Certa vez, assisti o bem-humorado neurocientista britânico Karl Friston abrir sua keynote lecture em um congresso internacional dizendo algo assim: “Ao proferir uma conferência, todo inglês costuma iniciar pedindo desculpas por alguma coisa. Mas, francamente, não me ocorre nada de que eu deva me desculpar. Então, talvez, eu deva me desculpar justamente por essa razão: por não conseguir imaginar nada de que deva me desculpar. Sendo assim, peço desculpas por isso”.
Bem, não é o meu caso aqui. Tenho sim que iniciar pedindo desculpas aos eventuais (e indulgentes) leitores pelo tema e tom desta coluna, que fogem ao meu costumeiro.
Antes, porém, de entrar na questão que quero tratar, deixe-me reportar duas ameaças que, no momento, pairam sobre as universidades públicas paulistas. Trata-se de questões que, neste momento particular, se referem a elas, mas que, em outros contextos e de diferentes maneiras, afetam ou podem vir a afetar as demais universidades públicas do país. Refiro-me em especial a universidades públicas pois, segundo parâmetros internacionais, é onde se encontra a nata da intelligentsia nacional e os setores mais produtivos em termos de pesquisa e inovação, mas — de interesse particular para esta coluna — onde, infelizmente, se manifesta de forma mais característica o tipo de atitude abusiva que quero abordar.
As duas ameaças em questão referem-se, primeiramente, ao projeto de lei PL 672/2024, em apreciação na Assembleia Legislativa de São Paulo, que visa introduzir a cobrança de mensalidades nas instituições de ensino superior públicas, contrariando frontalmente o princípio constitucional da gratuidade do ensino público. A segunda ameaça, que pode vir a associar-se à primeira, decorre da reforma tributária em curso no país, pela qual o ICMS, imposto que é a base atual do financiamento das universidades estaduais paulistas, será progressivamente extinto até 2033. Isso exigirá uma complexa repactuação sobre como esse financiamento será feito no novo regime tributário que está sendo implantado.
Em ambos os casos, fica evidente a importância de que as universidades contem com o apoio político da população para preservar o acesso gratuito ao ensino superior público de qualidade, bem como para garantir que essas instituições possam continuar na vanguarda da pesquisa científica e da inovação no país. No entanto, para merecer esse apoio, é fundamental que as universidades desenvolvam uma relação de maior empatia e respeito com a sociedade que a mantém, evitando hostilizar os valores espirituais e culturais mais caros a esta mesma população.
para merecer esse apoio, é fundamental que as universidades desenvolvam uma relação de maior empatia e respeito com a sociedade que a mantém, evitando hostilizar os valores espirituais e culturais mais caros a esta mesma população.
Navegando pelos mares da internet, deparei-me recentemente com uma pérola lexical. Refiro-me à definição da palavra laicismo apresentada como o nome de uma seita do século 16 que pretendia dar aos leigos o direito de governar a Igreja (Priberam). Para nós, cidadãos do século 21, habituados a associar o termo a questões relativas à separação entre Estado e religião, tal definição pode soar como um estranho anacronismo. Contudo, a meu ver, ela é de grande valia para caracterizarmos certa tendência bastante em voga atualmente em alguns círculos da academia brasileira: a de, a pretexto de defender uma suposta neutralidade laica, militar ferozmente contra as religiões em geral, e contra o teísmo cristão em particular. Contudo, convém entender bem o que está em foco aqui:
Há que distinguir laicidade de laicismo. O laicismo é uma forma agressiva, combativa de laicidade que procura eliminar, extirpar a religião da vida social. O laicismo se mostrou na história política de diversos países ocidentais como fortemente anticlerical e antirreligioso.¹
Embora não se possa generalizar, o que se observa com certa frequência em algumas instituições de ensino superior, especialmente nas públicas, é uma postura de sectarismo laicista que se traduz em um desrespeito sistemático às crenças religiosas e aos valores morais e espirituais de grande parte da população brasileira, incluindo os dos próprios estudantes.
Não se trata, vale frisar, de uma atitude disseminada em toda a academia, mas que acaba ganhando destaque justamente por conta das vozes mais estridentes, que podem acabar conferindo à universidade uma imagem que não lhe cabe inteiramente. Ainda assim, é preocupante quando docentes se valem de sua ascendência intelectual e autoridade acadêmica para, de forma abusiva, impor aos alunos visões de mundo que conflitam com os valores e crenças que esses estudantes trazem de suas famílias e comunidades. Travestido de “pensamento crítico”, o que ocorre muitas vezes é um verdadeiro bullying ideológico, em que o pluralismo de ideias dá lugar a um monismo doutrinador, que constrange e intimida aqueles que ousam divergir.
Travestido de “pensamento crítico”, o que ocorre muitas vezes é um verdadeiro bullying ideológico, em que o pluralismo de ideias dá lugar a um monismo doutrinador, que constrange e intimida aqueles que ousam divergir.
Ironicamente, tal postura ignora solenemente o fato de que as universidades atuais são imensamente devedoras das universidades surgidas na Idade Média, as quais possuíam vínculos umbilicais com o cristianismo. Com efeito, nomes icônicos do mundo acadêmico, como Oxford, Cambridge e Harvard, foram fundados como instituições cristãs, e assim se mantiveram por boa parte de sua história. No entanto, para espanto de alguns e escândalo de outros, esses fatos parecem ter sido completamente obliterados da memória de boa parte da intelligentsia universitária contemporânea.
O que se observa em muitos círculos acadêmicos é a proliferação de uma postura acrítica que assume como verdades indubitáveis certos dogmas cientificistas e naturalistas, promovendo assim uma espécie de metafísica ateísta que sequer é capaz de reconhecer seu próprio caráter metafísico. Este é um ponto crucial que merece toda a nossa atenção: a visão de mundo ateísta (ou agnóstica), tão prevalente nos meios universitários, é antes de tudo uma posição metafísica, não uma conclusão científica irrefutável. Todavia, este fato primário costuma ser solenemente ignorado por grande parte daqueles que se arvoram como paladinos da razão e do saber.
Entretanto, há uma contradição gritante nessa atitude laicista que se torna ainda mais pungente quando analisamos o contexto brasileiro. Afinal, vivemos em um país onde mais de 85% da população se declara cristã, de acordo com os últimos censos. Ora, é justamente essa população que, através de seus impostos, financia as universidades públicas, onde o laicismo encontra alguns de seus mais ferrenhos bastiões. Em outras palavras, de maneira absolutamente alienada da realidade social, considerável parte da academia antagoniza e menospreza os valores espirituais mais caros àqueles que a sustentam materialmente. E depois esses mesmos acadêmicos se espantam quando essa sociedade não se levanta para defendê-los ao se verem ameaçados pelos poderes políticos de plantão com cortes de verba. Convenhamos: não é muito difícil compreender a origem dessa apatia popular, não é mesmo?
A meu ver, estamos diante de um erro estratégico crasso por parte da academia. Ao adotar essa postura de arrogante superioridade moral e intelectual em relação ao grosso da sociedade, o mundo acadêmico cava um fosso entre si mesmo e a população, alienando-se do amplo apoio com que poderia contar. Com isso, a universidade acaba ficando refém de setores políticos corporativistas que, não raro, pouco ou nada representam os reais interesses e valores do povo. Tal situação, convém frisar, presta-se perfeitamente à demagogia e oportunismo de lideranças que não hesitam em fazer uso de discursos anti-intelectualistas como forma de angariar apoio junto às massas.
É claro que uma das funções precípuas da universidade é justamente promover a reflexão crítica, desconstruir dogmas e questionar o senso comum. Mas isso deve ser feito com o devido respeito às diferentes visões de mundo, num ambiente de liberdade e genuíno diálogo, e não pela imposição autoritária de um novo dogmatismo com viés antirreligioso.
Ao adotar essa postura de arrogância intelectual e desprezo pelos valores da maioria da população, boa parte da academia acaba por se alienar da sociedade que deveria servir. Com isso, perde o apoio e a compreensão do público para seu papel fundamental, fragilizando-se perante ameaças como as que vivemos atualmente.
Ao adotar essa postura de arrogância intelectual e desprezo pelos valores da maioria da população, boa parte da academia acaba por se alienar da sociedade que deveria servir.
Mais do que nunca, as universidades precisam reconquistar a confiança da sociedade, mostrando-se sensíveis a seus anseios e respeitosas para com suas crenças e valores. Só assim conseguirão o respaldo necessário para defender de forma efetiva suas próprias necessidades institucionais e a importância de seu trabalho para o país.
Permitam-me, caros leitores, reforçar meu ponto aqui como alguém que passou toda a sua vida adulta, até poucos anos atrás, atuando no meio acadêmico. Não resta dúvida de que o conhecimento científico e o pensamento crítico produzidos nas universidades constituem um patrimônio civilizacional que precisa ser valorizado e preservado. Entretanto, a ciência não é — nem nunca foi — a totalidade da experiência e da busca humana por sentido. A espiritualidade e a religiosidade são dimensões fundamentais de nossa espécie, e é um equívoco imaginar que possam simplesmente ser ignoradas ou descartadas.
Uma academia que se enxerga como detentora de uma suposta superioridade moral em função de sua adesão à metafísica naturalista é, no mínimo, intelectualmente desonesta. No limite, é também suicida, pois termina por minar sua própria base de sustentação social.
É importante ressaltar que as atitudes às quais este artigo se refere não são generalizadas na universidade, nem representam o ethos predominante em todos os departamentos. Urge, contudo, que a academia brasileira faça um sério esforço de autocrítica e revisão de suas posturas preconceituosas que ainda se manifestam em relação à fé e aos valores da imensa maioria da nossa população. Afinal, o laicismo sectário não apenas contradiz frontalmente a própria história da instituição universitária, como também erode cotidianamente a relação entre a universidade e a sociedade que a mantém. Uma academia encastelada em sua torre de marfim, alienada do povo que a cerca, está fadada, mais cedo ou mais tarde, a ter sua relevância contestada.
É hora de a universidade brasileira rever toda e qualquer postura de intolerância travestida de iluminismo. Chegou o momento de construir pontes, e não trincheiras, no relacionamento com a sociedade. Nossa academia precisa, enfim, dar testemunho dos verdadeiros valores universitários: o espírito de universalidade, a abertura ao diálogo, o respeito à diversidade e a busca comum da verdade. Que assim seja!
É hora de a universidade brasileira rever toda e qualquer postura de intolerância travestida de iluminismo. Chegou o momento de construir pontes, e não trincheiras, no relacionamento com a sociedade.
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1. Cesar Alberto Ranquetat Júnior, “Laicidade, laicismo e secularização: definindo e esclarecendo conceitos”, Tempo da Ciência, v. 30, 2008, p. 59-72.
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