Efemérides são ótimas quando o fato ou acontecimento em questão calha de coincidir com um assunto que queremos tratar. Não é exatamente este o caso aqui, pois não se trata de uma data específica, mas há também uma coincidência temporal digna de nota: este ano faz 50 anos que Thomas Nagel publicou seu famoso paper sobre a questão da consciência, What Is it Like to Be a Bat? [Como é ser um morcego?], de enorme repercussão no campo da filosofia da mente.¹
Além dos 50 anos do paper de Nagel, uma prazerosa motivação adicional para escrever sobre este assunto vem do excelente texto vencedor do 4º concurso de ensaios promovido pelo Projeto Radar ABC2 e publicado nesta mesma postagem.² Os leitores encontrarão nesse ensaio uma perspectiva profunda e abrangente sobre a questão da consciência e sua relação com a experiência religiosa. Minha intenção nesta coluna é mais modesta: partirei do ponto de vista apresentado por Nagel em seu trabalho para pôr em evidência uma ilação que julgo fundamental.
Uma das asserções centrais de Nagel é que “fundamentalmente, um organismo tem estados mentais conscientes se, e somente se, houver algo que seja como é ser esse organismo — algo que seja como [se é] para o organismo”.³ Ele acentua, assim, o caráter basilarmente experiencial e essencialmente subjetivo do que significa ser consciente de algo. Se está complicado, talvez Caetano Veloso possa ajudar: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Mas vamos entender isso melhor.
Ele acentua, assim, o caráter basilarmente experiencial e essencialmente subjetivo do que significa ser consciente de algo. Se está complicado, talvez Caetano Veloso possa ajudar: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.
Em seu influente artigo, Nagel apresenta um argumento convincente (para mim) sobre a natureza subjetiva da consciência. Ele sustenta que a experiência consciente, ou a perspectiva de primeira pessoa, não pode ser plenamente capturada ou explicada a partir de uma visão puramente objetiva e externa. Ele defende que há aspectos qualitativos e fenomenológicos da experiência consciente que são inacessíveis à descrição puramente física ou comportamental de terceira pessoa, correntemente empregada nas ciências.
Para ilustrar seu ponto, Nagel utiliza o exemplo de um morcego.⁴ Ele argumenta que, mesmo que um ser humano pudesse obter todas as informações objetivas possíveis sobre a fisiologia, o comportamento e o ambiente de um morcego, ainda assim não seria capaz de realmente saber como é a experiência subjetiva de ser um morcego — nem mesmo o Batman saberia, acrescento eu.⁵
A perspectiva de primeira pessoa de um morcego, com sua percepção sensorial única baseada em ecolocalização e sua experiência consciente distinta, é fundamentalmente inacessível a um observador externo. Nagel sugere que a experiência subjetiva de ser um morcego é essencialmente diferente da experiência humana, e que não há como um ser humano realmente compreender essa perspectiva de primeira pessoa, a menos que possa, de fato, se tornar um morcego. Ainda assim, segundo ele, “mesmo que eu pudesse, gradativamente, ser transformado num morcego, nada na minha constituição atual me permite imaginar como seriam as experiências de um tal estágio futuro de mim mesmo assim metamorfoseado”.⁶
Subjacente a toda a essa discussão sobre o enigma da consciência estão os insondáveis qualia. Sumariamente, podemos dizer que os qualia, plural da expressão latina quale, designam a dimensão qualitativa de uma experiência subjetiva. Contudo, uma definição assim sucinta não faz jus à profundidade do conceito. Recorro a David Bentley Hart para uma descrição mais elaborada dessa dimensão qualitativa da experiência privada de se perceber e perceber o mundo. Para Bentley Hart, quale é
este sentimento irredutivelmente subjetivo de “como é” experimentar algo, o aspecto “fenomenal” do conhecimento, a impressão privada que se tem de uma realidade sensível (uma cor, um tom musical, uma fragrância, uma pontada de dor etc.), ou de uma realidade mais impalpável, mas ainda perceptível (uma atmosfera emocional, uma memória, uma fantasia, um efeito estético, um humor pessoal). Qualia é o que define e diferencia nossas experiências, o que torna possível distinguir o azul do vermelho, do amarelo ou do verde como propriedades sensíveis, ou distinguir um som de uma visão, é o que determina nossos gostos e desgostos, prazeres e desagrados, o que confere às coisas do mundo este ou aquele caráter para nós.⁷
Os imperscrutáveis qualia são o cerne de nossa vida mental, a dimensão mais pura e inalienável da consciência pessoal, sem os quais não haveria experiência privada nem identidade própria. Sem eles, a consciência subjetiva seria um construto vazio. O mistério de sua natureza tem desafiado os maiores pensadores ao longo dos séculos, não obstante nas últimas décadas tenha sido abordado de diversos ângulos, da física quântica à filosofia da mente, da neurociência computacional à neurologia clínica. Alguns, como o filósofo Daniel Dennett, falecido recentemente, ousaram negar sua existência, em uma tentativa de resolver o (ou evadir-se do) impasse insuperável de decifrar os qualia.
Diante deste enigma capital insolúvel, muitos acabaram por convergir para a admissão do que se convencionou chamar de “hiato explanatório” (explanatory gap, na linguagem do filósofo Joseph Levine). Essencialmente, este hiato pode ser caracterizado pela total ausência de explicação (científica ou filosófica) para a forma como impulsos físicos externos capturados pelos nossos sistemas sensoriais ou eventos fisiológicos que ocorrem em nosso organismo são “transduzidos” no caráter qualitativo subjetivo que experienciamos. Em outras palavras, de onde vem a vermelhidão do vermelho ou verdeza do verde? Quem disser que vem do comprimento de onda da luz em questão não entendeu o problema. É certo que a cor da luz que enxergamos depende do comprimento de onda, mas apenas este dado quantitativo não explica o aspecto qualitativo experienciado subjetivamente como vermelho ou verde.
Concordo com Nagel quando ele afirma que o fisicalismo, a visão de que os estados mentais são estados físicos do corpo, não pode explicar totalmente a experiência consciente subjetiva. Ao reduzir a experiência a termos físicos, o fisicalismo perde o aspecto subjetivo essencial. Em um caso típico de bebê jogado fora com a água do banho, o reducionismo “resolve” a questão ignorando o problema central apontado acima e oferecendo apenas paliativos enganosos.
O ponto de vista de Francis Crick,⁸ por exemplo, era:
A hipótese espantosa (astonishing hypothesis) é que “você”, suas alegrias e suas tristezas, suas memórias e suas ambições, seu senso de identidade e livre arbítrio, não são mais do que o comportamento de uma vasta coleção de células nervosas e suas moléculas associadas. Como a Alice de Lewis Carroll poderia ter dito: “Você não é nada além de um pacote de neurônios”.⁹
Penso que, mesmo que venhamos a desvendar todos os intrincados meandros do funcionamento cerebral, mapeando cada rede neural e suas infindáveis conexões sinápticas, mesmo que entendamos todos os detalhes intrincados da dinâmica neuronal e da neuroquímica cerebral, permanecerá sempre uma lacuna intransponível que nos impedirá de explicar como tal portento neurofisiológico pode originar o fenômeno subjetivo da experiência consciente. Por mais exaustivo que seja nosso conhecimento dos processos neurais, ele jamais nos permitirá avançar um passo sequer na compreensão da fonte dos aspectos qualitativos da experiência subjetiva. E por que não? Aqui começo a me distanciar de Nagel.
Entendo que este hiato explanatório não representa meramente um impasse epistemológico, mas evidencia uma profunda questão de caráter ontológico, apontando para um aspecto singular e transcendente da realidade em que estamos imersos. Nós vivemos no mundo e o mundo vive em nós, e isso encerra um grande mistério. Esta constatação, porém, não é mais do que um vestígio de algo bem maior, já ideado por pensadores de outros tempos:
As tradições contemplativas e filosóficas, orientais e ocidentais, insistem nisso: que a origem e fundamento da unidade da mente é a realidade transcendente da unidade enquanto tal, a simplicidade de Deus, fundamento único da consciência e do ser. Para Plotino, a unicidade do nous, o ápice intelectivo do self, é uma participação no Uno, a origem divina de todas as coisas e fundamento da abertura da mente e do mundo um para o outro.¹⁰
mesmo que entendamos todos os detalhes intrincados da dinâmica neuronal e da neuroquímica cerebral, permanecerá sempre uma lacuna intransponível que nos impedirá de explicar como tal portento neurofisiológico pode originar o fenômeno subjetivo da experiência consciente.
Permitam-me enfatizar: “o fundamento da abertura da mente e do mundo um para o outro é uma participação no Uno”. Para citar Bentley Hart mais uma vez,
Deus não é apenas a realidade última que o intelecto e a vontade procuram, mas é também a realidade primordial com a qual todos estamos sempre envolvidos em todos os momentos de nossa existência e consciência, e fora da qual não temos experiência de absolutamente nada.¹¹
Ao trazer à baila a questão da consciência fenomenal, minha intenção não foi elaborar profundamente sobre ela — mesmo porque me falta fôlego intelectual para tanto —, mas antes pôr em evidência esta singularidade aspectual de nossa existência, alvo de acalorados debates e disputas nos campos científico e filosófico. Cabe aqui, para mim, o reconhecimento: não obstante muitos aspectos de nossa existência sejam passíveis de estudo e entendimento por meio das ciências naturais, a natureza, decididamente, não é um sistema causalmente fechado. Há aspectos fundamentais associados à consciência fenomenal que abrem fendas definitivas em qualquer tentativa de se estabelecer uma narrativa naturalista monolítica sobre a realidade em que estamos imersos. Por essas mesmas fendas, até o mais obstinado cético pode vislumbrar lampejos do Absoluto.
Há aspectos fundamentais associados à consciência fenomenal que abrem fendas definitivas em qualquer tentativa de se estabelecer uma narrativa naturalista monolítica sobre a realidade em que estamos imersos.
Os conteúdos das publicações da revista digital Unus Mundus são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a visão da Academia ABC². |
1. Thomas Nagel, “What Is It Like to Be a Bat?“, The Philosophical Review, v. 83, n. 4 (Oct., 1974), pp. 435-450. O paper pode ser acessado aqui.
2. João Ricardo Bion de Aquino Gomes, “Filosofia da consciência e conversão: possibilidades e limites de uma autoapropriação consciente da experiência religiosa”, Unus Mundus, v. 3, 2024. Clique aqui para acessar.
3. Nagel, 1974, p. 436. Minha tradução aqui pode não ser tão precisa. Segue o texto original: “But fundamentally an organism has conscious mental states if and only if there is something that it is like to be that organism — something it is like for the organism.” Detalhe: convém não perder de vista o caráter realista dessa afirmação.
4. Para efeito de argumentação, Nagel poderia ter se referido a qualquer outra espécie. Consta, porém, que, tendo vivido em uma casa que era frequentemente visitada por morcegos, veio-lhe a ideia de usar esses mamíferos como exemplo pelo uso que fazem de um sistema sensorial de ecolocalização para navegar e perceber objetos semelhante ao sonar, ou seja, um sistema de percepção extremamente diferente daqueles que os humanos e outros seres vivos são dotados.
5. Diferentemente de outros super-heróis, Batman não tem superpoderes.
6. Ibidem, p. 439.
7. David Bentley Hart, The experience of God, 2013, pp. 172-173.
8. Biólogo e neurocientista ganhador do Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1962 juntamente com James Watson e Maurice Wilkins pela descoberta da estrutura molecular do DNA.
9. Francis Crick, The Astonishing Hypothesis: The Scientific Search for the Soul, 1995, p. 3.
10. Hart, 2013, p. 228.
11. Ibidem, p.10.
Junte-se à comunidade da revista Unus Mundus!