosulfidic protometabolism”, Nature Chemistry, v. 7, n. 4, 2015.
5. David J. Chalmers, The Conscious Mind: In Search of a Fundamental Theory, 1996.
6. John R. Searle, O mistério da consciência, 1998.
7. Albert Einstein, “Physics and Reality“, Journal of the Franklin Institute, março de 1936.
8. David Bentley Hart, The experience of God, 2013.
9. Ibidem.
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